A estação, dentro da palavra A lua, em infinita vezes, encanto. A realidade é essa coisa descrita de como foi quando o homem pisou na lua. O rastro a ecoar poesia: a terra, é azul – o homem do espaço disse – e depois, em um poema, o poeta disse: a folha é verde e a água, transparente – e ninguém me explicou o que era a mistura de tudo. Amanhã, ela será poesia, na palavras de quem enxergou razão, dentro da beleza da rua, iluminada pela lua. Quando a confusão de sentidos e a vontade de ser dentro do outro, eclipsei na palavra tato. Quase toque, quase obscuro o sentimento do que não se pode explicar. A solidão é a mais crua das verdades e enquanto isso, a natureza se veste e o mundo, se torna um lugar comum porque o céu se torna algo espetacular.
estranha que fui quando vizinha de longínquas luzes acumulava palavras tão puras para criar novos silêncios Alejandra Pizarnik
Bambina mia,
de repente, hoje, percebi o silêncio no quintal através das teias de aranhas… geralmente, o quintal é barulhento por si só. Não bastasse o Chiquinho e seu chilreio atrás dos invasores da sua água no bebedouro, ainda há um bando de Encontros – o pássaro preto com o filete laranja na asa – o bem-te-vi e o pé de ipê com seu farfalhar de folhas nessa estação estranha por aqui.
Engraçado que falo de todos os bichos e de todas as coisas e me deparo com as teias enquanto dou água às plantas. Confesso que fiquei presa por um bom tempo dentro desse silêncio de domingo assistindo elas a cruzarem fios como se fossem tecelãs.
Algumas, parecem que foram abandonadas depois de tecidas. Geralmente, ficam entre o pé de clitória e capins que nasceram ali e que deixei ficar por causa dos cães. Parecem toalhinhas de crochê, e com os respingos da água parecem pérolas penduradas.
Sabe, bambina, fiquei pensando em como algumas coisas me causam encantamento no quintal e quis dividir com você o silêncio delas… Até o vento silencia perto das teias… a memória me leva para os campos do lugar onde meu pai mora e de como a vida vai me apresentando esses encantamento em dias aleatórios, como hoje.
A luz atravessa os fios e olha, bambina, os desenhos modificam de uma para outra… fiquei impressionada com isso e de como o silêncio se dá bem com isso. E em algumas, a doçura do erro não estraga a forma da teia… apenas a torna mais encantadora.
Confesso, bambina, que não sou muito fã do bicho que tece, talvez por isso, meu olho nunca tenha esbarrado nelas… mas, hoje, é domingo e descobri que não há dia para se encher de encantos nem de silêncios. O domingo parece acordar, para além dos muros e a vida já corre ligeiro por aqui. Vamos ali, viver!
Olho o tempo e o relógio do nada. Pedem sangue e a fila vazia de cor. Não há cura para o diagnóstico da dor. E as rotinas refletem os mesmos rostos que me olham. As palavras não ganham esperança nas histórias. A moça de azul nem me olha. Fito as frases de ajuda nos folhetos pregados na parede. Não ajuda. Falam de esperanças renovadas e as minhas envelheceram faz tempo. Lembro-me de nossas conversas e do riso e da promessa que não cumpriu de ficar. Eu só queria mais uma chance para mudar o fim da história, mas a moça de azul aplica a dose diária e eu me esqueço de esquecer.
É verdade que você se transformou. E se eu fosse detalhar resiliência, seria teu nome que estamparia nas camisetas que usaria todos os dias. Lute como uma garota! – eu diria – e não seja normal – as pessoas normais são chatas e sem histórias. Quando me deu sua história, era um dia chuvoso e as palavras se uniam em tom de desabafo e você, ali aos meus olhos nua e crua. Resiliente e aspirante no modo amar. O medo em cada gesto e um desejo absurdo de falar. Você me usou para ser voz e ao mesmo tempo me silenciei e dei voz a você. Fui seus passos aqui do lado de fora e testemunha do amor que foi plantado e que virou esse romance que traduzo nos gestos de quem ama o amor. Hoje, Maria, você ganha ares de vencedora e coloca um ponto final naquela história que dói e recomeça a contar seus momentos a partir do belo, da casa com quintal, dos chás de cidreira e noites de amor. Talvez você se encante por essa nova vida. Talvez você se inquiete com alguns momentos, mas o que posso garantir que tudo se trata do destino.
Infringiu as regras do bom senso: roubou o perfume dela e viajou na essência cítrica… Com o nome a ecoar histórias e o coração a acelerar quando pensava… na pele! Pensou que fosse mentira o idioma e a cidade das poesias estampadas na camiseta sobre o amor.
Todos os dias eu a via por ali. Como se medisse passos, como se medisse a vida. Como se dissesse: – A vida não é para quem tem pressa, moça. A vida é para acontecer no instante do agora. E assim, os dias seguiam seu destino de ser dia. O diário das rotinas. A fala improvisada no programa de rádio. A canção que ela mais gostava e seu lugar. Era ali que a vida podia ser medida vagarosamente para viver. Era só respirar e viver e esperar o momento da transformação. Para amanhã, asas.
O fruto serviu ao destino para o qual plantado. Havia rumos de asas no quintal… O canto a madrugar rotinas dentro das horas e o vento a exalar aromas de saudades. Ainda ontem e o verbo era germinar e o raminho a brotar o verde ganhando espaço fora do espaço. As flores em sua sorte de perfumar a vida e ali, logo cedo, o pássaro de todo dia ganha a sorte de matar a fome. A natureza e seu estado de graça diante de mim enquanto o vento sussurra em resposta ao amor.
Mariana Gouveia É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april Participam comigo Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega
Eu deveria te escrever em poemas. Usar teus poetas favoritos ou as canções que me lembra você. Mas, eu… às vezes, fico perdida… Devo escrever cartas que sei que nunca irá ler? Postar os envelopes pardos na agência dos Correios sem saber se irá buscá-los em sua caixa postal? O que eu faço, Leonor?
Eu acho que gestei demais a despedida e usei a tag marítima como sinal para você se reconhecer em meus gestos. Mas tenho pensado: será que você não foi inventada por mim? Tudo que vivemos parece pertencer a um passado tão longínquo que parece ser coisa da minha cabeça.
Te perdi, te ganhei, me perdi ou nos perdemos? Lembro-me do tempo em atravessei um campo de capins dourados e você me esperava no topo do morro. A frase ecoou morro abaixo e você com a câmera fotográfica nas mãos registrava meus gestos – e se uma sumisse da outra entre o capim dourado, como seria? – e eu me lembro de te dizer que a procuraria até o fim do mundo. Doce ilusão! O fim do mundo é longe demais e mesmo as cem ideias que usei para te encontrar se perderam em uma praça de Queluz.
Alguém me disse que não podemos encontrar quem não quer ser encontrado — e eu fiquei pensando se era você que tinha esse medo de se perder ou era apenas a promessa de uma fuga que te movia. Confesso que já apaguei mil e quinhentas vezes as mensagens com sua voz e recuperei em tantas outras mil e quinhentas, só por medo de esquecer seu sotaque e o som monocórdico de sua voz.
Na última vez em que nos falamos, você disse que havia andado por minha rua — tantas vezes — através do Google Street e que pensou no pé de trevo de quatro folhas que cultivei como se fosse um tesouro, para depois do portão… E tudo mudou… Você sumiu do mapa e eu ainda procuro por você no meu silêncio. Nas estações, nas gavetas da memória, nas palavras de seus amigos. No topo do morro da Chapada, nas ruas misturadas com as casas coloridas que você tanto amou fotografar.
No resto do tempo, começo a te esquecer e a passo a ler as notícias que saem nos jornais do seu lugar. No carro igual ao seu que passa na rua de cima, no sol de cada dia e até na xícara de café — quer café, flor? — porque eu fico esperando qualquer coisa de extraordinária para recebê-la mais uma vez entre gotas de chuva nessa estação da espera.
É elementar que seja assim. Se passaram mais de mil madrugadas e eu sou todas as janelas e portas abertas, como se estivesse sempre pronta para sua volta. E eu já fui até farol, confesso… Mas, hoje sou apenas essa solidão para o nome das coisas.