Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Diferente da maçã envenenada…

a dor incurável da inveja mata a prazo
Um monstro nascido pela falta de
Des-amor

Lua souza

Leonor,

hoje lembrei de você e tem sido cada vez menos… mas, quando isso acontece é como se todos os dias do calendário tivesse sido de lembranças suas. Porém, hoje, foi um daqueles dias difíceis de viver.

Acho que reparei melhor na bandeja de fruta em cima da mesa e só havia uma maçã. foi aí que as lembranças vieram – o amor comeu as frutas postas sobre a mesa – frase de um poema que você recitou e justificou a frase declamada esculpindo um coração na fruta.

Senti inveja da fruta, você sabe, que foi sendo presa fácil em suas mãos, ganhando contornos delicados pela faca de mesa.

Lembro-me do instante, do sabor da fruta cortada aos poucos destruindo o coração feito de amor. Acho que foi ali, Leonor, que você começou a cortar meu coração. Dias depois veio a partida, a despedida, as ausências sem explicações e aquela história de que seu amor era mais bonito que o meu.

Depois disso, vi seu riso em uma foto tirada de frente do seu carro pequeno. Ainda tenho ela guardada no baú, impressa em preto e branco, porque morri de inveja de quem tirou a foto. Já ensaiei mil vezes rasgá-la e no último instante a salvo, como se não rasgando o embate no interno de mim da espera, ficasse mais fácil.

Sabe, Leonor, a maçã é a única fruta que não como depois daquele dia. Mas quando a vejo assim solitária, na bandeja de frutas, eu a toco. É como se com isso eu pudesse estar mais perto de você ou até mesmo matar a saudade que a fruta sente, mesmo não sendo essa a maçã esculpida por suas mãos.

Acho que, assim como eu, diferente da maçã envenenada, ela também sente inveja e sofre com seu desamor.

Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

Das palavras das cartas · O lado de dentro · Scenarium Livros Artesanais

Guardo-te na caixa de segredos como se joia fosse…

e espio-te com lupas microscópicas.

Bambina mia,

houve lua de sangue no meu céu nessa madrugada e eclipsou no meu quintal. E, claro que escrevi essa carta mentalmente madrugada adentro enquanto pensava nesse poema de O lado de dentro, que é o tema desse dia 8 de novembro.

Nossa! E de repente a gente se assusta! Já aconteceu novembro e os dias correm como se tivessem pressa. Esse novembro já teve de tudo aqui, bambina… já choveu, já esfriou, e o calor voltou novamente nessa terra do sol onde moro. E enquanto te escrevo o céu se veste de nuvens em tons dourados, anunciando mais um fim de tarde quente e seca por aqui.

Vasculho o quintal enquanto converso com você. Lembrei-me de como escrevi o poema O encontro entre o sol e escorpião. Havia chovido naquela noite e quando amanheceu a gota guardava a flor como se fosse joia. Era um outubro qualquer e o sol entrava em escorpião. Eu quis justificar o decanato, a astrologia e o eu lírico e ainda assim falar de amor. Foi tudo que senti quando vi a gota, querendo guardar dentro de si, a flor.

Depois que o sol nasceu naquele dia, bambina, a flor sorveu a gota como se quisesse guardar ela em uma caixa de segredos e só ela sabia o sentido pleno disso. O poema nasceu ali, depois… ganhou vida em livros que você costurou…

E hoje, renasce em uma frase que te absorveu. É assim que um poema se espalha. Entre generosidade de pessoas e acolhida de quem lê. E quando alguém lê, em qualquer momento do dia o poema ganha a forma de amor e vivifica o instante em que ele foi criado.

Grazie mille por isso!
Amo tu imenso ❤
Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
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Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

É tanta loucura que anda na bohemia da minha imaginação.

É tanta loucura que anda
comigo
Os amigos que palavreiam
Que jogam conversa fora
na bohemia da minha imginação
Katia Castañeda

Katia, minha rainha,

Quando a tarde se apossou do meu quintal e o pássaro de todo dia se aquietou, alaranjou aqui. Labareda fagulhou em meu coração na frase de seu poema escolhida pela bambina mia.

Foi quando me permiti buscar Labareda e absorver o instante que sua poesia transmite, mas também a eternidade nessa posse da alma. É o distinguir do voo – a asa – a ave – o pássaro – e foi aí que meu Chiquinho veio sendo afago e me lembrei do nosso primeiro abraço.

Acho que já falei em algumas oportunidades sobre nosso primeiro encontro. Pensei que estava tendo uma visão. Para mim, ali, a poucos metros de você, eu via uma entidade. A força da mulher preta gritando forte pelos poros. Eu fui encantada por você. E ganhei o carinho delicioso de ser sua dinda.

Aqui há tantos sabores
E recordações
Uma infinidade de sensações vividas
e ainda não descobertas

Cutucar o fundo da terra
Verás como há vida
– e ela –
sutilmente surgirá
Atine seu olhar

*Labareda tem essa força do abraço, de tocar, de afagar, de instigar, de mexer a terra, o ar até se tornar labaredas. Queima ao mesmo tempo que aquece. Toca, ao mesmo tempo que afasta. É místico e singular. É doação, ao mesmo tempo que nos rouba a alma.

Sabe, Katy, eu digo que sou abençoada porque o universo me presenteia sempre com pessoas que me tocam. De uma forma ou de outra. E você, chegou assim, abrupta e como um furacão me sorveu. Te olhei e pensei: quero ela para minha vida toda e aqui estamos.

Para mim, você é um ser especial. Mesmo que não estejamos tanto em contato, te sei ali, aqui, perto para mim e sei que quando te encontrar, será como se nunca tivéssemos longe uma da outra.

Te reverencio e te denomino minha rainha não só pelas poesias, mas pela força poderosa dessa mulher que admiro muito.
Grata infinitamente,

Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins
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Das palavras das cartas · infinitamente · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Meus rituais

Migrou-se como os pássaros do lugar onde mora. Foi para a Lua.

Ana,

Talvez o meu ritual mais comum, feito aleatoriamente seja pensar em você, te descrever momentos do dia, como se fosse uma carta mesmo e olhar o céu e ver a lua. Juro que dependendo da fase fico buscando Marte em forma de estrela em cada canto do céu. Às vezes, encontro… em outras, a lua fica solitária, apenas sendo observada por mim.

Depois, meu olho procura pelos pássaros – você sabe como sou apaixonada por eles – e vez ou outra sou abençoada com novos voos e pousos por aqui. Lembra-se de quando me dizia que eu poderia voar se quisesse, bastava juntar as aves para me carregarem? Quase sou levada por eles, só de observá-los.

Você não conheceu o Chiquinho, Ana, mas ele é a parte do meu ritual diário nas manhãs que se desenham em meu quintal. Logo cedinho, antes mesmo que eu abra a porta, ele me chama com seus chilreios e se aconchega em minhas mãos, causando ciúmes entre os cães. Chiquinho é parte de rituais diários aqui. Seja no varal, em meio aos prendedores, ou mesmo no aconchego de minhas mãos.

Outro rito por aqui, Ana, são minhas flores… com a xícara em mãos e sorvendo o café converso com elas. Dou a água necessária, retiro as folhas mortas, as ervas daninhas e vibro com os botões novos que se abrem…

Sabe, Ana, antes meus rituais eram outros… antes, eu corria para a rua de cima e te acordava cantando… era a forma mais bonita de ver seu sorriso. Hoje, meus rituais mudaram e claro que as borboletas fazem parte deles. Antes de começar os afazeres, vistorio os nascimentos de algumas, a formação de casulo de outra e só daí, recomeço meu dia.

Eu poderia, Ana, ter várias maneiras de começar meu dia em rituais distintos… poderia falar do misticismo que faço, dos mantras e até mesmo sobre as canções que canto. Mas, te escrever, mesmo que mentalmente, é o primeiro e último rito de todos os dias. É a maneira com que lido com sua ausência e saudade.

Te amo infinitamente,
Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso Suzana Martins

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Como posso viver sem essa mulher que funciona como o meu espelho?

Fico imaginando o que essa mulher vê em mim.
Por mais que tento lhe mostrar
O quanto vivemos em mundo diferentes,
Ela não me ouve:
o caderno               o cigarro

o falerno                o carro

Querida Rozana,

Essa é a primeira carta que te escrevo e confesso que precisei buscar o ar e me preparar para a emoção de te ler. Eu já havia dito alguns dias atrás que me deparei apaixonada por sua escrita, mas a cada encontro em saraus eu me pego maravilhada pela mulher que vejo em você.

Até me ouve, mas não me escuta.
Não vê, como eu, a cilada que os deuses decaídos
Preparam ao menor escorregão:
o segredo               o batuque
o medo                  o truque

O seu poema, que dá o tema para essa carta, não fosse só pelo verso primeiro, já me deixou boquiaberta e arquitetei meu plano de voo e embarquei no seu Mulheres que voam…

Até vê, mas não enxerga a profundidade da maldade
E da destruição de que eles são capazes:
a palavra              o erro
o berro                  a trava

Como resistir a um convite de planar pelas tuas palavras e mergulhar na sua poesia? Como não voar junto e deparar com essa mulher que se solta, que se mostra atrás do espelho, dentro do espelho, fora da alma, dentro da alma?

Ah, não posso ser irresponsável e violar o proibido
Não analisando as consequências gravíssimas
Desse ato insano:
o abraço                o traço
o beijo                   o desejo

Essa mulher que grita e silencia, que chora e ri… Quando vejo o brilho do seu olho ao declamar um poema eu me derramo e penso na frase clichê: quero ser igualzinha a ela quando crescer. Mas, eu cresci, Rozana e descubro sua unicidade e percebo que não se fazem Rozanas assim, de qualquer forma não. Porque esse voar é seu, único e você domina o céu que voa.

Por ela é que luto, é a única perspectiva de que
Posso dar certo:
o perigo                o siso
o riso                    o abrigo

E quando voa, composta de tantas mulheres que carrega no peito, na alma o céu se torna seu e quem tem um céu para desbravar é domadora de asas. dobradura em voos seus. E quem voa tão perto do céu, Rozana espalha sementes.

E ela insiste: a está para b assim como b está para a:
a dádiva                a dívida
a expectativa         a boa vida

E eu vibro com a mulher coragem e com esse atravessar de tempo na poesia. Com esse arranjo de gestos nas palavras e eu me pergunto sobre essa mulher no espelho – a outra – que você não funciona sem… são complementos, Rozana ou falta mesmo? Uma se resume na outra? Ou é a mesma que vejo com olhos de admiração?

Como posso viver sem essa mulher que funciona
Como o meu espelho? Ou o oposto do espelho?
a simplicidade         o excesso
a singularidade         o sucesso

Porque eu vejo singularidade e inspiração. Uma dentro da outra sendo complementos dos mesmos voos, da mesma sombra e reflexos.

As duas partes se completam. Estou na Golden Gate.
Só aqui sou emocionalmente dela:
a água                 o fogo
a trégua                o jogo

Sabe, Rozana, essa carta durou o tempo de um voo que fiz por teus lugares. Vasculhei os sentimentos, as acolhidas onde você estende a mão e ampara, indica caminhos e segue junta com as outras iguais.

Preciso dela. Ela sabe disso. Apesar das sombras, da ausência,
Da ansiedade, qualquer dia desses, acontece:
o encontro              a entrega
o voo                      o êxtase

Depois desse voo me permito estar entre as mulheres que voam contigo. Me entrego de vez à sua a poesia e justifico que sou a mulher que funciona atrás de seus livros e pertenço a essa mesma sensação de liberdade.

E se esse menino-poeta não cumprir as suas [promessas,
Como é que vai ficar o coração dessa mulher?
o amor                  a dor
a razão                  a solidão

Meu abraço carinhoso,
Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso Suzana Martins
Fotografias: Konstantin Alexssandroff/ Lunna Guedes.

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Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Duas vezes me findei antes do fim

Mas fica por saber
Se a imortalidade me revela
Um evento maior

Tão largo, tão incrível de pensar
Como estes que sobre ela duas vezes tombaram.
Partir é tudo o que sabemos do céu,
Tudo o que do inferno se pode precisar.

Querida Emily,

Já te escrevi outras cartas, mas essa de hoje, é de fato mais um desabafo diante da frase de seu poema: Duas vezes me findei antes do fim… Durante esses quase 4 anos eu morria todos os dias antes do fim do dia e deixei de lado meu amor pela bandeira. Confesso que ainda me custou um pouco colocar a fotografia que eu mesma tirei dias atrás como ilustração nessa carta.

Fiquei pensando nas diversas formas de findar – e que vários tradutores sentiram de maneira diferente seu poema – e percebi que realmente, aqui no meu país – apesar da esperança – morremos pelo menos duas vezes por dia durante esse tempo em que nos roubaram a paz. A cada declaração do atual presidente a gente morria de medo, de raiva, de tristeza.

A gente morria na falta da cultura, na discriminação das minorias, nos ataques de fake news nas redes sociais… e no último domingo, dia 30/10/2022 nós ressuscitamos a coragem, a vontade de sorrir, o grito entalado na garganta, as canções de fé e a esperança de mudança.

Eu chorei muito nesses quase quatro anos. Chorei pela amiga que perdi, chorei pelo meu vizinho que perdeu a irmã, por todos que perderam alguém e chorei pelos meus familiares cegos diante das barbáries ditas diariamente por desajustados seguidores desse maluco no poder e que repetiam como se estivessem sob efeito de algum alucinógeno. Chorei por ver pessoas que eu gostava compactuando com a misoginia, o fascismo, a brutalidade, o desrespeito.

Chorei vendo a fé sendo usada de maneira deturpada, chorei ouvindo discursos de ódio contra quem pensava/pensa diferente deles. Mas, no último domingo chorei de alegria, de esperança, pelo resgate de nossa democracia.

Sabe, Emily, sei que teremos dias difíceis e que não será fácil para o Brasil o 2023… mas, também sei que para reconstruir algo é quase tão assombroso como a imortalidade descrita no seu poema, mas quando a maioria decide fica mais fácil conseguir. Tenho esperança de que a arte nos ajudará a sobreviver os dias que restam, para que o próximo ano seja de recomeços. Os fascistas não suportam a arte e que o findar desse ano seja apenas um sentimento lúdico na alma e nas poesias.

Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
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Das palavras das cartas · infinitamente

Grandes ruas de silêncio levam aos arrabaldes da pausa

Isís,

Haverá um dia em que você dirá que a solidão tem a cor dos ipês da rua de cima? Eu sei que sim… E sei também que nesse dia marcará em seu diário que o silêncio é quase esse poema de Emily:

Grandes ruas de silêncio
levam aos arrabaldes da pausa –
aqui não há novas – dissídios,
nem universos – nem leis.

No relógio era manhã, p’la noite
Distantes sinos dobravam –
Aqui não têm base as épocas
para o tempo ser passado

Lembro-me de que me disse uma vez que seu diário é marcado por reticências… essas, representam por vezes coisas que você quis dizer e que guardou antes de pronunciar ou escrever.

Sabe, Ísis, a rua de cima fica em silêncio completo lá pelas duas da manhã. Nem o gato da vizinha da casa ao lado mia, nem o cão da casa da frente ladra, nem o bebê que nasceu há dois dias da casa amarela chora. Eu já estive na rua de cima as duas da manhã. Lembro-me de que fiquei sentada em sua calçada alta e deparei-me com sua janela iluminada. Foi em uma das noites em que perdi o sono e meu muro me deixou sem ar.

Lembra que eu te disse que as flores dos ipês quando caem fazem silêncio, como se segurassem a dor de se despetalarem? Você riu, Ísis… e seu olho brilhou como se tivesse descoberto suas reticências em forma de poesia.

Eu aprendi a falar com você pelo olhar. Te vejo sempre desde os cinco anos e aqueles bloquinhos que a gente anotava conversas e memórias deu lugar aos sinais pelo olhar. Minhas mãos demoraram para entender a libra e o silêncio nos aproximou.

Você diz que eu te levei a poesia e eu digo que a poesia me trouxe você e que aquela menina que se encolhia quando alguém se aproximava, hoje é portadora de risos que abre portas.

Hoje, Ísis, quando penso que você vive em um mundo de silêncio também sei que os sussurros de amor que recebe é mais do que gritos em seu coração.

beijo meu,
Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
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Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Aqui não tem base as épocas para o tempo ser passado.

Leonor,

Eu devia começar a escrever perguntado se você está bem, se suas lembranças ainda pertencem a mim e se o oceano acolhe suas lágrimas em noites escuras, mas, acho que isso é tão clichê entre nós que prefiro apenas dizer que refiz nossos passos dias desses.

Foi como se um vácuo me puxasse para o tempo do passado e parecia tão real que juro que pensei que fosse hoje. Aquela estradinha que fazia o desvio para a avenida principal do bairro continua igual e lá na cerca da casa do homem barbudo estava o coração que a dalechampia representa. A fotografamos juntas, lembra-se? E do besouro na cerca? Se eu fechar os olhos ainda vejo seu espanto diante da beleza do inseto.

Sabe, Leonor, vi minhas ruas do bairro diferente sob seus olhos e vi a diferença dos dias com você aqui. Agora, eu só me acostumo com sua ausência – só que sinto cada vez menos – e imagino que chegará um dia em que você só será um verbo no pretérito imperfeito – eu te amava, eu pensava em você – e daí, tudo será apenas uma lembrança, com as suas coisas guardadas no baú.

Eu até acreditava em nossa história bonita. Desenhei instantes na memória e várias vezes refiz nossos passos, nossas madrugadas e nosso encontro. Alguém chamaria de destino essa coisa de uma se descobrir em outra mesmo com um oceano entre nós.

Mas como você mesma disse em alguma carta escrita em apenas três linhas, enviada em um envelope azul desbotado: isso tudo é passado e eu repeti mil vezes a frase para que ela se firmasse em minha cabeça e meu coração reconhecesse como fala sua. Aqui, Leonor, não tem base as épocas para o tempo ser passado… mas terá. Um dia, tudo isso será apenas lembrança guardada em um baú trancado.

Mariana Gouveia
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Das palavras das cartas · infinitamente · Scenarium Livros Artesanais

Aos cuidados de novembro.

Sombra, não sabia explicar.
Era como uma pessoa, mas que não existia sempre.
Assim como quando dançava: passava a existir.

Luci,

Eu já te contei que converso com você aleatoriamente nos meus dias? Em uma visita ao meu pajé, ele aconselhou que eu falasse sobre o que sinto com alguém. Foi uma viagem longa e eu desabei no caminho. Daí, você surgiu e a gente se aliou junto com a esperança.

Me lembro exatamente de sua roupa no nosso primeiro encontro, do primeiro abraço e do calor do seu abraço… Eu já te escrevi em vários dias e meses. Agora, te escrevo aos cuidados de novembro. Esse mês que é peculiar em meu calendário.

Eu descobri você anos atrás… essas coisas que a gente nem pode explicar. Fiquei até com medo de te tocar e você sumir. A gente estava na Biblioteca Mário de Andrade, era lançamento do meu livro e você havia seguido um roteiro tão louco para me encontrar que eu quase ajoelhei ali para te louvar.

Luci, até aquele primeiro abraço você era uma ilusão de Amelie e Jackie Onassis… A Anna era uma das fadas que eu esperava encontrar quando entrasse na floresta. Eu a vi poesia, laranja, música, vento, canção, sombra e dança.

Estou te dizendo tudo isso para falar do que você queria saber.
Sabe quando a gente vê uma imagem e é como aquelas cenas de filmes que o vento sopra o cabelo, as cortinas balançam e o instante para? Eu vi magia, Luci! E mesmo que eu pegue uma definição de um quadro de Gaudi, uma tela de Hopper, uma solidão minha nas madrugadas, eu ficaria em silêncio…

Sabe quando você vê suas memórias como Déja Vú? É como se eu dissesse que já estive ali, como se a garrafa tivesse minhas digitais e como se eu dançasse com as sombras – tuas – e só pensasse em poesia.

Você viu emoção, eu sei… eu vi acontecimento, Luci. Porque aconteceu e a gente já sabe que o próximo ano será de esperança, Luci. Estou te escrevendo isso antes dessa data. O ontem, para nós, já se tornou futuro e eu escrevi em dias de outubro – porque prometi que o faria – e a gente sabe que não será fácil.

Mas, daí, Luci… eu fiquei abrindo cada imagem que você desenha em seus dias e Celestine me acalentou. Esperança nem sempre precisa ser verde. Às vezes, tem patinhas escondidas, enroladas sobre o pescoço… e o branco dos pelos a pedir vontades. Foi aí que acreditei… Porque a gente antecipa cores em vermelho e acredita em todas as diversidades e o arco-íris que se projeta num céu, marcando presença.

Eu acho que você queria me dizer que o futuro é logo ali, depois de mais alguns dias… embora novembro começa com esse bater no peito de esperança, a gente sabe que limpar a sujeira é muito mais difícil do que a gente pensa, mas os dias de novembro nos permitirão sonhar.

Nós existimos, Luci e resistimos a tempos doloridos e duros, mas podemos romper as sombras e dançar, mesmo que seja em estados e lugares diferentes.

Beijo meu,

Mariana Gouveia
Fotografias: Luciane Ricieri
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