Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Algumas esperas são angustiantes.

Olho o tempo e o relógio do nada.
Pedem sangue e a fila vazia de cor.
Não há cura para o diagnóstico da dor. E as rotinas refletem os mesmos rostos que me olham.
As palavras não ganham esperança nas histórias.
A moça de azul nem me olha.
Fito as frases de ajuda nos folhetos pregados na parede. Não ajuda.
Falam de esperanças renovadas e as minhas envelheceram faz tempo.
Lembro-me de nossas conversas e do riso e da promessa que não cumpriu de ficar.
Eu só queria mais uma chance para mudar o fim da história, mas a moça de azul aplica a dose diária e eu me esqueço de esquecer.

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Participam comigo:
Lunna GuedesObdúlio Nunes Ortega Roseli Pedroso Suzana Martins e Bob F

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Codinome: Coragem

Querida Maria,

É verdade que você se transformou. E se eu fosse detalhar resiliência, seria teu nome que estamparia nas camisetas que usaria todos os dias.
Lute como uma garota! – eu diria – e não seja normal – as pessoas normais são chatas e sem histórias.
Quando me deu sua história, era um dia chuvoso e as palavras se uniam em tom de desabafo e você, ali aos meus olhos nua e crua. Resiliente e aspirante no modo amar. O medo em cada gesto e um desejo absurdo de falar.
Você me usou para ser voz e ao mesmo tempo me silenciei e dei voz a você. Fui seus passos aqui do lado de fora e testemunha do amor que foi plantado e que virou esse romance que traduzo nos gestos de quem ama o amor.
Hoje, Maria, você ganha ares de vencedora e coloca um ponto final naquela história que dói e recomeça a contar seus momentos a partir do belo, da casa com quintal, dos chás de cidreira e noites de amor.
Talvez você se encante por essa nova vida. Talvez você se inquiete com alguns momentos, mas o que posso garantir que tudo se trata do destino.

E do destino, você não tem como fugir.

Mariana Gouveia
Portas Abertas – Codinome Lucidez
Scenarium Livros Artesanais
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Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

Mordia o lábio para não revelar o segredo.

Infringiu as regras do bom senso: roubou o perfume dela e viajou na essência cítrica… Com o nome a ecoar histórias e o coração a acelerar quando pensava… na pele! Pensou que fosse mentira o idioma e a cidade das poesias estampadas na camiseta sobre o amor.

Mariana Gouveia
Revista Plural Inéditos & Dispersos – Scenarium Livros Artesanais
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Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

A vida é para acontecer no instante do agora.

Todos os dias eu a via por ali. Como se medisse passos, como se medisse a vida.
Como se dissesse:
– A vida não é para quem tem pressa, moça.
A vida é para acontecer no instante do agora.
E assim, os dias seguiam seu destino de ser dia.
O diário das rotinas. A fala improvisada no programa de rádio.
A canção que ela mais gostava e seu lugar. Era ali que a vida podia ser medida vagarosamente para viver.
Era só respirar e viver e esperar o momento da transformação.
Para amanhã, asas.

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
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Lunna Guedes Obdúlio Nunes Ortega Roseli Pedroso e Suzana MartinsDarlene Regina

O lado de dentro · Scenarium Livros Artesanais

dos voos

Nenhum abismo me cabe,
nessa hora, eu voo.

Mariana Gouveia
O Lado de Dentro
Scenarium Plural Editora
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Participam comigo:
Lunna GuedesObdúlio Nunes OrtegaRoseli Pedroso Darlene Regina e Suzana Martins

Scenarium Livros Artesanais

no espaço, a vida é ilimitada e sem cercas.

Chegou das andanças com cheiro de aventura no olhar.

Sentiu fome nas esquinas… aprendeu o medo do chão – porque amava as alturas – e se perdia no espaço de voar.

Calculou rotas e fronteiras… no espaço, a vida é ilimitada e sem cercas.

As aventuras que viveu lhe permitia acreditar na sorte de um amor tranquilo.

Um ternura íntima no pouso. O colo na terra a oferecer amparo e a aventura no olhar, depois que chegou das andanças.

Era como se palavra liberdade estivesse além do chão e a alma entendesse que a é na terra que as raízes crescem livremente.

Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Participam comigo
Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega

Scenarium Livros Artesanais

Ainda ontem e o verbo era germinar 

O fruto serviu ao destino para o qual plantado. Havia rumos de asas no quintal… O canto a madrugar rotinas dentro das horas e o vento a exalar aromas de saudades.
Ainda ontem e o verbo era germinar e o raminho a brotar o verde ganhando espaço fora do espaço.
As flores em sua sorte de perfumar a vida e ali, logo cedo, o pássaro de todo dia ganha a sorte de matar a fome. A natureza e seu estado de graça diante de mim enquanto o vento sussurra em resposta ao amor.

Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
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Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Cartas para abril – Eu não sei como dizer-te que cem ideias, dentro de mim, te procuram.

Leonor,

Eu deveria te escrever em poemas. Usar teus poetas favoritos ou as canções que me lembra você. Mas, eu… às vezes, fico perdida… Devo escrever cartas que sei que nunca irá ler? Postar os envelopes pardos na agência dos Correios sem saber se irá buscá-los em sua caixa postal? O que eu faço, Leonor?

Eu acho que gestei demais a despedida e usei a tag marítima como sinal para você se reconhecer em meus gestos. Mas tenho pensado: será que você não foi inventada por mim? Tudo que vivemos parece pertencer a um passado tão longínquo que parece ser coisa da minha cabeça.

Te perdi, te ganhei, me perdi ou nos perdemos? Lembro-me do tempo em atravessei um campo de capins dourados e você me esperava no topo do morro. A frase ecoou morro abaixo e você com a câmera fotográfica nas mãos registrava meus gestos – e se uma sumisse da outra entre o capim dourado, como seria? – e eu me lembro de te dizer que a procuraria até o fim do mundo. Doce ilusão! O fim do mundo é longe demais e mesmo as cem ideias que usei para te encontrar se perderam em uma praça de Queluz.

Alguém me disse que não podemos encontrar quem não quer ser encontrado — e eu fiquei pensando se era você que tinha esse medo de se perder ou era apenas a promessa de uma fuga que te movia. Confesso que já apaguei mil e quinhentas vezes as mensagens com sua voz e recuperei em tantas outras mil e quinhentas, só por medo de esquecer seu sotaque e o som monocórdico de sua voz.

Na última vez em que nos falamos, você disse que havia andado por minha rua — tantas vezes — através do Google Street e que pensou no pé de trevo de quatro folhas que cultivei como se fosse um tesouro, para depois do portão… E tudo mudou… Você sumiu do mapa e eu ainda procuro por você no meu silêncio. Nas estações, nas gavetas da memória, nas palavras de seus amigos. No topo do morro da Chapada, nas ruas misturadas com as casas coloridas que você tanto amou fotografar.

No resto do tempo, começo a te esquecer e a passo a ler as notícias que saem nos jornais do seu lugar. No carro igual ao seu que passa na rua de cima, no sol de cada dia e até na xícara de café — quer café, flor? — porque eu fico esperando qualquer coisa de extraordinária para recebê-la mais uma vez entre gotas de chuva nessa estação da espera.

É elementar que seja assim. Se passaram mais de mil madrugadas e eu sou todas as janelas e portas abertas, como se estivesse sempre pronta para sua volta. E eu já fui até farol, confesso…  Mas, hoje sou apenas essa solidão para o nome das coisas.

Mariana Gouveia
Texto publicado no blog da Scenarium Livros Artesanais
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
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Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Carta para abril – As metamorfoses e seus contrários com uma xícara de chá

Minha menina nuvem,

O tempo mudou por aqui e o céu azul foi transformado em cinza logo depois do almoço. Precisei ligar a luz para trabalhar, já que escureceu de repente. Dizem vai esfriar e me perco dentro da estação. Com a chuva que caiu torrencialmente as sementes do ipê voaram para todos os cantos do quintal. Ela voa de tão fina e volta e meia levo embaixo do pé uma delas para dentro de casa.

Su, geralmente, trabalho no quintal ou na varanda, mas precisei levar a mesa para dentro e fui espiar a chuva. A luz da rua apagou e fui cuidar dos casulos – vários deles se formaram no pé de turnera – que é onde acontece as metamorfoses no meu lugar.

Já te contei que as borboletas nascem pela manhã? Umas gostam mais do meio-dia. Enquanto outras preferem o antigo canil dos cães, que é meu “sótão” de mentira. Lá é mais escuro e as mariposas gostam mais de lá. Gosto de ver esse processo de transformação – e até acho que vou me transformando junto – e depois, da metamorfose ao voo.

É certo que eu plantei as flores que elas gostam e com isso, o meu quintal está sempre “grávido” de borboletas. Mas, há também outras metamorfoses no meu lugar. As lady-bugs também tem um processo único para se transformar. Da larva ao inseto o pé de algodão vira casa delas. Das mais variadas espécies e logo as asas que parecem origamis vagueiam por aqui.

Gosto desses gestos por aqui e vou carinhosamente, com cuidados de mãe cobrindo os casulos… volto para dentro fugindo das gotas de chuva e vou preparar um chá… meu pé de alecrim está lindo e se ofereceu para aquecer essa tarde-noite estranha ao meu lugar. Preparo o caderno, sublinho as folhas e começo a te escrever enquanto bebo meu chá…

Aceita uma xícara?

Beijo meu
Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
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Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Cartas para abril – Cuiabá, manhã de sexta-feira santa,

Bambina mia,

O poema que me enviou me fez pensar em Ana. Ela adorava ficar parada, em um banco de praça, em uma calçada de qualquer esquina a observar quem passava. Maryann, é enriquecedor isso! Já imaginou o quanto de história tem em cada um?

A minha imaginação até flui no outro, no desconhecido… Mas eu escrevo a partir dos detalhes que a realidade oferta… Nem tudo é real, mas eu preciso da realidade para dar vida a minha narrativa. Ana preferia imaginar… de maneira peculiar: lúdica, poética, vaga… Eu queria ir ao sítio dos outros, desvendar as histórias, saber os nomes, ler sobre os segredos, trocar cartas…  e foi em uma carta que te encontrei.

Ir ao sítio dos outros não quer dizer invadir espaços que não são meus. É dar o toc, toc — dizer: oi, sou eu, estou aqui… e esperar que a porta se abra. Ana era voyeur que se perdia nos olhares, nos gestos. Espiava… dava cor aos transeuntes e lá de Paris dizia: o moço que perdeu o sapato me acompanhou até a praça da faculdade. Eu dei a ele o cachecol vermelho que você me deu. Estava muito frio… eu acho que ele perdeu um amor. Ela me escrevia de dentro da vida e eu respondia de dentro da minha saudade.

Mas havia um limite entre ela e o outro que era justamente a imaginação. Vejo um pouco dela em você. Essa inquietação com relação as pessoas. Ela era o próprio barulho — como você — e ecoava em tempestades mil. Com o outro, era distância nunca ultrapassada… os metros dos olhares. Uma troca de livro, uma sopa quente, um café noir e a mesa da cantine para ela. Seu passatempo favorito era ficar horas a observar o movimento-pessoas-personagens-imaginação.

Quando falo de Ana — as memórias, às vezes, nos traem — lembro-me do olhar amoroso comigo, do ônibus elétrico e seus olhos tragando minhas emoções. Enquanto o motorista descia para acionar o fio que se soltou. Você cabia na nossa história. Sua mão alcançou a minha e foi o amparo mais doce que senti na vida.

E foi ali que percebi que seu sítio cabia em mim… Você, tão avessa aos humanos. Tão canina quanto eu e tão aconchego para os que tocam o seu coração. Isso tudo é uma exceção à regra, mesmo porque, em muitos momentos, a regra decepciona.

Grazie Mille!

Mariana Gouveia
Carta publicada no blog da Scenarium Livros Artesanais
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Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega