Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Cartas para abril – uma história que se repete:

eu e sua rua

Ana,

Nessa noite densa e estrelada eu te escrevo… para te contar que passei na sua rua ontem e a cerca de madeira está cheia de flores da trepadeira que você plantou. Esta cena já se repetiu algumas vezes e dependendo do caminho faço, é inevitável passar na frente a casa que você morou e que nós moramos, compartilhamos e vivemos os mais bonitos instantes de amor.

Ainda te vejo na soleira da porta com as mãos acenando despedidas, riso solto e olhos brilhando. Em dias de muita saudade evito a rua do meio e dou a volta no quarteirão que é o dobro do caminho… Às vezes, me falta estrutura, querida minha.

Misturo versos de poemas aos instantes que vivemos… os passeios de domingo e suas histórias cheia de humor… Não era atoa que você pensava no homem de Paris que perdeu o sapato bem na sua frente. E das vezes que sua visita em um casarão em ruínas te fez correr tanto de susto… e cruzar com o mesmo homem que lhe cobrava o sapato — como alguém perde um sapato em Paris? — e seu riso ecoava vida afora…

Eu ainda me lembro dos vários rituais que repetidos e das cerimônias — que eram sempre as últimas — e vibrávamos com o sol nascendo como se nunca mais isso fosse acontecer. De como Marte era tão visível em certas noites que seriam banais e se tornaram únicas porque você levava Marte em seu nome como se ali sempre fosse o seu lugar, mesmo estando anos luz distante daqui, de mim, ou dessas histórias feitas de fragmentos…

Eu ainda tenho na memória seu olho através da cortina, e sua presença tão forte e potente em mim, na casa da Kaori e do teu monólogo ao meu ouvido no telhado de minha casa, no bairro antigo; quando dizia que Marte estava ao alcance de suas mãos e que poderia me dar quantas estrelas eu quisesse.

Eu nunca quis muita coisa para além do seu riso, da sua voz lendo poemas, dos ecos dos seus passos no corredor e das canções desafinadas de quem canta apenas o amor… Era isso que eu queria. Falar de Gadu, de Gil e Caetano. Da chuva, de um Japão com as cerejeiras em flor que nunca conhecemos e do barulho do rio a desaguar nos afluentes do Pantanal.

De frente para a cerca cheia de flores busco essa tentativa de te observar e você já não me vê ou até vê, nesse abandono de corpo entre o celeste e o seu quintal… Ouço vozes para além do portão. Alguém ri e como aconteceu em tantas vezes, me confundo. A cena está vazia e dentro de mim você é esse poema que tento domar para além dos muros do meu quintal… em sua rua, que é onde me perco, como se o vento não pudesse levar as minhas palavras e o meu amor até você.

Não é você na soleira da porta… é apenas a minha imaginação chamando pelo seu nome para além do amor.

Mariana Gouveia
Cartas para abril postada no blog da Scenarium Livros Artesanais
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Participam comigo:
Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Me escreva uma carta

Dessas cartas simples, que mais parecem bilhetes e que soam a mansidão dos dias.

Havia um tempo em que eu desejava tanto a vinda do carteiro. E lá ia eu vasculhar as correspondências para saber algumas palavras de encanto no meio de tanta carta. Umas, era para minha irmã mais velha. Curso por correspondência. Um instituto que ensinava a bordar, costurar, pintar e tudo mais que se ensina hoje, só que nessa época, era por correspondência.

Outras, dos parentes distantes, contavam desde o nascimento dos filhos, do primo que casou. Da tia que enviuvou, do cavalo que nasceu… Não havia nenhuma carta endereçada a mim. Por que não havia quem escrevesse. E hoje ainda não há.

Já não há cartas mais, nem envelopes com a tarja amarela e verde. Os parentes que escreviam, alguns morreram, os que nasceram usam a internet e não há mais tanta novidade que o Facebook não traga de imediato.

Hoje, o que chega pelos correios são as faturas do telefone, da conta de luz e de água. Sinto falta do diálogo feito entre as letras e eu, e o papel de carta decorada de coraçõezinhos.

Me escreve uma carta, e nela me relate tua vida, teus sonhos e até tua angústia. Fala dos medos, das coragens e da vontade absoluta de ser feliz.

Ou ainda assim, mesmo que não consiga escrever nada, mande-me teu perfume para eu sinta sua presença aqui.

Mariana GouveiaÉ abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
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Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Carta à Emily

Eu te dou metade dos meus pássaros
— sobre a doce condição de que você os trará de volta
— você mesma,
e habitará um dia comigo,
alegria sem preço,
eu mesma ganhei da natureza.

Emily Dickinson

Querida minha!

Talvez seja intimidade demais para nós… eu, que conheço tanto de você, por tudo que li e reli sobre sua vida e você, nas palavras das cartas — e eu, uma estranha apenas, que te admira — e juro que já fiz esse diálogo infinitas vezes em dias que não era assim como hoje.
Já te falei que chove? Chove incessantemente há três dias e no quintal os musgos já acumulam com suas cores verdes nos cantos do jardim. A roseira, que antes estava exuberante, teve as pétalas arrancadas pela força da água. O rio, logo abaixo algumas ruas já atinge um nível de alerta.
Devo confessar que até gosto do barulho da chuva nas telhas e o gluft gluft em algum balde esquecido logo debaixo da escada. A passagem bucólica que preenchia minhas manhãs ganha cores dos infinitos guarda — chuvas e as imagens que meus olhos alcançam são as das meninas que voltam da escola com seus uniformes molhados. Chega a ser estranho ver minha cidade sem sol e enquanto aguardo o ônibus releio as cartas que escreveu em um livro puído:

“Uma palavra morre
Quando é dita —
Dir-se-ia —
Pois eu digo
Que ela nasce
Nesse dia”

E assim, a palavra ganha o contorno de cuidado com o qual falo com você. Imagino você corrigindo os erros e rindo das infinitas traduções e interpretações de um pedaço do poema. Os manuscritos é esse fôlego de alma e eu a catar letras para te prender aqui.
Ainda chove e os vizinhos ouvem futebol. Eu penso em amores que você tenha vivido e tento comparar com os meus.
O que dizer do amor dos outros que brotam em cartas tão fora de moda hoje em dia? Talvez te escreva outra carta falando mais sobre isso… talvez só converse com você nas janelas embaçadas dos ônibus… Talvez apenas mergulhe meus pés na bacia de água gelada para o cansaço ir além da simples vontade de ficar só. Talvez…
Talvez o amor que exala em mim e que misturo nos seus poemas seja feito de asas… em mim, o pássaro de todo dia é aconchego e divide com as abelhas jataí a água preparada para quem beija a flor… e quem sabe esse amor seja só essa gota que pinga constantemente em um balde esquecido…

Abraço carinhoso
Mariana Gouveia
Carta publicada no blog da Scenarium Livros Artesanais
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
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Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Parabéns, Cuiabá! 304 anos.

Amar você virou rotina. Dessas rotinas comuns de espiar você além da janela e do meu quintal. Do céu que vejo amanhecer em tons laranja e da vida que começa em ti em cada manhã.

Amar você gera conflito, porque você mudou tanto.

Antigamente, te amar era tranquilo. Eu podia te abraçar dali da calçada e meus olhos te alcançavam na leveza do vento que batia nas folhas da mangueira que me traziam sombra e aconchego.

Eu não entendo mais teus modos e talvez você me diga que é isso que me encanta. Que é ali que esconde tua beleza. Que teus lugares são feitos para mim, que é em ti que eu me encontro. Encontro-me nas tuas esquinas onde corri, onde brinquei. Nos muros onde rabisquei meus primeiros poemas de amor.

Amor que falava de sua cor, do fruto doce que como presente você derramava no meu quintal. Do sol abrasador que me aquecia e que eu insatisfeita, sempre, reclamava.

Eu sempre te amei. Desde quando as tuas ruas se abriram pra mim me envolvendo com as folhagens das palmeiras que te ladeava. E eu, menina, corria solta pela vida em você. E sonhava com você dominando o mundo, senhora de si, com tuas cores redesenhando o amor que eu sentia por ti. Depois teu colorido foi se tornando cinza e tuas possibilidades de cores enfeitavam minha vida.

Me vestia de chita, te vestia de chita. Te cantava nas canções de amor. Te enchia de poesias pelas vielas. Serenava para você nas madrugadas frias. Umedecia nas tardes de calor.

Reclamava, reclamava e ainda assim, longe de ti, queria existir em você.

Sempre amei caminhar nas tuas rotas, desvendar as teus lugares secretos, comer e beber de ti, na essência pura de tua alma. Eu sei que tudo isto está aqui ainda, mas aquela menina que aprendeu a desvendar o amor que sentia por ti, cresceu. E o amor… esse amor infinito por você cresceu junto comigo, na mesma intensidade do sol que em ti, se torna especial.

Com o tempo, me transformei arrogante pelo simples fato de te possuir, porque te queria a melhor.

Eu andei por aí, e nos becos, descobri que tua força não é mais a ingenuidade de menina. Você cresceu. Tomou proporção de gigante e  teu tamanho é efêmero porque ainda guarda a singeleza do teu linguajar, se tornou maior do que podia aguentar e ainda assim permanece intacta na simplicidade.

Já fui pra outros lugares,  outros amores… Eu sempre voltei para você, por vezes insatisfeita, mas com aquela sensação única de que só a ti eu poderia chamar de lar. Meu porto seguro.

Ali, entre a ponte que dividia lugares, onde guarda meus desejos mais secretos e que para ninguém descobrir você os levou pra água mansa do rio. Aqui, debaixo de teu ipê florido e nas calçadas onde cresci sentindo aroma doce do cerrado.

Busco justificativas para aquilo que eu sinto, sendo de verdade, o amor.
Ainda me encanta a tua diversidade, os teus mil jeitos e lugares que me acalma.

A mansidão com que me abraça, mas eu odeio a tua falta de regras, a tua desigualdade, a tua falta de respeito, de solidariedade.

Pode ser que eu me engane ao ver nascer uma flor debaixo de tanto concreto, onde as escadarias me leve aos lugares de fé. De tua fé e do acreditar que é possível que você continue a mesma e  mude.  Que os encantos aconteçam nas manhãs em que vejo pássaros tão variados voando no teu céu cinzento e pense que você ainda é a menina simples que me encantou.

Eu te amo e te odeio, mas não te deixo, porque você sempre coloca em meu caminho uma descoberta que me conduz para lugares lindos, pessoas inesperadas, histórias de contos de fadas e que estampa em tuas praças a esperança.

A esperança do amanhã. Um amanhã novo que se desenha e sem medo de ser feliz eu te abraço. Te abraço e nesse teu renovar de dias eu me derramo de amor pra você.

Enfim, sabe como despertar em mim a cada dia um novo sentimento que me direciona, invariavelmente, a ti, Cuiabá.

Parabéns pelos seus 304 anos, Cuiabá, meu amor!


Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
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Lunna GuedesSuzana Martins – Roseli Pedroso  Obdúlio Nunes Ortega

Goiana, cidadã cuiabana desde sempre, mas  desde 2009 cidadã orgulhosamente cuiabana e irremediavelmente apaixonada por Cuiabá.

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

carta para a solidão.

Cara Solidão,

Em muitas noites a insônia habita o meu corpo e os olhos acompanham o desenrolar da madrugada que num estalar de dedos se dissolve e vira dia, manhã de sol e eu cambaleando pelos cômodos, arrastando o passo pelos cantos.

Quando isso acontece, tenho a impressão de que a solidão é uma presença, uma entidade. Figura gigantesca. Mas, se antes, você habitava as noites mornas, nos últimos dias, tenho sua companhia nas tardes, com as réstias de sol atravessando as cortinas e o vento bailando num tímido vai e vem. Sinto seu toque na pele e suspiros vazios. Percebo-te entre as paredes da sala e dentro das gavetas que vasculho em busca de memórias perdidas – cartas que não foram enviadas e algumas que nem escritas foram.

Eu nunca tive medo de viver só. Sempre soube aproveitar de minha companhia e entre sorver uma xícara de café e escrever, na realidade, nunca estive só. Os pássaros, as flores e as sombras de meu quintal preenchem lacunas-espaços – ocupam-me. Tu és esse vento que passeia pela casa, sopra as roupas no varal e provoca tumulto. É a mão que toca a minha e me lembra do meu lado de dentro.

Houve muitas tardes que o silêncio da casa era quase um alívio e escrever-te é como afirmar sua presença pelos cantos, como o chapéu que uso vez ou outra, por causa do sol ou o som do relógio a ressoar por aqui.

Será que estou inventando uma personagem? Não seria a primeira vez que invento um substantivo ideal para ser o meu par, como a cortina é companhia ideal para dançar com o sol.

Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
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Lunna Guedes Suzana Martins Roseli Pedroso Obdúlio Nunes Ortega
Texto publicado no Projeto Coletivo Roteiro Imaginário
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Carta à Anne

Querida Anne,

Devo te confessar que meu ritual ao te escrever possui a magia simples de entrega – tão eu/você aqui – em frente a janela repetindo nos gestos ao longo dos dias: isso de ser mulher é angustiante. É estranho imaginar como seria se você vivesse nesse tempo. Teriam teus poemas a mesma forma de atingir quem te lê? A mulher que luta pelo que acredita, agora.
Você conseguiria ao longo desse tempo tecer um diálogo comigo sobre os tabus da época em que você viveu? Lembro – me de minha adolescência e da força que minha mãe possuía com seu livro na mão.

Ela era como você… CONFESSIONAL! Estava ali, de pé, as mãos sobre as cortinas esvoaçantes e os olhos dentro do livro, a brisa a tocar a alma e ela tão real, diante da vida e tão certa das dores de quem não queria ser apenas uma dona de casa, mas libertária.

Vi seu olho escorregadio nas fotografias antigas e respiro essa ansiedade vinda de você e atravesso sua poesia com a alma nas mãos.

Como não confundir esse medo real que bate a porta com a sensibilidade quase habitual na palavra morte? Como falar sobre sexo, amor, medo e solidão? Já viajei contigo nesses caminhos tortos e quando percebi, estava só e seus poemas ecoando em mim:


Tudo em mim é um pássaro.

Adejo com todas as minhas asas.
Queriam extirpar-te
mas não o farão.

Diziam que estavas incomensuravelmente vazio
mas não estás.
Diziam que estavas doente prestes a morrer
mas estavam errados.

Cantas como uma colegial
Tu não estás desfeito.

Um sino que toca me faz lembrar que hoje tem missa e que mais uma vez perdi a hora e não pude atender a senhorinha da esquina que pedia um poema quase reza em homenagem a santa do mês. A fé se perdeu nas pessoas que se foram. Sou eu, essa falta de tato dentro da solidão.

Sou esse pulso vazio sem veias na impressão do que acontece no dia seguinte no diário oficial. O rito é esse compasso de espera, de vagar nas lembranças de um tempo que passou enquanto olho-e-te-vejo-olho-e-me-vejo. Sou eu ali, nas entranhas das frases escritas por você e onde me perco na vaga promessa de uma oração de fé no que não acredito.
Hoje, o livro dorme em silêncio enquanto abro os braços e chamo seu nome… vem?

Beijo,

Mariana Gouveia
Carta publicada no Projeto coletivo La Barca
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Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Carta para Sylvia aos cuidados do poema

Ph: Mariana Gouveia

Sylvia,

Amanheci lendo Ariel… caminhei pela cozinha e descalça fui até o quintal com a xícara de café me acompanhando… Devia ter pensado em um vinho para te brindar…  mas para isso, uso o orvalho que cai das folhas da clitória — flor que absorve bem a umidade da noite – e molho o dedo no líquido que escorre da flor. Lembrei-me de que a primeira versão de Ariel foi publicado no ano em que nasci. E por isso me vesti do poema – que abuso, o meu – e me despi logo depois. Eu me vi erótica e te vi gritante, pulsante, violenta e mansa. É contraditório, eu sei…  mas é que você é essa explosão de sentimentos transbordantes dentro de um poema só e que ultrapassa sua obra inteira.

Busquei o êxtase no azul do céu aqui e fiquei a imaginar a cena que você descreve. Repeti infinitas vezes o penhasco, o sulco, o arco, o pescoço e suspirei. Foi tão intenso que pensei em como você conseguiu cruzar esse meio fio e não se encontrar. O eco das palavras ressoava no interno de mim. Sabe o que é isso? Ah, sim! Você sabe muito bem.

Sabe, fiquei presa dentro das palavras e reverenciei as várias deusas em uma só com seu nome. Pensei que estava delirando quando rodopiei no quintal e atravessei meus olhos além dos muros por que me senti sendo espiada. Chamei seu nome e confesso que quase ouvi uma resposta… claro que é apenas meu lado lúdico bebendo suas palavras. Isso porque o café nem é o vinho.

Fiquei pensando em como você é tão atual e de como suas palavras foi esse grito de prazer e dor. Não sei o que te falaria se estivesse frente a frente com você. Acho que o mundo era pouco para sua dimensão e entendo que nem as palavras conseguiram tornar mais leves os seus momentos. Se me pedissem para te traduzir em uma palavra, eu diria: I n t e n s a… tão tridimensional que Godiva se encaixa entre o sagrado da vida e o pecado da morte: d e u s a e deusas não morrem. São deusas.

Mas ainda assim deusas são ousadas e frágeis… e a escritora foi puro desaforo diante da vida e também a flecha e o alvo.  Mas, para mim, você será sempre algo mais do que uma mulher que escreveu… você é a leoa que deixou suas palavras para que ecoassem com elas as dores, o sofrimento e os amores para que o mundo conhecesse você.

Mais do que a escritora, a mãe, a doente, a morta, a viva, a deusa você é a poesia e o poema. Ousada e submissa. Contraditória e subversiva e inspiração para muitas que como eu quer que a liberdade seja sempre sinônimo de mulher. 

Grata tanto!
Mariana Gouveia
Carta publicada no Projeto coletivo La Barca
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Participam comigo
Lunna GuedesSuzana Martins Roseli Pedroso Obdúlio Nunes Ortega

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

E se floríssemos em preto

e branco como as divas mudas?

Carmen Picos

Ph: Gaëna da Sylva 

Carmencita,

só hoje soube de sua partida há tantos meses atrás e como prometido te escrevo. Gil canta no repeat. Reli as nossas mensagens até chegar em seu silêncio. Como alguém vai embora assim sem tempo de despedida? Depois, suspirei e agradeci por ter tido a honra de ter você em minha vida, mesmo que por trás dessa tela.

Ficou para trás a promessa do encontro, do abraço, dos poemas que eu leria e dos que faríamos juntas – quem sabe, um dia, para além dos mistérios que a gente desconhece isso não aconteça – ficou em mim o carinho que sempre me dedicou e da diva maravilhosa que se transformou aos meus olhos.

Eu te dava relatos diários do Chiquinho e você falava de música e agente falava de filhos. De gatos, de animais, de flor, de luta de Brasil e do mundo. Você me levava Espanha afora… madrecita, arriba e cariño…

Eu te achava revolucionária e você era fã do Che e de tantos outros que eu reverenciava também – e dos risos… – e a gente ria através de letras… era tantos kkkkkk e tantos hihihihi, hahahaha e tantos uias… e um dia de repente a gente se declarou… um eu te amo se confrontou com o eu também e o tu me faz bem e o Carmencita virou sinônimo do meu carinho.

Te contei sobre meu milagre de cura e você falou do milagre do universo que liga pessoas de lugares distantes como se fizessem parte da família. E assim, a gente foi tantas em mensagens únicas que nunca apagarei. Serão como mantras em dias difíceis.

Você é minha diva onde quer que esteja, em qualquer lugar do universo ou apenas em meu coração. Você será meu sorriso quando uma lembrança me trouxer você e quando um pássaro atravessar o céu seu sopro chegará até mim como se fosse abraço.

Voa, pequeninha!

Abraço carinhoso
Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Solar

A primeira vez que vi o sol nascer nesse lugar perguntei para minha mãe se aqui era mais perto do céu.

Leonor,

lembrei-me de te escrever para falar do quanto meu lugar esteve solar nesse verão. Você conhece os dias quentes daqui e também sabe bem das manhãs ensolaradas. Já te contei que a primeira vez que vi o sol nascer nesse lugar perguntei para minha mãe se aqui era mais perto do céu. Sabe o que ela respondeu, Leonor? Ela disse que o sol mais perto do céu é o que brilha no coração da agente.

Acho que já vivi aqui muito mais dias ensolarados do que nublados. Já te contei que aqui tem apenas a estação do sol, não contei? Tudo aqui é solar desde o amanhecer, Leonor e sabe de uma coisa? Mesmo que reclamando de alguns dias mais quentes, eu estranho o dia que ele não aparece. Mas, isso é tão raro e você pode perceber isso quando esteve aqui.

O mais encantador disso tudo é que ele muda as cores do céu, conforme a hora, o dia e do jeito que as nuvens estão. As ruas também, Leonor, se vestem de dourado e é como se estivessem preparadas para a festa.

Os dias tem sido mais quentes por aqui, Leonor e fico pensando em como você reclamaria se ainda vivesse por aqui. E como vivemos totalmente o oposto do tempo, eu fico boba com as nuances sobre o tempo que as moças da previsão – tanto daqui quanto a daí – erram na discordância do que é bom. Para a que fala na minha TV o tempo fica bom em grande parte do país, podendo chover a qualquer hora. Para a que fala para você aí, os 23º que para mim já é quase frio, faz a terra escaldar de calor.

Nem vou falar sobre a causa desse mudança de tempo no mundo todo, nem do descaso que os países têm com o meio ambiente… o que eu queria mesmo era te falar que quando vejo o sol nascer em todas manhãs, as lembranças me trazem você e nosso silêncio reverenciando o astro rei.

Também me lembro de todos os ocasos que assistimos juntas… e quando o sol se põe trazendo a noite, as minhas memórias te coloca num lugar bonito dentro do coração e acho que compreendo cada vez mais os finais. Sejam os de todo dia quando o sol se vai quanto os de amor que cumpriram seu papel. Mas ainda assim, eu sinto saudades tuas.

Mariana Gouveia
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesnais
Participam comigo:
Lunna Guedes – Roseli Pedroso e Suzana Martins Obdúlio Nunes Ortega

Das palavras das cartas · infinitamente

Carta para Luci aos cuidados de Chiquinho

Gosto de você porque sei que pararia tudo
pra ficar olhando um passarinho perdido
na sacada numa manhã que exigisse sua pressa.
Luciane Recieri

Luci,

vi que você viu sua sombra, assim, de relance e eu corri na parede para encontrar a minha. Aqui já escurece, Luci e teve um temporal daqueles… mas como já se tornou rotina nas minhas tardes, logo que passa a chuva o sol vem em seus variados tons encantar meu quintal.

Durante a tempestade Chiquinho vem se aquecer em minhas mãos, mas logo voa rumo ao varal para se esbaldar na chuva. Acho lindo isso, Luci e fico com as mãos abertas esperando ele retornar.

Quis te contar isso no seu dia – não que os outros não sejam – e vim te abraçar dentro da nossa história. Já são alguns anos que começo março nesse ritual para te abraçar. Mas devo confessar, Luci, que parece que é desde sempre. Você não sente isso?

Dizem, Luci, que a probabilidade de duas pessoas se encontrarem e terem algo em comum é uma em duzentas mil… Conhecer alguém, Luci, é uma em dois  milhões… Isso é muita coisa… Ficar próximo dessa pessoa, é de uma em vinte milhões. Já imaginou isso nesse mundo de Deus, Luci? Chamá-la de amiga, então, é de uma em duzentos milhões. Fiquei pensando que estamos nesse tanto de milhões.

Eu já conheço seus bichos, sua fada – Anna – seus silêncios e você já sabe dos rumores de minhas borboletas, do meu Chiquinho e de minhas poesias. Você atravessou uma rodovia inteira e entrou inquietante na Mário de Andrade para me ver. Até ali, a gente era amiga de longe e você trouxe a chave e abriu meu coração. Tomou posse da parte sua que vive aqui, dentro de mim.

Mesmo que eu fure todas as paredes e encontre o estuque azul, nunca vou esquecer do sentimento de fome do seu pai e do seu, Luci e nem do que o pajé mandou eu te dizer. Isso já fazem mais de quatro anos, lembra?

Vim de novo reforçar o meu desejo para que você seja essa leveza de alma, que continue gostando de ratos, corujas e de sinos. Que seja sempre colo para os bichos e mãos estendidas para os amigos, Luci. que suas mãos sejam afagos sempre para os pássaros seus assim como as minhas são para os meus.

Te amo, te abraço,

Feliz aniversário1
Mariana Gouveia