Sou feita de cantos… Caberia em mais de mil… na cidade, no quintal, na rua de cima. Mas, o primeiro canto que escolhi, dá para lugar nenhum… É um pequeno espaço entre a parede e a inspiração. Uma janela que não se abre, nem se fecha… o meu portal.
O canto do muro, no quadrante leste, onde o sol a cada manhã doura tudo que é vida no meu quintal.
A varanda com suas cadeiras e a calma servida no café da manhã… Onde passo grande parte do dia. Seja para aproveitar o momento ou nos afazeres entre o artesanato e as fotografias. Quase grito que o canto que me cabe é entre esses muros.
Mas o artesanato e seu espaço é meu canto onde esqueço do tempo. As linhas, os tecidos e acessórios e a leveza de espaço. Meu tempo.
As fotografias – uma das minhas paixões… as máquinas, o espaço, o estudo… é onde sou imagem.
Embora tenha tantos cantos – que não cabem aqui – a cozinha é meu lugar preferido. É onde sou capaz de virar criança e ficar horas dentro das lembranças. Na louça que herdei de minha mãe… no alimento a ser preparado. Mas, mais do que ter um canto, sou essa memória de espaços e lugares. E assim, cada vez mais, sou eu.
Mariana Gouveia Projeto 6 on 6 – Scenarium Plural Editora
Algumas palavras nos abraçam. É quase como alguém que estava de viagem, chegou e o abraço mata a saudade dos dias. Li sua resposta um monte de vezes. Reli em meio a jutas, fios, linhas, agulhas e cores de Natal… e soou tão estranha a palavra Natal. Mas, para quem faz artesanato, natal começa em meados de agosto e reverbera em setembro. São tantas linhas entre o vermelho, o verde, o tecido xadrez, o branco… a barba do Papai Noel…
Fiquei presa na minha ilusão de alguém, pensando como será a vida em dezembro… e fico assustada com a possibilidade de ruas cheias… preciso respirar!
Durante essa pandemia sai muito pouco, por extrema necessidade e vi uma cidade normal. E eu, que antes amava a palavra multidão entrei em pânico, dentro da segurança do carro, vi as faixas de pedestres sendo tomadas por gente… uma multidão!! – sem máscaras, com elas no queixo, na testa, na mão – que cheguei a odiar a palavra.
Recebi uma encomenda para formular tabelas de cores para um trabalho de uma revista. Usei as cores do meu quintal… As cores vão se formando em minha frente e eu penso em você… na modelagem do pão, na cor em que foi se formando quando ele já estava quase pronto e nos utensílios vermelhos de sua cozinha. A palavra suspiro ganhou fôlego no meu peito – é outra palavra que gosto muito: suspiro – parece os doces que minha mãe fazia com claras de ovos e coloria para dar sentido à mesa do natal… Essa é uma palavra que não gosto, apesar de gostar de bordá-lo e enfeitar a vida de alguém.
E devo confessar que acho também a palavra carta extraordinária… e sorvo missiva como quem bebe um gole de ristreto e penso em você enquanto tento imaginar porque alguém sumiria assim, como a sua correspondente. Vejo tantas possibilidades dentro do silêncio, lembro-me de tantas outras que surgiram em minha vida como fôlego de carinho e de repente, viraram fakes de esperança em muitos nomes diferentes. É quase a mesma sonoridade do miss you… e a palavra me leva à uma que minha mãe repetia em um ditado popular…Costume.
Fomos feitos para acostumar. Essas coisas da vida em comum, que ficam marcadas, como a canção do Roberto, que tocava lá na minha infância. O tempo é o remédio para tudo e as manhãs de sábados para a escolha dos ingredientes de um diário, embora hoje ainda seja terça e eu preciso deixar as linhas dessa carta para voltar para as linhas dos bordados.
Grazie mille (outra palavra que amo e que tem a sua sonoridade em mim)
Entregou-se tanto ao vício da luxúria que em sua lei tornou lícito aquilo que desse prazer, para cancelar a censura que merecia. Dante Alighieri
Entrei chamando pelo nome dela. Uma canção e a voz dela cantarolando baixinho me fez rir. Pediu a toalha que estava sobre a cama e surgiu nua, dançando imitando o ritmo da música. Hoje tento lembrar qual, mas não consigo. Acho que a visão dela nua é a única coisa que minha memória registrou. Na ordem a seguir do “enxugue minhas costas” minhas mãos a tocou. Senti que a pele arrepiou. A dela e a minha. Jogou os cabelos de lado, para que a toalha passasse pela nuca e nesse instante uma magia aconteceu. Não sei explicar qual desejo se apresentou maior. Ou se meu espanto diferenciava os momentos. O que sei foi que o que aconteceu a seguir ultrapassou a vontade normal. Na mesa ao lado da cama, as taças, o vinho e as uvas envolvidas no gelo em uma travessa. Ela riu e a segurança do riso, no toque me paralisou. Me pegou pela mão e me direcionou na tarde que se desenhava lá fora. Não sei determinar quem começou ou qual respiração era mais intensa. O que sei é que fui levada ao labirinto mais mágico que vivi na vida. A sensação de plenitude me atingiu e ainda hoje, quando penso em tudo, sinto a mesma coisa. Pensar em como aconteceu me faz reviver cada instante e é isso que me abastece de poesias para continuar vivendo.
– A tarde transpira ocasos na vida. Dos mais bonitos! – ela disse. – A tarde transpira surpresas inimagináveis antes – eu disse. – Algo como proibido? – Algo como a luxúria…Algo que nunca pensei fazer. Mas agora fico a pensar que parece que estava a esperar por isso desde sempre. – A tarde faz isso comigo. Sempre desenhei isso aqui, esse instante e agora que você está aqui, parece sonho. – Um sonho bom, espero. – O melhor dos sonhos! – ela disse num riso entre beijo e toque. E a promessa de mais tardes e noites e manhãs febris me fez querer que os dias durassem mais do que as horas todas que eu teria, só para vivê-la.
O relógio me cata a procura de tempo.
Enquanto viajo para dentro do aconchego, o espaço viaja dentro de mim.
Respiro ansiedade para o encontro. Sei que vou sentir saudades, mas vou.
Às vezes, é preciso enfrentar as lembranças. Reviver instantes de ontem.
Colher sorrisos de crianças que brincam. Conhecer outras que nasceram e são tão minhas que se misturam em mim.
Hora de pintar nas emoções do dia a cor do amanhecer, o tom elevado que desponta horizonte afora.
É ali, dentro da memória que busco esperança.
O dia já é quase e a noite já foi.
Amanhã já é quase hoje e é pra lá que eu vou.
Vou colher vontades e respirar melodia no riso que ainda vou viver.
Às vezes, é preciso repor a energia perdida.
Hora de voar.
As horas aceleram nesse tempo que transformaram os dias entre o equinócio de Outono, que já aconteceu, e o da primavera, que logo chegará. Os dias tem sido anormais por aqui.
O sol, tão comum, dessa vez, parece cada vez mais próximo do meu lugar, que para além da beleza faz as temperaturas chegarem em um nível insuportável. O termo Cuiabrasa nunca foi tão propício.
As queimadas atingem o Pantanal e chega até meu quintal na fumaça que faz o nível de umidade do ar ser comparada à do deserto. Algumas folhas caem vindas pelo vento.
O inverno em sua fase mais intensa e cruel, onde encontro a beleza no caos. As misturas das estações, dentro do misticismo da palavra e nos rituais para a cura.
A esperança chega nos ritos dos animais que se preparam para o equinócio da primavera, enquanto os dias se antecedem a espera da estação das flores.
O sol, em sua incidência maior nas horas do dia reflete nas flores do quintal e no termo aequus (igual) e nox (noite), quando ocorre o equinócio, a poesia acontece no meu lugar.
Como comecei o mês te escrevendo, finalizo agosto nesse diálogo contigo. Te encontrei na madrugada…. no lugar improvisado na mesa da cozinha. O café espresso na xícara onde pousa uma borboleta. Te contei da lua? Ela estava exuberante ontem. Hoje, ela é uma bola vermelha. Linda e triste. Enquanto te escrevo penso que te levei pela mão para te mostrar a rua de cima, na madrugada. A brisa suave me fez te invocar presença. Você não aguentaria o calor – mesmo em pensamento – que fez hoje, por aqui. Fui mostrando-te a rua de cima, a casa amarela, onde o sol vibra em qualquer tempo – lembra Adélia e seu poema Impressionista – e a árvore, que está ali, há anos, faz barulho quando passo. Parece dar um bom dia e eu assopro – como todo dia – em direção às folhas e elas vibram na intensidade da hora. Há sempre um gato preto – acho que nunca falei dele – à espreita e mia como se eu tivesse algo comestível na bolsa. Todo dia! Para desespero dos cães que odeiam gatos. Depois da lua de ontem, da madrugada morna, o dia foi insuportável. O céu e o cinza da fumaça a deixar a alma triste. Agosto foi muitos meses dentro de um mesmo mês e vibro com a chegada de setembro. Logo será primavera e com ela virá a chuva. Abraço-te ainda com sua voz a ecoar por aqui. Amo tu!
Para te escrever eu cumpro um ritual de todo ano, nesse dia. Eu ajeito as lembranças uma a uma e vou celebrando você na minha vida. Poderia dizer que é a minha inspiração desde sempre. Lembro-me de que guardava seus cadernos de poesia e desejava muito ter sido eu quem tivesse escrito. Rastreio na memória você ainda menina – com seu uniforme de normalista – a surgir na estradinha da fazenda nas sextas- feiras e a curiosidade não me permitia dormir para ouvir suas histórias da escola. Depois, viajo mais adiante quando você se casou e foi viver sua vida. As minhas férias, a partir daí foram com você e seu jipe verde, a vasculhar seus batons com gosto de uva, a experimentar suas roupas e calçados. O melhor presente foi os meninos… Com eles, aprendi o amor incondicional de tia e a acolher seu olhar de mãe. A vida foi dura com você… mas ao mesmo tempo foi generosa quando te deu as meninas. Te vi corajosa diante da perda. Gigante diante da dor… e frágil diante das netas. Te vejo menina diante da vida, magnânima cuidando do pai e tão generosa com aqueles que te cercam. Para mim, você será sempre a minha Mia… aquela menina de uniforme, com meia 3/4 e sapatos de verniz. Uma guerreira que chora mas que todo dia levanta movida pela fé. Uma artista sem igual, com a magia nas mãos a criar arte em forma de carinho. A vida nos levou para longe uma da outra, mas estou mais perto do que imagina. Dentro dos dias na poesia que você retrata quando cria, no jeito corajoso ou medroso – de enfrentar a vida. Na última vez que nos vimos você me levou pelas ruas do seu lugar para conhecer os ipês que douravam a cidade. Essa foto é uma das muitas que encantei de ver sob seu olhar. Ser sua irmã me torna melhor. Hoje, te desejo amor além da medida e toda felicidade que alguém pode ter. Agradeço a maneira como cuida do nosso pai. Te amo muito mais por isso. Que tudo de bom te aconteça sempre!
Alguns gritos ecoaram na noite passada, pássaros noturnos rasgaram o céu do meu quintal. Se eu tivesse medo, diria que esses voos rasantes foram inspirados em uma noite de terror. Trovejou longe na tarde – achei que ia chover- e chamei teu nome… Mas, foi só uma nuvem passageira e o sol continuou em sua intensidade máxima enquanto as fragilidades secretas das palavras vagou entre o que é Plural e singular e eu lembrava das sementes que você gosta de estourar.
Enquanto te escrevo nessa manhã de sábado a vida acontece logo ali, na rua de cima. Ouço risos de crianças e resolvi dialogar com você através dos ecos que vem dali. Eles costumam brincar como antigamente. Jogam bolas de gude, amarelinha e empinam pipas. Às vezes, a rua de cima é invento meu… às vezes, não… Lá, na rua de verdade, vejo um menino que não ouve palavras comuns – e nem escuta o que eu digo – mas que entende o que mostro. Ou o que leio. Comecei a ler para ele nas sextas -feiras. Alguns silêncios só podemos ler em braile ou deciframos códigos que nem sabíamos saber.
Às vezes, é realidade bruta. As crianças empinam as pipas, que enroscam em fios de alta tensão e ali, se tornam esqueletos de pipas que ao menor vento fazem barulho enquanto o vô da casa amarela fica tão ranzinza que a rua fica quieta. E o menino que não fala, nem ouve fica espiando eles a correrem para lá e para cá, em busca da pipa perdida.
A minha rua é quieta como no dia em que o vô da rua de cima fica ranzinza – eu expliquei para ele a palavra preguiça dita por você e ele preferiu a ranzinza mesmo – com exceção dos passarinhos que se agitam e voam para a árvore do vizinho, depois que meu quintal ficou “pelado” de árvores.
Sobre a noite passada ainda, tem noite que a solidão é feita de asas e voa rua acima, noite adentro e eu só vejo as luzes azuis de tvs ligadas refletidas nas janelas com cortinas esvoaçantes na rua de cima. Isso me lembra o relâmpago que o céu reflete e penso no som do trovão e da vontade de chuva que tenho. Outro vulto de voo de pássaro me assustou… pensei em você e nas nossas conversas de pássaros.
Por acaso, você tem medo de pássaros?
Tem coisas suas que ainda não sei – ou até sei, quando suas histórias se misturam nas minhas – mas a vontade foi de mergulhar vermelho adentro quando um trovão ecoou longe, na noite passada e a lua estava magnífica em conjunção com Saturno e Júpiter. Dizem que hoje tem de novo… Vem ver comigo?
“Em algum momento uma árvore foi plantada e o Universo, tratou de regar o instante como único e o amor como incondicional”.
Eu sou a folha da árvore e você o galho de sustentação. A luz solar que me soprou para o chão – eu, sombra – e você, o pomar que dá frutos e me trouxe de volta para casa. Você, minha casa. Através de noites que fiquei sem dormir, você era o sono que eu acalentava. Eu poderia descrever cada momento único entre o riso e o choro; entre a vitória e a derrota e a mão estendida para ensinar o caminhar. Sempre o deixei livre, para escolher seu caminho dentro da liberdade que acredito. Fui uma história que te desenhou e indicou caminhos e te mostrei o céu e te fiz entender sua dimensão perante o Universo e nossa pequenez diante de tudo. Cantei canções para que você dormisse, para que acordasse, para que vivesse e entendesse que a vida é essa música incessante e que toca sem parar e por isso você cantou comigo e junto fizemos a trilha da nossa história. Falei de fatos de anos atrás e você quis descobrir a história e o mundo era pequeno demais para além dos seus desenhos, onde você desenhava a floresta e o rio e do rio, o mar… No meio do mar era uma ilha e na ilha, a caverna e te falei de deuses e de vilões… Dei-te herói… E você conheceu a retidão do homem que me ajuda a te amparar, e me equilibra nos momentos de ser mãe. Eu acreditava que ser sua mãe era a melhor fórmula criada. E acreditava que podia te proteger de tudo. Ao longo da estrada arborizada, virei folha da tua árvore e assim, fazia parte da sombra que te protegia. Você está crescido, já não acredita mais nos contos de fadas, mas diante de tudo que viu e ouviu já sei que nunca vai perder meu caminho e vai seguir o seu dentro do exemplo que aprendeu a conhecer. Mas eu ainda acredito em tudo que te contei… E ainda assim, daquela árvore, céu à noite, ou sol de dia, é o meu galho de sustentação. Das histórias que contei e dos contos que inventei você é o personagem principal de minha vida e a minha melhor poesia e eu o amo profundamente.
Mariana Gouveia
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.