Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

2 — seremos deuses de cada dobra escura

Luci,

te escrevo em uma madrugada já no dia 2 e aqui a gente “comemora” o dia dos mortos… eu ainda estou com a alma contando os dias em que meu pai virou morto, Luci. Tudo que posso te dizer é que cada vez mais eu odeio esses dias de calendários estranhos.

Fiquei horas na janela da casa dele vendo as galinhas d’angola e o animal parecia conhecer minha dor. Ficou intacta, quase inerte, ali, entre o muro e o telhado curto da casa dele a compor meu silêncio. Pensei na alegria de meu pai com esses seres pintadinhos – será que foi por isso que passei a adorar os poás? – e as perfeições nas suas penas. Para mim, era como se elas estivessem sempre preparadas para a festa, Luci… modelo anos 60. Tudo combinando.

Sabe, Luci, meu pai tinha o contato certo com os deuses… da água, do fogo, do ar, dos animais, do vento… de tudo quanto é coisa que podia ter deuses e para ele, conhecedor de tempo e de um Deus maior, ao maior aceno com a palavra, tirava o chapéu panamá e erguia os olhos aos céus. Eu achava isso de uma fé que muitas vezes fazia o sinal da cruz quando via meu pai fazer isso. Era como se uma entidade tomasse conta daquele homem tão forte, tão simples, tão pequeno diante do universo das coisas.

Desde quando falei para ele do seu pai, Luci, ele confessou uma vez, durante algumas de minhas visitas que ele passou a pensar nos estuques verdes da sua parede e sempre pensava se seu pai já estava comendo normalmente e se ele entendeu o recado do pajé… Meu pai tinha esse dom de ligar todas as coisas em uma só, porque segundo ele, Luci, todo universo é pleno.

O dia, já vai amanhecer, Luci e a angola entoa seu canto em um tô fraco tô fraco tô fraco incessante… as sombras ainda encobrem os galhos das árvores. Parecem os deuses do mal das histórias que meu pai contava. Seremos deuses dessa dobra escura, Luci? Te pergunto, porque já não tenho mais meu pai para perguntar.

Um beijo,
Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes  Obdúlio Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

Scenarium Livros Artesanais

1 – À beira das palavras… um gole de café.

À beira das palavras… um gole de café
(In)versos, Suzana Martins

Pai,

eu confesso que ensaiei mil palavras e busquei nas lembranças coisas sobre você. Uma das minhas irmãs disse que não esqueceria seu olho pequeno, com tanto discernimento para a vida… Já eu, não me esquecerei do café. Desde ao plantio até o líquido negro na xícara.

Lembro-me de que uma vez você exaltou a xícara – o café deve ser sorvido como se fosse o remédio para a cura, e para isso, o recipiente em que se bebe deve ser de igual valor. Seja na simplicidade ou no luxo. Tem de ser xícara – e desde menina, pai, o café me ligava a você. Assim como a chuva.

Quando descobri sua partida, chovia. Eu sabia que não teria você esperando com essa ansiedade de pai na porta… Mas os quase 1000 kms de distância me fez recordar uma vida inteira de cartas, de conselhos, de abraços e de gestos.

O cafezal em flor, o repassar nas fileiras contando os grãos, a colheita, o processo de secagem e depois, a torrefação, o moer e por fim, a alquimia de fazer o líquido. Ainda me lembro das borbulhas e do cheiro a invadir espaços.

Na hora de te entregar ao universo pleno, me fizeram dizer palavras, pai… e isso tudo funciona como um teatro. Era como se eu te escrevesse uma carta e ali falei com você como se brindasse sua vida.

Eu ainda vou te escrever várias cartas, pai e agora, não será mais o locutor da rádio local que lerá… será o vento que te levará minhas palavras e cada vez que minha xícara couber o café, meu gole inicial será sempre em sua homenagem. E meu coração terá sempre esse espaço dentro de todos os ensinamentos e memórias.

Te amo infinito,

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes Obdúlio Ortega Roseli Pedroso e Suzana Martins

Das rotinas

Havia um modo solitário de enxergar presença na vida do cão

Definhava nas horas do dia, em frente à casa abandonada da rua lateral. O abandono era costume nas noites em que fazia sol.

A grama fazia colo para os contos de fadas, escritos nas horas de insônia. Os sons dos carros e suas buzinas e a cidade silenciosa diante das coisas.

Os jornais contavam histórias que alguém inventou. A sorte é tirada na sorte de quem acreditava em figas.

Alguém tentava adivinhar qual futuro ficou no meu passado. A mão única não pertence à velocidade das coisas…

Tudo se definia dentro da lógica do tempo. Havia um modo solitário de enxergar presença na vida do cão. Quando ela me escreveu, me desenhou na porta errada e virei retrato preto e branco na paisagem.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Mas esse quase é um quase que eu adoro

Desse amor, a pele
quase cítrica – agridoce
A gota da chuva – quase sede
o trovão ecoando seu nome -quase grito

e esse nó no peito – quase morro
no seu crepúsculo – quase ardo
em sua história contada – quase vivo

sou real em tua pele – quase poro
em teu voo sou asa – quase pássaro
Do mar que te rodeia – quase rio

das ruas das tuas estradas – quase atalho
das palavras do poeta – quase roubo
o poema que te chamo – todo amor

e do abraço terno – quase encontro
da mão que oferece colo – puro pouso.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

a alma inventada na rua do nada.

Eu invento a Rua de cima… finjo que o silêncio quando ecoa, faz um barulho ensurdecedor! Na rua de cima tem as meninas que cuidam da beleza. Colocam nos dedos, a cor. Tem cada nome o verniz que a moça de cabelos vermelhos desenha na unha. É quase uma tentativa de colar jardim nas mãos.

A árvore que fica além da esquina, floresce. Lá, de noite, eu consigo ver as estrelas todas. É quase vertical, o portal. Os muros altos e as trepadeiras invadem as casas com suas cores insanas. Essa rua, inventei em detalhes. As casas e suas cores vibrantes cheias de sons.

E a vida acontece dentro dessa invenção. A estação acontece dentro das horas. As fotografias do instante sobre o muro. O voo dos pássaros a cruzar a linha imaginária que invento entre uma rua e outra. Tudo ímpar. Os números da rua a combinar com as casas.

A sorte desenhada nos trevos e a alma inventada na rua do nada.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Tenho fé imensa em quem acaba de nascer com asa na vida.

Não cabia na palma da mão a audácia do voo e o casulo abriu-se…
o som e a briga constante com o silêncio. A vontade absoluta de nada. Vidros partidos na reza silenciosa de agora.

Os estranhos se misturam à paisagem do dia e perdem o nome à medida que o tempo avança. Enquanto caminho, penso no cachorro perdido que nunca mais vi… Na rota da fuga, uma estrela desavisada. O moço da bicicleta perdeu-se na cidade encantada. Mandou postal da nuvem que desenhei de madrugada.

Vem a coragem lavada na calçada sem flores. A mariposa voa em volta do lume da rua de cima. Busca a própria solidão em asas. O pé de frutas socorre o faminto.

A rua ecoa meus passos. Era quase isso no ano que acabou ontem… escrevi duas cartas na memória. Nota mental de quem sufoca o grito.

Tenho fé imensa em quem acaba de nascer com asa na vida.

Mariana Gouveia

das coisas breves

Tem noite que a alma queima feito vulcão.

Há alerta laranja ecoando no quintal
a leveza, em dias como esse não sobra aqui.
O vento, finge que passeia e o pássaro de todo dia
busca a sombra dentro da varanda.
Nas miudezas, o jardim é apenas esse vácuo na solidão…
A estação cria ilusão de que a primavera só existe no nome.
Tem noite que a alma queima feito vulcão.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

*Quero fazer crer que é tardíssimo, ou qualquer outra urgência que te acarinhe para longe

Leonor,

quando a tarde vai caindo e o céu ganha os tons laranjas da primavera no meu quintal – esse mesmo que te viu dançar em tardes iguais – eu penso é tarde, Leonor… muito tarde para que chegue alguma respostas das mais de mil cartas enviadas.

É tarde para esquecer também, já que algumas coisas chegam até mim com todo simbolismo que nos rodeou. As ruas do meu bairro com casas coloridas que você fotografou. Quero fazer crer que é tardíssimo, ou qualquer outra urgência que te acarinhe
para longe..

De vez em quando eu esqueço, Leonor… nesses momentos em que o tempo acontece fora do padrão dentro de mim… esqueço até da estação que me rodeia e a vida segue constante no ritmo de antes. Mas logo depois, alguma coisa me leva até seu nome – seja uma canção, um voo de ave, um sol ardente, a chuva tardia de verão, os lugares onde fomos e tudo volta de novo.

Sabe, Leonor, às vezes, parece tudo distante e ao mesmo tempo parece que foi ontem… eu ainda reviro o baú com suas coisas e vasculho as correspondências que o carteiro deixa na caixa de correios. Também escrevo cartas que não envio, como essa de agora, só reafirmando que ainda te espero.

Beijo meu,

Mariana Gouveia
Missivas de Primavera
Scenarium Livros Artesanais
* retirado do texto do livro Poética de Ana Cristina César

Corredores, Codinome Locura

Tudo isso ocupa agora lugar na mesa.

Era como escrever poemas na pele dela – usar os dedos como tinta e amanhecer lilás depois da madrugada intensa – pintar devaneios entre a nuca e o cabelo. Caçar a solidão que existe na menina daquele olhar.

Tatear a pele, esculpir vontades e ir decorando textos obscenos que ela diria se estivesse aqui. Citaria Anaïs Nin, se não misturasse os poemas, ou apenas ficaria em silencio para ouvir a respiração.

Olhou a mesa com as coisas banais. A panela preta que era da mãe. Virou objeto de decoração, ali, no mesmo lugar onde a ama todo dia. A bandeja com os medicamentos que toma. Isso a fez lembrar que era dia – hoje – de ir buscar mais.

O pacote de pão. Riu ao se lembrar do pão que gerava uma longa conversa entre o pão daqui e o pão de lá.

Tudo isso ocupa agora lugar na mesa.

Veio a vontade absurda de jogar tudo fora. Fazer aquelas cenas de filme. Conteve-se.

Voltou a desenhar rotinas no corpo dela. Sabia de cor os caminhos todos. A textura, o convite da boca. O olho de fome e essas vontades todas.

Era como escrever poemas na pele dela. Era apenas a cadeira na solidão vazia.

E no silêncio de minhas palavras ela quis ir.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – dos corações que vejo

“Ela me dava a mão e então nada mais faltava.
Bastava para que eu me sentisse bem acolhido. Mais que beijá-la, mais que dormirmos juntos, mais que qualquer outra coisa, ela me dava a mão e isso era amor”.

Mario Benedetti

Bambina mia,

acostumei-me a te escrever no dia 6 de cada mês… talvez, porque ninguém entenderia essa coisa estranha de ligar fotos com carta – ou missiva, como tu gosta de dizer – mas você sabe que em alguns momentos, imagens e palavras se unem em uma perfeição para além do que somos. Talvez, por isso, eu quis falar sobre o cuore… os que vejo aleatoriamente, são os cuores que meu olho alcança.

Já te contei, bambina, que meu olho vê coração em tudo quanto é lado? Era uma folha aleatória? Não! Vi um coração na secura do cerrado… os meus, dizem – que sou assim desde criança – que vejo coração em tudo que encontro.

A gente sempre brinca que coração é um músculo, mas para nós a palavra tem o ritmo do tum tum, mesmo quando ele absorve, em alguns momentos as lágrimas dos olhos. Ou quando a folha imita o choro da natureza nas gotas de chuvas. tanto eu quanto você amamos esse momento.

E as vezes, bambina, o nosso cuore parece metade… seja ocupado por alguém, seja cheio de saudades… confesso que sinto saudades – embora saiba que a palavra não te alcança – de tantos momentos com vocês. Dizem que nessa hora o cuore se ocupa com as lembranças dos momentos bons. Posso enumerar todos eles…desde o encontro no aeroporto ao café da manhã… desde a chegada, ao abraço de despedida…

Bambina, sabemos também que em alguns dias o nosso cuore parece estar em um quarto escuro – conheço essa solidão ou sentimento e tu também – e em outros é como se estivéssemos em uma escola de samba… Dá até pra ouvir as batidas.

Em outros momentos, é como se ele fosse pequeninho e um ser gigante tomasse conta dele. Já passou por isso, amore? Eu já! quando vejo o céu, a tarde, se apoderar das nuvens e o prenúncio de uma tempestade se aproximar, eu abro os braços e meu cuore chama pelo seu. Grito seu nome e preparo para os tuns-tuns… Seja em poesia, ou em cartas, o cuore sempre é o mote principal. Como hoje, que te ofereço o meu em forma de 6 fotos para retratar meus carinho.

Bacio,

Mariana Gouveia
Projeto fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna GuedesObdúlio Nunes Ortega Roseli PedrosoCláudia Leonardi