Há alguns dias percebi um cachorro novo na rua… um não! Três. Mas, um em especial fala comigo sempre que abro o portão. Não sei ainda de qual casa ele é, mas ele está sempre por perto, e ao menor sinal meu próximo ao portão o percebo rondar de longe meus passos.
Todo preto ele late como se me chamasse o que causa um desconforto no meu Yoshi que o expulsa com latidos como se dissesse que o lugar é dele e ninguém tasca.
Não é um cachorro de rua, mas vive debaixo da árvore quase o dia todo. Ou perambula entre minha rua e a rua de cima. Geralmente, os outros dois o acompanham, mas ele se sobressai. Como perdi recentemente minha Lolla, e havia ainda muita ração, fui aos poucos colocando em uma vasilha na minha calçada para eles e/ou os gatos da rua.
Agora, todas as tardes ele me chama no portão. Responde as minhas perguntas em seu linguajar único. Ainda é novo e conheci sua dona a pouco. Uma senhora simpática, de riso fácil e olhar doce. Descobri que ele se chama Trovão, devido ao seu latido forte e que ele e os outros dois – menos acessíveis a mim – haviam sido adotados ainda pequenos.
Parece que nos conhecemos de muito tempo… ele vem, aceita a comida, os carinhos, conversa comigo e segue rumo à sua casa cinco casas acima da minha. Acho que ganhei um amigo.
Quando completei meus doze anos veio a notícia de que iríamos mudar para a cidade. Os irmãos mais velhos teriam que estudar para formação de trabalho e a fazenda seria vendida. Confesso que para mim, ir morar na cidade significava não vivenciar as magias que minha bá me proporcionava e isso me deixou emburrada e triste por dias… até adoeci.
Meus irmãos vibravam com as coisas novas que podiam fazer e experimentar. A escola da cidade era diferente da que a gente frequentava na roça, e tudo era novidade. Somente eu que sentia a falta dos meus lugares e para amenizar ou melhorar meu humor fui matriculada no curso de datilografia – incentivada de que poderia escrever minhas histórias na máquina que eu ganharia assim que aprendesse a lidar com ela – e na aula de piano – sonho de meu pai.
As mãos que até então usava o lápis para escrever meus textos na meninice agora recebia a palmatória quando errava as teclas da tal máquina e do piano.
A máquina consegui domar em pouco tempo e passei com louvor, mas duas casas abaixo da escola de datilografia, a professora de piano entendeu que a música me alcançava de outra forma, para desgosto do meu pai.
Com o certificado em mãos foi a hora de meu pai cumprir a promessa e ganhei a pequena máquina Olivetti vermelha, mas tinha que dividir com a metade de meus irmãos, principalmente com a mais velha que fazia o balanço do Supermercado Brasil que meu pai havia comprado. Mas por algumas horas, a máquina era só minha e as histórias haviam modificadas. As aulas de português me encantavam. A fazenda foi ficando apenas na memória e nas coisas que eu escrevi… os cadernos ainda guardo alguns… outros, se perderam com as mudanças – assim como a pequena máquina – que se tornaram rotineiras até chegar nesse lugar. O que não mudou foi que ainda continuo a escrever e a contar histórias
Já contei aqui sobre minha escrita e de como alegrava meu pai me ouvir ler as histórias que eu escrevia desde a infância. Mas, o que eu gostava mesmo era de ler Manoel de Barros e me ver dentro daquele imaginário.
O livro dele me chegou sem capa e algumas folhas soltas… quando ele dizia sobre não saber nada tão imenso dentro da poesia eu me sentia pequenininha e gigante ao mesmo tempo. O grilo no quintal, o chiado das pererecas, o musgo na pedra… de tudo que ele falava, eu vivia no dia a dia.
A professora da escola rural me falava sobre a magia das letras e ao mesmo tempo dos números que eu tinha que aprender. Mas, eu queria aprender sobre o cheiro das árvores que ele dizia. Para mim, quando escrevia sobre fabricar brinquedos com as palavras e que a mãe dele havia ficado feliz, me debrucei em sorrisos na janela a contar para minha mãe.
Fui crescendo pensando naquela frase que ecoava em mim como um mantra. Fabricar brinquedos com as palavras ganhou corpo e letras em meus cadernos e passei a descrever meus sentimentos em forma de prosa e poemas.
A biblioteca do meu lugar era pequena e os livros cabiam em caixas de frutas… a própria professora era quem distribuía o que íamos ler. A maioria chegava até nós por doações e aqueles poucos livros me enchia de alegria. Eu os devorava tão logo chegavam e relia aqueles que eu mais gostava. Aqueles livros me moldaram e vários escritores tiveram parte nisso, mas o que foi essencial em sua forma doce de me mostrar a poesia em todos os sentidos me abraçou anos depois quando o conheci. Hoje, ele é memória viva na continuidade de minha escrita e no meu quintal, onde habitam as pedras, pássaros, insetos e borboletas.
Coloquei sua música para tocar no aplicativo para falar com você. Ainda há pouco, ouvi trovões e gritei seu nome… como de costume. O barulho vindo do céu me faz lembrar você, assim como a chuva e tantas outras coisas… calçadas também.
Fico repetitiva quando falo de calçadas e de você e de como caminhar ao seu lado me fez sentir tanta ternura. A proteção que você ganhou do moço que guiava seus passos, ganhei ao seu lado.
As calçadas do meu lugar em sua maioria foram quebradas por algum órgão público ou privado para o “conserto” de alguma coisa que foi malfeita. Nenhuma novidade. Prefiro me ater ao seu caminhar com o cão, com as sombras, com algum transeunte aleatório que cruza seus passos.
Quando li sua missiva as cenas foram passando em minha frente como se fosse um filme… Lembro-me da primeira missiva que li sobre o tuo menino e ali, o destino nos uniu – ou reuniu. Conheci a gentileza dele detalhada nos menores gestos e no riso solto. E lembro-me bem das calçadas em que ele nos guiou em noites de lançamentos.
Enquanto te escrevo cantarolo com Simply Red e a memória resgata o cheiro do café, a risada cativante e a dança feliz no pequeno corredor entre o quarto e a sala. Dividi com vocês instantes únicos que ficaram em meu cuore.
Sei que as caminhadas recentes ultrapassam a presença física onde o concreto é mais abstrato que pensamos e sentimos. Não precisa de nome e nem de definição. A gente sente e pronto.
Chove bastante e a água trouxe aquele cheiro que a gente ama. Isso me leva para a varanda do seu antigo prédio, enquanto chovia em São Paulo em um ontem que me enche de saudades. Pudesse voltar no tempo, eu voltaria e daria mais um abraço, ou pediria mais uma xícara de café ou conversaria mais.
É assim que nos ligamos via esse mundo afora. Nas temperanças das poesias que você me dá, nas suas suculentas que aceitam água, no momento fofo do cão debaixo do edredom… nossas saudades se juntam de maneiras diferentes e de tonalidades variadas. É como se eu atravessasse seu quintal e você usasse um desvio para chegar ao meu. Sei cada cantinho até chegar ao escadote que ele preparou… sei das pedras que te guiam entre as samambaias.
Sei de você e ao mesmo tempo traz a incógnita da pessoa incerta e vasta… e como ainda trovoa aqui, grito seu nome e dou uma risada quando o bem-te-vi responde lá da árvore no quintal. Percebo o quanto de você existe aqui no meu lugar, nas minhas calçadas onde andei conversando com você sobre a poesia errada que alguém mandou, sobre a lua que atravessou um céu inteiro nublado e nem eu ou você vimos. Sobre como o calor te incomoda mais do que a mim e sobre como tudo que vivemos vira essa lembrança doce quando penso em você.
Passei a madrugada escrevendo cartas… acho que te contei sobre isso em uma conversa que tivemos pela manhã. Escrever cartas me leva para tantos lugares que parece que viajo mesmo. Chovia quando amanheceu. Uma chuva mansa que logo passou e deu lugar ao sol de todo dia.
Como você falou sobre flores, fiquei pensando em quais flores minha mãe amava e minha memória me levou para nosso jardim, que antecedia a entrada da casa. Havia margaridas, hibiscos variados e as flores do campo se estendiam em uma fileira grande até chegar ao portão.
Mas os olhos dela brilhava com as flores do quiabo e da abóbora. Acho que foi quando eu via os olhos dela brilhando só por causa da flor. A flor do quiabo parecia uma obra de arte e a flor da abóbora além da cor, tinha o sabor da omelete feita com elas.
Às vezes, o céu tingia-se de cor de amora e minha mãe lembrava da fruta e dizia que a cor da romã era linda demais. Eu sei que não tem nada a ver flor da amora e a cor da romã, mas para ela as cores que traziam o brilho na voz e no olhar eram essas cores.
Já te contei que meu quintal tem uma estação própria e que as flores aqui parecem adivinhar o sentido do dia. O ipê e suas flores temporãs – alheias ao cerrado – florescem quando querem… as chamadas de fada azul sobem e exibem a cor violeta com majestade. As vincas e os lírios amanhecem como se sorrissem.
Confesso que pulo a parte das flores no supermercado. Aqui, não temos um mercado só de flores. Para isso, temos os viveiros. Vez ou outra, acontecem eventos com seus caminhões refrigerados e as flores variadas vindas de outros estados. Ledo engano pensar que a maioria resiste ao calor do meu lugar.
Você conhece a flores do meu lugar. E sabe que minha conversa com elas dará sempre a singeleza pura de ser flor sempre, para eu possa sempre te ofertar um buquê, mesmo que seja em forma de foto.
Foi ao seu lado que a vi surgir na calçada em que andávamos. Ela caminhava em nossa direção e, em meio à multidão, se sobressaiu — toda de branco, parecia que tinha saído de uma nuvem, caminhando em câmera lenta.
Enquanto você me guiava pelos seus caminhos, eu a seguia com os olhos, completamente hipnotizada por aquela criatura andrógina, branquíssima e com roupas esvoaçantes. Imaginei um nome, um lugar e seus gostos.
Quando passou por nós… suspirei. Quase esbocei um sorriso. Ela passou… como se desfilasse aos olhos de todos, inclusive dos meus, deixando no ar um rastro de aroma cítrico — um pomar inteiro de bergamota, limão e lírios.
Imaginei uma conversa… sobre amenidades e livros.
Ela sumiu na multidão… em uma das ruas de Higienópolis e eu fiquei aspirando o perfume, no ar. Nossa caminhada continuou e, eu a procurá-la em cada pessoa que surgia. Prometi que se voltasse a vê-la, perguntaria pelo nome dela e confessaria o impacto que provocou em mim.
Toda vez que ligo a Tv… Há uma esperança de vê-la nas reportagens feitas nas ruas ou em matérias de jornais. Ainda não aconteceu. Talvez não volte a vê-la, nem mesmo quando voltar a São Paulo e visitar o mesmo endereço.
Se surgir, sei que a reconhecerei, ainda que esteja diferente. Nem tudo muda, algumas coisas permanecem iguais, como sempre foram.
Desde pequena fui instigada pela minha mãe a escrever histórias – ou coisas aleatórias – que eu havia presenciado ou vivido. Desde o que eu pensava do trieiro das formigas a caminho do formigueiro até o sentido da colheita.
Tudo era muito simplório onde nasci e vivi até os 13 – 14 anos e a professora que vinha da cidade todos os dias tinha que revezar entre as diversas crianças das mais variadas idades. Volta e meia ganhávamos livros doados por alguém que iria se desfazer deles e deixava na pequena igreja para chegar até nós. Para mim, em espacial, era um tesouro, mesmo os sem capas ou com folhas faltando e até isso gerava histórias criadas por mim.
Em uma das vezes que meu pai foi buscar os livros em meio a conversa com o padre foi dito sobre minhas primeiras incursões na escrita, o que gerou curiosidade do padre e sugestão de eu escrever uma história sobre a santa da cidade e seria encenado por nós, os alunos da fazenda.
Para isso e para o monitoramento do padre a gente ia duas vezes na semana para ensaiar a peça que falava da santa que ao morrer havia prometido uma chuva de rosas sobre o mundo. E fui eu, uma menina de 12 anos escrever – ou copiar as falas do padre – sobre pecado e perdão. Repetia a frase, escrevia e ensaiava sob os risos dos meus irmãos que iam mais pelas broinhas do que pela peça encenada em si.
Volta e meia o padre me deixava um suco e os biscoitos em um prato para me motivar e desaparecia por detrás das cortinas. Depois de chamá-lo por três vezes, a curiosidade de menina me fez ir até a sacristia e eis que o pecado dito tantas vezes em alta voz em missas e sermão estava em minha frente aos beijos com a beata que o ajudava nas missas.
Corri até onde estavam todos e fui dizendo alto sobre o que eu havia visto, enquanto o padre tentava me calar e dizer do meu engano, mas a cara da beata Terezinha – que tinha o mesmo nome da santa – revelava o pecado em pessoa.
Adianto que virou a fofoca da cidade com mais detalhes que eu não tinha visto e nem falado e a festa foi cancelada e o padre desapareceu da cidade. Para alguns, a história continuava com alguém dizendo que havia visto ou sabido do casamento, de filho e até de morte e minha história sobre a santa das rosas foi esquecida em um dos bancos da igrejinha da cidade.
Acho que já te falei dia desses sobre como meu silêncio é barulhento e de como meu quintal absorve a quietude de forma plena apenas em alguns momentos. Na parte da manhã, a passarada atravessa os desvios das árvores e cantam aqui.
Percebi que ultimamente, alguns barulhos me incomodam. O som alto da casa da vizinha da esquerda, as pombas arrulhando em cima do telhado, as buzinas estridentes de carros que atravessam a esquina sem observarem a placa enorme dizendo: Pare – o que volta e meia causa algum acidente.
Mas alguns barulhos me encantam e você já sabe quais são… as folhas sendo levadas pelo vento, a chuva caindo no telhado, os chilreios de Chiquinho e outras tantas coisas.
Gosto do rádio tocando as músicas que eu gosto, o chiado da chaleira a me avisar que o chá pode ser feito e servido.
Acho que posso dizer que não sou muito de silêncios, meu pai também não era. Quando ele se preparava para começar o dia ele ligava o velho motor rádio e saía cantarolando as canções antigas. O arroio das vacas leiteiras, onde ele chamava cada uma pelo nome, o grito chamando pelo nome de meu irmão para levar o balde… Os muxoxos, o palavreado com os animais… poucas vezes vi ele em silêncio, quieto, aproveitando uma sombra, enrolando um cigarro de palha. Mas aquela quietude dele incomodava todos nós. A gente preferia o vozeirão nos chamando era sinal de que estava tudo bem.
Já minha mãe era a quietude em pessoa. Olho grande expressivo, e até a velha máquina de costura parecia entender aquele silêncio. O rangido da tesoura a cortar o tecido e ela ali, com uma mansidão dentro, com as vozes inaudíveis da alma a suspirar em alguns momentos na janela. Quando me deparava com ela de olho terno sabia que o interior dela gritava tudo que ela não podia falar… mas, bastava um de nós dizer a palavra mãe ela abria os braços em um sorriso que mesmo em silêncio falava de todo amor que sentia por nós.
Quando se trata de tempo, logo me vem à memória um poema de Graça Carpes: Tenho o tempo das borboletas… uma semana, é uma vida. Fiquei pensando na vida tão breve das borboletas que tanto amo e o que daria para viver em uma semana. Será que a borboleta branca que passou voando aqui estaria iniciando esse ciclo ou já seria o fim? Seria um tempo branco para ela? E depois disso, teríamos o efeito borboleta causando caos no universo inteiro?
Pensando sobre isso, lembrei-me do atropelamento de uma certa vez… vi quando ela bateu no para brisa do carro em que eu estava e pedi para parar o carro e antes que ela se queimasse no asfalto quente a peguei. Laranja, com listras pretas e uma risca branca nas asas e o tempo contado ali, nas minhas mãos. Ela reviveu e ficou ali, deitada na minha mão – fotos que ilustra o texto – e ao chegar em casa coloquei-a em um dos galhos do quintal. Logo ela voou. No dia seguinte a vi voando, entre uma flor e outra. Senti que ela teve o tempo dela provisoriamente adiado. Não sei se durou uma semana ou uma vida, porque ela seguiu os desvios do meu lugar para o céu afora. Acho que dentro do tempo de vida dela mesmo.
Por falar em tempo, gosto da música de Caetano que fala sobre o tempo ser um dos deuses mais lindos. Meu pai se referia ao tempo – clima – e ao tempo de agora. Ele adorava relógios e seu dia era cronometrado com suas tarefas tantas de homem da roça. Em alguns momentos eu o via dizer para meus irmãos: deixa o tempo correr… Ou vez outra: corra… não temos tempo.
A gente costuma dizer que o tempo está passando rápido demais e não dá tempo de fazer tudo que temos de fazer em um dia. Fica sempre algo para terminar depois. Em alguns dias, o tempo sobrepõe o tempo e aí já é quase dezembro.
De vez em quando, penso que guardo o tempo em potes e coloco no alto da prateleira. Mas também, penso em dias em que não duro um dia inteiro e assim, as encomendas ficam perdidas entre uma cesta de linhas coloridas e agulhas tortas.
Às vezes, me perco no tempo de uma poesia, ou na vida de uma borboleta, mesmo que dure apenas uma semana, ou no milésimo segundo que uma fotografia registra um tempo. Não penso muito no fim do meu tempo, mas gostaria também que ele terminasse em poesia ou pelo menos em uma sonata juntamente com os cantos dos pássaros.
Foram várias as mulheres e as fé delas que me moldaram. Criada dentro da igreja católica, com meu pai devotando todos os santos de janeiro a dezembro, e na beira do rio, com os rituais indígenas de minha mãe, descendente da etnia Caiapó. A minha Bá me levava pela mão, floresta adentro, para exaltar a natureza. De pés descalços para adorar a terra. De olhos para o céu, para reverenciar o sol, a lua e todos os mistérios galácticos. Ela benzia e conversava com os animais. Tratava como divindade as ervas e os pássaros. Era uma bruxa para a maioria das pessoas, inclusive, para os meus irmãos.
Minha madrinha – que se tornou evangélica – e vez ou outra me forçava a ir aos cultos até eu me rebelar e deixar de chamá-la de madrinha. Passou a ser apenas a tia que me fazia fugir para o descampado quando chegava, com a bíblia debaixo do braço e com as irmãs da igreja a tiracolo, para nos evangelizar.
Nas redondezas da fazenda, em um acampado, mais perto da cidade, volta e meia uma caravana de ciganos se aportava ali. Com suas danças, roupas coloridas, brincos na orelha e a magia deliciosa – para meus olhos de menina – de ler a sorte, apenas olhando as mãos.
Havia um boato de que os ciganos roubavam as crianças. Depois de provar um manjar feito pela Dai, virei visita diária ou quase uma rami. A temporada por ali durava de três a seis meses. Dependia das vendas e do dinheiro que entrava na região.
Cresci nessa simbiose de religiões e de crenças. Mais tarde, meu pai me repassou a arte de benzer, como se fosse um legado que devesse ser seguido. Poucas vezes fiz a tal benzedura. Ser benzedeira era forte demais para uma menina-mulher saindo da adolescência.
Confesso que a fé me salvou diversas vezes. Em muitos momentos difíceis as portas das igrejas estavam fechadas. Hoje, essa miscelânea de crenças me faz acreditar em um poder maior… Oferecer amor vai muito além de um folheto com palavras e versículos bíblicos.
O amor é oferecido dentro do respeito, do silêncio e até de um abraço.