Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Se alguma coisa nasceu para voar foi o teu coração

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“Voa coração, ou então…Arde!”
Eugênio de Andrade

 Querida A.

Abril começa aos meus olhos como uma pintura de Monet… É tanto ouro e azul nessa manhã desavisada de pássaros… parece até que todos vieram de uma vez só… Os pruuus e gruus e euquetevi emendam em uma melodia barulhenta que me arranca risos. Parece discussão de criança… um querendo cantar mais alto que o outro

Algum dos meninos da vizinhança perdeu uma pipa no fio da rede elétrica… está ali, o pobre esqueleto a voar de um lado para o outro seguindo a brisa mansa.

Abril chega ameno aqui… As folhas do pé de algodão forram o lado esquerdo do quintal. Adoro o cheiro do mato se decompondo… enquanto aspiro o aroma que me carrega para a infância, o sabiá laranjeira e o bem-te-vi – corajosos, por sinal – se arriscam a roubar a ração do prato dos cães… Cada voo que dão por aqui é quase um perder de penas.

Por falar em pena, conheci um indiozinho anteontem… Ele tinha os olhos e cabelos pretinhos… Um pequeno sábio que me trouxe uma pena de presente. Colorida daria cor aos voos – para que eu voasse bonito, ele disse – ao mesmo tempo, leve… Para que as coisas não pesassem tanto e então, pensei em você e de coisas que nascem para voar…

Se alguma coisa nasceu para voar foi o seu coração.

Ele voa dentro da palavra bonita que você descreve e no mundo encantado que você me apresentou quando te abracei.

Meus pensamentos voltam para você e avanço em direção ao teu lugar… Quase visualizo as estradinhas de Minas entre as serras que minha memória busca da infância… Recordo de suas viagens e de como eu voava contigo e de como você chegou até a mim.

Ainda ontem ou anteontem foi seu dia… A memória anda em conflitos com datas e já desisti de me deixar levar por elas. Hoje, lembro mais do antigamente, ou de dias atrás. Já viu como o calendário é desavisado de presença? As redes notificam, as pessoas se lembram e vira tudo ” dia do amigo, dia da saudade, dia disso, dia daquilo”…

Eu gosto de dizer feliz todo dia! E que as coisas boas voem sempre até você. E é esse meu presente de amor… Um voo onde te dedico a leveza do carinho.

Beijo,
Mariana Gouveia
Projeto Missivas de Abril
Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Das palavras das cartas

Porque a morte pulsa nas veias da existência e ata minha vida ao bater dos segundos?


“Sei dos crepúsculos, das manhãs, das tardes,

Medi minha vida em colherinhas de café”

Lunna Guedes

 

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Querida M,

Essa carta era para ter sido escrita ainda em Dezembro, mas os dias ganharam o simbolismo dos relógios e a vida tão ligeira quanto eles se embrenhou dentro das horas e quando dei por mim, já era ano novo, apesar de trazer o gosto do ontem em mim.
Acho que já disse que sou meio avessa a essa coisa de datas – que a maioria usa para mascarar de fato o que se devia fazer todo dia – e assim dou ênfase aos dias que são meus.
Dessas datas detesto os fogos  – apesar dos meus filhos caninos adorarem eles – e não sei porque comemorar qualquer coisa com barulhos a pipocar no céu. Ainda aqui escuto alguns nos arredores. É verdade que Lolla e Yoshi saem correndo para o quintal ao menor sinal chiado de que vai haver o pipoco. Pulam em direção ao alto e latem, como se fosse brincadeira.
A vida aqui no meu quintal renasce nesse primeiro dia do ano… os casulos enfeitam os lugares mais estranhos como se fosse normal gerar vida em um padrão de energia elétrica… mas como aqui nada é normal, acho luxo que a vida se estabeleça onde e quando quer. Mas, assim como viver é lindo, morrer também deveria ser. Ou talvez seja. A morte esteve ligada à mim de diversas maneiras nesse ano que passou. Perdi pessoas incríveis e sei que você também. Porém, como se fosse um peso compensador da saudade ganhei pessoinhas lindas na minha vida e você também…
Vejo risos se desenhando enquanto a família aumenta e se for fazer um balanço esse é o grande segredo da vida. Alegrarmos com o que vem e entristecermos com o que vai.
Aqui, além dos casulos e asas se abrindo no meu lugar, as flores dão sua imensa alegria de existirem…Abrem-se os cravos vindos como sementes do outro lado do oceano… As minhas rosinhas pequenas se projetaram em cachos que mais parece um buquê… também a dama da noite já antecede um botão dentro da expectativa de flor.
Eu presencio milagres todos os dias e é dentro deles que busco a palavra esperança e com essa esperança vivifico a vida.
Agradeço ao Universo por ele me proporcionar o encantamento diante dos fatos e até mesmo a revolta diante de outros… mas a vida é esse constante modificar e dentro disso devemos nos orientar pela presença divina que nos habita.
Sou grata por você em minha vida e mais uma vez meu carinho vai até você em forma de palavras.
Que os dias sejam de renascimentos em sua vida e que em cada  um deles traga a magia do encanto.

Beijos

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Seu perfume são acentos no livro de seu corpo

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Agora que sinto amor
Tenho interesse no que cheira.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.
São coisas que se sabem por fora.
Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça.
Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.
Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver.

Alberto Caeiro, in “O Pastor Amoroso”
Heterónimo de Fernando Pessoa

Bambina mia,

A solidão abraça as paredes da casa…muitos braços para alcançar os vãos todos
a luz da vidraça enfraquecida pelo gesto da cortina…
O dia tem sua rotina quebrada entre o chuvisco, chuva forte, um sol ardente de meia hora e não fosse pelas histórias que a TV mostra eu nem me tocaria que é Natal. A casa responde em eco minhas perguntas… repete minhas frases lidas em voz alta.
Na casa vizinha o assado começa a ser preparado – posso sentir o aroma dos temperos todos – e a canção de uma dupla sertaneja de mulheres e que está em primeiro lugar nas paradas é repetida ao extremo e vira um mantra insuportável aos meus ouvidos.

As luzes da casa do vizinho lateral brilham em um pisca-pisca incessante. O cheiro do outono mesmo sendo verão vindo do bosque ao lado invade a manhã. O céu é uma aquarela de cores e seus matizes diversos. Lembro-me de um poema e os lilases outonais.
Fico a admirar como os tons mudam rapidamente. O que era agora a pouco já não é mais. Elevo uma prece ao universo e sua magnitude de beleza. Nos fios, os pássaros em seu estado de asas. Parece uma brincadeira o equilíbrio todo.

Anteontem conheci um cão… me seguiu até o ponto de ônibus. Não parecia perdido, nem faminto… apenas queria companhia, eu acho. E hoje ele apareceu no meu portão e parece que me reconhece. Acompanha o menino que entrega pão e que nem é mais menino. Mas não é dele – apenas o segue em alguns dias como se quisesse companhia – e assim vai vivendo livre dentro das ruas do bairro. Acho que vai voltar, já que agora sabe onde moro.

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Assim, começo meu dia na singeleza dos instantes.
Ouço os trovões todos e em seguida a tempestade anunciada chega invadindo esse domingo – lembro-me da promessa de ontem e realmente você esteve presente o dia todo… nas trovoadas, nos pingos da chuva, na leitura dos livros que editou e no cheiro que invade meu lugar e penso em tua rosca e teus aromas de infância – abençoo a chuva e seu estado de graça… Às vezes preciso de vento e ele chega rompendo as cortinas todas…

Algumas palavras traduzem os sons desse dia onde as canções se repetem nas casas vizinhas… as mesmas entre gritos estridentes de alguém que tenta cantar igual a dupla de nome estranho… Desse dia fica o cheiro de minha mãe como se fossem acentos dentro de minha memória. O cabelo preso no alto da cabeça, em tranças, o vestido godê num azul suave – quase céu – era assim que ela se vestia para o dia. Nos outros dias, ela era a índia solta, liberta, descalça e faminta de natureza. Comia de cócoras com as mãos em montinhos que distribuía entre os sete filhos, ali, alinhados em sua volta… Lia os livros – os poucos que tínhamos – a maioria puídos, alguns sem algumas folhas, mas ali em cada página ela criava outra história dentro da história, as fotonovelas que em sua maioria eram de artistas italianos – como tu – cuja história de uma agricultora que perdeu a família e vendia melancia na beira de uma estrada e no dia de Natal conhece o amor de sua vida nunca me saiu da cabeça. Posso descrever cada frase, cada foto… inclusive, o pedaço de melancia cortado quadrado e não em fatias, como costumamos fazer.
A chuva não cessa… faz o dia ficar lento em seu estado de ser. A vida germina no meu quintal.
Penso em proteger os casulos, mas deixo a natureza seguir seu curso e logo teremos asas a bailar por aqui.
Serei mãe de mais seres que voam e é dentro desse aroma de terra molhada que vibro a vida que se refaz em cada canto desse meu lugar, afinal o dia é mesmo para comemorar um nascimento.

Que assim seja!

Bacio…
Mariana

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Então é Natal!

“Jogue fora as luzes, as definições e fale do que você vê no escuro”

Wallace Stevens – “The man the blue guitar”


Querida bambina!

É Natal e daqui da varanda vejo apenas as luzes do pisca-pisca das luzinhas na casa do vizinho… chove aqui e teve trovão mais cedo – lembrei de você – e foi justo na hora que seu vídeo arrancou gargalhadas aqui.
O cheiro de algum assado nas redondezas me faz pensar que é Natal. Essa data me remete à infância e como você mesmo diz sobre o branco de teus dezembros… o que me recordo é o cheiro de mata, de fogueira acesa e das histórias que meu pai contava.
Hoje sei que ele enfeitava de lindeza nossas vidas com sua imaginação fértil. Essa data é apenas simbólica… já não tem mais o mesmo encanto ou fui eu quem mudei.
Acho que a data perdeu o propósito mas como toda magia deve ser cultivada que seja feita a vontade de todos.
Para mim, o mais importante é o dia-a-dia. É nele que me prendo e me guardo.
E através de você eu desejo que todos os dias para todo mundo seja vivido como se fosse Natal!

Bacio

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Carta à minha bambina com aroma de chuva

lunna


Escreve sempre que precisares, faz
uma lista de compras, uma lista de desejos,
anota todos os pedidos que deixaste
em poemas atrasados.
Escreve sempre que precisares
de mais um postal com selo e carimbo.
Escreve sempre que riscares
na tua agenda mais uma morada.

Margarida Ferra

Bambina mia,


Antes de te escrever eu saio para brincar com o céu. Pés descalços e braços abertos ao vento. Aqui o céu amanheceu lunnático e chamava seu nome a cada estrondo. As manhãs no meu quintal tem amanhecido com gosto de chuva a fazer aromas na minha cozinha… brindei sua vida com latte com café e o sabor inundou a manhã.
Refiz um roteiro com o mapa de tudo que vivemos e no contar das horas percebi que não me lembro sem você.
Parece que sempre esteve aqui. Na parte encantadora da minha vida  desde sempre com sabores, amores e presença.
Você está nas minhas histórias – e nos momentos de realizar os sonhos tem suas mãos nas costuras das linhas coloridas em realidade pura – e faz com que eu seja uma personagem da sua.
E quando vem a chuva ou seu anúncio de tempestade eu sinto a sensação do teu toque e seu nome entranhado nos trovões que acorda a natureza do meu lugar.
O dia, hoje, aconteceu fora das rotinas… Mas ainda assim, dentro do emaranhado da vida teci para você preces em forma de poemas… Que cada momento seu seja mágico e que essa magia faça você sentir minha presença mesmo longe.

Ti voglio benne!

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Caindo de si mesmo em si mesmo

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“Quando olhei no espelho,
você era um abraço dentro de mim.
Ver a gente foi como flagrar monges budistas brincando…
um quase impossível fugir das repetições
de palavras calmas.
Palavras são beijos alegres, amor.
Um carinho fugiu um pouquinho e foi brincar no quintal
cheio de meninos esperando para algazarra. As donas de casa
olharam o barulho pela janela…
só conferindo se tinha filho seu.
Sim… e com asas”.

                                                                                                                                                 Aden Leonardo

Menina Paraíso,

Passei o dia inteiro a desenhar rotas de fuga… pela janela, pelos muros, escadas ou pelo quintal enviesado onde o espaço é pequeno. Descobri que não adiantaria… não conseguiria fugir de mim mesma. Acabo caindo dentro de mim mesma…
Busquei presença em olhos perdidos no céu… alguém traduzia idiomas que não entendi e juro que preferi mil vezes meu diálogo estranho com você – of course – aliás, prefiro sempre os diálogos com você. Ao mesmo tempo que te dou bronca, a bronca vem para mim. Você tem esse jeito de meninaquequerabraçoecomissodáabraçodevolta… tão bom!
O dia, às vezes, começa estranho… Havia frases soltas de autores estranhos que eu nunca havia lido…e a moça do tempo mais uma vez errou a previsão.
Amanheceu amarelas as manhãs de Outubro. Choveu poucas vezes durante a manhã, como se o tempo soubesse que minha sombrinha comprada nos chineses não protege ninguém da chuva. Pelo contrário, faz com que molhamos mais.
O sol inspira a cor sobre os telhados das casas … Sentei no canto escuro do muro.
Ali, escrevi mil vezes poemas pensados em noite de estrelas – quando o pássaro em seu voo noturno era estátua da sombra –  e a moça do tempo vai errar outra vez a previsão de amanhã. É outra estação dentro de mim.
Escrevi em casulos o dialeto das asas. Era voo para tudo quanto é canto.
Existiam várias estações dentro de uma. Deve ser o efeito borboleta a desenhar erupções ao toque. Era eu caindo no abismo de mim. Como pode as coisas mudar de um dia para o outro? Como pode o que ontem ter tanta importância e hoje já nem fazer sentido? Apesar dos pontos de interrogações, não são perguntas. É quase uma afirmação essa mudança dos dias, das coisas.
Hoje não vi o pássaro colorido. Nem aquele que bem me vê todo dia. Hoje, vi a árvore do vizinho, que já está secando cheia de aves. Todas em seu canto agudo a desenhar minha rotina.
Há esse contrair da pele dentro do azul. Azul também é o céu e sua gentileza de cores dentro da hora… A luz a azular os galhos entre as falas das aves. É um marulhar de vento azul no quintal onde os peixes voam feito pássaros de qualquer cor – é que vejo peixe em tudo quanto é canto –  a solidão tem esse retrato pintado de azul desbotado na parede com estuque descascado. Fiz isso ainda menina – me lembro – chovia e eu não podia correr lá fora com as borboletas. Minha mãe não permitia dançar na chuva – nem nada era possível para uma menina que teve dificuldades no parto e conversava com os bichos – aliás, não permitia quase nada que não estivesse sob o olhar atento do meu irmão. Como raramente ele abria a boca – a não ser para contestar minhas loucuras << de tocar os bichos >> eu falava com os grilos, os animais e dizia que eu era só. Que sofria de solidão. Ao que minha mãe respondia que a solidão era uma parede sem quadros, retratos, cortinas ou qualquer coisa que a enfeitasse e que eu era uma parede cheinha de fotos de irmãos e enumerava um a um, lado a lado antes da janela com cortina feita de retalhos coloridos que ela fazia. A janela era eu – ela dizia – trazia sol na parede toda. E lá ia eu em dia de chuva a descascar o estuque e depois pintar de companhia a minha parede vazia.
Você é essa cor misturada de vida junto com a minha e que eu queria moldar e te direcionar para o caminho livre da liberdade. Você é esse estuque que sustenta minha cor azul. Eu digo azul, mas pode ser qualquer cor. Pode ser o verde que você avista quando o trem apita aí da sua janela. Pode ser o vermelho da sua blusa quentinha de ginástica e pode ser a cor da sua meia listrada e suas cores em movimentos. Não. Péra. A meia tinha Barney e seu destino infantil de desenho animado. Pode ser qualquer cor desse cerrado denso que corta as montanhas do seu lugar.
Montanha acima, serra abaixo…estradinha de Minas em direção ao Paraíso: Tu.

Beijo meu
Mariana Gouveia

Projeto ‘missivas
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Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

navega-se sem mar, vela ou navio

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“Navegar é preciso; viver não é preciso”

Fernando Pessoa.

Querida Li,

Daqui, de tão longe e diante da janela que dá para o pé de manga carregado eu aspiro seus instantes, que tão gentilmente me cede.
Dou lugar ao carinho pelo simples fato de lembrar seu nome. Devo-te essa carta e esse abraço em forma de palavras. Devo-te diante de tantos momentos lindos que me desenhou dentro dos anos em que nos acolhemos uma na outra, mesmo tão distantes.
Li, navego pelo seu lugar olhando as imagens que me oferece e me encanto pelo riso de esperança do teu menino. Cada vez que o vejo o abençoo em nome da vida. A musicalidade do nome me chega à sintonia e aspiro suas montanhas em unidade com o Universo. Pedalo contigo rumo ao interior do seu lugar e sou levada pela sua mão serra acima e me divirto quando seu menino pássaro dá o amparo à vida.
Caibo inteira dentro desse seu céu e sou levada pela delicadeza do vento. Nesse momento sou tragada como se navegasse sem vela, mar ou navio. Crio asas e te chamo na intensidade da amizade.
Falamos tão pouco, mas mesmo em tão poucas vezes, nem precisamos dizer tanto. Uma sabe da outra e isso basta.
Não conheço o mar de perto, Li… Mas ele me encanta de tal maneira que todas as noites eu durmo além-mar. Navego sem cruzá-lo e ao mesmo tempo direciono meu leme onde o encanto me pega e nesse momento, Li eu navego sem mar, sem vela e navio… Eu navego de asas.

Beijos,

Mariana

Projeto ‘missivas
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Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

não só de café vivem os loucos.

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– “Estás doido? Todo o teu mundo está a ruir, a partir-se, e tu estás à procura de uma palavra?” Depois, percebi que estava certo – é necessário insistir na fiabilidade das palavras. O mundo parecia um erro terrível, mas se eu encontrasse a palavra certa, então encontraria uma coisa certa num mundo que tem sido errado. 

David Grossman

Querida Luci.

Depois que te abracei de tão perto que senti seu coração, que fluiu ao som do meu, nunca mais nos falamos – mas te acompanhei – e hoje resolvi escrever as vontades dentro de palavras que a gente come como se fosse morrer de inanição.
Acompanhei seus passos pelas asas de seu pássaro, pelo caminho que você cruza com seus cães e até os que não são seus.
Vi tua “rebeldia” através do grito e te vi sorrindo dentro do olho de tua menina.
Luci, as coisas aqui estão de ponta cabeça…e a gente fica tentando se manter em pé e sorve a loucura toda manhã. Nem só de café vivem os loucos…eles vivem de rompantes na imaginação…
O sol, escaldante me faz desejar que o café venha gelado e a menina que serve o líquido que amo diz: tome sorvete!
Sorvete são para momentos doces e confesso que ultimamente de doce a vida não apresenta grande coisa.
Estou sempre onde não queria estar e voando através do oceano enquanto sempre canto o parabéns quando respiro, pah, outras aragens.
Os loucos não vivem só de café, Luci…Vivem de poesia e bebem todos os dias a palavra dentro da loucura e se você soubesse o que anda a acontecer por aqui, beberia o seu tão famoso “ fora temer” – me recuso a escrever essa frase dentro dos padrões normais das regras ortográficas, Luci – mas eu brigo por causas menores. De quem já sofre tanto preconceito e perdeu tanto dentro dessa mudança absurda que me atrevo apenas a acreditar que tudo isso vai passar.
Descobri nesses dias que a saúde é o bem mais precioso e se perdemos isso somos pobres, mas tão pobres que nem ajudar alguém, podemos. Por isso, Luci, coma…não se deixe abater pelo processo que está por aí…precisamos de guerreiras como você, que embora suba degrau por degrau, faz uma diferença que não tem noção.
O café me acorda, às vezes, e em muitos momentos eu fico a noite toda dentro das horas e além do café, sorvo a delicadeza que o céu me oferece.
Ainda estou a marcar os momentos, Luci e assim que for possível, te trago para te ver rir entre as vielas do lado antigo da minha cidade e ver meu Chiquinho chiar nas madrugadas.
Ainda vejo você entrando dentro do meu abraço, sorrindo e a vida me dando o prazer de saber que já te abracei em outros tempos.
Abracei sim!

Beijos

Mariana

Projeto ‘missivas
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Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

a flor escura da realidade

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Pai,


A noite arde como se fosse dia e a flor da realidade está exposta nos noticiários e nas redes sociais – sorte sua que nem sabe o que é isso e sorte minha que posso usar isso para falar com você dessa maneira adversa – de uma maneira estranha que até eu mesma estranho…se bem que estranhar, não é muito meu jeito.
Eu decoro a noite para te contar estrelas. Elas aqui tem uma dimensão tão pequena que parecem pontinhos brilhando no céu. O calor, pai, é muito mais do que o aquecer dos seus braços…digo isso, porque tudo que me lembro de quente – e aconchegante – era seus braços. O calor aqui, parece mesmo a fogueira de Junho nas festas de Santos.
Às vezes, eu queria rodar o peão do tempo e voltar atrás… nem sei se mudaria tudo. Acho que não…se mudasse, como saberia que nesse mês eu posso plantar coentro e os temperos todos, a couve e a abóbora e que os feijões dão as melhores vagens plantados na lua cheia?
O tempo é esse líquido que escorre das mãos e que parece cíclico.

Pai, vejo as fotos antigas desbotadas e penso o quanto seria bom se eu já entendesse de fotografia nessa época… Poderíamos ter em mãos registros incríveis de momentos que só o coração registrou…e quer saber? É a melhor imagem para se guardar.
As manchetes falam da política – arghh! – de futebol, de novela e isso me leva ao rádio que era sua paixão – e que depois, se tornou a minha – da novela da época em que minha mãe e o senhor largavam tudo para saber do destino do Alberto Limonta e o seu Direito de nascer.
Eu ficava encantada por aquele aparelho, em destaque, na parte especial da sala e olha que hoje eu reclamo de sintonizar…
A realidade bate a porta…colhe instantes e cobra da gente dívida que nem sabemos ter.
Mas de tudo isso que guardo, levo, carrego e amo é a fé que você desenhou em meus dias.
Essa, me faz forte a cada dia e também faz eu reverenciar o vento, o rio, a chuva e até mesmo o calor. Tudo provém do mesmo Universo e nele somos apenas um grãozinho de areia.

Um dia, você me disse sobre casa sem histórias…aquelas que acabam desabando com o tempo e hoje, pai me vejo tão cheia de suas histórias, que mesmo se desabar terei os alicerces plenos de vida ali, entre minha história e a sua. Entre a sua e a de meus irmãos…entre as notícias além de tudo que vivemos e a esperança. É essa a palavra que me move e que mesmo tão longe me envolve em seu abraço.

Benção, pai.

beijo,
Mariana

Projeto ‘missivas
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Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

O silêncio aumentou tanto que o relógio parou

“Mil anos que escrevas”, disse, “não saberás a quem”

  Maria Gabriela Llansol

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Querida Ana,

Eu já li em algum lugar o quanto é difícil escrever em primeira pessoa. Falar até eu falo – Eu falo comigo mesma e quase que o tempo todo e no fim, vem a ser você – mas escrever é mais complicado. Por isso, terei cuidado em escrever para mim e falo com você.
Escrevo essa carta na solidão do agora. Volto aos corredores quando eu não estava contigo. As paredes vazias de cores.
Você distrai nas palavras antigas. Escreve poemas na mente enquanto as pessoas de branco, anônimas, quase, passam e desviam o olhar. Não querem ver a solidão dos seus olhos. Abrigam-se em seus jalecos como se procurassem no bolso a fórmula de ser invisíveis.
Eu não estava ai e nem sabia que os corredores nos ligavam e que a palavra cura viria em minha boca quando você nem sabia das promessas de beijo que  dedicaríamos através dos séculos.
Hoje, atravessamos juntas os corredores do tempo. Transpiramos emoções.
Hoje, o relógio para dentro da solidão desse silêncio. Aqui também as pessoas desviam o olhar enquanto medem a pressão, temperatura e procuram a veia melhor para o procedimento. Já vivi isso antes e parece que tudo está se repetindo – os mesmos gestos, os mesmos olhares e a mesma resignação de antes – e ainda assim é tudo diferente.
A sala está vazia e a moça que está sempre por aqui antes de mim não veio. Ela melhora o ambiente com o lenço vermelho que eu sempre brinco que ela roubou de mim. Contou-me coisas da vida dela. Meu deu risos de confiança e durante um momento difícil segurou minha mão e cantou canções para eu dormir.
No fim de semana as coisas acontecem devagar. Em algum lugar, toca uma canção do momento. Um celular dá o bip de alguma notificação e eu conto os minutos. Queria que tudo fosse rápido e passo a vigiar o relógio diminuindo o tempo que falta.
Não queria falar sobre isso, nem com você nem com ninguém…mas sinto que te tranquilizo quando repito que a esperança fica aqui do lado da porta e sai comigo de mãos dadas quando tudo isso acaba e daí, durante a semana me faz companhia todos os dias, exceto quando atravessa o oceano e vai até você.
A moça de branco repete os rituais e parece indiferente ao meu olhar. Volta os olhos para suas anotações em uma ficha que tem meu nome e um código que não define o que tenho. Confesso que isso, todas as vezes, me lembra Clarice e seu poema : “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome” e como eu não sei o nome posso dar o nome que eu quiser.
Agora, preciso ir…a esperança, às vezes, é impaciente e serelepe igual criança.
A vida é esse bem precioso que se torna muito melhor quando temos a certeza da presença de alguém que amamos, mesmo tão longe.

Beijo,

Mariana

Projeto Missivas
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