Corredores, Codinome Locura

Eu era peixe.

A vida era você, em todos os artigos perfeitos
em pretérito e sede de mar. Talvez por isso,
o cheiro do mar me traga seu corpo
sabe a sal, o dialeto marinho em meu corpo
Agridoce,
a doçura da alma

 

Dou – te o desgosto da falta
Essa ausência que você tatuou debaixo da água
onde eu era apenas letra muda e absoluta
Sinfonia abafada nas ondas de a – mar.
Você era isca

eu, era peixe.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês marítimo e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura –
Suzana Martins – Roseli Pedroso
*imagem: Khaterina Plotnikova

 

Afetos · Das palavras das cartas

Beda – carta para as bobagens dos abraços.

Se eu pudesse escolher, gostaria de me transformar numa música,
porque além de bonita ela desaparece.
Sumir por um tempo deve ser o máximo.

Luciane Recieri

Luci,

Mais uma vez te escrevo uma carta. Sabia que te escrevo infinitas cartas na mente? Basta ver uma coisa que minha alma defina como poesia, escrevo para você mentalmente e cada vez que vejo a sua frase acima – que acho pura poesia – fico imaginando se você seria uma música de Belchior ou de quem seria…

Vi que no meio do seu caminho tinha uma borboleta, e minhas borboletas vagueiam no céu do meu lugar e pousam em tudo que é flor… e que para você, as segundas-feiras são lindas. Já eu, gosto das quartas e não gosto muito dos domingos. Quando é para marcar algo especial, marco as quartas-feiras e foi numa quarta que vi meu pai de novo, Luci. Te contei que eu ia lá ver ele? Eu fui, Luci! E meu pai estava como se fosse fruta da época – com o riso tímido de sempre, como se quisesse fazer uma confissão e não fez.

O olho dele, Luci… ah, o olho dele… cada vez que volto do meu pai a minha alma fica pelo caminho… e o olho dele vem junto. Ele falou tantas coisas e eu fui me perdendo nas palavras dele. Contou histórias que eu nunca tinha ouvido – ou não lembrava que ele contou – e parece que pai sabe sempre o que vai no coração dos filhos, Luci. Acho que dessa vez, o olho dele me contou coisas que não consigo confessar nem para mim mesma. Essa coisa de saudade que a gente sente e você sabe de noite quem seu coração chama.

Eu nem queria falar de despedida com ele… mas, ele sabia que eu tinha de vir embora e num abraço, beijei o cabelo dele, Luci. Parecia flocos de algodão. Lembrei-me dos rolos de algodão da fazenda e ele cheirava a algodão recém colhido. Depois, na volta, parei para além da cerca e via o campo todo branco, como se tivesse se vestindo de noiva… era alguma cerimônia e eu não estava preparada para isso. Me lembrei de tanta coisa que chorei. Fiquei a olhar os trieiros que separavam os pés de algodão. Na minha infância, isso era feito por ele, num equipamento chamado matraca… hoje, as máquinas gigantes fazem isso. Mas, o cheiro é igual de quando eu era menina.

A gente viu passarinho juntos… acho que ele ainda tem esse dom – que deve ter sido repassado para mim – sabia que os passarinhos vêm na mesa onde ele almoça e divide com ele os restos? Era tanta divindade que recusei registrar em fotos. Apenas orei, Luci… e mostrei você para ele. Falei do seu pai e do estuque verde. Li algumas cartas que trocamos e vi que ele chorou. Falei também para ele que você, Luci, para mim, é quase uma personagem de conto de fadas e de quanto você viajou só para ir me dar um abraço em São Paulo. Já fazem 6 anos isso e parece que foi ontem… ah, esse tempo doido, Luci! Parecem apontamentos dos dias que voam.

Contei que você se encanta pelas delicadezas das coisas e que sou muito sortuda. Ele disse que eu sou igualzinha a tu… Os iguais se atraem – meu pai disse isso em outras palavras e com a dificuldade de quem voa com a mente, mas se prende pelas sequelas do avc. Tem pai, Luci, que é essa ilusão de outro tempo. Fica registrado como se fosse um retrato 3×4 na carteira. Meu pai e o seu são assim.

Falei que a gente chora por qualquer coisa mesmo e que amamos cachorros… até os de rua e que aprendi com ele isso. Sabe, Luci, meu pai fez 91 anos e ele me falou de curas. As dores de quem perde um animal demora mais para curar – ele disse – porque a gente fica buscando presença em qualquer canto e cachorro é quase igual anjo. Mas ele me disse que tem dias que cheira a frio, mesmo nos meus quase 40º aqui. hoje é um deles e quis te escrever, só para nossos abraços se encontrarem nesse universo pleno de contato. porque a gente é assim, gosta de resolver bobagens e de abraçar, às vezes.

Contei para ele, Luci, que você tem a doença da saudade do Tetê e ouvi que essas doenças são cicatrizes que mesmo curadas, ainda ficam a marca. Faz parte – repetiu – e é sinal de que amou, assim como eu, que possuo a doença dos espaços imensuráveis dentro de mim… não tem cura, Luci… mas alivia sempre quando te escrevo… mesmo que sejam cartas que não te envio.

Grata por estar comigo sempre, mesmo longe.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de escrever cartas e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins  Roseli Pedroso


Das palavras das cartas · Projeto Fotográfico 6 on 6

Beda – 6 on 6 – a… gosto.

Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso
Porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte
Mais feliz, quem sabe
Só levo a certeza
De que muito pouco sei
Ou nada sei

Almir Sater

César,

Eu sempre quis te escrever e nunca consegui… hoje, as palavras ganham reforço onde o dia seria seu e coube diretamente minha palavra dentro do seu olhar. Você chegou na minha vida como um olho curioso de padrasto do meu marido e logo se posicionou como avô do meu filho. Daqueles desejos que grávidas têm… você cumpriu todos. Desde o mamão que eu vomitava ao comer até a fruta do conde roubada da vizinha. Você era o olho grudado em nossos desejos e meu filho virou seu neto de verdade, dentro do seu amor.

Para mim, você era sempre uma canoa à espera. Bastava chamar seu nome e você aparecia, como se fosse um super herói… como se estivesse sempre à espera. Como se fosse sempre o condutor do barco que me levava para outras margens. Era a forma segura de travessia… uma placa a indicar para qual lado era melhor seguir. Você foi guia.

Você estava sempre ali, como se estivesse preparado para ser o “pai”, o avô e o amigo. Era pescador e pescava ilusões em seus sonhos… Pescava vontades para os que você amava e peixes para alimentar a gente. E mesmo quando não trouxesse nada em seu embornal, o riso encorajador era mais do que alimento.

Você sempre foi essa margem para onde a gente podia ancorar… e o rumo torto onde a gente seguia mesmo com medo de se perder no caminho. Mas, você, sempre nos levava ao porto seguro e a trilha sonora eram as canções sertanejas, as modas de violas que até hoje quando ouvimos seu nome ecoa na saudade e nos nossos corações.

O lugar que você mais amava era o rio… a vara esperando o peixe… as nuvens alcançando a água como se determinando que seu limite fosse o céu… acho que é seu endereço hoje. Será que depois que a gente morre, o aniversário fica marcado em alguma folhinha?

Sabe, César… acho que não tivemos tempo de agradecer. Você foi embora tão ligeiro como se fosse um peixe que escapou do anzol… Mas, você teve uma importância tão grande em nossas vidas que a gente sempre ri quando vê um rio, um peixe, um anzol, uma isca… e quando a gente ouve uma canção que nos leva a você. Agosto é marcado para mim como seu… e aposto que você também gosta. Minha gratidão profunda por tudo que fez por nós e que seus dias onde quer que estejam sejam como seu aniversário, com moda de viola e amor.


Mariana Gouveia
Agosto é o mês de pescaria e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso

Divã

Beda – Não leio as histórias que você escreveu.

Havia ali tantos detalhes de um século que preferi a exposição das lembranças…
Uma a uma dependuradas em um varal
a sombra das cortinas na janela me fez lembrar dos monstros que espantamos juntas.
Era um dia frio e no calendário a vida brindada a ermo.
Ninguém sabia dizer porque fazia frio em novembro, se a primavera antecipava o verão dentro dos dias.
O santo do dia que não possuía seu nome e nem mesmo havia estrelas para a noite do fim.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de lembranças e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 

Suzana Martins – Roseli Pedroso
PH: Kasia Szelka Photography

Divã

Beda -Deixo para ela as loucuras todas…

vivian maier

O dia vagou em esperas. O vento sacudia tudo lá fora. Da janela revejo movimentos que conheço.
Ela anota.
Fico em silêncio.
Ela revela vontades desconhecidas. Não parece a mesma de antes e nem é.
Torço para que as horas voem. É sempre assim quando a vontade de ir é maior do que a vontade de ficar.
Respiro suavidade numa inquietação que reconheço – leve – minha, de antes.
Falo sobre a instabilidade que me atingiu e deixou morna a vida.
Ela anota a palavra instabilidade e entre aspas está a palavra “eu”.
Não sei se de mim ou dela que falo.
Deixo para ela as loucuras todas…
essa graça leve que ela tem em profanar os
prazeres que sinto.
A palavra suprema e a história contada entre os dentes.
O corpo pensado. O sopro. As dores.
O dia que acontece em rotinas. Mas eu jurei que tudo isso vai passar e vai.
Ela anota e começa a falar de esperança.


Mariana Gouveia
Agosto é o mês das terapias e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – Suzana Martins – Roseli Pedroso
* fotografia: Vivian Maier

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

beda – quais os caminhos azuis que sua pele tece?

Não fora o teu olhar a ditar-me o caminho
e seria mais um na guerra dos sentidos
Contigo sinto azul em qualquer céu.


Edgardo Xavier, in Azul como o silêncio

Ana,


Às vezes, eu volto nas noites, em dias que já fazem parte do passado… essa história de guardar os dias nos calendários que não gosto, mas que fica registrado na memória. Nessas horas, eu fico em silêncio e quase não cabe em mim a respiração.

Já te contei sobre sua pele e as veias azuis? lembro-me que quando a vi pela primeira vez – em algum agosto de algum ano – seu rosto escondido na cortina e vi suas mãos. Eu disse que nunca vi mãos tão brancas, com as veias saltadas e o azul fluindo… Pensei: ela tem sangue azul… Só te falei isso tempos depois, quando já conhecia toda sua pele, tecida pelas minhas mãos, nas curvas onde desenhei corações.

Hoje vi o céu e seu azul celeste… fiquei horas a espreitar as nuvens desenhando formas e o vento ia empurrando uma a uma rumo ao sul. A gente sempre falava do sul e de quais caminhos a gente seguiria até lá. Não fizemos isso e nem tivemos tempo de viver o norte. Ficamos com a bússola nas mãos a rir do nosso centro oeste. Era assim a vida com você… leve como o azul e as nuvens caminhando para o sul.

Esqueci algumas datas – você deve ter percebido – e algumas coisas que eram para serem esquecidas ainda continuam aqui. Já parei várias vezes na esquina da sua rua, como se algo me levasse até lá. O moço que agora é dono da casa me deu flores hoje… Disse que sentiu vontade de trazer, já que nunca mais fui lá. Dei um café para ele em troca e ele disse que o pé de laranjas deu flores e que logo teremos frutos. Ele disse nesse verbo mesmo, como se eu ainda tivesse parte nas árvores. Dei a ele mudas do alecrim que plantamos e que nunca deu flores. Não sei porque.

Fiquei buscando na memória esse dia, para ver se a data diz algo sobre nós… não me lembrei de nada, mas isso acontece sempre aqui… é nesses dias que busco Marte nesse azul do céu para chegar mais perto de você.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês das memórias azuis e de BEDA.
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Das rotinas

Beda -Meu guardião.

Desde que me entendo por gente, sempre ele estava lá, seguindo meus passos, como protetor. Por vezes, só de longe, quieto. Com o capim no canto da boca.

Ele é mais velho que eu dois anos e um mês. Me seguia, e em algumas vezes aquilo me irritava. Depois passei a não ligar. E mais tarde a adorar. Livrou-me de várias encrencas. Era sempre apoiado pela ordem de minha mãe e eu que não ousava reclamar, senão não podia ir além da cerca. E acostumei com minha sombra, que eu repetia sempre para irritá-lo:

– Vamos, sombra.

Resignado, paciente e silencioso, ia atrás de mim pelos caminhos da floresta, na beira do rio, no pé de amoras…onde quer que eu fosse ele era meu guardião.

O único lugar que me sentia resguardada dele era na casa da meio fada meio bruxa meio flor, mas se eu olhasse do buraquinho da janela podia vê-lo ali, além da porteira, atento ao menor movimento meu. Parecia nunca zangar-se com nada que eu fizesse. Por vezes, simulei queda só para vê-lo correr até mim e me ajudar.

Meu lugar preferido era o alto do descampado, no fim do dia. De onde eu podia avistar toda fazenda e o riozinho que serpenteava a floresta. O céu, mudando de cor me encantava.

Um dia, ele se aproximou, sentou do meu lado e disse:

– Não consigo entender o que te faz vir aqui todo dia.

– Não consigo entender porque você tem de andar atrás de mim onde vou. Você já reparou que nenhum dia é igual ao outro, nem a cor do céu, nem o vento?

– Hum…nunca notei não. Pra mim é tudo igual.

– Então, presta atenção hoje e amanhã perceberá que não será igual hoje. Nem o que você pensa.

O silêncio me fez olhar pra ele. Parecia que media cada canto com o olhar. Como se memorizando cada capim, cada brisa. Os olhos parecia notar algo. Mas não falou.

Eu, insistente, disse:

-Tudo isso aqui, é poesia. O capim, o dourado do sol, o aconchego da noite.

– Onde você aprendeu isso? – resmungou.

– Poesia não se aprende. Se enxerga. Você olha e percebe.

Levantei-me e não notei que atrás de mim havia um novo menino. Meu irmão, a partir daquele dia, conheceu uma nova forma de olhar a vida. Mas, eu só fui descobrir isso tempos depois.

PS: Meu irmão, Manoel Messias, junto com minha irmã caçula encaram dia sim, dia não uma máquina de hemodiálise. Estão no aguardo de exames para um possível transplante de rins. Nunca vi alguém com tanta coragem no coração. Já contei sobre ele aqui. Hoje, é o aniversário dele e brindo esse dia com agradecimento.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês dele e de Beda
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Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – Suzana Martins – Roseli Pedroso

Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Beda – Como foi que a palavra te seduziu?

Havia um burburinho em toda fazenda. De boca em boca e com euforia a palavra era Lavorí e que ele havia retornado.
Vi toda gente a preparar a lenha, minha mãe foi cuidar dos frangos para a comida e apenas meus irmãos mais velhos e os meninos da região continham a expressão do medo no olhar.
– É o homem do saco – meu irmão dizia – se eu fosse você, tinha medo e desenhou-me em gestos e palavras um homem sujo, todo roto, com roupas escuras, barba por fazer, olhar estranho e o pior: levava consigo um saco de linhagem, onde dizem – e com efeito na voz – levava as criancinhas que teimavam com suas mães. Enfim, era um desses peregrinos que andavam sem rumo e na palavra do meu irmão medroso – um mendigo. Não tinha casa, nem família e isso segundo ele só acontecia a um homem que fosse tão ruim, mas tão ruim que ninguém mais gostava.

Ele chegou no fim da tarde, com o sol a beijar o horizonte e em contra luz a imagem dele descendo a estradinha me encheu de encanto. Um saco nas costas, algumas coisas dependuradas no cinto da calça e o riso largo do meu pai a recebê-lo tirou o medo que me rondava o dia inteiro.
Depois do banho tomado e o jantar, todos se puseram em volta dele e foi ali que a palavra encanto ganhou minha vida.
Do saco saíram os livros que ele dizia – amanhã vou ler todos para quem quiser – e da boca dele as histórias mais incríveis. Tinha o dom da palavra e explicava tudo com a magia de quem vivenciara tudo aquilo que dizia.
Foi ali que desejei ser palavra para que alguém, um dia, pudesse ler.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês das memórias e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna GuedesObdúlio Nunes OrtegaDarlene Regina Mãe LiteraturaSuzana MartinsRoseli Pedroso

Das palavras das cartas · Projeto52 · Scenarium Livros Artesanais

Possuo a doença dos espaços incomensuráveis.

Se eu pudesse escolher, gostaria de me transformar numa música,
porque além de bonita ela desaparece.
Sumir por um tempo deve ser o máximo.

Luciane Recieri

Bambina mia,

Recebi sua missiva numa manhã seca, já com nuances de queimada em meu lugar. Diferente de você, eu aconteço nas manhãs e sigo rituais que meu corpo já acostumou viver. Coar o café, aguar as plantas, falar com os cães e pássaros, olhar o céu e sua infinidade de cores matinais e ouvir músicas… e daí me componho diante das horas…

Lendo sua missiva me vi durante horas no seu questionamento – quanta espera realizamos durante um dia inteiro? – e pensei nos caminhos invisíveis que cruzamos. No meu último encontro com meu pai falamos sobre o sentido das horas… ele disse que chega um tempo em que as horas não fazem mais sentido e que o sentido do tempo fica registrado no olho. Pensei em você e contei para ele como você “fazia” meus livros. O olho dele lacrimejou e um riso se desenhou dentro dele. Algumas pessoas são destinadas para nossas vidas – ele falou – e fiquei pensando nisso. E de como algumas coisas são comuns entre nós. Como os chás.

O chá ocupa minhas tardes, você sabe… Nas manhãs, eu sou cafeína e nas tardes sigo o ritual dos chás… Aprendi lá na infância com meu pai e tenho minhas ervas plantadas aqui, no quintal. Colho ora o alecrim, ora o hortelã, e outras ervas que tenho aqui… e também escolho a xícara. Sou apaixonada por xícaras e tenho uma preferida… Por falar em xícaras, queria te contar que meu pai ainda tem as xícaras esmaltadas em uma caixa de chapéu e fazendo a limpeza de algumas coisas, encontrei a minha – essa da foto que ilustra a carta – já gasta pelos anos e as mudanças.

Você sabe quantas coisas cabem dentro de uma simples xícara de chá?  Sua pergunta fez meu cuore saltar… eu poderia te responder essa pergunta com todas as memórias que o olho do meu pai desenhou. Nessa xícara com florzinhas amarelas, eu bebi leite tirado na hora, dentro do curral, café com bolo de queijo, na beira do fogão de lenha e chás de erva-doce para aliviar a febre. Ela foi companheira de uma vida toda e estava guardada com ele, como se fosse um tesouro.

Embora meu pai ame café, ele foi feito de rituais de chás. Daria um livro as histórias que ele conta sobre chás. Já te contei que na casa dele tem um pé de canela? Dessa vez, não tive sorte. As folhas ainda estavam verdes e não havia nenhum pau pronto para colher. Ai de mim se arranco qualquer folha sem o consentimento dele! Esse pé de canela é um santuário para ele e foi ali, na sombra dele que nossos abraços aconteceram na despedida. Parece que foi ontem e já fazem 7 dias.

O tempo e sua velocidade além de nós… O tempo e essa ligeireza das horas. Lembro-me que você me perguntou se eu já havia chegado de viagem… eu ainda tenho o olho do meu pai na alma. Acho que possuo a doença dos espaços imensuráveis, bambina. Cada vez que volto, fica um pouco de mim no choro de minha irmã, na benção do meu pai e em cada imagem que registro ao longo dos dias.

A tarde avança… é quase noite… uma canção ecoa aqui e o chá esfria na xícara. Aceitei seu convite brindando o ano 10 de Catarina.

Bacio,
Mariana Gouveia
*Último post do projeto 52 – 52 cartas escritas no último domingo de cada mês, durante um ano –
Scenarium Livros Artesanais
Participam desse projeto
Lunna Guedes Obdúlio Nunes Ortega

Corredores, Codinome Locura

Neste começo d’hoje

tuas costas negavam
qualquer espécie de outono
Afinal
a ideia de estação
é só um tema ilusional
engendrado por humanos
que nunca puderam desenhar
tua coluna vertebral
a dedo nu


Matilde Campilho
Ph: Heather Marie