Das palavras das cartas

Pai,

Pai, mais uma vez venho aqui, nessa data dizer do meu amor e consagrar seu dia. O abraço eu queria dar pessoalmente, mas a distância é sempre esses 730 km de estrada entre a gente. O céu amanheceu bonito aqui e no seu mês, me permito falar das borboletas – lembra como desde cedo eu corria atrás delas? – e aqui no meu quintal, parece desvios delas rumo aos quintais. Aparecem tantas aqui, que algumas já fizeram morada no pé de mentrasto.
Pois é, pai… Eu consegui plantar mentrasto, que descobri ser a erva de São João e as borboletas amam as florzinhas que, na minha infância faziam parte dos chás curativos. Ali também tem as flores do campo e a erva cidreira… Devo te lembrar que tudo isso me leva ao senhor. Muitas vezes, eu planto algo só por me remeter ao tempo em que vivia sob seus cuidados. Hoje os tempos são outros e embora sua lucidez esteja preservada, você não entenderia os tempos de agora. Por isso, é bom te ver nas chamadas de vídeo apenas rindo ao me reconhecer ou simplesmente me emocionar com teu silêncio.


A vida te faz forte e assim, vamos seguindo dentro dos dias.

Feliz aniversário, pai!
Te amo!
Mariana Gouveia

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – — Quem sou eu?

É a pergunta que me faço às vezes, e sempre que encontro a resposta vem logo outra pergunta, porque me vejo mutante, várias. Depois de uma poli quimioterapia virei poli. Poli gratidão, poli esperança… poli amor. Passei a vivificar os dias e me permitir essas mudanças que os dias e as ocasiões me apresentam todos os dias.

Enfrentar uma doença grave me fez mais forte. Me fez mais leve, mais corajosa diante da vida. E dos dias. Às vezes, eu choro e rio. Às vezes, eu rio e rio – às vezes, mar – maresia sem nunca ter sentido a sensação de sal na pele, mas com o sabor na boca a programar saudades, vontades. No tato com a natureza sou pouso. Aprendi a ser escolha e minha escolha foi ser livre. Na beira do abismo você tem opções: ou pula ou volta…eu escolhi voar.

Sou a natureza viva e colo para os que querem pouso… Sou a natureza e a liberdade de amar os animais.

E sou pouso para os amigos e amparo. A que acolhe e é acolhida.

Sou a vivacidade delas, sou a militante, a que pontua, se mostra, se doa e recebe. Sou abençoada pelas pessoas que o destino coloca em meu caminho.

Sou a que escreve e a que lê… a que aprende e sempre busca mais. Sou alma, palavras e verbos. Essa, sou eu… com as nuances de um conjunto de pessoas, de animais, de amor e fé.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Scenarium Plural Editora

Participam desse projeto:
Darlene Regina Lunna Guedes — Obdulio Nunes Ortega

Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

b.e.d.a – Tenho um dragão de estimação.

A fresta da janela dava para o céu.
Dentro da noite, quando a lua acontecia
no ponto sul do quintal,
… invadia o meu quarto.
E alguns fenômenos estranhos aconteciam
no espelho do guarda-roupa.
O dragão das histórias ganhava vida.
E eu dormia abraçada com a lua.

Mariana Gouveia
Projeto Sete Luas – No cais Outra vez
Scenarium plural Editora
*imagem: Jade Danielle Smith

*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.


Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

b.e.d.a – Rituais

Quando pequena, aprendi a fazer certos rituais.
Cortar os cabelos para crescerem mais rápido.
E, nas noites serenas de sextas…
Acender a fogueira para revogar a graça de tudo,
e podia ser colhido.
Unir agulha,
linha e pano branco para cerzir as quebraduras

Mariana Gouveia
Projeto Sete Luas – No cais Outra vez
Scenarium plural Editora
*imagem: Ahndraya Parlato

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Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

b.e.d.a – Dentro

Ph: Pinterest

Rebatizei meus silêncios de palavras suas.
Revivi orgias inteiras, plenas, dentro de tua pele.
Era isso que eu chamava de entranhar mesmo quando não estava dentro.

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium plural Editora

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Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

b.e.d.a – Cor de anil

Tinha cor de anil a manhã que te escrevi… tudo azulava como se fosse pintura.
O sabonete, no lugar dele em estado de pouso.
O cheiro a invadir tudo que é canto. Lembrei-me de sua pele que nunca toquei, e das diversas vezes que chorei ao dizer seu nome.
Tudo era esse seu gesto no gostar e suas frases eu escrevi no espelho. Mas lá fora tudo era cor de anil, As trapoerabas se espalhavam ao redor do pé de boldo. Cresceram ali, sem ninguém plantar. Era quase uma infinita coleção de flores espalhadas no quintal.
Fiquei horas ali, a espiar.

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium plural Editora
*imagem: Stavros Stamatiou

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Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

b.e.d.a – a palavra amor

Eu não podia estar melhor dentro da palavra amor. Ela faz com que eu abra a porta com poesia.
Levou-me dentro do paraíso do seu nome. Mostrou-me para sua cidade pelos olhos dela. Foi esse dia em que eu estava sem ter ido.

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium plural Editora
*imagem: Nhu Xuan Hua

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Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

b.e.d.a – saudades…

Engulo sua ausência com café frio. Uma garoa que não existe aqui, cai agora.
Era quase um ciclone a ecoar dentro do peito.
Avisto a saudade no espelho. Bem ali onde o coração alcança.
Repito o nome dela dez vezes. Canto a canção que ela gosta.

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium Plural Editora
*imagem: Claude B. Tenot

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Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

b.e.d.a – O dia rompeu com seus azuis…

A cor preferida dela. Lembro que amava meu céu, e quando eu o descrevia com os detalhes que ela não conhecia, a sua voz ganhava cor de alegria.
Uma libélula pousou no meu varal. Ganhou equilíbrio contra o vento e ficou. Era nessa hora que eu te ligava para escrever o encantamento da cor.
Ainda repito os mesmos gestos, mas só por costume, sei lá.
É estranho continuar tudo igual e não ser mais o que era. O dia segue nas rotinas das coisas.

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium plural Editora

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Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

b.e.d.a – Há asas espalhadas…

em tudo que é pouso,
havia um vento feito de dança.
O rádio tocava uma canção antiga.
Os meninos ainda na rua e o barulho da bola no muro da frente.
Na ponta do telhado, a lua segue seu destino. quase indiferente à saudade que arrasta o pensamento e o coração.

Mariana Gouveia
Projeto Sete Luas – No cais Outra vez
Scenarium plural Editora

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