Das palavras das cartas

E a noite branca que se esvai com as luzes

Pai,

Devo te contar que eu ainda sigo vivenciando os rituais dos dias grandes. talvez, mais movida para relembrar alguns momentos nossos do que propriamente pela fé. Repito algumas das orações, alguns gestos e parece que um filme passa na minha cabeça.

Desse dia, eu me lembro de quase tudo. Confesso que algumas memórias esbarram-se nas outras e nunca sei se o ano era o mesmo ou se já é apenas fragmentos de uma mesma noite. O que eu mais gostava era que a quaresma chegaria ao seu final e as restrições das coisas que poderia fazer também.

De tudo que me recordo parece que a gente vivia nesse dia uma peça onde as palavras eram proferidas com o máximo de respeito. Os vizinhos todos, na sala, ao redor da mesa grande e o baralho sendo cortado. A espera da meia noite para que a farofa do frango fosse servida. Depois disso, já era apenas a trama para o sábado de aleluia e as brincadeiras de Judas.

Você se lembra de quando minha mãe ficou muito brava quando o nosso banco de madeira perto da janela foi parar lá no meio do curral? Sorrio de imaginar que ela nunca descobriu quem fez isso.

Desse dia, também lembro-me de sua carta escrita em um pedaço de papelão. Era o único papel que você tinha em mãos, em um ano que pareceu nunca ter existido. Ainda me recordo de suas palavras sobre a solidão desses dias  e de como contava o tempo marcando com carvão atrás da porta da cozinha para não esquecer. Me fez entender que o luto nos faz mais fortes depois que o tempo passa e que a gente deve aproveitar cada minuto que puder – porque depois que a gente morre, aquele dia fica sendo sempre sexta feira da paixão para quem ficou – e que todo instante é sagrado para louvar o amor. Seja o da fé, seja o do coração.

Pai, algumas coisas mudam. Outras, são repetidas como se existisse um manual. Lembro-me da frase logo ao amanhecer de que seria um dia quente – toda sexta-feira da Paixão é assim – não há uma nuvem no céu…

Esse ano foi diferente. Seria um prenúncio de romper os ritos, que penso ser a única dos seus filhos que ainda segue? Aqui, amanheceu chovendo, depois teve a garoa – como se fosse inverno – e as nuvens ganharam contornos de cores no decorrer da tarde. Até senti frio…

E agora, pai, a noite branca se esvai com as luzes… a cidade continua na sua rotina de feriado e eu aspiro o perfume das flores do Orai pro Nóbis que já me dá uma previsão de que a varanda amanhecerá colorida. De uma das coisas que não mudou foi a lua, sempre cheia em seu rito no céu. E assim, mais um ano as memórias me levam para dentro do seu colo e suas histórias que não consigo esquecer.

Bença!

Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura – Darlene Regina

só porque é sexta-feira da Paixão

Das palavras das cartas

e o dia em suspenso lá fora…

Donnant plus de blé
Qu’un meilleur avril
Et quand vient le soir
Pour qu’un ciel flamboie

Edith Piaf

MInha querida Sandra,

Alguns dias, mesmo os mais difíceis – seja por quais motivos – podem se transformar em instantes suspensos de alegria e carinho. Piaf canta e chove lá fora. Daqui a pouco vai escurecer e o relógio já marcou o fim da espera.

Suas cartas chegaram até mim nesse dia estranho de abril. Amanheceu frio, depois de uma noite de chuva, como se fosse inverno… depois, o sol de todo dia abriu as portas do céu e exibiu seu melhor sorriso… e agora, as nuvens começaram a passar rápido pelo quintal com cores surreais. Parecia Le Nuages, de Monet, e a chuva chegou bravia, com ventos que sacudiram minhas árvores no quintal.

De repente, França chegou em meu mundo, em envelopes brancos, com suas cartas me abraçando, dando colo e o dia amenizou por aqui. Não sei como agradecer o carinho e nem como dizer o quanto suas palavras me acalentaram. Como você mesma disse: tem coisas que nem as palavras conseguem descrever – é como cheiro de chuva na terra, que descobri recentemente que se chama petricor – você apenas absorve e sente. Foi assim com cada carta e as delicadezas que vieram junto. Enquanto chove e eu te escrevo acolho os cães ao meu lado.

Lolla não gosta de chuva… se recolhe no sofá, igual a tua Toundra… e como se parecem. Já Yoshi, se refugia no quarto, no travesseiro do pai. Coloco no repeat a canção e cantarolo baixinho enquanto o vento balança as folhas para lá e para cá. Chiquinho ama essa chuva e volta e meia seu canto atravessa a porta da sala.

Ainda preciso absorver direito as suas palavras e rabiscar no papel as respostas… ainda preciso cheirar mais sua arte e delirar, talvez, na poesia que inconscientemente você envia junto. preciso absorver você para que a promessa se cumpra de que dure para sempre a correspondência entre nós.

Por enquanto, sou só acalanto e gratidão.
Bisous,
Mariana Gouveia
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só porque talvez ela volte a escrever poesias

Das palavras das cartas

O dia em que a terra parou.

…
eu não sabia que tinha um coração de porcelana,
eu de vassoura e pá a recolher os cacos,
eu a tentar não cortar os dedos e provar o meu sangue,
eu sentada no chão de azulejos da cozinha
no chão azulejos que não azulejam,
a chorar lágrimas azuis

Raquel Serejo Martins

Devia ser como o dia de hoje aquele dia que a minha memória ainda relembra. Era um dia febril, em que a terra também sentia o calor profundo do sol. E deve ter sido difícil também para você ver o azul do céu com as cores que mais gostava. Era mais ou menos igual a vários poemas lidos que cita essa dor no peito. Era em um dia como hoje – disso, eu me lembro – e de como o olhar ia se despedindo horas antes de ir.

Alguma coisa já antecipava esse gesto – e as solidões, nossas, juntas, tão iguais e desiguais – de adeus. Parecia ser apenas um até breve, a partida, já com data marcada, mas sem previsão de ida. Depois disso, foi só o céu visto das nuvens, o rio contornando a cidade. Lembrou-se da palavra do poema onde eu citei isso – você me disse depois, em um carta que nunca chegou. Viu o azul do céu lá do alto, o avião contornando algumas nuvens. Ainda podia sentir as mãos tremendo e relembrou das promessas feitas que sabia que não podia cumprir. Seu amor era bonito demais, alguém aconselhou em terapia que amor assim deve ficar só nas lembranças.

Alguém lhe disse também que o tempo curava tudo e acho que essa foi a última palavra que ouvi de você… e foi daí que tirei forças para atravessar os dias. Comecei a contar primeiro os dias sem notícias, depois, os dias em que vivemos o que de mais belo poderíamos ter vivido… depois, as contagens foram se misturando e eu já não sabia qual foi o dia em que a terra parou de existir. Nem qual foi o dia em que a emoção mudou de lugar com a saudade. Esse sentimento vago que ninguém fala que é bonito, mas que para mim, tem seu nome, como se fosse tatuagem na pele.

Mas, hoje, em uma data que a memória trouxe, sabe-se lá porque, recordei a data sem querer. E quase como em um ritual peguei as cartas do baú e refiz cada intenção de dor que o tempo ainda não curou…

Mariana Gouveia
* fotografia: Ines Kozic
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
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só porque hoje é 13 de abril

Das palavras das cartas

Das cartas que não enviei…

“Foi preciso eu partir para saberes o quanto me querias… Mas olha em teu redor…
Podes ver nestas paredes como eu estava quando daqui saí…
O teu abandono começou muito antes de eu fechar esta porta a última vez…”

Élia Carvalho.

Mais uma vez você diz adeus. E mais uma vez, da mesma forma suave de quando partiu. Não sei bem dizer se é adeus mesmo, ou um ponto final estranho na história que escrevíamos juntas.
É quase como um livro que estava a ler e as folhas foram arrancadas na despedida sem respostas.
E de novo, vejo o mesmo vestígio de coisas que não foram vividas.
Sinto inveja das coisas que não vivi com você. De quantos pores-do-sol que você presenciou e eu não estava e já começo a enumerar quantos de novo verei, sem você aqui. E das manhãs dentro das minhas rotinas e do bom dia açucarado com café e da vontade bruta nas tardes em ouvir tua voz.
Tateio na minha saudade já sentida de tudo que não verei e conto as horas do dia olhando o relógio barulhento da memória e suporto mais uma vez esse peso.
Isso sim, me pesa diante das possibilidades de não sentir mais a presença perto.
Por que é assim que será. Tuas impressões afastadas diante do que vejo, para que então eu perceba de fato, que a leveza da vida era quando você estava aqui. E quando ler o poema preferido sentirá que de fato, era eu quem te pesava tanto.

Mariana Gouveia
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só porque hoje não fui aos correios

Das palavras das cartas

Guardei meu amor, bem guardadinho…

A,

Escondi no meu baú a palavra doce. Guardei-a como as meninas de antigamente guardavam os anéis.
Guardei a aliança de prata também. E os dias vividos com você no meu quintal. Dentro do baú antigo, onde guardo minhas memórias guardei a vida. Deixo lá com todos os instantes de riso que vivemos. Das palavras que precisavam de traduções.
Guardei as fotos que você tirou. Não é bom ver fotografia de flor com essa fome constante de flor. Os poemas escritos com seu nome. As cartas que nunca tive coragem de enviar. Tudo isso faz companhia para a minha solidão.
Lá, tem um papel de bala dado um nó, desses que se você quisesse um abraço mais forte, teria de apertar mais. Também tem junto, dentro do baú, o riso de minha mãe, que ecoou no meu coração em uma noite fria quando senti vontade de comer flor.
Já era bem de antes essa vontade contida. Lembro-me que ela riu quando eu disse: um dia, planto uma flor vermelha só para comer.

Guardei no baú tantas lembranças para quando eu me perder das memórias, possa abrir e ver esse sentimento que invento para você. O sentimento da espera.
Todo dia, pego o baú nos braços, passeio com ele pelo quintal e pela milésima vez faço a promessa de só abri-lo quando puder te tocar outra vez. Ou ouvir sua voz, que coloquei ali, num cantinho, para evocar a canção monocórdica que cantou para mim.
Guardei dentro dele as sementes da flor. Plantei uma apenas e converso com ela na delicadeza dos raminhos que crescem e brota a cada dia uma nova folha. Logo, terei uma papoula vermelha na intensidade da fome.
Os vizinhos dizem que estou louca. Os loucos, me chamam de sã e na minha lucidez desvairada, eu, só chamo você.

Mariana Gouveia
* fotografia: Raquel Pellicano
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só porque os baús guardam as lembranças

Das palavras das cartas

Caminho… E atrás de mim caminham as estrelas até seu próximo amanhã…

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas.
Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X.
Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia.
Comeu em meus livros de prosa as citações em verso.
Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
João Cabral de Melo Neto.

Querida M.

Hoje, somente hoje, eu resolvi cumprir aquela promessa antiga de te escrever pelo menos uma vez a cada mês…

Devo dizer que aquela canção que você gostava toca em alguma casa por perto e a sensação de cheiro de cravo invade meu lugar… tudo parece tão igual e tudo está diferente – essa era uma frase que dizíamos entre risos e gargalhadas – igual nós, você diria…

Você deve se perguntar por que só agora resolvi escrever e sei que também vai dizer as mesmas coisas de sempre – “ainda bem que escreveu… Podia ser nunca. Hum”! – e vai beijar o envelope colorido muitas vezes…
Talvez seja essa mudança interna que avança em mim… talvez antes não tenha sido o tempo. Talvez tenhamos falado demais nesses últimos dias… o fato é que a promessa está sendo cumprida e ponto.

Nesses dias de ajuste de alma passei a relembrar nossas vidas, nossos encontros e toda alegria que levávamos vida afora. Lembra-se daquele tempo em que saíamos na rua a tocar campainhas e descíamos a ladeira da Rua dos Cravos, entre risadas ofegantes e sentávamos na calçada alta onde chupávamos o picolé colorido da D. Lídia? Vi um picolezeiro hoje e não há mais aquele picolé multicolorido… ele riu da minha indagação e tive de contar nossa pequena história e de como o sabor era diferente dos de hoje.

Contei das gargalhadas que espalhávamos pelas ruas do bairro e de como fomos obrigadas a ajudar o moço árabe a cuidar do jardim dele por alguns meses e alguns deles por puro amor ensinado.
Já revivi aquele dia que sempre me pareceu surreal umas mil vezes. Você descia a rua em direção ao centro e chegava sempre no lugar marcado com um cravo chinês na mão. Fazia reverência à palavra “chinês” como se a flor não tivesse sido furtada do jardim imenso do “seu” Abdo até o dia em que foi pega e para não te deixar ir só, arrastada pelo braço até a delegacia do bairro assumi ser a ladra dos cravos… como odiei aquela flor, ali, quase murcha em sua mão e seu olho de súplica até meu pai chegar e nos tirar daquela encrenca perante os “olhos raivosos” do árabe, que ria disfarçadamente quando nos perguntaram  para que roubávamos os cravos e entre dentes eu disse: para comer… A gente comia tudo… “Já comeu o amarelo das flores? Faz com que a gente nunca envelheça…”

E depois da bronca fingida do meu pai ficamos de castigo e tivemos de ajudá-lo a cuidar do jardim durante longos meses e o incorporamos em nossas risadas, depois de dias intensos de aula de jardinagem. Talvez daí tenha surgido minha paixão pela terra, pelas sementes e pelos árabes.

Como a vida era simples no seu gargalhar e como era lindo sua ida, já tarde, depois do jantar para sua casa. Você levava luz por onde andava. Eu ficava na ponta dos pés, na calçada alta, vendo-a virar a esquina da Rua dos Vaga-lumes… você deixava seu rastro dentro dos meus caminhos e hoje ainda sinto tua presença por onde ando.
O caminho que faço tem a mesma leveza de antes… e atrás de mim caminham as estrelas até seu próximo amanhã…

Beijo meu


Mariana Gouveia
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só porque hoje foi dia de cumprir promessas

Das palavras das cartas

Recaída

Tem dias em que acontecem recaídas – acho que falei sobre isso – mas tudo acontece na sala de espera. Há um atraso no tempo, ou eu, no adiantado da hora. Essa mania minha de precipitações.
Eu poderia desenhar essa sala quinhentas vezes e ainda assim ficaria algum detalhe por dizer. Ou prestar atenção.
As cortinas não são abertas totalmente, porque as janelas, nessa hora ganham o sol em pleno peito. As frestas e os fios de luz tentam romper a barreira do tecido sei lá que cor desbotado pelo tempo. Um quadro de Kandinsky dá cor ao ambiente. Rouba a cena, eu acho.
Na outra parede os alvarás, diplomas e essas coisas necessárias, sei lá porque.
No vaso à direita do sofá cor de esponja, uma palmeira mirim que juro ser de plástico. E a secretária na mesa do canto com ar de “coitada, ela é louca” me avisa para eu entrar.
Lá dentro, fico em espécie de bolha. Me falta o ar. Corro para a janela. Meu lugar de decisões. Ela anota.
Me perguntou sobre o baú. Tiro da bolsa o pequeno móvel que me pesa mais nas lembranças do que propriamente no peso.
Primeiro sinto o cheiro. Essa coisa estranha de vidro de perfume vazio. A camiseta com o poema de Ekelöf, dobrada, selos de cartas que não vieram e as fotografias. Registradas em momentos de risos, onde o vento agitava meu cabelo e a subida do morro me deixava com olhar feliz.
Uma, me fez lembrar do dia em que cai da escada. Antes de acontecer, lá está eu, fotografada em risos e no impressionante descuido do seu olhar.
Não preciso dizer mais nada. Ela anota meus silêncios.
Era para ser o desfazer das coisas, mas o grito que eu calo me faz fechar o baú e despedir com o olhar.
Quem sabe amanhã consigo.
Desfazer das coisas é quase um bloqueio de alma.
Falo da canção que escuto lá fora. E ela começa a falar de poesias.

Mariana Gouveia
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só porque hoje é dia de terapia

das coisas breves

Cuiabá

Cuiabá,

A memórias chegam como se fossem flashes de instantes com você. Dos seu 303 anos eu vivi junto os últimos 40 anos.

Eu, adolescente, 15 anos, com os olhos fascinados pelo seu tamanho. Dores vividas pela perda de minha mãe. Conhecedora de suas madrugadas, onde ainda quase criança levava músicas através do rádio para pessoas que eu nem conhecia ainda.

Eu, 20 anos, apaixonada por sua história, encantada pelas suas ruas e em suas igrejas buscava o sinal de fé. Com 21, você foi testemunha do meu casamento e de minhas histórias de amor.

Eu, 23 anos, fui mãe em suas praças, fui atriz em seus teatros e fui militante em muitas causas. Algumas, buscando melhoria para os que aqui vivem… Depois, fui apenas gente. Uma a mais em seus tantos e sotaques diferentes.

Aos 40, fui apenas saudades… você mudou. Ganhou ares de grande metrópole. Mas ao mesmo tempo, se tornou sofrida – quase doente. E eu cuidava de te desenhar em pontos de linhas e te pintar para que a memória ficasse viva para sempre. Não das suas dores, mas da sua redenção de quem se perde e se reencontra. As suas árvores e seus ipês. As cores dos muros e das alamedas.

Aos 50 eu fui companhia em seus rios, seus bosques e sua solidão… porque você é só, mesmo tão cheia de gente. Muitas vezes, na contramão da vanguarda você volta no tempo e refaz sua história… seja com seu povo com um jeito tão peculiar de falar, seja com aqueles que aqui chegam em busca de um lugar para chamar de seu. É quando te sinto cheia de vida. Com suas danças, sua cultura, seu rasqueado, sua comida e seu linguajar.

Aos 56 anos, eu sou esse sol que arde, esse céu que abriga tantas tonalidades e as nuvens – de chuva-friagem – e que te marca tão bem como a cidade quente. Mas, também eu sou a vila da periferia, os quintais e seus pés de tantas frutas… as aves de tantas espécies e sua gente de tantos tons.

Hoje, eu sou você… com todas as vozes que me cabe… com todas as vontades que me atravessam e com todo bem que te quero.

Parabéns, Cuiabá!

Mariana Gouveia
Scenarium Livros Artesanais

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só porque é aniversário de Cuiabá


Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

É seu, o lápis de cor!

“A vida tem a cor que você pinta”.

Mário Bonatti

Bambina mia,

Inauguro minha manhã nos primeiros raios de sol que chegam. Ontem, choveu. Pareceu-me que trovejou também. Ouvi o céu fazer seus rumores. Mas, hoje não. Hoje, o céu desenha nuvens sem segredos. Como se abrisse sua caixa de lápis de cor e com ela, tal qual uma criança danada que rabisca as paredes recém-pintadas, nuvens brincam com as nuances das cores.
Nesse momento eu penso em você e de como as palavras me conquistaram. Não! Minto. Foi o silêncio mesmo. Era uma menina do sótão, que através de histórias me levava a passear por entre as dela. O cão, o menino, C, o amor da vida dela. Outono, missivas.
Fiquei na janela como a espreitar um livro, que eu folheava docemente querendo fazer parte de tudo. Cada história me cabia. Cada personagem, era eu, fingindo-me tão conhecida que chegava a cumprimentar.
Confesso que o que me chamou atenção foi o Caderno Vermelho. Ali, eu me envolvia como se fizesse parte do que ela (d) escrevia… A cortina que o vento balançava quase me jogava dentro das tintas e das letras.
Era Outubro quando ela surgiu misteriosa aos meus olhos em um ano qualquer. Primavera nas folhinhas que designava as estações enquanto ela gritava que preferia o outono.
Consegui acompanhar seus passos pela cidade. Mostrava-me o inusitado do tempo, a umidade ou a secura do dia. Ela deu-me a chave que abria a porta para as possibilidades. Para o sonhar e ao mesmo tempo, despertava-me na ansiedade dos dias. O dia, que para ela sempre começa depois que o meio dele se foi.
– Ah, não me queira tão cedo, menina. Sou da tarde, depois da xícara do café fumegante e de ler e reler os e-mails. De viver o aconchego do cão. Da foto do aplicativo que mostra que acordei. Dos caminhos até o café, onde pessoas de ontem passam por você e seus olhos não guardam o que você viu. Ou por que a cidade é urgente demais e hoje, o que era ontem, não é mais.
Sem estar pronta, ela está toda preparada. De riso solto e de braço que nesse instante, eu ia querer abraçar. Ou apenas calar diante de tua presença.
Então, guardo minha caixa de lápis de cores e reabro quando o sol já colore a tarde e vagueia na imensidão do céu.
Vejo o calendário. Já não é mais o dia que ela falou em poesia. Já é outro e desponta com a celeridade peculiar do astro solar e quando você percebe já não é mais esse dia. O calendário muda na velocidade das horas e nesse momento, dou-te a arte. Essa que se desenha nos momentos que viveu.
Dou-te a emoção do silêncio. Esse, que grita em tuas paredes e que revolve os lençóis brancos jogados sobre os móveis e que quaram sobre tuas lembranças. Dou-te a orientação sobre os caminhos que te levam ao encontro da esquina.
São olhos que você nunca havia visto, mas que, te mostram onde caminhar. Ou apenas silenciam ao teu passar.
Toma. É seu o lápis de cor que pinta esse céu com as tempestades que a meteorologia adivinhou em você. Pinta tua vida com o riso dos encantos e que só a magia dos poetas conseguem descrever. Não precisa estar pronta. Nem é necessário que esteja. Te refaz perante meus olhos ávidos, o sonhar. Redesenha nas paredes dos seus sonhos a vontade do viver enquanto eu escrevo o que ainda conheço, mas imagino entre meus dedos na melodia de aquecer a alma o que aspiro conhecer.

É seu, esse lápis que te dou e que diariamente com ele, você descreve  o amor e pinta dia de sol com cores renovadas. E nas levezas do artesanato, encaderna sonhos e os espalha como semente em um jardim.

É seu, o lápis de cor.

Mariana Gouveia
Texto publicado no caderno de Notas – Terceira Edição
Scenarium Livros Artesanais

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só porque eu ouvia Èra Già Tutto Previsto

Das palavras das cartas · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Arte de rua

Meu caro M,

Bem, era um destes dias ou lugares talvez…

Roubei essa frase acima de você só para te contar que daqui a dois dias Cuiabá completará 303 anos e eu me vi caminhando pelas ruas e decidi, aproveitando o projeto fotográfico 6 on 6, te mostrar um pouco do que vi-vejo pelas ruas do meu lugar. Já faz um tempo que não falo com você e confesso que sinto falta… Aliás, sinto falta de saber mais de você e de contar coisas minhas também e de perguntar se é mesmo verdade que é avoador… Essas coisas bobas que amigos conversam-perguntam e riem juntos.

Eu apanhei um artista no instante em que ele criava sua arte. Parece a poesia quando sai da alma do poeta e ganha vida nas letras, nos cadernos, nos livros. A arte de rua ainda é considerada uma afronta a sociedade e eu poderia escrever muito sobre isso, mas eu perderia o foco de te levar comigo, quase de mãos dadas apontando aqui e ali a Cuiabá dos muros e paredes…

O artista que fez a pintura é o mesmo que tatuou as borboletas nas minhas costas… também passaria horas falando de como ele enfrenta o mundo das ruas com a arte e de como seu grito de luta às vezes é calado com repreensão… mas isso, é uma outra história. Eu só quero mesmo te passar a arte e sua essência de voz ecoando pelas ruas.

Sabe, Cuiabá possui seu nicho de artistas e com isso, os viadutos ganharam vida através das pinturas que retrata a cultura e o cotidiano de um povo de beira de rio, de viola de cocho, de Pantanal… Fica mais fácil atravessar as ruas e ver algumas paredes velhas contando arte e histórias… mas, nesse mundo tão corrido tem gente que passa e nem vê.

Sempre quando eu passo em frente a essa casa – um casarão histórico, abandonado pelas autoridades, prestes a cair, feito de adobo – parece falar comigo. Não nego o riso ao responder: o que você quer? Parece que a alma do casarão ainda está ali, à espreita de que alguém o acuda. É triste, mas é poético, eu diria.

Também tem casa que parece toda feliz… embora, eu conheça essa casa e as nuances da tristeza dela… Mas, sinto, que ela todos os dias luta para que as pessoas que cruze suas esquinas leve com elas um riso de cores na memória.

Sei que seis fotos não pode traduzir uma cidade nem a arte que habita em suas ruas… Mas, sei que caminhar com você foi só um pouco da metade do caminho… ainda iremos caminhar por florestas, por estradas e até mesmo por cartas, como essa que leva até você meu carinho e agradecer.
Você sabe porquê.

Mariana Gouveia
Scenarium Livros Artesanais
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Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Ale Helga – Mãe Literatura – Darlene Regina – Roseli Pedroso

só porque a arte e as cartas se misturam