Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Duas vezes me findei antes do fim

Mas fica por saber
Se a imortalidade me revela
Um evento maior

Tão largo, tão incrível de pensar
Como estes que sobre ela duas vezes tombaram.
Partir é tudo o que sabemos do céu,
Tudo o que do inferno se pode precisar.

Querida Emily,

Já te escrevi outras cartas, mas essa de hoje, é de fato mais um desabafo diante da frase de seu poema: Duas vezes me findei antes do fim… Durante esses quase 4 anos eu morria todos os dias antes do fim do dia e deixei de lado meu amor pela bandeira. Confesso que ainda me custou um pouco colocar a fotografia que eu mesma tirei dias atrás como ilustração nessa carta.

Fiquei pensando nas diversas formas de findar – e que vários tradutores sentiram de maneira diferente seu poema – e percebi que realmente, aqui no meu país – apesar da esperança – morremos pelo menos duas vezes por dia durante esse tempo em que nos roubaram a paz. A cada declaração do atual presidente a gente morria de medo, de raiva, de tristeza.

A gente morria na falta da cultura, na discriminação das minorias, nos ataques de fake news nas redes sociais… e no último domingo, dia 30/10/2022 nós ressuscitamos a coragem, a vontade de sorrir, o grito entalado na garganta, as canções de fé e a esperança de mudança.

Eu chorei muito nesses quase quatro anos. Chorei pela amiga que perdi, chorei pelo meu vizinho que perdeu a irmã, por todos que perderam alguém e chorei pelos meus familiares cegos diante das barbáries ditas diariamente por desajustados seguidores desse maluco no poder e que repetiam como se estivessem sob efeito de algum alucinógeno. Chorei por ver pessoas que eu gostava compactuando com a misoginia, o fascismo, a brutalidade, o desrespeito.

Chorei vendo a fé sendo usada de maneira deturpada, chorei ouvindo discursos de ódio contra quem pensava/pensa diferente deles. Mas, no último domingo chorei de alegria, de esperança, pelo resgate de nossa democracia.

Sabe, Emily, sei que teremos dias difíceis e que não será fácil para o Brasil o 2023… mas, também sei que para reconstruir algo é quase tão assombroso como a imortalidade descrita no seu poema, mas quando a maioria decide fica mais fácil conseguir. Tenho esperança de que a arte nos ajudará a sobreviver os dias que restam, para que o próximo ano seja de recomeços. Os fascistas não suportam a arte e que o findar desse ano seja apenas um sentimento lúdico na alma e nas poesias.

Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

26 comentários em “Duas vezes me findei antes do fim

  1. Mariana sua carta representa todos que ainda guardam no peito o amor verdadeiro ao próximo e à pátria. Sofremos demais nesses quatro anos, perdemos muito, mas mantivemos a esperança em dias melhores que hão de vir. Estamos trabalhando para isso e tenho fé que vai acontecer. Abraço mais que carinhoso!

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  2. Um momento poético de onde emerge o pendor da liberdade consciente do preço a pagar por essa liberdade constantemente encurralada pelo uso abusivo da Fé religiosa . Sente -se ainda que o preço da liberdade é elevado pois forças esforçar-se-ão por impedir a vitória plena dessa liberdade -será como que uma prova de fogo abrupto de que fazem parte poesias a descerem ,como um rio,para largos estuários envenenados pela dor obscura de um país julgado sem futuro. Maria

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  3. Eu confesso que essa semana, depois de tantos absurdos acumulados, me vi aos risos, gargalhando a desgraça alheia. Recomendaram-me não rir e não comemorar. Gargalhei mais alto. Eu ri e comemorei. Ri do rapaz no caminhão (sei que é bizarro) e dos marchadores com bandeiras empunhadas. Da resposta de um militar aos bobos que lhe pediam intervenção federal (sei lá o que é isso) e ri da choradeira.
    É como se o riso estivesse preso a espera, depois de tanto horror nesses intermináveis 04 anos. Acompanhei tantas pessoas amedrontadas. Temiam o golpe. Houve tantas tentativas. E a nossa área então. Uma das mais atingidas.
    Enfim, sigo com o riso solto-largo e não tenho pena das pessoas que se deixam iludir por mentiras. Estamos no temo das informações. Basta ler e não se render a mentiras. Ou seja, se conseguimos, eles também conseguem. Mas não querem. Fim do assunto. Riso solto.

    bacio cara mia pelo desabafo que ecoou aqui

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    1. É impressionante como essa turma não cansa de passar vergonha… eu ainda me deparo gargalhando com alguns delírios deles, amore. E esse moço do caminhão me faz gargalhar a cada meme que surge.
      Bacio

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  4. Quatro anos de dor para todos os que, de fato, se compadecem da condição humana. Especialmente dos brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza. Mas de um modo geral, de todos os que cambaleam sobre essa linha na esperança que a morte não os despedassem um pouco a cada dia.

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    1. A batalha é dura, Ricardo! Mas, acredito que saberemos enfrentar isso com coragem e que volte o respeito para os que pensam diferente. Mas, tenho esperança de que teremos um país melhor.
      abraço

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  5. Foi digamos o motivo principal que me fez sair do Brasil, levei ao pé da letra o dito popular, ” os incomodados que se retirem”, me retirei.
    Não posso dizer que jamais tornarei a pisar em minha terra, minha pátria, porém a vida continua e o tempo nunca para. Criei laços aqui fora o que faz de meu retorno quase que impossível. Bom que me restou a lembrança, a cultura, os sabores e com a internet, as visitas.🇧🇷❤️🇮🇹

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    1. Que bom que você pode mudar, moço! Eu, aqui, desejei muito. Me doía ver todo o caos instalado, o discurso de ódio, a insanidade, enfim.
      Mas, agora, a esperança nos habita.
      Abraço carinhoso

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