Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

O dia em que a terra parou.


eu não sabia que tinha um coração de porcelana,
eu de vassoura e pá a recolher os cacos,
eu a tentar não cortar os dedos e provar o meu sangue,
eu sentada no chão de azulejos da cozinha
no chão azulejos que não azulejam,
a chorar lágrimas azuis

Raquel Serejo Martins

Devia ser como o dia de hoje aquele dia que a minha memória ainda relembra. Era um dia febril, em que a terra também sentia o calor profundo do sol. E deve ter sido difícil também para você ver o azul do céu com as cores que mais gostava. Era mais ou menos igual a vários poemas lidos que cita essa dor no peito. Era em um dia como hoje – disso, eu me lembro – e de como o olhar ia se despedindo horas antes de ir.

Alguma coisa já antecipava esse gesto – e as solidões, nossas, juntas, tão iguais e desiguais – de adeus. Parecia ser apenas um até breve, a partida, já com data marcada, mas sem previsão de ida. Depois disso, foi só o céu visto das nuvens, o rio contornando a cidade. Lembrou-se da palavra do poema onde eu citei isso – você me disse depois, em um carta que nunca chegou. Viu o azul do céu lá do alto, o avião contornando algumas nuvens. Ainda podia sentir as mãos tremendo e relembrou das promessas feitas que sabia que não podia cumprir. Seu amor era bonito demais, alguém aconselhou em terapia que amor assim deve ficar só nas lembranças.

Alguém lhe disse também que o tempo curava tudo e acho que essa foi a última palavra que ouvi de você… e foi daí que tirei forças para atravessar os dias. Comecei a contar primeiro os dias sem notícias, depois, os dias em que vivemos o que de mais belo poderíamos ter vivido… depois, as contagens foram se misturando e eu já não sabia qual foi o dia em que a terra parou de existir. Nem qual foi o dia em que a emoção mudou de lugar com a saudade. Esse sentimento vago que ninguém fala que é bonito, mas que para mim, tem seu nome, como se fosse tatuagem na pele.

Mas, hoje, em uma data que a memória trouxe, sabe-se lá porque, recordei a data sem querer. E quase como em um ritual peguei as cartas do baú e refiz cada intenção de dor que o tempo ainda não curou…

Mariana Gouveia
* fotografia: Ines Kozic
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura – Darlene Regina

só porque hoje é 13 de abril

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Das cartas que não enviei…

“Foi preciso eu partir para saberes o quanto me querias… Mas olha em teu redor…
Podes ver nestas paredes como eu estava quando daqui saí…
O teu abandono começou muito antes de eu fechar esta porta a última vez…”

Élia Carvalho.

Mais uma vez você diz adeus. E mais uma vez, da mesma forma suave de quando partiu. Não sei bem dizer se é adeus mesmo, ou um ponto final estranho na história que escrevíamos juntas.
É quase como um livro que estava a ler e as folhas foram arrancadas na despedida sem respostas.
E de novo, vejo o mesmo vestígio de coisas que não foram vividas.
Sinto inveja das coisas que não vivi com você. De quantos pores-do-sol que você presenciou e eu não estava e já começo a enumerar quantos de novo verei, sem você aqui. E das manhãs dentro das minhas rotinas e do bom dia açucarado com café e da vontade bruta nas tardes em ouvir tua voz.
Tateio na minha saudade já sentida de tudo que não verei e conto as horas do dia olhando o relógio barulhento da memória e suporto mais uma vez esse peso.
Isso sim, me pesa diante das possibilidades de não sentir mais a presença perto.
Por que é assim que será. Tuas impressões afastadas diante do que vejo, para que então eu perceba de fato, que a leveza da vida era quando você estava aqui. E quando ler o poema preferido sentirá que de fato, era eu quem te pesava tanto.

Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes  Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura – Darlene Regina

só porque hoje não fui aos correios

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Guardei meu amor, bem guardadinho…

A,

Escondi no meu baú a palavra doce. Guardei-a como as meninas de antigamente guardavam os anéis.
Guardei a aliança de prata também. E os dias vividos com você no meu quintal. Dentro do baú antigo, onde guardo minhas memórias guardei a vida. Deixo lá com todos os instantes de riso que vivemos. Das palavras que precisavam de traduções.
Guardei as fotos que você tirou. Não é bom ver fotografia de flor com essa fome constante de flor. Os poemas escritos com seu nome. As cartas que nunca tive coragem de enviar. Tudo isso faz companhia para a minha solidão.
Lá, tem um papel de bala dado um nó, desses que se você quisesse um abraço mais forte, teria de apertar mais. Também tem junto, dentro do baú, o riso de minha mãe, que ecoou no meu coração em uma noite fria quando senti vontade de comer flor.
Já era bem de antes essa vontade contida. Lembro-me que ela riu quando eu disse: um dia, planto uma flor vermelha só para comer.

Guardei no baú tantas lembranças para quando eu me perder das memórias, possa abrir e ver esse sentimento que invento para você. O sentimento da espera.
Todo dia, pego o baú nos braços, passeio com ele pelo quintal e pela milésima vez faço a promessa de só abri-lo quando puder te tocar outra vez. Ou ouvir sua voz, que coloquei ali, num cantinho, para evocar a canção monocórdica que cantou para mim.
Guardei dentro dele as sementes da flor. Plantei uma apenas e converso com ela na delicadeza dos raminhos que crescem e brota a cada dia uma nova folha. Logo, terei uma papoula vermelha na intensidade da fome.
Os vizinhos dizem que estou louca. Os loucos, me chamam de sã e na minha lucidez desvairada, eu, só chamo você.

Mariana Gouveia
* fotografia: Raquel Pellicano
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só porque os baús guardam as lembranças

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Caminho… E atrás de mim caminham as estrelas até seu próximo amanhã…

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas.
Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X.
Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia.
Comeu em meus livros de prosa as citações em verso.
Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
João Cabral de Melo Neto.

Querida M.

Hoje, somente hoje, eu resolvi cumprir aquela promessa antiga de te escrever pelo menos uma vez a cada mês…

Devo dizer que aquela canção que você gostava toca em alguma casa por perto e a sensação de cheiro de cravo invade meu lugar… tudo parece tão igual e tudo está diferente – essa era uma frase que dizíamos entre risos e gargalhadas – igual nós, você diria…

Você deve se perguntar por que só agora resolvi escrever e sei que também vai dizer as mesmas coisas de sempre – “ainda bem que escreveu… Podia ser nunca. Hum”! – e vai beijar o envelope colorido muitas vezes…
Talvez seja essa mudança interna que avança em mim… talvez antes não tenha sido o tempo. Talvez tenhamos falado demais nesses últimos dias… o fato é que a promessa está sendo cumprida e ponto.

Nesses dias de ajuste de alma passei a relembrar nossas vidas, nossos encontros e toda alegria que levávamos vida afora. Lembra-se daquele tempo em que saíamos na rua a tocar campainhas e descíamos a ladeira da Rua dos Cravos, entre risadas ofegantes e sentávamos na calçada alta onde chupávamos o picolé colorido da D. Lídia? Vi um picolezeiro hoje e não há mais aquele picolé multicolorido… ele riu da minha indagação e tive de contar nossa pequena história e de como o sabor era diferente dos de hoje.

Contei das gargalhadas que espalhávamos pelas ruas do bairro e de como fomos obrigadas a ajudar o moço árabe a cuidar do jardim dele por alguns meses e alguns deles por puro amor ensinado.
Já revivi aquele dia que sempre me pareceu surreal umas mil vezes. Você descia a rua em direção ao centro e chegava sempre no lugar marcado com um cravo chinês na mão. Fazia reverência à palavra “chinês” como se a flor não tivesse sido furtada do jardim imenso do “seu” Abdo até o dia em que foi pega e para não te deixar ir só, arrastada pelo braço até a delegacia do bairro assumi ser a ladra dos cravos… como odiei aquela flor, ali, quase murcha em sua mão e seu olho de súplica até meu pai chegar e nos tirar daquela encrenca perante os “olhos raivosos” do árabe, que ria disfarçadamente quando nos perguntaram  para que roubávamos os cravos e entre dentes eu disse: para comer… A gente comia tudo… “Já comeu o amarelo das flores? Faz com que a gente nunca envelheça…”

E depois da bronca fingida do meu pai ficamos de castigo e tivemos de ajudá-lo a cuidar do jardim durante longos meses e o incorporamos em nossas risadas, depois de dias intensos de aula de jardinagem. Talvez daí tenha surgido minha paixão pela terra, pelas sementes e pelos árabes.

Como a vida era simples no seu gargalhar e como era lindo sua ida, já tarde, depois do jantar para sua casa. Você levava luz por onde andava. Eu ficava na ponta dos pés, na calçada alta, vendo-a virar a esquina da Rua dos Vaga-lumes… você deixava seu rastro dentro dos meus caminhos e hoje ainda sinto tua presença por onde ando.
O caminho que faço tem a mesma leveza de antes… e atrás de mim caminham as estrelas até seu próximo amanhã…

Beijo meu


Mariana Gouveia
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só porque hoje foi dia de cumprir promessas

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Recaída

Tem dias em que acontecem recaídas – acho que falei sobre isso – mas tudo acontece na sala de espera. Há um atraso no tempo, ou eu, no adiantado da hora. Essa mania minha de precipitações.
Eu poderia desenhar essa sala quinhentas vezes e ainda assim ficaria algum detalhe por dizer. Ou prestar atenção.
As cortinas não são abertas totalmente, porque as janelas, nessa hora ganham o sol em pleno peito. As frestas e os fios de luz tentam romper a barreira do tecido sei lá que cor desbotado pelo tempo. Um quadro de Kandinsky dá cor ao ambiente. Rouba a cena, eu acho.
Na outra parede os alvarás, diplomas e essas coisas necessárias, sei lá porque.
No vaso à direita do sofá cor de esponja, uma palmeira mirim que juro ser de plástico. E a secretária na mesa do canto com ar de “coitada, ela é louca” me avisa para eu entrar.
Lá dentro, fico em espécie de bolha. Me falta o ar. Corro para a janela. Meu lugar de decisões. Ela anota.
Me perguntou sobre o baú. Tiro da bolsa o pequeno móvel que me pesa mais nas lembranças do que propriamente no peso.
Primeiro sinto o cheiro. Essa coisa estranha de vidro de perfume vazio. A camiseta com o poema de Ekelöf, dobrada, selos de cartas que não vieram e as fotografias. Registradas em momentos de risos, onde o vento agitava meu cabelo e a subida do morro me deixava com olhar feliz.
Uma, me fez lembrar do dia em que cai da escada. Antes de acontecer, lá está eu, fotografada em risos e no impressionante descuido do seu olhar.
Não preciso dizer mais nada. Ela anota meus silêncios.
Era para ser o desfazer das coisas, mas o grito que eu calo me faz fechar o baú e despedir com o olhar.
Quem sabe amanhã consigo.
Desfazer das coisas é quase um bloqueio de alma.
Falo da canção que escuto lá fora. E ela começa a falar de poesias.

Mariana Gouveia
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só porque hoje é dia de terapia

Corredores, Codinome Locura

Cuiabá

Cuiabá,

A memórias chegam como se fossem flashes de instantes com você. Dos seu 303 anos eu vivi junto os últimos 40 anos.

Eu, adolescente, 15 anos, com os olhos fascinados pelo seu tamanho. Dores vividas pela perda de minha mãe. Conhecedora de suas madrugadas, onde ainda quase criança levava músicas através do rádio para pessoas que eu nem conhecia ainda.

Eu, 20 anos, apaixonada por sua história, encantada pelas suas ruas e em suas igrejas buscava o sinal de fé. Com 21, você foi testemunha do meu casamento e de minhas histórias de amor.

Eu, 23 anos, fui mãe em suas praças, fui atriz em seus teatros e fui militante em muitas causas. Algumas, buscando melhoria para os que aqui vivem… Depois, fui apenas gente. Uma a mais em seus tantos e sotaques diferentes.

Aos 40, fui apenas saudades… você mudou. Ganhou ares de grande metrópole. Mas ao mesmo tempo, se tornou sofrida – quase doente. E eu cuidava de te desenhar em pontos de linhas e te pintar para que a memória ficasse viva para sempre. Não das suas dores, mas da sua redenção de quem se perde e se reencontra. As suas árvores e seus ipês. As cores dos muros e das alamedas.

Aos 50 eu fui companhia em seus rios, seus bosques e sua solidão… porque você é só, mesmo tão cheia de gente. Muitas vezes, na contramão da vanguarda você volta no tempo e refaz sua história… seja com seu povo com um jeito tão peculiar de falar, seja com aqueles que aqui chegam em busca de um lugar para chamar de seu. É quando te sinto cheia de vida. Com suas danças, sua cultura, seu rasqueado, sua comida e seu linguajar.

Aos 56 anos, eu sou esse sol que arde, esse céu que abriga tantas tonalidades e as nuvens – de chuva-friagem – e que te marca tão bem como a cidade quente. Mas, também eu sou a vila da periferia, os quintais e seus pés de tantas frutas… as aves de tantas espécies e sua gente de tantos tons.

Hoje, eu sou você… com todas as vozes que me cabe… com todas as vontades que me atravessam e com todo bem que te quero.

Parabéns, Cuiabá!

Mariana Gouveia
Scenarium Livros Artesanais

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só porque é aniversário de Cuiabá


Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

É seu, o lápis de cor!

“A vida tem a cor que você pinta”.

Mário Bonatti

Bambina mia,

Inauguro minha manhã nos primeiros raios de sol que chegam. Ontem, choveu. Pareceu-me que trovejou também. Ouvi o céu fazer seus rumores. Mas, hoje não. Hoje, o céu desenha nuvens sem segredos. Como se abrisse sua caixa de lápis de cor e com ela, tal qual uma criança danada que rabisca as paredes recém-pintadas, nuvens brincam com as nuances das cores.
Nesse momento eu penso em você e de como as palavras me conquistaram. Não! Minto. Foi o silêncio mesmo. Era uma menina do sótão, que através de histórias me levava a passear por entre as dela. O cão, o menino, C, o amor da vida dela. Outono, missivas.
Fiquei na janela como a espreitar um livro, que eu folheava docemente querendo fazer parte de tudo. Cada história me cabia. Cada personagem, era eu, fingindo-me tão conhecida que chegava a cumprimentar.
Confesso que o que me chamou atenção foi o Caderno Vermelho. Ali, eu me envolvia como se fizesse parte do que ela (d) escrevia… A cortina que o vento balançava quase me jogava dentro das tintas e das letras.
Era Outubro quando ela surgiu misteriosa aos meus olhos em um ano qualquer. Primavera nas folhinhas que designava as estações enquanto ela gritava que preferia o outono.
Consegui acompanhar seus passos pela cidade. Mostrava-me o inusitado do tempo, a umidade ou a secura do dia. Ela deu-me a chave que abria a porta para as possibilidades. Para o sonhar e ao mesmo tempo, despertava-me na ansiedade dos dias. O dia, que para ela sempre começa depois que o meio dele se foi.
– Ah, não me queira tão cedo, menina. Sou da tarde, depois da xícara do café fumegante e de ler e reler os e-mails. De viver o aconchego do cão. Da foto do aplicativo que mostra que acordei. Dos caminhos até o café, onde pessoas de ontem passam por você e seus olhos não guardam o que você viu. Ou por que a cidade é urgente demais e hoje, o que era ontem, não é mais.
Sem estar pronta, ela está toda preparada. De riso solto e de braço que nesse instante, eu ia querer abraçar. Ou apenas calar diante de tua presença.
Então, guardo minha caixa de lápis de cores e reabro quando o sol já colore a tarde e vagueia na imensidão do céu.
Vejo o calendário. Já não é mais o dia que ela falou em poesia. Já é outro e desponta com a celeridade peculiar do astro solar e quando você percebe já não é mais esse dia. O calendário muda na velocidade das horas e nesse momento, dou-te a arte. Essa que se desenha nos momentos que viveu.
Dou-te a emoção do silêncio. Esse, que grita em tuas paredes e que revolve os lençóis brancos jogados sobre os móveis e que quaram sobre tuas lembranças. Dou-te a orientação sobre os caminhos que te levam ao encontro da esquina.
São olhos que você nunca havia visto, mas que, te mostram onde caminhar. Ou apenas silenciam ao teu passar.
Toma. É seu o lápis de cor que pinta esse céu com as tempestades que a meteorologia adivinhou em você. Pinta tua vida com o riso dos encantos e que só a magia dos poetas conseguem descrever. Não precisa estar pronta. Nem é necessário que esteja. Te refaz perante meus olhos ávidos, o sonhar. Redesenha nas paredes dos seus sonhos a vontade do viver enquanto eu escrevo o que ainda conheço, mas imagino entre meus dedos na melodia de aquecer a alma o que aspiro conhecer.

É seu, esse lápis que te dou e que diariamente com ele, você descreve  o amor e pinta dia de sol com cores renovadas. E nas levezas do artesanato, encaderna sonhos e os espalha como semente em um jardim.

É seu, o lápis de cor.

Mariana Gouveia
Texto publicado no caderno de Notas – Terceira Edição
Scenarium Livros Artesanais

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só porque eu ouvia Èra Già Tutto Previsto

Das palavras das cartas · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Arte de rua

Meu caro M,

Bem, era um destes dias ou lugares talvez…

Roubei essa frase acima de você só para te contar que daqui a dois dias Cuiabá completará 303 anos e eu me vi caminhando pelas ruas e decidi, aproveitando o projeto fotográfico 6 on 6, te mostrar um pouco do que vi-vejo pelas ruas do meu lugar. Já faz um tempo que não falo com você e confesso que sinto falta… Aliás, sinto falta de saber mais de você e de contar coisas minhas também e de perguntar se é mesmo verdade que é avoador… Essas coisas bobas que amigos conversam-perguntam e riem juntos.

Eu apanhei um artista no instante em que ele criava sua arte. Parece a poesia quando sai da alma do poeta e ganha vida nas letras, nos cadernos, nos livros. A arte de rua ainda é considerada uma afronta a sociedade e eu poderia escrever muito sobre isso, mas eu perderia o foco de te levar comigo, quase de mãos dadas apontando aqui e ali a Cuiabá dos muros e paredes…

O artista que fez a pintura é o mesmo que tatuou as borboletas nas minhas costas… também passaria horas falando de como ele enfrenta o mundo das ruas com a arte e de como seu grito de luta às vezes é calado com repreensão… mas isso, é uma outra história. Eu só quero mesmo te passar a arte e sua essência de voz ecoando pelas ruas.

Sabe, Cuiabá possui seu nicho de artistas e com isso, os viadutos ganharam vida através das pinturas que retrata a cultura e o cotidiano de um povo de beira de rio, de viola de cocho, de Pantanal… Fica mais fácil atravessar as ruas e ver algumas paredes velhas contando arte e histórias… mas, nesse mundo tão corrido tem gente que passa e nem vê.

Sempre quando eu passo em frente a essa casa – um casarão histórico, abandonado pelas autoridades, prestes a cair, feito de adobo – parece falar comigo. Não nego o riso ao responder: o que você quer? Parece que a alma do casarão ainda está ali, à espreita de que alguém o acuda. É triste, mas é poético, eu diria.

Também tem casa que parece toda feliz… embora, eu conheça essa casa e as nuances da tristeza dela… Mas, sinto, que ela todos os dias luta para que as pessoas que cruze suas esquinas leve com elas um riso de cores na memória.

Sei que seis fotos não pode traduzir uma cidade nem a arte que habita em suas ruas… Mas, sei que caminhar com você foi só um pouco da metade do caminho… ainda iremos caminhar por florestas, por estradas e até mesmo por cartas, como essa que leva até você meu carinho e agradecer.
Você sabe porquê.

Mariana Gouveia
Scenarium Livros Artesanais
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Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Ale Helga – Mãe Literatura – Darlene ReginaRoseli Pedroso

só porque a arte e as cartas se misturam

Colcha de Retalhos · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

*Testamento

“Deixo para Maryann a lua bordada, feita em ponto cruz por mim. Foi bordada nas noites em que a solidão varria a alma, mas o céu tinha domínio sobre a presença. Nunca vi uma noite mais linda. Nem a que passávamos juntas no quintal de Kaori

Deixo o pé de cerejeira do quintal. Ainda não deu uma flor sequer. Talvez precise escrever para Kaori e perguntar como proceder. Talvez seja o clima daqui. De qualquer forma é cerejeira. E servirá de morada para passarinho.

O quadro de ideogramas do quarto. Comprei em Paris e era para você. O dono da loja garantiu ter pertencido a algum samurai. O que não acredito. Mas, tem a delicadeza que te pertence e acho que nunca tive coragem de entregar

A toalha bordada que você fez e nunca usei. Mas, dormia todas as noites com ela.

E as pequenas coisas que podem te servir. O macacão amarelo que você gosta. O vestido de listas lilases. Os livros. Os discos. E meu riso ecoando em Marte.

E por fim, deixo-te meu diário. Com o baú. Onde estão guardadas pequenas coisas que fizemos. O papel de bala, os origamis multicoloridos e alguns bilhetes e cartas trocadas. No diário, em alguns dias não tem datas. Porque para mim, o tempo parava além de nós.

Lá estão as canções que cantávamos e grande parte das cicatrizes que o tempo curou. Guardei elas lá, como memória do que fui e do quão me tornei leve com você”.

Mariana Gouveia
*Texto publicado no meu livro Colcha de Retalhos
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Caderno de Notas · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Com uma esferográfica cravada no coração.

 A ansiedade chegava antes das cartas. Por causa do lugar, atrasavam uns 15 dias, Era tão difícil compreender as datas, o tempo, restava apenas o lugar de origem da escrita e a pena por trás dela.

As palavras vinham adoçadas. Recheadas de saudades. – “ontem fez frio”. “anteontem choveu”. ” hoje amanheceu nublado”. “sonhei com você” ” queria ser eu a estar em suas mãos”.

Descrevia em cada letra tudo que vivia para que fosse possível participar do exato instante em que as letras caíram da caneta… para ganhar vivacidade na boca que lia.
Quando o carteiro virava a estradinha, que fazia a curva perto do velho ipê, saía em disparada e com o coração nas mãos.

Apreciava cada pequeno detalhe do envelope, aberto com um cuidado ímpar. Quase sem fôlego… aspirava o perfume que só mais tarde descobriu ser de ervas verdes, com um nome estranho-estrangeiro. Uma palavra nova para constar de seu vocabulário mutante.

A carta ganhava vida em sua boca… tão cheia de diálogos. Deitava-se sobre a grama molhada, lia e relia para que as palavras ganhassem vida. A carta era um corpo que se oferecia ao toque, a carícia… e ao encontro com os lábios num beijo carinhoso-único.

No dia em que as palavras deixaram o papel… foi mágico! Por um momento ficaram em silêncio, admirando-se. Sentiram cócegas na ponta dos dedos. Escreviam-se por dentro. Alguém disse a primeira palavra e depois outra e mais outra… muitas palavras depois, a pequena aldeia fazia festa porque o primeiro amor aconteceu.

Deram-se as mãos e caminharam pelos caminhos de terra percebendo a narrativa, que falava do cheiro da terra, da mão que cobria os olhos para afastar a luz do sol e da festa dos pássaros nos voos de árvore em árvore.

O carteiro passou, acenou e avisou que não tinha carta naquele dia. Pensou que enxergaria tristeza. Mas se lembrou de suas pesquisas de moleque. A palavra destinatário vinha do latim Destinatus… o destino de uma carta seria outra pessoa. E a partir daquele dia passou a prestar mais atenção nos envelopes que entregava…

E foi o carteiro o primeiro a reparar que as cartas pararam de vir para casa depois da curva. Só entregava as apostilas do Instituto Universal Brasileiro. Alguém naquela casa aprendia corte e costura, pintura artística….

O primeiro amor se foi – lamentava o carteiro sempre que passava por lá, sem envelopes para entregar.

Mariana Gouveia
Texto publicado no livro Caderno de Notas e Nem Sempre a Lápis
Scenarium Livros Artesanais
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só porque hoje recebi cartas aqui