Ela já escreveu diário e ela ainda escreve diário e descreve dentro dele a rotina de sua cidade – várias, dentro de uma – ora nas madrugadas a vasculhar calçadas; ora nos tropeços entre os estranhos e as personagens que busca em cada sombra, olhar.
Ora, o amor e as tempestades que ama.
Ela escreve diário e em cada dia registra momentos únicos.
Os que já li e os que ainda não vi, mas que sei belos diante da alma que expõe nas palavras que escreve.
Aguardo Septum como quem espera a primavera e já adubo a emoções para quando folhear o diário dela.
Ela escreve diários e também escreve missivas – como costuma dizer – porém, dentro das palavras que encanta ela faz ainda melhor quando costura sonhos
Ela é Lunna Guedes e junto comigo e mais duas lindas que apresentarei nos dois próximos dias, lançaremos Diário das quatro estações. Pela Editora Scenarium livros artesanais.
O lançamento será no dia 27 | 08 | 16 – a partir das 16h
Biblioteca Mário de Andrade
R. da Consolação, 94 – Consolação
São Paulo.
E eu espero você lá!
Me vi em uma poesia feita, transversal. Dentro das missivas que uma me envia. Eu era literária numa esquina e mais três meninas me acompanhavam. Havia setas para todos os lados. Diários indicando um ano dentro das quatro estações. Encanto-me pelas leituras alheias. Há ilustrações desenhadas na alma de alguém. As indicações confundem meu estado de ser. Sorvo a delicadeza da doação. Aprendo no instante do agora. Um sábio me disse que era preciso saber ser alada. Do alto, no voo o que se tem de seguir é apenas o vento. Veio do sudoeste o desalinho todo.
Conto as horas para o dia seguinte. Enquanto escrevo colho a delicadeza do abraço nas palavras delas. Viajo no poema que uma dedica aos domingos. Sorvo o expresso que a outra serve em poesia e me encanto com a arte da outra. E assim, nesse estado de ser sou gratidão na alma, pelo que aprendo dentro das estações que visito nas palavras delas.
Mariana Gouveia Scenarium livros artesanais Diário das Quatro Estações Lançamento 27 | 08 | 16 – a partir das 16h Biblioteca Mário de Andrade R. da Consolação, 94 – Consolação
Depois de uma poliquimioterapia virei poli. Poli gratidão, poli esperança…poliamor. Passei a vivificar os dias através desse amor…e descrevo esse amor no meu diário. Sou eu ali naquelas linhas…
Eu mesma…a menina que sonhou. A menina que sonha e a mulher que ama. De diversas maneiras, o amor rege minha vida, absoluto. Vivo isso no dia a dia e dentro dos dias me defino feliz.
Enfrentar uma doença grave me fez mais forte. Me fez mais leve, mais corajosa diante da vida. E dos dias. Às vezes, eu choro e rio. Às vezes, eu rio e rio – às vezes, mar – maresia sem nunca ter sentido a sensação de sal na pele, mas com o sabor na boca a programar saudades, vontades. No tato com a natureza sou pouso. Aprendi a ser escolha e minha escolha foi ser livre. Na beira do abismo você tem opções: ou pula ou volta…eu escolhi voar.
Mariana Gouveia
Scenarium livros artesanais
Diário das Quatro Estações
Lançamento 27 | 08 | 16 – a partir das 16h
Biblioteca Mário de Andrade
R. da Consolação, 94 – Consolação
A cor dessa cidade sou eu O canto dessa cidade é meu
(Daniela Mercury)
Escrevo- me nas ruas ainda desertas. Um cão late na rua de cima.
É na madruga que as palavras me tinge de cidade.
Nunca sei se sou eu que espio a cidade… ou se é ela que me vigia. Sei apenas que me coloco dentro dela, passo a passo.
O sol vem surgindo – a cidade começa a acordar – e seus raios envolve a vida no meu quintal e dentro de mim.
Quando amanhece de verdade, ela passa a ser dourada. O sol colore as vidraças dos prédios. Queima a pele ou acaricia – depende da visão por trás das ruas, dos muros.
As minhas palavras, às vezes, alcançam as nuvens. É céu de encantos no meu lugar.
Meço o azul até aonde a vista alcança. O ouro do sol e o calor típico dela é como aconchego.
A tarde, as sombras vão se transformando em silhuetas e mais uma vez, minha cidade fica dourada de sol…que beija o rio, as árvores, as casas e minhas palavras.
O lugar de fé inicia seu ritual. O mantra me corrige dentro do agradecer.
É quando as palavras dançam dentro de mim e vão dormir nos arredores da minha cidade.
Mariana Gouveia
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Diário das Quatro Estações
Lançamento 27 | 08 | 16 – a partir das 16h
Biblioteca Mário de Andrade
R. da Consolação, 94 – Consolação
Escrevo histórias. Com ele, abro infinitas possibilidades. Já escrevi esperanças.
Hoje, escrevo esperas. Chegadas. Partidas.
Escrevo os dias de férias, de aconchego no colo de pai. – escrevo lembranças…de choro. De risos – escrevo sobre o amor.
Às vezes, apago tudo e escrevo de novo. Dou os detalhes das noites de insônia. Das noites de Lua. De estrelas. Das madrugadas frias ou quentes.
Escrevo sobre a estação da minha alma. Desenho os pingos da chuva. Exclamo entre letras as tempestades e seus trovões a ecoar. Molho as páginas dele com lágrimas de alegria e algumas poucas vezes, de tristeza.
Conto nas linhas as perdas e contabilizo os ganhos – sou abençoada – sempre.
Descrevo nele a textura da pele dela que em meus momentos mágicos é tão alva e em braile traço mapas e as rotinas todas do amor.
Escrevo nele a previsão do tempo. A simbologia dos astros. A precisão que a alma tem de escrever. Falo do que vivo e aprendo. Falo do sabor das frutas temporãs do meu quintal. Das flores variadas que nascem aqui. Da natureza que invade meu lugar e do vento que insiste em morar aqui.
Falo do amanhecer e do sol se escondendo no horizonte… dos tons de laranja a esparramar em meu quintal.
Das canções que a vida cantou para mim e das poesias que transformo em música.
Das nuvens a lembrar desenhos e letras, mas principalmente, sobre a magia dos toques em minhas mãos.
Mariana Gouveia
Scenarium livros artesanais
Diário das Quatro Estações
Lançamento 27 | 08 | 16 – a partir das 16h
Biblioteca Mário de Andrade
R. da Consolação, 94 – Consolação
Já tive invernos congelantes
onde a palavra era calor…
onde o aquecer da alma é vida…
Já vivi verões intensos, fugazes.
Primaveras risonhas e outonos silenciosos
onde internamente as palavras gritavam.
Às vezes, em alguma das estações sou essa constante escrita;
em outras, sou esse calar num grito…
Mas ainda assim, voz.
Em outro tempo, dentro de certas estações
sou semente que brota.
Nota mental do que era para ser dito
mas, que não foi preciso.
Porque não era a estação certa de falar – apenas escrever.
Mariana Gouveia
Scenarium livros artesanais
Diário das Quatro Estações
Lançamento 27 | 08 | 16 – a partir das 16h
Biblioteca Mário de Andrade
R. da Consolação, 94 – Consolação
Embora eu more em uma cidade onde existe apenas uma estação e meia praticamente durante o ano todo, é em pleno inverno que a primavera reaparece nos ipês. Como uma antecipação a cidade fica toda florida com a exuberância do amarelo das flores e em algumas partes, o rosa suaviza o tão concreto dos prédios e casas. O outono simplifica a maneira de ser nas flores de mangas e cajus à espera da tão desejada chuva. Já o verão, ostenta diariamente seu lado de rei por aqui. O sol brilha o ano inteiro. Brincamos que há um sol para cada um dos habitantes. Às vezes, vivo todas as quatro estações em um dia só – raro isso – mas apesar de tudo, dentro delas desenho meus dias. Rabisco na sintonia das palavras o sabor de cada um dos sentidos. O meu quintal revive o outono quando dança com as folhas que caem, tingindo de dourado o chão. Na primavera, as flores se tornam amparos para minhas borboletas e joaninhas. E sob a Lua, o cheiro perfuma meu lugar. O inverno antecipa a chegada das flores e nessa hora, o meu coração se aquece e eu sou pleno verão.
Mariana Gouveia Scenarium livros artesanais Diário das Quatro Estações Lançamento 27 | 08 | 16 – a partir das 16h Biblioteca Mário de Andrade R. da Consolação, 94 – Consolação
A primeira vez que vi um diário foi através das mãos da minha mãe. Era todo enfeitado com um pássaro na capa, feito com pedaços de pano e o pequeno cadeado com chave já me dava a sensação de segredo.
Com mais três irmãs e três irmãos era fácil perceber o cuidado e a sensibilidade dela. Quando eu escrevia a palavra amor logo começavam o coro do: tá apaixonadaaa! E isso durava um dia inteiro e às vezes, até semana. Naquele pequeno caderno era onde eu apontava meus segredos e guardava minha intimidade. A chave era motivo de procura pelos irmãos enquanto ganhavam broncas de minha mãe.
Com o tempo, a chave foi perdida e como para eles tudo que era fácil perdia o encanto, pararam de me perseguir e passei a escrever sobre os dias. Tudo era motivo de palavras, poemas ou mesmo uma frase.
Ali, em alguma das folhas foi colado o tecido da roupa que eu mais gostava. A renda do primeiro soutien…a mecha do cabelo em seu primeiro corte. O brinco que era um grão de arroz e por descuido meu foi perdido um.
Logo, o pequeno caderno encheu e outro veio tomar seu lugar. Desde então, os dias eram descritos com a intensidade do viver. As frases das músicas que eu amava e cantava para desespero dos meus irmãos e os poemas que eu amava ler. Às vezes, quando eu voltava ao pequeno diário ria de algumas coisas escritas. Me espantava com algumas anotações. Meus dias eram descritos da mesma maneira intensa de viver e ainda faço isso com o mesmo amor e cuidado. Escrever o diário é como embarcar em uma viagem rumo a um lugar desconhecido, onde daqui a alguns anos a viagem se torna visível diante do que leio. Hoje, de cadeados abertos, te convido a embarcar comigo nessa viagem.
Mariana Gouveia
Scenarium livros artesanais Diário das Quatro Estações Lançamento 27 | 08 | 16 – a partir das 16h Biblioteca Mário de Andrade R. da Consolação, 94 – Consolação
Choveu essa noite, pai. E enquanto assistia a chuva a cair, o cheiro de terra molhada me carregou para a infância. Virou quase abril esse dia que antecede junho.
É seu aniversário amanhã, pai, e a chuva benze o dia para que seja abençoado também. Sabe aquele cheiro que exalava quando as primeiras gotas caiam e a roça de toco ganhava o respirar para acolher sementes? Senti o mesmo cheiro aqui. Deve ser o céu a te brindar mais um ano. Perdi a conta dos dias que não chovia, talvez por isso, o barulho das gotas no telhado tenham me levado para dentro das lembranças. Quase me envolvi no paletó de flanela com florzinhas miúdas. A sensação é plena, pai, e, embora já tenha passado tanto tempo, eu ainda sinto tão forte os instantes vividos, que é como se fosse um filme a desenhar as lembranças diante dos meus olhos
O fogão a lenha a crepitar ardência e o cheiro do café coado na hora acordada nossa fome e todos os sentidos. Hoje os cabelos brancos emolduram seu rosto e distância não me permite o abraço de perto. Ligo o rádio e ele toca suas músicas, enquanto as gotas suavizam e um céu alaranjado anuncia mais uma vez essa coisa insistente de quebrar as previsões.
A canção me traz o encanto da terra e, nessa hora meu coração te abraça. Posso dizer que o tempo não parou, pai, e o seu radinho de pilha intocável, a nos contar histórias e nos ligar ao mundo. Lá fora, o dia pinta diante de mim a cena que revivo e quase chego a sentir o cheiro de relva molhada, enquanto os animais se preparam para o dia que vem chegando.
Engraçado que a gente não manda nas lembranças e a vida acontece dentro delas. Sempre quando chove me lembro do cheiro da horta, onde colhíamos os legumes fresquinhos. Essa sensação é tão estranha que é como se eu estivesse com um livro aberto e as imagens aparecessem em minha frente.
Meu encanto pelos cavalos, as borboletas e aves é como se fosse um presente seu, em seu amor pela natureza e sua força diante do trabalho. Como nesse dia deixar de te escrever e dizer do meu amor, embora saiba disso sempre. Estamos marcados pela sua força e vontade de viver. A vida te deu momentos difíceis, mas a maneira de ainda cultivar a fé e levantar os olhos ao céu em agradecimento, é o mesmo sempre; e é com esse gesto que dedico minha oração a Deus.
Feliz Aniversário,
Daqui, de onde as lembranças me abraçam, te beijo
Mariana Gouveia In Cadeados Abertos – Diário das Quatro Estações pág. 171 Editora Scenarium Plural
Uma brancura se estende e o infinito é logo ali… me surpreende a vida do lugar… a maciez do toque, as cores misturadas e um horizonte todo para percorrer – onde o olho alcança há colheita ou plantação… O dia, ao nascer, reserva sementes para logo se tornarem frutos, e os frutos, logo serão matéria-prima de algo para se construir... e assim, construo pontes rumo à minha história.
Mariana Gouveia In Cadeados Abertos – Diário das Quatro Estações Editora Scenarium Plural pág. 15 *Campo de algodão depois da colheita – Interior de Mato Grosso