Colcha de Retalhos · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Testamento

“Deixo para Maryann a lua bordada, feita em ponto cruz por mim. Foi bordada nas noites em que a solidão varria a alma, mas o céu tinha domínio sobre a presença. Nunca vi uma noite mais linda. Nem a que passávamos juntas no quintal de Kaori

Deixo o pé de cerejeira do quintal. Ainda não deu uma flor sequer. Talvez precise escrever para Kaori e perguntar como proceder. Talvez seja o clima daqui. De qualquer forma é cerejeira. E servirá de morada para passarinho.

O quadro de ideogramas do quarto. Comprei em Paris e era para você. O dono da loja garantiu ter pertencido a algum samurai. O que não acredito. Mas, tem a delicadeza que te pertence e acho que nunca tive coragem de entregar

A toalha bordada que você fez e nunca usei. Mas, dormia todas as noites com ela.

E as pequenas coisas que podem te servir. O macacão amarelo que você gosta. O vestido de listas lilases. Os livros. Os discos. E meu riso ecoando em Marte.

E por fim, deixo-te meu diário. Com o baú. Onde estão guardadas pequenas coisas que fizemos. O papel de bala, os origamis multicoloridos e alguns bilhetes e cartas trocadas. No diário, em alguns dias não tem datas. Porque para mim, o tempo parava além de nós.

Lá estão as canções que cantávamos e grande parte das cicatrizes que o tempo curou. Guardei elas lá, como memória do que fui e do quão me tornei leve com você”.

Mariana Gouveia
*Texto publicado no meu livro Colcha de Retalhos
Scenarium Livros Artesanais
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Ale Helga – Mãe Literatura – Darlene Regina

só porque livro é lindo e você pode adquirir aqui

Caderno de Notas · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Com uma esferográfica cravada no coração.

 A ansiedade chegava antes das cartas. Por causa do lugar, atrasavam uns 15 dias, Era tão difícil compreender as datas, o tempo, restava apenas o lugar de origem da escrita e a pena por trás dela.

As palavras vinham adoçadas. Recheadas de saudades. – “ontem fez frio”. “anteontem choveu”. ” hoje amanheceu nublado”. “sonhei com você” ” queria ser eu a estar em suas mãos”.

Descrevia em cada letra tudo que vivia para que fosse possível participar do exato instante em que as letras caíram da caneta… para ganhar vivacidade na boca que lia.
Quando o carteiro virava a estradinha, que fazia a curva perto do velho ipê, saía em disparada e com o coração nas mãos.

Apreciava cada pequeno detalhe do envelope, aberto com um cuidado ímpar. Quase sem fôlego… aspirava o perfume que só mais tarde descobriu ser de ervas verdes, com um nome estranho-estrangeiro. Uma palavra nova para constar de seu vocabulário mutante.

A carta ganhava vida em sua boca… tão cheia de diálogos. Deitava-se sobre a grama molhada, lia e relia para que as palavras ganhassem vida. A carta era um corpo que se oferecia ao toque, a carícia… e ao encontro com os lábios num beijo carinhoso-único.

No dia em que as palavras deixaram o papel… foi mágico! Por um momento ficaram em silêncio, admirando-se. Sentiram cócegas na ponta dos dedos. Escreviam-se por dentro. Alguém disse a primeira palavra e depois outra e mais outra… muitas palavras depois, a pequena aldeia fazia festa porque o primeiro amor aconteceu.

Deram-se as mãos e caminharam pelos caminhos de terra percebendo a narrativa, que falava do cheiro da terra, da mão que cobria os olhos para afastar a luz do sol e da festa dos pássaros nos voos de árvore em árvore.

O carteiro passou, acenou e avisou que não tinha carta naquele dia. Pensou que enxergaria tristeza. Mas se lembrou de suas pesquisas de moleque. A palavra destinatário vinha do latim Destinatus… o destino de uma carta seria outra pessoa. E a partir daquele dia passou a prestar mais atenção nos envelopes que entregava…

E foi o carteiro o primeiro a reparar que as cartas pararam de vir para casa depois da curva. Só entregava as apostilas do Instituto Universal Brasileiro. Alguém naquela casa aprendia corte e costura, pintura artística….

O primeiro amor se foi – lamentava o carteiro sempre que passava por lá, sem envelopes para entregar.

Mariana Gouveia
Texto publicado no livro Caderno de Notas e Nem Sempre a Lápis
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só porque hoje recebi cartas aqui

Das palavras das cartas

Carta à menina sagitariana mais meio do céu em gêmeos…

Malena,

Essa é a primeira carta que te escrevo e confesso que já desejava te escrever desde que nasceu. Lá naquele 11 de dezembro de 2016. Eu estava tão longe e de alguma maneira fiquei pertinho do seu pai na antessala do hospital enquanto você nascia.

Seu pai é o que eu chamava de menino primavera, por causa da delicadeza dele com os amigos. Uma noite, atrasei meu trabalho e mesmo sem necessidade ele fingiu estar trabalhando só para não me deixar só no escritório e ainda me acompanhou até o ponto de ônibus e só seguiu depois que o ônibus chegou.

Lembro-me bem daquela noite em que o maaassa dele ficou guardado no coração. Quando eu o encontrava, mesmo depois de já não trabalharmos mais juntos ele era acolhida e o abraço era puro aconchego.

Já sua mãe, foi paixão a primeira vista… O sorriso largo dela ganhou meu coração logo de cara e fiquei pensando: como não conheci ela antes? A minha admiração por ela só crescia quando a gente se encontrava. Sua mãe é a pessoa mais corajosa que conheço. Mas não pude aproveitar muito a presença dela, logo depois, eles foram para Portugal. E daí, passei a acompanhá-los pela internet. E assim, vibrei com a notícia de que você chegava.

Sabe, Malena, temos uma diferença de fuso horário daqui para aí… e era um fim de tarde aqui e noite aí quando você deu os primeiros sinais de que viria ao mundo. Eu nunca quis tanto estar em algum lugar como naquela noite desejei estar ao lado do seu pai e chorei de alegria quando recebi sua primeira foto.

Depois daquele dia, passei a te acompanhar e torcer para mais uma pessoinha, além dos dois. E que bom que a internet me permitiu saber de você e de como você cresce tão linda. Você tem a arte no sangue e tem como exemplo dois artistas maravilhosos de quem eu sou muito fã.

Roubei a frase de sua mãe sobre você ser a sagitariana mais meio do céu em gêmeos que ela conhece… achei tão lindo isso que resolvi cumprir a promessa da carta. Sei que tudo que você fizer será de muito sucesso e adorei cada uma de suas pinturas. Que você se descubra todos os dias dentro das cores, nas danças, nos ritmos e nos ciclos que sempre surgirão.

Mesmo sem te conhecer pessoalmente, eu já gosto imensamente de você e te abençoo dentro dos dias e que durante a vida seja muito feliz!

Abraço carinhoso,
Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
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só porque hoje é domingo

Das palavras das cartas

Quando a ausência de mim é presença em você…

Edi,

Eu queria te contar que hoje, apesar de um frio atípico, aqui teve um momento de sol e eis que uma nuvem surgiu e vi a letra E como se o céu tivesse sido pintado. Durou pouco esse momento, mas lembrei-me de sua mãe.

Desde que ela se foi, os meus sábados ficaram vazios – acho até que eu já disse isso para você – da presença dela e cheio de lembranças. Não há um sábado que eu não me pego fazendo planos de atravessar a ponte para logo lembrar que já não faço isso há um bom tempo.

Converso muito com ela, sabe… e falo que de tão especial ela deixou me deixou mais um amigo e eu sou grata por isso. Com ela, eu conversava coisas que nunca falei para ninguém e sei que com ela também era assim. Tenho na memórias alguns momentos tão nossos e já me peguei várias vezes discando o número para ligar e saber a opinião sobre determinada coisa que somente ela me diria o que fazer.

Ela me deixou muito solitária nos dias normais, mas o vazio imenso dos sábados me deixa sensação de que há alguma coisa que não fiz. Para amenizar isso, recorro às receitas que ela criava para mim, principalmente com quiabo – que eu adoro – e que ela tão bem inventava pratos diferentes para me agradar. Era a maneira dela dizer que me amava.

Ainda ecoa no meu coração a risada dela, ainda tenho a sensação do abraço e a voz me dando bronca por alguma coisa… E já me peguei buscando o rosto dela em outras pessoas na rua…

Peço desculpas se te trago lembranças que doem, mas eu queria compartilhar com você essa foto e te escrever foi a maneira de fazer com que nossas saudades se misturem. Cuida bem de você e viva feliz em memória dela e por ela.

Abraço carinhoso,

Mariana Gouveia
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só porque hoje é sábado

Das palavras das cartas

As mentiras que esquecemos de contar.

Minha querida,

Se não posso
dar-te mais,
me ofereço hoje
– em traje de gala –
coberta apenas
de luminosas
notas musicais

Maria Borges

Escrevo-te ouvindo minha música de momento que já pode ser outra quando você estiver lendo essa carta, porque você sabe bem que sou esse rompante musical… Misturo-me as letras e assim, apaixono-me pela canção. Talvez, você dirá que sou volúvel, mas sou assim com as músicas. Gosto de tantas e amo muitas.

Sabe, parece que esse ano o inverno resolveu ser intruso dentro dos dias de outono e a temperatura caiu. Você sabe que não gosto de frio e me refugio na quietude do meu quarto enquanto limpo mais uma vez as gavetas e eis que encontro as cartas todas. As suas se misturaram as que recebi de amigas de outros cantos. As palavras ali, no papel já amarelando pelo tempo, parecem escritas em outro tempo… esse mesmo que recorro e digo que parece que foi ontem.

Não está escrito nelas as mentiras que esquecemos de contar… acho que nem passou isso por nossas cabeças quando minha curva esbarrou em seu mar. Parecia que tudo já havia sido vivido em séculos e séculos atrás… e hoje, entre os vãos das conversas há a estranha sensação de que tudo foi só uma estação fora das estações. Mentimos que era para sempre, mentimos que a emoção seria sempre a mesma e mentimos que não sofreríamos. Tudo mentira para quem não mente. Nomes sobrepostos entre um lugar tão longe que parece não existir. Tudo em códigos simplificados para além do que poderíamos entender.

Mas, como a canção que eu ouço repete mas eu vou sentir sua falta e assim vou somando as palavras, guardando os envelopes, ouvindo as canções que já cantamos juntas e lendo os mesmos poemas até que os séculos se tornem dias comuns e a gente possa enfim dar as mãos.

Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega

só porque hoje é o dia da mentira

das coisas breves

Praticamos o nosso modo coffee talk…

Era aquela alegria conservada guardada em potes,
como a poesia da mãe
Tudo feito em desconcertos para consertar a alma.
Era como se tudo antecedesse o tempo
Por isso, em alguns dias difíceis
Ela ia lá no pote
Respirava a poesia
E com isso, conservava a alegria de viver.
Mariana Gouveia

Chegou o último dia de agosto… E minha carta hoje é para agradecer a você que esteve comigo nesse agosto diferente.  Tentei aqui te entreter com poesia, com minhas emoções. Conseguimos praticar o nosso coffee talk. Você esteve aqui, e a gente trocou mais do que poemas e histórias. A gente esteve junto. Mesmo em dias complicados ou não, você estava aqui com seu like, seu comentário e até sua quietude.

Em agosto, temos o Beda – blog Every Day – que acontece duas vezes ao ano, em abril e em agosto. É um desafio postar diariamente, mas também é muito gratificante ver o engajamento, tanto dos blogs participantes, quanto dos leitores fiéis do blog.

Nesse agosto, derramei aqui poesias, cartas, desabafos e histórias vividas por mim. Espero que você tenha gostado.

Setembro vem aí… e a gente logo pensa na tão falada canção de Beto Guedes – sol de primavera – que exalta a primavera e as boas novas:


“Quando entrar setembro
E a boa nova andar nos campos
Quero ver brotar o perdão
Onde a gente plantou juntos outra vez”

Mas, a canção que ficou mais gravada em mim, diante de tudo que escrevi para vocês em agosto, é a música da Vanusa, no refrão que ecoa agora:

“Fui eu que em primavera
Só não viu as flores
E o Sol
Nas manhãs de Setembro

Eu quero sair
Eu quero falar
Eu quero ensinar
O vizinho a cantar

nas manhãs de setembro”

E é isso que desejo para você nesse mês que começa amanhã… que você cante e viva a vida, apesar de tudo que está aí.

Conto com você que esteve comigo aqui todos os dias e que possamos fazer com que a primavera seja vivificada dentro de nós… e que possamos fazer valer a frase da música de Beto Guedes que citei lá em cima:

“Já choramos muito
Muitos se perderam no caminho
Mesmo assim não custa inventar
Uma nova canção
Que venha nos trazer
Sol de primavera
Abre as janelas do meu peito
A lição sabemos de cor
Só nos resta aprender
“

Aqui vai ser sempre um cantinho onde você terá seu lugar, independente de qual cidade do mundo pertença. Seja em silêncio ou comentando… vai haver sempre uma xícara de café te esperando.

Grata tanto!

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega – Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina

Scenarium Livros Artesanais

*Traços

Só a rajada de vento
dá o som lírico
às pás do moinho.
Somente as coisas tocadas
pelo amor das outras
têm voz.


Fiama Hasse Pais Brandão

Dobrei os tsurus como a minha mãe havia me ensinado e lembrei – me dos dedos dela a fazer as dobraduras como se tivesse feito aquilo a vida toda. Tinha habilidade com as mãos, sabia disso desde cedo quando a via nas costuras… a tesoura a cortar os quadrados para a colcha de retalho, o tecido a ganhar contornos de roupas. Mas o que mais me encantava era a maneira que ela criava os desenhos para os bordados.

Ela nunca fizera nenhum curso de desenho e conseguia com suas mãos delicadas – as mesmas que revolvia a terra, no preparo da horta – criar a borboleta pousada na flor no papel vegetal ou em um saco de pão e conseguia transformar o desenho em um bordado. As mãos contornavam o papel com a ponta do lápis e surgiam aves, flores, jardins, castelos e paisagens.

Era uma mulher forte e ao mesmo tempo suave. Os olhos conheciam um a um dos sete filhos com suas diferenças e jeitos. Conseguia arrancar de cada um de nós o seu melhor. Em cada canto da casa seu traço estava explícito. Nas prateleiras dispostas na parede da cozinha de frente para a porta, onde as panelas de alumínio reluziam sobre as tolhas bordadas, feita por ela mesma.

Colhia as flores de lavanda e na água do enxague o cheiro rescendia na casa toda, enquanto os lençóis quaravam ao sol. O rio a margear a tábua de bater a roupa e a pedra, moldada pela correnteza, onde no fim do dia, sentava-se e cantava para espantar o mau agouro. Tinha fé nas coisas simples, seja ela uma pena que ganhava força com o vento ou na ave colorida que roubava os coquinhos na palmeira do quintal.

Os cabelos imensos, ora em tranças, – ou esvoaçante no vento, enquanto secava – ou em um coque perfeito, tal como a canção que falava sobre uma índia: “índia seus cabelos nos ombros caídos negros como a noite que não tem luar “ – que é o que ela era – e traçava os sentidos em nós da alegria de ser… O pai deve ter apaixonado por aqueles cabelos que chegavam abaixo do meio das costas, como uma cascata negra – pensava sempre nisso. Sua presença trazia cores e sons pela casa. A máquina de costura a bordar, as panelas a cozinhar alguma guloseima e a canção antiga na beira do rio, até hoje, traz os traços dela:

“Mandei caia meu sobrado, caiei, caiei, caiei.
Pintei de azul e branco, caiei, caiei, caiei.
Eu pintei de azul e branco, caiei, caiei, caiei.

Mandei pintar na varanda, mandei, mandei, mandei.
Eu pintei de roxo e amarela, caiei, caiei, caiei.
Eu pintei de roxo e amarela, caiei, caiei, caiei.

Mandei pintar na janela, mandei, mandei, mandei.
Eu pintei de verde e cinza, caiei, caiei, caiei.
Eu pintei de verde e cinza, caiei, caiei, caiei.

Mandei pintar meu luar, mandei, mandei, mandei.
Com as cores do arco-íris, caiei, caiei, caiei.
Com as cores do arco-íris, caiei, caiei, caiei.”

Ela era literal – e não há como escrever sobre ela senão literalmente – gostava das dobras… em tecidos ou em papel e de traçar os próprios riscos na bordadura. Conhecia o barulho da máquina e dos ventos. Sabia quando o vento trazia a chuva logo para além da porteira e quando falava da vida, era de poesia que falava. Quando abro os braços e chamo o vento, é nela que penso em sua filosofia de que o vento é o Espírito Santo.

Não dá para saber como as dobraduras de uma arte secular do outro lado do mundo chegou até ela. Imagino que fosse pelos livros – os milhares que ocupavam um baú de mogno moldado pelo pai – com os desenhos feitos por ela eram reverenciados como oração. Acreditava que eles possuíam o poder de não envelhecer e ela não envelheceu.

O movimento de ida foi rápido e desenhado dias antes da partida. O vento era seco e uma mariposa gigante pousou no colo dela. O olho grande, ganhou contornos de conformismo e ela pediu apenas que a arte fosse parte da vida da gente.

“É ela quem dá fôlego quando o ar falta de diversas maneiras. E quando, porventura, faltar apoio nas lutas.”

Não sei de qual luta ela falava. Traçou tantas em tão pouco tempo. Fez diferença em tantas outras vidas como a dela. Ensinou traços a muitas “filhas avulsas “do mundo e virou traço além, em algum lugar em que acredito.

De vez em quando, em um fim de dia, quando o céu expande formas e cores eu me lembro de seus traços e nesse momento faço um tsuru como maneira de seguir a arte que ela tanto amou.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de Tsurus e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega – Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina
*Texto publicado na Revista Plural Traços
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · Projeto52 · Scenarium Livros Artesanais

*Não sei se irá chover ou não…

Se eu pudesse dar somente um conselho pra Savana de ontem, eu diria:
“Acolha seu passado,
se preocupe menos com o futuro
e renasça quantas vezes for preciso no presente.
Isso é muito poderoso!”
Savana Leão

Querida Savana,

O dia amanheceu mais fresco porque ontem choveu aqui… não aquela chuva que a gente gostaria que caísse, a tal chuva da manga e do caju mas senti o cheiro de terra molhada – um dos cheiros mais deliciosos que senti na vida – foi passageiro, e os pingos deixaram sua presença no quintal.

Sorri quando descobri que era seu dia e logo a caneta ganhou forma no papel e vim aqui te abraçar. Roubei a sua frase e iniciei a carta com ela. Lembrei-me de quando ouvi seu nome pela primeira vez. Havia um matéria em um blog, com um texto belíssimo e ali, me apaixonei por você… a menina que costurava roupas para bonecas e que ama a magia da costura.

Lembrei-me da mulher corajosa, que renasce a cada dia, mesmo com todas as perdas e adversidades. Lembrei-me da mulher que escolhe as cores, que traça moldes e cria mais do que uma peça que veste o corpo… cria roupas que abraçam a alma.

Durante anos, fiquei a te acompanhar de longe. Eu, a menina dos retalhos, patchwork, bordados e crochê, encantada com a menina da costura, tecidos e criatividade. Até o primeiro abraço, até o primeiro vestido, até o primeiro riso – tímido seu – e estava ali, em minha frente a mulher que desbrava as retas, tesouras e linhas. E eu descobri que você era a mesma que criava as saias de tule e possuía de fato, a alma de leão.

Sei que esse ano foi difícil, mas assim, como a frase sua lá em cima, você renasce na dor e se fortalece na família… e a poesia ronda tuas mãos no doce ato de costurar a vida. E que bom que minhas poesias conseguiram te ajudar, em algum momento.

Nesse seu dia, há previsão de chuva… não sei se irá chover ou não… a previsão, às vezes, falha… mas o que não pode falhar é a sua fé em dias melhores… é a sua coragem diante da dor… o que não pode falhar são os traços feitos dentro dos dias para que você seja feliz.

Dias felizes para você, além de aniversários e vida afora.

Beijo,

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de Savana e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega – Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina
*Essa carta também faz parte do Projeto 52 Missivas – Scenarium Plural Livros Artesanais.

das coisas breves

Incompleta…

Levantou-se e pensou na vida. Observou o dia claro, as nuvens, poucas no céu. Lembrou-se das escolhas, dos caminhos. Procurou entre seus pensamentos algo que realmente a deixasse feliz, e percebeu que sua infância havia lhe proporcionado vários momentos de felicidade.

Desejou encher sua barriga com uma criança, dar vida com uma outra vida. Vê-la crescer. Imaginou-se falando:
– Desce, filha(o), daí… vai se machucar.

Lembrou que tinha que comprar comida para o cachorro. Sorriu ao imaginar o sorriso de seu futuro filho.

Não existia ainda um futuro, mas era bom saber que poderia imaginar isso quantas vezes quisesse. Lembrou-se das vezes em que, sentada na sala, montava sua casa de boneca… adorava ver desenhos e se imaginar a princesa da escola. Olhou o relógio e apressou-se… estava atrasada. Havia muitas coisas para cumprir, compromissos inadiáveis, telefones que insistiam em tocar. Mas ela estava lá, parada no tempo. Vendo a vida como se estivesse na janela. As pessoas passando e ela como expectadora.

Gostava de andar com os pés descalços, e estava – naquele momento – descalça. Aprendera que não podia… uma proibição. Regras. Quando era criança, não podia, mas agora, depois de grande, precisava andar descalça. Liberdade para suas manias.

Lembrou-se da cólica, das dores, lembrou-se de um amor passado. Olhou para o chão, conteve-se em procurar um chinelo, mas desistiu. Havia muitas coisas para cumprir. A comida do cachorro para comprar. Olhou a porta e viu recados. Leite. Precisava tomar café. Não havia pães, ficou com fome e pegou um pacote de bolacha. Em sua cabeça, pensamentos soltos, regime, fome, dia, regras, nenéns que não existem, comida do cachorro, bola, brinquedo, pés. Sonhou em estar em uma praia. Escolheu a roupa do armário e colocou a música para tocar. No rádio, notícias. Olhou o céu azul e desejou ouvir uma música alegre. Mudou de estação. Notícias, propaganda e, de repente, um som que preencheu a alma. Pensou novamente no futuro. Queria ser mãe. Não era o momento, mas queria. Vestiu-se.

Por ora, esqueceu-se dos momentos ruins. Fez uma menção aos santos para iluminar seu dia e saiu… como quem cumpre suas diretrizes, como quem sonha em conquistar o mundo…

P.S.: Anos depois, o filho – já grande – chega da faculdade e fala da Grécia. Muda a estação do rádio, põe numa música engraçada e gritante.

– Mãe, tem de comprar a ração da Meg…

O sorriso do rapaz era largo ao brincar com a cachorrinha… e, nesse instante, revivi aquele dia em que desejei ter meu bebê, lembrando-me de todos os anos. O primeiro dia na escola, o primeiro tudo dele…

Vendo-o assim, bebendo água na boca da garrafa pela milésima vez, reprimo… e, pela milésima vez, ouço o “relaxa”…

P.S.²: A vida levou o homem para longe… e depois de anos realizou o desejo de subir degraus em busca da fé e mais uma vez, descalça, reviro os textos que falam do meu amor por ele. Por acaso, encontrei esse e achei que precisava de um complemento melhor. Lembrei-me de uma frase do meu pai de quando me casei: ” Depois que se constrói uma família, tudo que você deseja é que seu filho seja forte… para enfrentar os momentos bons e ruins. Voar é só uma parte do caminho, no alto. De resto, o chão é onde o pouso é seguro e a estrada te espera para seguir adiante.”


Meg se foi há alguns anos e hoje, Yoshi e Lolla cumprem a função de cuidar dessa humana aqui, que mesmo depois de tantos anos ainda pensa se ele comeu, se dormiu, se lavou o uniforme, se levou casaco… essas coisas de mãe. Da mãe que eu queria ser e sou.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de dizer eu te amo e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega – Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina

Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

A rota em direção ao meu Norte.

Não tinha endereço na plaqueta da rua nem número em casa nenhuma. A casinha quase a tocar as árvores ao longo da rua, que era estrada… A direção se dava pelos cheiros. As flores do jardim reacendiam na alma a rota do abraço e a lembrança da chaleira sobre o fogão de lenha já alertava meus sentidos para o chá.
Não saberia nomear o sentido das coisas. Algumas, o universo me dá sem ter nome… Outras, me caem como presente divino.
As ervas que vim buscar estavam a secar em um balcão improvisado a espalhar aromas que eu conheço bem.
Ela riu como da última vez que a vi. Eu coube bem dentro do abraço. Depois de levar a bronca por ter faltado ao último São Cosme e São Damião. Fez mil perguntas buscando dentro do meu olhar as respostas reticentes que eu dava. Desconfiava das minhas desculpas…Ria do meu embaraço a falar do tempo. Lia meu olhar como uma carta aberta letra por letra.
Ela conhecia bem meus silêncios e dentro deles muitas vezes foi benção e voz.
A casa tinha seu cheiro de amor em cada retrato de santo na parede e o ramo de arruda na mão a benzer meu olhar. Tomei um banho de chuva. As ervas a envolver minha pele como se dela fizesse parte. A busca pelo meu canto de sempre. O respirar para dentro num ritual que eu já havia vivido e sentido.
Muitas vezes, ali, debaixo do pé de maracujá, eu descobri minha rota de fuga. Mas também descobri o meu norte e mais uma vez busco refúgio dentro do olhar dela. Ela repete gestos em orações e silêncios. A mão toca minha testa como se pudesse com a mão tirar o que me afligia. As horas ali, parecem não pertencer ao mundo dela. O tempo para dentro do tempo.
O rádio de todo dia toca uma canção antiga. Ela se recorda pela milésima vez quando me conheceu e daquele momento em diante eu virei filha – com ar de brava reclama da filha desnaturada que some de vez em quando – e de como derrama seu amor por mim. Eu respiro carinho em cada canto dessa casa que também é meu lar.
O chá fumega espalhando a essência de cura pelo ar. Os biscoitos de nata desmancham na boca e naquele momento eu percebo o quanto sou abençoada e de que preciso repetir mais vezes esses instantes.
Estendo o braço para a simplicidade do toque. Mão leve que toca e pronuncia as palavras certas. Ri de minhas histórias…canta a canção que aprendeu pelo rádio. Pego as ervas depois do abraço carinhoso e vou rumo à cidade.
Ainda posso ouvir a voz dela a ganhar eco na projeção das árvores. As orientações ainda a ecoar na mente e no coração.
Ainda a vejo no portãozinho de madeira a acenar tchaus com gestos de beijos. Ela é toda inspiração de fé e coragem. Ela é a dona dos cabelos brancos mais brancos ainda e jeito gostoso de vó.
Volto energizada, benzida e curada. A vida sempre me dando atalhos com direção certa e eu apenas a dizer sim ao Universo.

Amém!
Amem…
Mariana Gouveia
Agosto é o mês de abraços e de B.E.D.A
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*Texto publicado na Revista Plural North and South pela Scenarium Livros Artesanais