Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

b.e.d.a – Descobrimento

O dia segue a rotina das lendas no diário…
Havia uma carta, escrita com letras miúdas, que contava a história.
Alguém em algum lugar comemorava o dia da Terra. Outro, na aula de história, contava sobre o descobrimento do país. Ela lia mensagens de um lugar distante.
Abriu o baú das memórias … lembrou-se do aniversário da amiga. Cantou canções da infância. Visitou com isso os bosques e sua história. Calçou o chinelo da propaganda e foi ali viver.

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium plural Editora

*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

b.e.d.a – em solidão peculiar

N’outro dia, ao atravessar a rua
– em solidão peculiar –
avistei um pequeno traço de lua no céu…
um risco prateado – o teu sorriso dentro da
imprevisível quietude das coisas

Mariana Gouveia
Projeto Sete Luas – No cais Outra vez
Scenarium plural Editora

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Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

b.e.d.a – Carta a Al Berto

Fala-me tu do Amor…
e dessa coisa esquisita que é o tempo com quatro dedos de distância entre o ardor das línguas e a asfixia dos corpos.
Fala-me tu do Amor e desse desejo que arrasta a proximidade que anula todos os intervalos em pequenas existências que de tão insignificantes desaparecem numa doçura e amargura.

Conta-me do constante faz e refaz, de ressuscitar e morrer, de adormecer e sonhar, do conforto da luz dos dias na realidade que nos mata. Porque do Amor também se morre e também se vive, como alimentação programada às calorias necessárias para respondermos.

Al Berto

Caro Al Berto,

Aqui trovoa e Cássia Eller canta e recanta ETC no celular… eu poderia endereçar essa carta para além-mar e dizer que era ali, diante das telas, que suas poesias reverberam em minha pele. Onde você era voz, quando eu queria gritar de amor? Onde quando você era escrita e eu arrepios? Quando os poemas que você escreveu há tanto tempo poderia causar o caos em meu interior e assim fazer minha alma flutuar nas memórias de amor?

Aqui chove e eu penso que o infinito devia ser feito de tardes de chuvas. O cheiro da terra a invadir os quartos e as cortinas dançam ao som do vento. Você adoraria conhecer o vento que mora no meu quintal e é bem ali, na curva do muro que o ipê solta o dourado de suas folhas. Daria bem um poema seu, meu caro…

Queria compreender todos os oceanos e dizer-te que em minha casa as aves nascem nos vasos onde brotam as orquídeas e que há dias em que a solidão é mais cruel e você sabe do que falo.

Sabe, Al Berto… escrever-te é como acelerar o tempo do mundo e você é poesia dentro desse tempo… A louça por lavar e a chuva a invadir a sala com sua atemporalidade e eu a imaginar esse diálogo único… Já suspirei lendo o que escreveu há tempos atrás e é tão atual em mim. Já respirei na porta da cozinha enquanto o cheiro das ervas do meu quintal chama meu nome através da essência bruta de viver… é bem ali que quero morrer dentro de sua overdose de beleza.

Os homens que você citou em seus poemas são os que matam hoje em nome do amor e por isso, tantas vezes perdi o rumo de casa e fui ser alento em algumas esquinas levando o verbo para quem perdeu a fé e meu silêncio servia de moradia dentro da dor. Cheguei a declamar um poema seu para uma alma que apenas sentia a dor… e logo depois ela se acolheu em meu abraço como se eu fosse o próprio poema. Era você ali, sendo voz em mim para ajudar quem não acreditava mais em poesias.

A vida é esse vazio cheio no meio de tantas coisas que não têm a ver conosco e são tantos os olhos a nos  espreitar e descobrimos que isso é o viver na sociedade, mas sempre existe um olhar que sendo de outro é o seu…

Li dias desses que é a poesia que vai nos preparar para as lutas… então, que seja isso. O mundo de hoje é feito dessas poesias que nos toca a alma como as suas.

Grata por ter deixado essa válvula de escape para que a gente pudesse enfrentar o mundo atual.

Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural 8 – Abre Aspas
Scenarium plural Editora

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Corredores, Codinome Locura

b.e.d.a – Brancura

Brancura

É quase um pecado a brancura da pele.
O toque, rezo – quase.
o silêncio é quebrado pela respiração suave – ou rápida…não sei.
O roçar provoca barulho interno de carícias na alma.

É quase uma tentação a brancura da pele.
Como se tocasse fosse manchar de digitais… as minhas –
Tinha a disposição do encanto e de ficar por horas e horas, ali… Só a olhá-la.

É quase um suspiro a doçura da pele.
Eu a toco. Respiro.
Quase um origami de amor.

Mariana Gouveia

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b.e.d.a – Dia pintado

Ela desenha meu dia com todo cuidado.
Vai dando cores e risos para eu respirar.
Repete a intenção duas vezes, enquanto a madrugada avança para o dia pintado. Me envolvo dentro do abraço dela.
o pássaro de todo dia me vê. Avisa do ninho ali perto.

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium plural Editora
*imagem: Tumblr

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Scenarium Livros Artesanais

b.e.d.a – Boca da Noite

Eu sou o gosto atrevido
dentro do medo.
O cansaço das manhãs
onde o vento leva
a maresia

Essa noite negra
sonâmbula.
Céu encoberto
a procurar
o norte

Essa voz muda
que cala… silencia
e morre!

Mariana Gouveia
Projeto Coletivo
Scenarium Plural Editora
*imagem: Pinterest

Corredores, Codinome Locura

b.e.d.a – Brisa

Brisa

Não pude ver.

Apenas senti a brisa e tinha certeza de que estava ali.

Mariana Gouveia

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b.e.d.a – Sempre viajo com duendes.

É verdade!
Há um que já é meu conhecido… ele usa chapéu de aba curta, verde. Tem um relógio engraçado que faz um barulhinho estranho, quase que de minuto a minuto. Sempre se senta ao meu lado, e fica sorrindo com aquele riso estilo Coringa de baralho.
Hoje, quando ia para o trabalho… se sentou ao meu lado.
Distraída comecei a rabiscar palavras na janela do ônibus. Chovia. Tentava fazer um poema. Acho que fiz…
Enquanto eu escrevia ele repetia várias palavras com a sílaba Re. Algumas eu usei:
reinventar, reequilibrar, reencontrar, reavaliar… reamar, remarcar, remar…
Ele sempre desce um ponto antes de mim… mas, nem percebi que ele havia cochilado.
Quando fui descer, ele se assustou e brigou comigo:
– Agora vou ter de andar um bocado, resmungou.
Eu falei baixinho: ‘ vai voando’…
Enquanto seguimos rumos diferentes ele respondeu:
– Acha que tenho asas? Onde eu moro, a gente come asas.
Falei: ‘ puxa, nunca irei à tua casa’…
Rimos.


Mariana Gouveia Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
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b.e.d.a – Desenhei aquela rua…

no papel… aquela em que eu te esperava na esquina.
Na casa da vizinha tinha bandeiras coloridas… e risos infantis.
Alguém escreveu uma carta no muro.
Contei-te da delicadeza do gesto… tento fazer com que você compreenda a minha história.
Por isso, desenhei aquela rua no papel.
… a rua ficou laranja para eu te mostrar que o caminho é a escolha da Cor.
Senti o cheiro da fruta a invadir a alma. O sol rompia a barreira das nuvens.

Mariana Gouveia Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
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b.e.d.a – Desafios diários

As horas não passam no sentido das coisas. Ela anota meus desafios diários.
A cortina não combina com meu estado de espírito. Permanece fechada e isso foi ontem.
Hoje, eu falo calada. Eu olho o relógio. Ela olha o relógio… Anota! Deve ser essa pressa de ir embora que me move.
– Pra onde?
– Do nada para lugar nenhum.
Eu tive de desenhar um mapa.
Falando em mapa… tive de fazer o mapa astral dela. Falei de horóscopo. Ela riu.
Ela tinha síndrome de fuga.
Diagnóstico conhecido e exemplificado em palavras confusas, que eu precisaria de um dicionário para entender.
– Não quero fugir. Nunca quis. Falei entre um sussurro que acho que só eu ouvi.
Ela anotou.
O relógio na parede.
O tic-tac só não era maior que meu suspiro.
O tempo mudou de repente.
Não quis dizer que não acredito em meteorologia. Seria considerado fuga do tempo, e ele, pra mim, seria como diz a música:
um dos deuses mais lindos.
E ela disparou a falar de canções.
Dancei.

Mariana Gouveia Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
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