Das palavras das cartas · infinitamente

O impossível é só questão de opinião

Jean,

Dia desses eu sonhei com você e acordei com o som de sua voz ainda ecoando em mim. Você cantava sua música favorita e usava a boina de crochê colorida estilo Bob Marley que fiz para você.

Lembro-me que falávamos sobre tatuagens e você queria fazer uma… seria uma letra de música? Tribal? Ou um dragão? Confesso que não me lembro e perdi os anos desde que você se foi. Já são quase duas décadas e ver você em meu sonho me levou para dentro de nossas conversas. Seu time preferido já foi campeão tantas vezes e seus amigos quase todos já casaram. Alguns, ainda perguntam de você e contam as coisas que vocês viveram juntos em um sorriso gratificante de poder ter te conhecido.

Queria te dizer que sinto saudades de você e que alguns lugares daqui me lembram você. E você sabe que sua tia nunca vai te esquecer. Hoje, seria seu aniversário e me pergunto se além da terra e da fé que a gente vive será que ainda é aniversário para além de onde você vive? Alguns diriam que é impossível, mas como sua canção preferida diz: pra quem tem pensamento forte o impossível é só questão de opinião e eu prefiro acreditar que sim, para além dos sonhos e dentro de mim.

Essa é uma daquelas cartas que eu apenas escrevo, para continuar te mantendo dentro do meu carinho. E é assim que comemoro seu dia, mesmo que seja em meu coração.

Te amo,
sua tia,
Mariana

Das palavras das cartas · Das rotinas · infinitamente

Das sílabas feitas dentro do verbo amar…

Era uma vez e muitas vezes
Um homem que amava uma mulher 
Era uma vez muitas vezes 
Uma mulher que amava um homem 
Era uma vez muitas vezes 
Uma mulher e um homem 
Que não amavam aquele e aquela que os amava. 

Era uma vez 
Talvez uma vez apenas 
Uma mulher e um homem que se amavam. 
 Robert Desnos

Amor,

às vezes, eu preciso voltar no tempo dentro do meu amor por você. É onde nos encantamos com o que vimos para além do céu, das flores, dos bichos e nas trocas de olhares. Um sabe tanto do outro, que em muitos momentos, as palavras perdem o significado.

Em outras vezes, te nomeio guardião de mim… de tantos momentos difíceis e de sua capacidade de entender meus medos, de admirar minhas coragens, de chorar junto nas minhas dores e de ser o amigo que me ouve nos desabafos.

Comemorar seu dia é repetir gratidão ao Universo pela bênção de te ter comigo, de dividirmos juntos uma história em sílabas feitas dentro do verbo amar.

Sabe, amor, em alguns dias eu revisito os passos que me levaram até você… e o que é bom é que, dentro de tantos momentos, tenho certeza de que se pudesse voltar no tempo, eu faria tudo de novo, para viver a mesma história de amor com você.

Te amo infinitamente,
Feliz Aniversário!
Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · infinitamente

Pai

Pai,

mais uma vez eu te escrevo e percebi que faz tempo que não nos falamos. O telefone, para você, se tornou obsoleto, porque você não ouve direito. É apenas a chamada de vídeo, os gestos e o riso de sempre lembrando que ainda me reconhece.

Sabe, pai, de vez em quando eu volto ao meu tempo de menina. Isso acontece quando eu acolho os bichos em minhas mãos. Você me dava coragem para acolher os bichos de asas… e depois disso, passei a ser escolhida por eles. Eu acho que sou parte deles, pai. É quase involuntário. Abro a mão e eles vêm e pousam. Tanta gente tem medo deles… eu tenho carinho, pai e nem sei bem se a palavra é essa.

Pai, o junho começa com seu dia e as lembranças do mês dos santos me faz ter nostalgia dos dias em que a gente ficava à beira da fogueira, as simpatias feitas em nome do santo casamenteiro. Os doces, os balões e as histórias. Sabe, pai, você me deixou um legado de histórias e sempre conto elas para um ou para outro para registrar essas coisas que ficam dentro de nós para sempre.

Escuta, pai, tenho as lembranças todas penduradas no porão… as fotografias guardadas em caixas antigas, com o cheiro de antigamente. É disso que vivo e dos dias em que lembro-me de você, tão presente na minha história. Apenas sou no mundo, pai e o mundo é em mim, e o tanto que isto é, por sua causa. E hoje, dentro desses dias e dessa representação, te ofereço minha mão pedindo benção, pai e feliz aniversário!

Te amo muito!
Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Das cartas que não foram entregues

Ph: Pinterest

Quando alguém jogava fora as cartas de amor
a janela sorria com o vento, efeito brisa nas cortinas.

o carteiro lamentava o dia em que não entregaria ao remetente, o amor.
e eu catava as folhas rua abaixo

nunca era o endereço certo nos envelopes.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · infinitamente

Era uma vez, a primeira vez.

Filho,

eu já te escrevi tantas cartas e para mim será sempre como se fosse a primeira vez… você fez isso comigo desde sempre. Me fez experimentar primeira vez em tantas coisas. A primeira vez que ouvi seu coraçãozinho bater foi como se eu estivesse ouvindo meu coração bater fora do peito.

Com o tempo, filho, as datas se tornam comuns. Qual a graça de se comemorar dia das mães com o filho longe? E eu, que já nem tenho minha mãe aqui, como comemoro? Dia das mães é todo dia e dia do filho se resume em horas, porque uma mãe pensa em seu filho ou filha em todas as horas – Será que comeu? Está com frio? Gripou? Tomou chuva? Chora por amor? Está se sentindo só? – e fica registrado na memória das mães o dia em que o filho nasceu.

Foi de você que ouvi pela primeira vez a palavra mãe… e depois disso, eu me tornei a mulher mais poderosa do mundo, capaz de enfrentar qualquer coisa por você. Infelizmente, esse super poder se limita quando a gente não consegue mais impedir que outras dores te machuque. E resta apenas oferecer o colo e rezar para que tudo passe logo.

Ainda temos muitas primeiras vezes para viver… e temos ainda que repetir mil vezes outros instantes. E no dicionário de mãe, filho vem sempre em primeiro lugar e é essa palavra que me abraça quando penso em você.

Obrigada por ter me escolhido ser cuidadora de você nessa vida. Tenho muito orgulho do homem que você se transformou. E o meu melhor presente é seu sorriso. Te amo imensamente!

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · infinitamente

Minha vez de saudade.

A vida corre ligeira, mãe e mais uma vez eu brindo o dia que era seu. Coube em mim nesse anos todos, saudade e as lembranças me visitam com mais assiduidade do que o normal.

Olhando hoje, tudo parece que foi feito de brinquedo os dias e que a data ainda é real e você está ali, entre a cortina e a janela a esperar que a surpresa seja feita, mesmo sabendo que nem era mais surpresa.

Os presentes vinham sempre em forma de bilhetes, poemas, corações de pedra e abraços demorados. Tudo era uma casinha de boneca onde o amor pelas coisas simples surgiam e seu dia se tornava além de uma festa, uma verdadeira brincadeira.

Você nos deixou a delicadeza e registro mais um ano em que falar com você é como desembrulhar um pacote de presente e me perder nas lembranças que insiste em brotar como se fosse flor em nós. Que a vida infinita seja!

E que mais uma vez, eu agradeço por ser parte sua.
Parabéns, mãe!

Beijo,

sua filha
Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Geometrias – das geometrias do meu lugar.

Bambina mia,

Andei procurando uma forma diferente de falar de geometria com você sem necessariamente sair por aí fotografando os espaços da minha cidade. Lembro-me de que te perguntei sobre o que pensou dentro da palavra geometria e ouvi sua gargalhada… Resolvi modificar meus gestos dentro da palavra e te escrever… Sabia que depois disso vi geometria em todas as coisas… Rá!
Em cada canto há uma janela quadrada – às vezes, retangular e até oval. Por isso resolvi seguir meu olho e te mostrar a geometria das coisas daqui.

As borboletas daqui, depois que passei a observá-las, me trouxeram nuances geométricas, não só nos desenhos que formam em suas asas, mas juro que vi um formato de triângulo quando ela pousou em meu dedo. É lúdico, bambina… mas é quase triangular essa asa, não é?

Confesso que vi um hexágono na ipomeia lilás e suas gotas. A trepadeira está coberta delas, e quando ficam penduradas também tem o formato de triângulos… e como há triângulos por aqui, em diversas coisas…

Sabe, bambina, eu fiquei mesmo feliz quando vi o reflexo do arco-íris no quadrado do piso da varanda… Aconteceu a primeira trovoada de maio aqui e me lembrei de você… Gritei seu nome – o que já nem é estranho mais – porém, o ritual do arco-íris levou a chuva para outro lugar e só deixou os trovões por aqui.

Nos retângulos de pedras que cobrem uma parte do quintal servem de caminhos para o joão de barro. A ave parece brincar de amarelinha e arranca um riso meu. As flores de ipê fazem cama por ali, quando caem, sob a leveza do vento. Acho que já te mostrei isso. O chão fica dourado de flor.

Mas, é através da janela, sem suas cortinas lilases que o céu se desenha para mim, bambina… os retângulos – ou seriam quadrados? – me mostram as nuvens e suas nuances, ainda com indícios da chuva que não veio…

Bambina mia, encerro com a lua e seu círculo natural chegando em minha noite. Claro que faltaram tantas coisas, mas esse espaço cabe apenas seis fotografias. Eu poderia ter te mostrado as manchas engraçadas nas costas das ladies bugs que vivem aqui, o triângulo disfarçado no besouro que encontrei esses dias no pé de algodão e até as geometrias diversas na folha do mesmo pé de algodão. Mas fui escrevendo formas por aqui… Meu abraço cabe direitinho no seu abraço. Seria um enlace… é geométrico o abraço?

Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6 – Geometria
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes Obdúlio Nunes Ortega Roseli Pedroso e Suzana Martins

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Cartas para abril – Eu não sei como dizer-te que cem ideias, dentro de mim, te procuram.

Leonor,

Eu deveria te escrever em poemas. Usar teus poetas favoritos ou as canções que me lembra você. Mas, eu… às vezes, fico perdida… Devo escrever cartas que sei que nunca irá ler? Postar os envelopes pardos na agência dos Correios sem saber se irá buscá-los em sua caixa postal? O que eu faço, Leonor?

Eu acho que gestei demais a despedida e usei a tag marítima como sinal para você se reconhecer em meus gestos. Mas tenho pensado: será que você não foi inventada por mim? Tudo que vivemos parece pertencer a um passado tão longínquo que parece ser coisa da minha cabeça.

Te perdi, te ganhei, me perdi ou nos perdemos? Lembro-me do tempo em atravessei um campo de capins dourados e você me esperava no topo do morro. A frase ecoou morro abaixo e você com a câmera fotográfica nas mãos registrava meus gestos – e se uma sumisse da outra entre o capim dourado, como seria? – e eu me lembro de te dizer que a procuraria até o fim do mundo. Doce ilusão! O fim do mundo é longe demais e mesmo as cem ideias que usei para te encontrar se perderam em uma praça de Queluz.

Alguém me disse que não podemos encontrar quem não quer ser encontrado — e eu fiquei pensando se era você que tinha esse medo de se perder ou era apenas a promessa de uma fuga que te movia. Confesso que já apaguei mil e quinhentas vezes as mensagens com sua voz e recuperei em tantas outras mil e quinhentas, só por medo de esquecer seu sotaque e o som monocórdico de sua voz.

Na última vez em que nos falamos, você disse que havia andado por minha rua — tantas vezes — através do Google Street e que pensou no pé de trevo de quatro folhas que cultivei como se fosse um tesouro, para depois do portão… E tudo mudou… Você sumiu do mapa e eu ainda procuro por você no meu silêncio. Nas estações, nas gavetas da memória, nas palavras de seus amigos. No topo do morro da Chapada, nas ruas misturadas com as casas coloridas que você tanto amou fotografar.

No resto do tempo, começo a te esquecer e a passo a ler as notícias que saem nos jornais do seu lugar. No carro igual ao seu que passa na rua de cima, no sol de cada dia e até na xícara de café — quer café, flor? — porque eu fico esperando qualquer coisa de extraordinária para recebê-la mais uma vez entre gotas de chuva nessa estação da espera.

É elementar que seja assim. Se passaram mais de mil madrugadas e eu sou todas as janelas e portas abertas, como se estivesse sempre pronta para sua volta. E eu já fui até farol, confesso…  Mas, hoje sou apenas essa solidão para o nome das coisas.

Mariana Gouveia
Texto publicado no blog da Scenarium Livros Artesanais
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Participam comigo:
Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Carta para abril – As metamorfoses e seus contrários com uma xícara de chá

Minha menina nuvem,

O tempo mudou por aqui e o céu azul foi transformado em cinza logo depois do almoço. Precisei ligar a luz para trabalhar, já que escureceu de repente. Dizem vai esfriar e me perco dentro da estação. Com a chuva que caiu torrencialmente as sementes do ipê voaram para todos os cantos do quintal. Ela voa de tão fina e volta e meia levo embaixo do pé uma delas para dentro de casa.

Su, geralmente, trabalho no quintal ou na varanda, mas precisei levar a mesa para dentro e fui espiar a chuva. A luz da rua apagou e fui cuidar dos casulos – vários deles se formaram no pé de turnera – que é onde acontece as metamorfoses no meu lugar.

Já te contei que as borboletas nascem pela manhã? Umas gostam mais do meio-dia. Enquanto outras preferem o antigo canil dos cães, que é meu “sótão” de mentira. Lá é mais escuro e as mariposas gostam mais de lá. Gosto de ver esse processo de transformação – e até acho que vou me transformando junto – e depois, da metamorfose ao voo.

É certo que eu plantei as flores que elas gostam e com isso, o meu quintal está sempre “grávido” de borboletas. Mas, há também outras metamorfoses no meu lugar. As lady-bugs também tem um processo único para se transformar. Da larva ao inseto o pé de algodão vira casa delas. Das mais variadas espécies e logo as asas que parecem origamis vagueiam por aqui.

Gosto desses gestos por aqui e vou carinhosamente, com cuidados de mãe cobrindo os casulos… volto para dentro fugindo das gotas de chuva e vou preparar um chá… meu pé de alecrim está lindo e se ofereceu para aquecer essa tarde-noite estranha ao meu lugar. Preparo o caderno, sublinho as folhas e começo a te escrever enquanto bebo meu chá…

Aceita uma xícara?

Beijo meu
Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Participam comigo:
Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Cartas para abril – Cuiabá, manhã de sexta-feira santa,

Bambina mia,

O poema que me enviou me fez pensar em Ana. Ela adorava ficar parada, em um banco de praça, em uma calçada de qualquer esquina a observar quem passava. Maryann, é enriquecedor isso! Já imaginou o quanto de história tem em cada um?

A minha imaginação até flui no outro, no desconhecido… Mas eu escrevo a partir dos detalhes que a realidade oferta… Nem tudo é real, mas eu preciso da realidade para dar vida a minha narrativa. Ana preferia imaginar… de maneira peculiar: lúdica, poética, vaga… Eu queria ir ao sítio dos outros, desvendar as histórias, saber os nomes, ler sobre os segredos, trocar cartas…  e foi em uma carta que te encontrei.

Ir ao sítio dos outros não quer dizer invadir espaços que não são meus. É dar o toc, toc — dizer: oi, sou eu, estou aqui… e esperar que a porta se abra. Ana era voyeur que se perdia nos olhares, nos gestos. Espiava… dava cor aos transeuntes e lá de Paris dizia: o moço que perdeu o sapato me acompanhou até a praça da faculdade. Eu dei a ele o cachecol vermelho que você me deu. Estava muito frio… eu acho que ele perdeu um amor. Ela me escrevia de dentro da vida e eu respondia de dentro da minha saudade.

Mas havia um limite entre ela e o outro que era justamente a imaginação. Vejo um pouco dela em você. Essa inquietação com relação as pessoas. Ela era o próprio barulho — como você — e ecoava em tempestades mil. Com o outro, era distância nunca ultrapassada… os metros dos olhares. Uma troca de livro, uma sopa quente, um café noir e a mesa da cantine para ela. Seu passatempo favorito era ficar horas a observar o movimento-pessoas-personagens-imaginação.

Quando falo de Ana — as memórias, às vezes, nos traem — lembro-me do olhar amoroso comigo, do ônibus elétrico e seus olhos tragando minhas emoções. Enquanto o motorista descia para acionar o fio que se soltou. Você cabia na nossa história. Sua mão alcançou a minha e foi o amparo mais doce que senti na vida.

E foi ali que percebi que seu sítio cabia em mim… Você, tão avessa aos humanos. Tão canina quanto eu e tão aconchego para os que tocam o seu coração. Isso tudo é uma exceção à regra, mesmo porque, em muitos momentos, a regra decepciona.

Grazie Mille!

Mariana Gouveia
Carta publicada no blog da Scenarium Livros Artesanais
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Participam comigo
Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega