Das palavras das cartas · Desvios para atravessar os quintais · Meus Livros · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

dentro do que lembrava de felicidade.

A carta veio dentro do livro. O envelope colorido a evocar lembranças de tudo que foi vivido. Ali, cabia a frase da música que gostava e continha a tradução do que sentia. Riu ao lembrar dos gestos que mãe fazia quando escrevia. Há quem diga que ela faz igual.
Podia junto com as palavras fechar os olhos e sentir o cheiro do mato, das verduras frescas da horta, do chá de hortelã a invadir os aposentos… a broinha de milho a atiçar a fome… até os gritos dos irmãos lá fora. A sensação é que se abrisse a janela as lembranças se materializariam diante dos olhos.
A letra miúda a descrever os instantes tão bem que poderia desenhar se quisesse.
A mão a acolher o voo, a ser pouso do inseto preferido enquanto os irmãos morriam de medo de qualquer ser que pudesse voar.
Era uma carta antiga… Lida infinitas vezes como se com isso pudesse voltar no tempo e apreender tudo de novo, dentro do que lembrava de felicidade.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais
Para ter um livro para chamar de seu, pode pedir aqui

Scenarium Livros Artesanais

Fevereiro, quarta

5:30
desassossego com este sol que se esparrama nos umbrais das manhãs
que entram pelos meus olhos e não cansam de olhar este céu
de promessas

espero a poesia, como meu pai espera a chuva para plantar feijão
sempre uma ode ao carpir, plantar, regar, colher – comer e partilhar
– corpo – existência e poesia
– é fome
– é sustento dos dias

Nirlei Maria Oliveira
Agenda 2023
Scenarium Livros Artesanais

Das rotinas

dos rituais da memória

O guarda chuvas não continha o equilíbrio do vento, quebrou na esquina de cima, antes mesmo que a chuva passasse.
A água escorria do céu feito afagos.
A solidão é mesmo feita de horas vazias.

Uma mulher me contou uma história do pai – vi a emoção dentro dos olhos dela –
O pai, sempre deixava para ela e os irmãos, um pouco da comida da marmita. Dava uma colher para cada, só porque eles gostavam.
O olho do pai brilhava vendo a comida ser compartilhada entre os filhos.
Dentro dos olhos dela o céu brilhava de azul e chovia.
A voz embargou na lembrança.
Tão perto, ali, a revelar memórias. Tão longe, ali, a viver dentro delas.

Não foi preciso abraçá-la… o gesto continha o abraço.

Mariana Gouveia
dos Rituais da memória

Das rotinas

Dos rituais da vida

A sorte morreu na esquina, duas quadras abaixo da morada final.
Alguém recebeu um buquê de flores. Ria ilusão nas escolhas feitas.
Espalhou fragrância por onde passou.
Dizia que ritual não precisa de ritos.
Buscou fiador para vender verdades.
Deixou guardada nos classificados a sorte vivida.
Todo colo é sabor de espera.

Mariana Gouveia
dos Rituais da vida

Das rotinas

Dos rituais

Procura o equilíbrio tênue dentro do dia. Encontra o desafio entre amar e gostar.
O sentimento é coisa estranha dentro da gente.
As coisas miúdas acontecem por acaso diante dos Rituais.

Escreve, define, se questiona sobre qual o caminho para a serenidade do tempo…
Descobre que a lógica da vida é viver.

Mariana Gouveia
dos Rituais

Das rotinas

Dos rituais das águas

Havia chuva no olhar distante.
Caía o dia em forma de gotas. As asas guardam pérolas de diamante.
As notícias salvam crianças que nasceram. Via um voo dentro das umidades todas.

Cabia canções no universo da água que sabia ser.
A cor exala nas folhas.
É a vida cobrando passagem diante da dor. A magia se faz de instantes.

Mariana Gouveia
dos Rituais das águas

Das rotinas

Dos rituais do amor


Ouvia a história de amor do homem do carro vermelho e chorou com ele suas dores de amor.
A tristeza sombreou o dia debaixo do pé de ipê, que floriu sem ser época nem nada.
Flor temporã – disse ele declamando poesia e falando que iria cruzar o mundo em nome desse amor. A natureza calou o riso dele quando ela se foi. Pediu para decifrar a sorte do dia dentro do horóscopo dele. A linha da mão falava em continuidade. Era assim que acontecia dentro dos romances do dia.

Mariana Gouveia
Dos rituais do amor

Das rotinas

Trouxe flores para você

Fiquei grávida de poesia depois de te amar. Há dimensões de vida inteira florindo no quintal.
O cheiro de terra molhada perfuma o quarto. Não sei se era o desejo maior ou se era fome de uma eternidade – esse meu sorver da vida – que aflora e vira flor.
A latitude inteira cruza meu quintal. Te dou o canto do beija- flor no meu bom dia.
Mil beijos despedindo rotinas desavisadas.
O som do piano nas figurinhas extraordinárias embala o nascer de mais poesia. Nascerão todas entre o agora e o depois.
E entre a paixão e a felicidade plena, trouxe flores para você.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Acho que gosto de São Paulo…

A primeira vez que fui em São Paulo foi em 2005. Fui participar de um evento e fiquei poucas horas. Vi São Paulo de relance, entre os vidros da janela do ônibus e não foi amor à primeira vista.

Em 2015, quando vi São Paulo do alto eu apaixonei. Eu ficaria horas vendo aquela imensidão e vi São Paulo com olhos de paixão. A cidade me acolheu e me fez sentir em casa e fui guiada pelas ruas e calçadas como se fosse um primeiro amor.

Fui acolhida como se já tivessem me esperando, com mesa posta, sorriso largo e abraço aconchegante. As ruas eram extensões do meu quintal e as pessoas sabiam-me em amor. Me vi dentro das canções que retratam a cidade e vivi as melhores emoções nas noites da cidade.

Voltei mais vezes – algumas até – e revivi tudo de novo e o amor e a intimidade foi aumentando. Eu amo a cidade pensando nas pessoas que enfeitam meu olhar pelo ângulo dessa imensidão que é São Paulo.

469 anos e São Paulo vive suas contradições e seus afetos e sei que muitas outras vezes, vou olhar a cidade do alto, de perto, de pé no chão, nas ruas e no coração dos que amo e vou voltar como se nunca tivesse partido.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · infinitamente

É o inesperado que muda nossas vidas.

Ph: Ziqian Liu

Sayuri, minha flor

Lembrei-me de que nunca te escrevi uma carta. As coisas que eu quis te dizer foi sempre nas mensagens trocadas, nos comentários em comum e na leveza do carinho que temos uma com a outra.

Mas hoje, eu quis falar com você. Em outros anos, a gente se falava horas por telefone e eu derramava minha admiração por você e mesmo quando não dava – como hoje – a gente se comunicava em pensamentos.

Esse dia é seu, Sayuri e eu queria escrever aqui seu nome lindo – o de verdade – que você precisa esconder para se proteger. Muitas vezes, pronunciei seu nome para o vento e com ele eu repetia sobre sua coragem. Poucas vezes eu vi uma mulher com tamanha coragem, mesmo cheia de medo. E tantas vezes eu quis te proteger. Queria te trazer para perto de mim e cuidar para que todo o sofrimento e lágrimas ficassem para trás.

Quando, por algum motivo, eu passo por alguma dificuldade e quero me abater, me lembro de você. De sua fala mansa e encorajadora. E fico tão grata ao universo por tê-la colocado em minha vida há mais de uma década. E não ouso fraquejar, porque de alguma maneira, te vejo tão valente diante de tantos obstáculos.

Hoje, mais uma vez, te busco dentro de um abraço imaginário e lembro de sua risada gostosa… e de como enfrentou o inesperado e transformou ele em lugar bonito de viver.

Felicidades todos os dias, para que o inesperado – roubei sua frase para dar título a essa carta – de fato, tenha transformado sua vida num lugar melhor., para que ninguém mais no mundo possa te definir em alguma outra coisa que não seja amor.

Te amo,
Mariana Gouveia