Divã

Beda – Não leio as histórias que você escreveu.

Havia ali tantos detalhes de um século que preferi a exposição das lembranças…
Uma a uma dependuradas em um varal
a sombra das cortinas na janela me fez lembrar dos monstros que espantamos juntas.
Era um dia frio e no calendário a vida brindada a ermo.
Ninguém sabia dizer porque fazia frio em novembro, se a primavera antecipava o verão dentro dos dias.
O santo do dia que não possuía seu nome e nem mesmo havia estrelas para a noite do fim.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de lembranças e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 

Suzana Martins – Roseli Pedroso
PH: Kasia Szelka Photography

Divã

Beda -Deixo para ela as loucuras todas…

vivian maier

O dia vagou em esperas. O vento sacudia tudo lá fora. Da janela revejo movimentos que conheço.
Ela anota.
Fico em silêncio.
Ela revela vontades desconhecidas. Não parece a mesma de antes e nem é.
Torço para que as horas voem. É sempre assim quando a vontade de ir é maior do que a vontade de ficar.
Respiro suavidade numa inquietação que reconheço – leve – minha, de antes.
Falo sobre a instabilidade que me atingiu e deixou morna a vida.
Ela anota a palavra instabilidade e entre aspas está a palavra “eu”.
Não sei se de mim ou dela que falo.
Deixo para ela as loucuras todas…
essa graça leve que ela tem em profanar os
prazeres que sinto.
A palavra suprema e a história contada entre os dentes.
O corpo pensado. O sopro. As dores.
O dia que acontece em rotinas. Mas eu jurei que tudo isso vai passar e vai.
Ela anota e começa a falar de esperança.


Mariana Gouveia
Agosto é o mês das terapias e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – Suzana Martins – Roseli Pedroso
* fotografia: Vivian Maier

Das palavras das cartas

beda – quais os caminhos azuis que sua pele tece?

Não fora o teu olhar a ditar-me o caminho
e seria mais um na guerra dos sentidos
Contigo sinto azul em qualquer céu.


Edgardo Xavier, in Azul como o silêncio

Ana,


Às vezes, eu volto nas noites, em dias que já fazem parte do passado… essa história de guardar os dias nos calendários que não gosto, mas que fica registrado na memória. Nessas horas, eu fico em silêncio e quase não cabe em mim a respiração.

Já te contei sobre sua pele e as veias azuis? lembro-me que quando a vi pela primeira vez – em algum agosto de algum ano – seu rosto escondido na cortina e vi suas mãos. Eu disse que nunca vi mãos tão brancas, com as veias saltadas e o azul fluindo… Pensei: ela tem sangue azul… Só te falei isso tempos depois, quando já conhecia toda sua pele, tecida pelas minhas mãos, nas curvas onde desenhei corações.

Hoje vi o céu e seu azul celeste… fiquei horas a espreitar as nuvens desenhando formas e o vento ia empurrando uma a uma rumo ao sul. A gente sempre falava do sul e de quais caminhos a gente seguiria até lá. Não fizemos isso e nem tivemos tempo de viver o norte. Ficamos com a bússola nas mãos a rir do nosso centro oeste. Era assim a vida com você… leve como o azul e as nuvens caminhando para o sul.

Esqueci algumas datas – você deve ter percebido – e algumas coisas que eram para serem esquecidas ainda continuam aqui. Já parei várias vezes na esquina da sua rua, como se algo me levasse até lá. O moço que agora é dono da casa me deu flores hoje… Disse que sentiu vontade de trazer, já que nunca mais fui lá. Dei um café para ele em troca e ele disse que o pé de laranjas deu flores e que logo teremos frutos. Ele disse nesse verbo mesmo, como se eu ainda tivesse parte nas árvores. Dei a ele mudas do alecrim que plantamos e que nunca deu flores. Não sei porque.

Fiquei buscando na memória esse dia, para ver se a data diz algo sobre nós… não me lembrei de nada, mas isso acontece sempre aqui… é nesses dias que busco Marte nesse azul do céu para chegar mais perto de você.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês das memórias azuis e de BEDA.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – Suzana Martins – Roseli Pedroso

Das rotinas

Beda -Meu guardião.

Desde que me entendo por gente, sempre ele estava lá, seguindo meus passos, como protetor. Por vezes, só de longe, quieto. Com o capim no canto da boca.

Ele é mais velho que eu dois anos e um mês. Me seguia, e em algumas vezes aquilo me irritava. Depois passei a não ligar. E mais tarde a adorar. Livrou-me de várias encrencas. Era sempre apoiado pela ordem de minha mãe e eu que não ousava reclamar, senão não podia ir além da cerca. E acostumei com minha sombra, que eu repetia sempre para irritá-lo:

– Vamos, sombra.

Resignado, paciente e silencioso, ia atrás de mim pelos caminhos da floresta, na beira do rio, no pé de amoras…onde quer que eu fosse ele era meu guardião.

O único lugar que me sentia resguardada dele era na casa da meio fada meio bruxa meio flor, mas se eu olhasse do buraquinho da janela podia vê-lo ali, além da porteira, atento ao menor movimento meu. Parecia nunca zangar-se com nada que eu fizesse. Por vezes, simulei queda só para vê-lo correr até mim e me ajudar.

Meu lugar preferido era o alto do descampado, no fim do dia. De onde eu podia avistar toda fazenda e o riozinho que serpenteava a floresta. O céu, mudando de cor me encantava.

Um dia, ele se aproximou, sentou do meu lado e disse:

– Não consigo entender o que te faz vir aqui todo dia.

– Não consigo entender porque você tem de andar atrás de mim onde vou. Você já reparou que nenhum dia é igual ao outro, nem a cor do céu, nem o vento?

– Hum…nunca notei não. Pra mim é tudo igual.

– Então, presta atenção hoje e amanhã perceberá que não será igual hoje. Nem o que você pensa.

O silêncio me fez olhar pra ele. Parecia que media cada canto com o olhar. Como se memorizando cada capim, cada brisa. Os olhos parecia notar algo. Mas não falou.

Eu, insistente, disse:

-Tudo isso aqui, é poesia. O capim, o dourado do sol, o aconchego da noite.

– Onde você aprendeu isso? – resmungou.

– Poesia não se aprende. Se enxerga. Você olha e percebe.

Levantei-me e não notei que atrás de mim havia um novo menino. Meu irmão, a partir daquele dia, conheceu uma nova forma de olhar a vida. Mas, eu só fui descobrir isso tempos depois.

PS: Meu irmão, Manoel Messias, junto com minha irmã caçula encaram dia sim, dia não uma máquina de hemodiálise. Estão no aguardo de exames para um possível transplante de rins. Nunca vi alguém com tanta coragem no coração. Já contei sobre ele aqui. Hoje, é o aniversário dele e brindo esse dia com agradecimento.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês dele e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – Suzana Martins – Roseli Pedroso

Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Beda – Como foi que a palavra te seduziu?

Havia um burburinho em toda fazenda. De boca em boca e com euforia a palavra era Lavorí e que ele havia retornado.
Vi toda gente a preparar a lenha, minha mãe foi cuidar dos frangos para a comida e apenas meus irmãos mais velhos e os meninos da região continham a expressão do medo no olhar.
– É o homem do saco – meu irmão dizia – se eu fosse você, tinha medo e desenhou-me em gestos e palavras um homem sujo, todo roto, com roupas escuras, barba por fazer, olhar estranho e o pior: levava consigo um saco de linhagem, onde dizem – e com efeito na voz – levava as criancinhas que teimavam com suas mães. Enfim, era um desses peregrinos que andavam sem rumo e na palavra do meu irmão medroso – um mendigo. Não tinha casa, nem família e isso segundo ele só acontecia a um homem que fosse tão ruim, mas tão ruim que ninguém mais gostava.

Ele chegou no fim da tarde, com o sol a beijar o horizonte e em contra luz a imagem dele descendo a estradinha me encheu de encanto. Um saco nas costas, algumas coisas dependuradas no cinto da calça e o riso largo do meu pai a recebê-lo tirou o medo que me rondava o dia inteiro.
Depois do banho tomado e o jantar, todos se puseram em volta dele e foi ali que a palavra encanto ganhou minha vida.
Do saco saíram os livros que ele dizia – amanhã vou ler todos para quem quiser – e da boca dele as histórias mais incríveis. Tinha o dom da palavra e explicava tudo com a magia de quem vivenciara tudo aquilo que dizia.
Foi ali que desejei ser palavra para que alguém, um dia, pudesse ler.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês das memórias e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – Suzana Martins – Roseli Pedroso

das coisas breves

As memórias são portas sem casa dentro…

Abril é o mais cruel dos meses, germina
Lilases da terra morta, mistura
Memória e desejo, aviva
Agônicas raízes com a chuva da primavera.

T.S.Elliot

Era para eu escrever outra carta, com endereço certo, mas no rompante das palavras eu não quis misturar minhas memórias com as de outra pessoa. Então, resolvi escrever essa carta para ninguém. Abril foi muito pesado aqui. Foi triste, até, eu diria.

Abril sempre me leva para o filme Abril Despedaçado e confesso que fora do contexto do filme eu só penso mesmo no mês que foi cruel comigo. Algumas das coisas mais tristes que me aconteceu trazia abril na folhinha do calendário pendurado ao lado do relicário antigo, que era de minha avó.

Lembro-me que depois daquele dia demorou cerca de dez dias para que eu arrancasse a folhinha que trazia o nome do santo, a lua, a sorte … como se fosse um presságio, não tinha a cor… Nos outros dias anteriores havia lá a cor de cada dia. e foi assim que abril foi se perdendo no sentido do mês e como o poema de Elliot transformou para mim no mais cruel dos meses. Depois daquele dia abril tem sido difícil todos os anos. Como se fosse determinado pelo destino que assim fosse.

Antes, Abril era radiante, diferente do poema que citei acima, a primavera só existia no quintal dela, onde os gerânios enfeitavam a janela azul da casa que ela morava. Antes, abril cheirava as folhas úmidas e acontecia o outono que pintava de dourado os quintais. Hoje, abril é só a contagem dos dias e eu vibro quando mudo o calendário para o mês que chega e abril desenha o seu último dia.

De vez em quando, eu visito minhas memórias para além do mês… é uma maneira de reagir para dentro. Mas, as memórias são portas sem casa dentro, ou apenas casas abandonadas sem flores na calçada… Aprendi a ultrapassar esse tempo nas palavras e assim sigo, dentro dos dias imperfeitos sendo apenas parte de um momento lindo que se transformou em lembranças.

Mariana Gouveia

É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura 

só porque é o último dia de abril

Das palavras das cartas

Quebramos algumas promessas feitas…

deixar o corpo posto
em algum lugar


porto onde voltar

Eunice Arruda

Janes,

Um dia, eu te disse que o mundo pertence aos omissos, lembra-se? Eles não fazem nada e isso muda o mundo. Acho que foi nesse dia que você passou a me chamar de sua consciência – tipo o Grilo Falante da história do Pinóquio – e foi ali que nossa história começou.

Eu te vi tão menina, com uma criança ao peito, briguenta em um posto de saúde. Te odiei naquele dia e te amei. Não sabia nada de sua vida, mas percebi logo de cara que você era dessas mulheres valentes, que mesmo em desvantagem enfrenta o que tiver de enfrentar e usa o escudo da palavra solta de qualquer jeito, bravia e certa do lado que defende.

Depois disso, eu só te amei e você se tornou minha Jane e eu sua Tarzan – ooooooooooooooooo – e mais uma vez, essas histórias cruzam nossos rumos. Era improvável que a gente se desse bem, em mundo controverso da política… mas como você é tanto e muito entrou em meu coração e foi assim que me tornei realmente sua consciência – embora, em muitos momentos você não me ouvia – tapava os ouvidos e enfrentava o mundo e sua posição. Custasse o que custasse, mesmo levando broncas.

Em minhas memórias, eu vejo tanta coisa linda que a gente viveu. Tantas caminhadas, tantos colos, tantos abraços e choros juntas. E daí, eu fiquei sem você. Foi quando quebrou a promessa de ficar sempre perto de mim. Foi quando eu quebrei a promessa de que nunca iria embora.

Quebramos tantas promessas que fizemos uma à outra. Os seus caminhos foram para um lado onde eu me perdi. Fiquei como expectadora de suas conquistas, de suas lutas, de seus medos e fiquei aqui como porto seguro – um lugar onde pudesse voltar, se quisesse – e mais uma vez, a promessa de que voltaria não aconteceu.

Prometemos fazer seus tapetes preferidos nos sábados, o artesanato… de tomar café algum dia, repetir o cinema da série preferida, ir na cachoeira de novo e de novo mais uma vez as prioridades criaram novos rumos.

Mas quando você grita meu nome com tanto a no final, meu sorriso te alcança. Meu nome fica bonito quando você chama, ou escreve. O Marianaaaaaaaaaaaaaaa é respondido como o grito do Tarzan – oooooooooooooooooooo – e nesse momento parece que você nunca ficou longe, que sempre estava ali ao alcance das mãos e meus gestos te acolhe dentro do que precisa.

Essa carta é para reiterar o meu amor, relembrar as promessas feitas e dizer que meu coração continua sendo o porto para onde você sempre pode voltar, se precisar e que vou estar aqui ao menor sinal de mensagem para fazer valer a voz da sua consciência e para fazermos novas promessas, mesmo que não as cumpramos.

Te amo tanto!
Mariana Gouveia

É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura 

só porque ela precisa saber que estou aqui

Das palavras das cartas

quase perfeito alinhamento no céu…

O amor foi a lâmpada, mas no rompante de quem não era
O amor não existiu
…

Ana,

Na terra de um, no mundo dos cem eu vivi para abrir o seu baú… eu já conhecia metade das coisas que habitavam ali, entre o vácuo de um tempo – o papel de bala, o pauzinho do picolé da Kibon que te dava direito a mais um e você não quis – e juro que esse tempo é quase meio século entre as idades todas e o pedaço de história costurada em letras japonesas.

Foi na madrugada de hoje quando o céu em seu perfeito estado de imperfeição quase alinhou Vênus, Júpiter e a Lua. Eu fiquei vagando em cantos de muros para fugir da árvore que tentava roubar os ângulos e eu me perguntava: cadê Marte? Li que querem saber como é Marte por dentro… Eu que vivi com suas variantes e instabilidade dou risadas por aqui…

Hoje, na conjunção de quase alinhamento de Vênus, Júpiter e Lua eu estranhei o céu em sua parte que eu não via. Mas quando o brilho do fenômeno me atraiu eu já imaginei que você mudou de planeta… tão ansiosa nesse modo de espera das coisas, você desbrava o caminho e se vai. Doze anos é muito tempo para um lugar só… Aposto que aquela estrela mais brilhante ali, nessa conjunção astral é você, quebrando barreiras e se misturando em um plano astral maior do que as lembranças que seu baú me traz.

Quando leio em alguma matéria: o que vimos em Marte é que temos um núcleo maior e mais leve do que era esperado – eu já imagino você e seus rompantes dominantes. Só que quando vejo essas coisas de céu daqui da Terra eu fico te buscando nas memórias ainda vivas, em mim.

Aspiro a brisa no quintal… o cheiro de folhas úmidas. Eu vim de um tempo que não sou e vivo pra um tempo que não sei ainda qual será… mas eu fico encantada – ainda – com a magia que seu nome me causa. De alguma forma, mesmo com algum termo desconhecido você habita o céu do meu lugar. Logo eu, que fui sempre de presença… de toque. Como se toca um planeta, Ana? Como uma estrelinha – aquela da Cartilha Caminho Suave – pode alcançar essa dimensão de luz quando nem se sabe ao certo o nome da estrela brilhante? Marte pode ter fugido de algum quadrante e ido parar anos luz na saudade?

Eu vivi em todos os séculos Eu fui o sentido, o fim e o meio… esse meio em um campo celeste que você está e por isso, o fim nunca é fim… Sempre o meio para que eu chegue até você. Eu fui autora e você a poesia. Te embrulhei em uma Colcha de Retalhos e hoje você é livro contado em fotos e emoções. Hoje, alguém já conta a história de amor entre um planeta e eu… Hoje, seu nome já é sabido na terra de um, no mundo dos cem.

Me disseram que amor assim não existe e eu acato… deve ser sonho essa conjunção no céu que rege o horóscopo do dia… afinal, esse alinhamento é quase perfeito nesse sentimento de estar com você, pelo menos até o sol amanhecer em um planeta mais brilhante nesse período, no céu.

Eu sempre soube que você saberia dar um jeito de chegar até a mim, mesmo que passasse doze anos… ou mais… mesmo que os séculos nos roubasse o riso entre um quase triângulo nesse pequeno quadrilátero entre os muros onde eu vivi você.

Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura 

só porque hoje fazem doze anos que ela virou estrela

Das palavras das cartas

 Gosto de ficar nas sombras das coisas e no segredo delas.

A noite pousa na pele à espera de estrelas.
Maria Sousa

“y nos iremos en um corazón que espera amarrado al borde de un precipicio”
Alejandra Pizarnik

Querida M.

… poderia dizer que a vida faz brincadeiras com a gente – digo isso pela forma inusitada que os fatos aconteceram em nossas vidas e tudo foi se encaixando como se fossem peças que estavam apenas esperando o local do pra sempre…

O pra sempre seu é em Paris, ma cherie… enquanto o meu é espalhar amor além mar.

Costumo dizer que o pra sempre não existe – e mais uma vez me pego repetindo clichês e fins e começos e recomeços – é tudo muito emocional dentro de nós… é tudo esse efeito borboleta dentro das asas…

Ontem a noite eu contei as estrelas enquanto lia sua resposta à primeira carta.
– aqui onde estou, as estrelas têm a dimensão do encanto – você disse – ao que eu respondo que o encanto é sempre onde estiver estrelas… Mesmo sendo dentro das meninas de seus olhos… Eu não sabia se ria e te chamava de boba como fazia antes e nas fotografias você continua igualzinha quando era menina…boba… Ou se chorava diante da palavra saudade…

Ver você perto da Torre Eiffel soa aos meus pensamentos a realização dos seus sonhos de menina.
Rio diante da frase inconstante que você repetia: melhor sofrer em Paris do que no calor daí…

Hoje choveu o dia inteiro…passei por acaso perto de onde morávamos…sua casa de frente com a minha e a janela ainda é azul e na cerquinha branca que pintamos um dia – hoje desbotada, quase sem cor – e dela pende aquela trepadeira que plantamos. Ali, foi plantado nosso segredo – que nada mais era que esse gostar de alma – e fiquei ali até a noite cair, aspirando o ecoar do seu riso diante do coração/folha que a vida borda diante de tanto gostar.

Teremos tempo de costurar as palavras uma dentro da outra? Teremos hora certa de contar os segredos que nos permeiam e nos envolvem? Poderemos colher asas dentro de nossas histórias?
Só a vida nos responderá até onde será para sempre…
Quem sabe te conto o segredo na próxima história…

Beijos,
Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura 

só porque hoje me lembrei dela…

Das palavras das cartas

Será que sua coragem sabe que você tem medo?

Há algo que jamais se esclareceu:
onde foi exatamente que larguei naquele dia mesmo o leão que sempre cavalguei…
Adriana Calcanhoto

Rold,

É engraçado te escrever assim usando seu novo nome… ou você já se chamava assim desde sempre e se escondia? Te vi essa semana que passou e durante o trajeto que o ônibus fazia eu fui pensando em você, desde o dia do seu nascimento, até hoje, quando seu riso alcançou o meu olhar e o alívio que vi nele quando sentiu meu carinho ali, nas palavras que trocamos.

Eu acompanhei seu nascimento e seus primeiros dias. Colhi seu choro em muitas manhãs e me apaixonei por você imensamente. Depois, acompanhei você em médicos, salões de beleza, e você me acompanhou em tantas tardes mornas. Sabia que era você quem trazia alegria ao meu lugar? Quantas vezes, ao fim do dia, quando tinha de te levar de volta para sua mãe havia choros. Eu amava ficar com você e vice e versa.

Também acompanhei sua adolescência, aquela fase de descobertas, das estranhezas que acontecem com a gente e que não precisamos falar. Depois disso, o destino nos afastou… seja por causa do tempo corrido ou nós que falhamos em algum momento. Mas, eu entendo… sua vida estava passando por tantas mudanças que o sossego de minha varanda já não te cabia. Você queria salvar seus ideais e foi assim que um dia te vi, num riso doido, de dentro para fora, na sala de uma reunião.

Naquele dia, eu quis dizer tanta coisa, mas pude te dar apenas meu abraço e te senti arredio. Mas, era você, o meu amor pequeninho que transbordava em me dar corações, ali, com tanto medo no olhar… mas com uma coragem bruta para viver. A camiseta vermelha no peito como se dissesse: você me trouxe aqui… A sua ideologia se misturando com a minha e fiquei acompanhando seus movimentos entre uma sala e outra… Ali, te vi tão igual em meu coração que quase gritei seu nome.

Muitas vezes quis perguntar qual música você mais gosta? Qual é seu perfume favorito? Qual livro te alcança mais? Você já se apaixonou? – essas coisas bobas que a gente sempre quer saber de quem a gente gosta – foi difícil para você toda essa transição? Não deixe que nada te abale e eu estou aqui para o que precisar… eu pensava em você e tudo isso me passava pela cabeça. Queria estar perto, te dar coragem, cuidar dos seus medos e arrancar o sorriso lindo que só você tem.

Nessa última vez que te vi, eu tentei passar para você todo o meu amor, que continua aqui guardadinho em corações estampados nos presentes que me deu. Queria te perguntar tanta coisa nesse tempo de distância que aconteceu. Só consegui falar das coisas banais: como vai sua mãe? e a faculdade? e sua irmã? seu irmão? – não consegui falar da sua coragem, nem do seu medo… não consegui falar da admiração que meu coração sente quando te vê, mas sei que você sentiu.

E como disse ao despedir-me: te espero aqui, na mesma varanda onde tantas vezes te acolhi entre o choro de ir embora e alegria de chegar.

Te amo infinitamente,

Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura 

só porque ele é o mais corajoso que existe mesmo com medo