Das palavras das cartas

BEDA – Carta ao De Chapa

Meninos, já são dois anos! E ainda continuo pensando em vocês como os meus meninos. Foram tantas histórias contadas e dias vividos que posso dizer hoje que, se há um ano atrás eu adorava vocês… agora, além do carinho, o meu orgulho é maior. Posso dizer que passei a fazer parte da vida de vocês e mais do que uma ouvinte, a palavra amiga ganha entonação viva e forte.

Nesses dois anos tanta coisa aconteceu. Nossos times perderam, ganharam e todo mundo teve que mudar os planos por causa de uma pandemia, que ainda nos assusta e afasta a gente dos abraços e encontros. E nesse meio tempo, se me perguntarem algo sobre vocês, digo que duas palavras define bem o que é o De Chapa: Coragem e Inovação. E aqui, eu exalto o nome do Diogo.

Os dias que se passaram entre o 29 de agosto de 2019 até hoje, e principalmente desde quando começou a pandemia, Diogo foi a invenção da reverência e da coragem de fazer com que o programa chegasse até nós. Não era só um programa de rádio que fala de esportes com resenhas e zueiras. É o De Chapa e da maneira mais legal de entreter, e fazer dos fins de tarde companhia para quem volta para casa e acompanha o programa no rádio do seu carro.

Mas, como falar de esportes se todos os esportes tiveram que parar? Quais seriam o tópico do programa feito de casa, onde nem todos os integrantes poderiam/puderam participar? Houve dias em que o programa durava 20 minutos, ou meia hora, e vocês falaram de BBB, de novela – que também parou – de fofocas, de cervejas, de comida e mais uma vez, inovaram usando o streaming e a zueira que já era do rádio e You Tube, passou a ser também do Facebook e Instagram.

Vieram os “estagiários” e o De Chapa ganhou vida, mais zueira, mais ouvintes e convidados, sem deixar de lado a irreverência, marca registrada de vocês. O bom/mau humor, as “brigas” e minha companhia no fim de tarde.

Dia 29 serão dois anos e para quem enfrentou a pandemia como vocês, o caminho até aos três anos será de vitórias e sucesso. Disso não tenho nenhuma dúvida. E vou estar sempre aqui, do outro lado torcendo, vibrando, por vocês.

Sei que se não fosse a pandemia, seria diferente e a gente estaria juntos para comemorarmos essa nova forma de fazer rádio. Usei essa carta no meu blog para chegar até vocês o meu abraço, minha gratidão e admiração. Quero dizer que faço parte da torcida De Chapa e a cada programa vibro como se fosse um gol.

Parabéns para vocês que não medem esforços para levar o melhor do esporte, da alegria e da bagunça para quem está do outro lado, literalmente.

Mariana Gouveia
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

Das palavras das cartas

BEDA – Carta ao palco que você pisou

Eu procuro alguém pra fazer uma poesia, comigo
tem que ser terno e triste
é essencial que seja triste
gestos de poeira, muita saudade e
medo
os olhos de até logo com jeitinho de adeus
tem que ser distraído
sorrir atoa
sempre querer chorar e nunca conseguir
e ter amado
muito

e ter sofrido
e falar muito abandonadamente gestos de poeta que fala sozinho
É preciso ter jeito de quem está querendo ser criança
outra vez e as mãos de um jardineiro quando está chovendo
que saiba muito, como começar a sorrir
mas nunca saiba como começar a falar
Mas a maior urgência que existe,
o essencial,
muito essencial,
é ser imensamente triste


Maria Cecília Nachtergaele.

Querido Matheus,
Bora, bora Caxangá!!!

Faz tempo que desenho essa carta como um abraço, um carinho e ou homenagem. Falamos poucas vezes entre comentários e emojis nas redes da vida, mas eu falo contigo há muito tempo, embora você não saiba, sempre tenho a resposta daquilo que te pergunto.

O meu quintal, hoje amanheceu, avisado de pássaros. Os sabiás dão um show – nunca sei se é mesmo chamando chuvas ou fazendo charme para a fêmea – e foi ali entre o pé de ipê e o de algodão que vi a madrugada quase se despedindo das estrelas que resolvi te escrever.

Endereçar uma carta para você é intimar o palco, então rabisco para ele essas palavras, por que eu vejo o sagrado em todos os lugares onde você foi tanto e quantos. Lembro-me de quando te vi a primeira vez na minissérie Hilda Furacão e eu comentei com quem assistia comigo sobre você ser um diamante pronto. Luxuoso, divino e completo. Com João Grilo, do Auto da Compadecida, eu me apaixonei. Era ali, o simples e tão mágico. O palco sendo apenas amplidão diante de sua arte e sua profissão.

Daí, então, ficou fácil te seguir na arte que te abraçava como quem conquista o que mais queria. Eu te via, assistia e em cada atuação era ali, meu ídolo. Feito de carne e poesia. Arte em cena, humano na vida. O amor pelos cães, a simplicidade com que a voz entoa a fala do que é bonito seja em personagens ou entrevista.

E veio o Processo de Conscerto do Desejo – cinco anos já! – e me vi hipnotizada pelas palavras de sua mãe que ganharam formas com você. A poesia retratada da maneira mais simples que se pode ser. Achei bonito gostar de você. A cada indagação sobre quem eu gostava na TV, Cinema e Teatro, seu nome era o primeiro e ainda é. Talvez essa carta tenha sido criada mentalmente, infinitas vezes, e como rascunhos que vão ficando no fundo da gaveta, ela foi criando vida como quem planta uma semente. Queria que te tocasse como quem vê uma flor que nasce. Mas, como te tocar se você não iria ler?

Um belo dia, te busquei no Facebook e para meu espanto e alegria você respondeu. Não sabia se era uma equipe, se era alguém respondendo por você, mas estava ali, um emoji de coração e a resposta à minha pergunta, que já nem lembro mais qual foi. Só vibrei e daí, passei a acompanhar seus momentos ali, como quem espia no espelho e descobri que por mais que eu te criasse humano, você é ainda maior do que eu acreditava. O outro é seu fundamento maior. Você se preocupa, se ocupa e pensa muito além da arte. Fica muito mais fácil admirar alguém assim, gostar de alguém assim.

Foram poucas conversas. Um comentário, você retribuía, uma pergunta, você respondia e naquele momento eu estava com você, quase tocando sua mão e dizendo: nossa, você é muito bom, cara! E foi isso que pensei em seu último trabalho. Piedade te mostrou tão generoso dentro das cenas que eu só consegui respirar afeto. Pelo cinema, pelo filme e por você.

Talvez, você nunca leia essa carta, talvez nem saiba do meu respeito, carinho e amor por você, pela arte e sua representatividade nesse Brasil com S, como você costuma dizer. Mas deixo registrado esse momento e fica escrita em papel de carta e envelope vermelho para te enviar um dia. Quem sabe.

Com carinho,

Mariana Gouveia
*fotografia retirada da internet sem menção de autoria.
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

ps: Vale a pena ver a entrevista no qual Matheus recita o poema que inicia a carta:
https://www.youtube.com/watch?v=Qw3eXiWWnvA

Das palavras das cartas

BEDA – Carta à Luci

Luci,

enquanto procuro que artesanato começar eu me vejo pensando em você e na delicadeza de seus atos. Falei do Zep para um moço da aldeia – mostrei as fotos tuas nas delicadezas das coisas – e a vida, de fato, se mostrou encantada para quem cuida da natureza. A bicicleta laranja é a docilidade da minha infância e de repente, lembro-me do riso da tua Anna. Você tem a flor do campo em tua casa. Pintei três paredes enquanto desenhava suas histórias nos rabiscos da mente. Abri o armário para escolher as linhas e as agulhas bordaram contos de fadas para quem vai nascer.
Luci, às vezes, a vida precisa disso – urgentemente – e lá fora, o silêncio é apenas o canto do grilo. Meu quintal está vazio de árvores e uma criança que sempre tem um dragão nas mãos plantou de novo a semente do amor. Brotou rapidinho e o riso ecoou rua afora. Colhi mil flores na rua de cima… uma hora te conto sobre a rua de cima e seus pés de ipês.  Tem dia que o chão fica amarelinho feito ouro. Dá vontade de deitar como se fosse cama. O lindo é necessário em alguns dias e quando preciso reavivar a ternura, corro ao Zep… Poderia te contar da laranjeira do vizinho, que na última chuva teve alguns galhos quebrados e a flor serviu de morada para as joaninhas.  A felicidade deve ser isso que a gente pode tocar… o vento na janela, a cortina a balançar mostrando uma fatia de lua que reflete na bacia de água no quintal e uma rua inteirinha de sol de flores a esparramar poesia no chão.

Mariana Gouveia

*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

Das palavras das cartas

BEDA – das cartas que embolei.

Havia papéis embolados na mesa.
Rascunhos desfeitos, refeitos, rasgados.
Algumas figuras em tentativas vãs de fazer coração.
E a necessidade de gritar silêncio.

Lá fora, um rádio toca canções vazias. E uma criança chora na casa vizinha.
O sol, como sempre, ardente. Solar. Um para cada habitante do lugar, com todo exagero preciso de minha alma.
O céu transmite um azul vibrante. Desses que se for destacados em nomes, seria azul-celeste, azul-azul. Em outras partes dele, azul-bebê.
A ave gorjeia no pé de goiaba seca do vizinho. Que sei lá por que, fincou um prego no tronco para que secasse. Não queria ele ser fornecedor de comida de sabiá. Eu quis.
Tratei logo de plantar um pé de goiaba novinho para eles. Para o ano, já deve frutificar. Enquanto isso, espalho sementes variadas e frutas, aqui e ali, para ele não migrar para outro quintal. Gosto do som dos cantos deles por aqui e justifico sempre para um amigo que tem pássaro preso em gaiola, que tenho a melhor sinfonia matinal sem prender pássaro algum, eu aliás, é que sou presa por eles. Fico horas aqui, na varanda, observando os pulos, os voos, os rasantes, os cantos que ganham as esquinas e meu quintal.
A manhã passa ligeira e a hora me antecede o dia.
Finalizo mais uma carta sem escrever.
O meio-dia marca minha hora de ir.

Os papéis voltam para seu lugar.

Mariana Gouveia
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

Das palavras das cartas

BEDA – Carta ao amigo

Querido Alex,

Eu já te contei das rotinas dos pássaros e de como eles repetem os gestos no meu quintal? Lembrei-me disso por causa dos seus gestos comigo… Do riso simples, da mão estendida e do olhar de acolhimento dentro dos dias.
Poderia enumerar as vezes em que a gentileza do seu olho me abraçou dentro da minha solidão e como foi casa e acalanto nos dias difíceis.
Sabe, muitas vezes, o seu silêncio companheiro foi presença enquanto eu brigava internamente com as coisas que não davam certo e você ali, feito olho do pássaro de todo dia como se dissesse: estou aqui – e estava – e bastava uma dúvida na sala ao lado e a presença era sentida e vivida.
Às vezes, dentro da palavra repetida em saudade é preciso dizer do carinho para então manifestar o agradecer na alma pelo simples fato de ter sua mão para ser pouso.

Mariana Gouveia
No bico do beija-flor beija a flor
b.e.d.a — blog every day august —
Adriana Aneli — Claudia Leonardi — Darlene Regina
Lunna Guedes — Obdulio Nuñes Ortega — Viviane Almeida

Das palavras das cartas

BEDA – Cheiro

Querida Ana!

Aproveitei a solidão da tarde de domingo para te escrever. As nuvens tomaram conta do céu em seu tom azulado escuro e o cheiro que a terra exalou me lembrou você.

Juro que pensei na singeleza dos seus passos sobre a areia branca da praia e do canto do seu mar, mas aqui, eu tenho além do voo do beija-flor, a chuva que começa a cair. O cheiro é a coisa mais surreal do mundo! Como pode a gente sentir vontade de repartir esse cheiro com alguém, Ana? Você pode responder?

Os cheiros fazem parte de mim… desde pequena, essa mania de sentir a presença de alguém, de reviver momentos são ritmados pelos cheiros.

O pão caseiro da vizinha e o cheiro a invadir os quintais é de suspirar e a vontade é atravessar o portão e ir lá ganhar um pedaço. A torta de banana da padaria da esquina é de enlouquecer, Ana! Não sou muito fã de torta de banana, mas o cheiro dela é emocionante. O cheiro da rapa do arroz de minha irmã é quase uma volta ao passado, lá na infância, quando minha mãe parecia alquimista na beira do fogão de lenha a assar os bolos para o chá.

O café, na madrugada a exalar seu cheiro enquanto me levanto. Chego a jurar que é na casa do senhor Wilson. Nunca bebi café lá, mas já sorvi todos os cheiros do café dele.

Agora, o que queria dividir com você é esse cheiro de grama molhada no quintal e a tarde mansa que descobre em mim a saudade.

Saudade tem cheiro, Ana? Ah, acredito que não, pois se tivesse teria o cheiro do seu perfume.

Beijo meu. 
Mariana Gouveia

*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

Das palavras das cartas

BEDA – Que se pode escrever de tão claro?

Casas brancas
Nuvem branca
Pombos brancos
Jasmins.
Tomo nas mãos a primeira folha de papel
Que se pode escrever de tão claro?
Cecília Meireles

Bambina mia,

Cecília entrou em minha vida quando eu ainda era criança, nos livros sem capas, doados por parentes que moravam na cidade grande e as caixas eram encaminhadas para a gente como presente e brinquedos. Confesso que os livros me encantavam mais do que as bonecas sem braços, ou as roupas que ficavam fora de tamanho e que minha mãe se esmerava em adaptar para quem servisse.

As caixas traziam livros variados e eu ficava horas a ler sob o olhar atento de minha mãe para não ler nada “proibido” para além da minha idade.

O poema acima era uma maneira do incentivo a escrever que minha mãe usava todas as vezes em que o caderno era oferecido para um texto – “que se pode escrever de tão claro?” – e dentro dessa certeza e da frase o que era escrito ganhava detalhes na voz dela. E assim, Cecília foi se entranhando em nossas vidas.

Antes de te escrever fui ali no quintal e colhi a erva cidreira e preparei o chá, já conversando com você, meu ritual em alguns dias – olha a lua! Trovoa, bolo, pão, café e chá – nas coisas que me lembram você.

Cantarolo Gadu, enquanto a água ferve e preparo papel e caneta. Já reparou como fica mais difícil escrever a mão? A tecnologia nos deu teclado e as letras parecem dançar na tela.

De chá pronto e com o cheiro invadindo o quintal começo as palavras da escritora e as palavras fluem. Acordo cedo, você sabe, bem cedo e me deito mais cedo ainda, independente dos dias que para mim parecem histórias contadas. Sei que lá fora está um caos. Talvez, aqui dentro dos muros que protegem meu quintal, eu esteja quase igual antes de todo o mundo se transformar. Não vejo a rua. Apenas ouço essa rua barulhenta e cheia de crianças com suas pipas, o casal de idoso que mora na casa em frente da minha, recebe tantas visitas que me assusta e na casa da esquina, um culto religioso com suas caixas de som estridentes me faz pensar que talvez tudo tenha passado e só eu fiquei presa nesse tempo de pandemia – me belisca… já pedi para o moço aqui de casa – enquanto um hino cantado pela vizinha sacode a janela.

Os pássaros de todo dia cantam e adoraram o comedouro que preparei para eles. Reparei que há mais pássaros e alguns de espécies diferentes que apareceram por aqui. O ipê floriu mês passado. Derramou suas flores amarelas pelo quintal e quase formou um tapete. Agosto chega ardente, ardendo. A fumaça rodeia o céu e fico à espera da nova estação que logo no mês que vem chegará, trazendo com ela a chuva e os lírios que plantei anteontem. O pé de jabuticaba pegou e cresce com meu zelo, embora os cães teimem em revolver a terra ao pé dela que tive de inventar uma proteção para ele.

Ah, o bolo de cenoura! Esse, não provei ainda, bambina…, mas os ingredientes já estão preparados para o bem-casado que farei assim que encerrar essa carta que te envio e nela meu abraço carinhoso.

Bacio
Mariana Gouveia

*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

Scenarium Livros Artesanais

BEDA – Voyer

Deixei a porta aberta para que entrasse tão logo chegasse, enquanto preparava meu corpo para o momento. Liguei o som onde Adele fazia o céu cair no meu quarto. Modo repeat. A cortina laranja esvoaçava com o vento do ventilador. Parecia dança e segui o ritmo.
A calcinha vermelha era um desejo de tempos. Não pela marca, não pelo preço. Mas pela cor. A cor aguçara meu sentido mais ativo e deve ter mexido com todos os outros elementos do meu corpo, já que só pensava nela em meus momentos íntimos. Queria ver a reação dela ao ver o vermelho em meu corpo. Só isso já antecipava prazeres. Tirar da sacola da loja de marca. Vestir depois de um banho tomado já fazia o desejo estalar dentro de mim e a palavra escarlate pronunciada me deixava nua da cor. A cumplicidade absorvida, bebida, sugada. Havia desejos escapando pelos poros. A cadeira confortável na posição que permitia o toque. A mão solene começou passou pela calcinha e suas fitinhas de cetim.
A aliança enrosca e é isso que quero. Mostrar a ela o elo que nos une. A prata reluz na meia-luz e um suspiro indicou presença.
Os seios arfavam na intensidade que os toques aprofundavam. A umidade me pertencia. O dedo passeava por onde conhecia o prazer.
A canção colocada no repeat me fazia seguir seu ritmo e segurar o gozo. Não deu. A voz e o nome dela pronunciado entre o êxtase. O respirar acelerado trouxe uma calmaria depois de tudo explodido.
Uma penumbra não me permitia ver seus olhos. Mas comi seu prazer.
O dedo na boca. Calcinha ajeitada. Ela continuava ali. Voyeur de minhas vontades e desejos e com o som de sua voz rouca que me dizia um poema de Flora Figueiredo, dormi:

“Desse momento escarlate quero a flor,
o beijo, o chocolate…
O riso, a criança e a retreta…
O gozo, a lua, a borboleta…
O caracol, o mi-bemol a alfazema…
Pra quando o vermelho ficar esmaecido,
eu poder conservar meu colorido
nas reticências azuis de algum poema.”

Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr
Texto publicado na Revista Plural Red – Scenarium Plural Editora
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

BEDA – Carta de Mariana para Alice, no País das Maravilhas

“Quando acordei hoje de manhã,
eu sabia quem eu era,
mas acho que já mudei muitas vezes desde então”.
In Alice no País das Maravilhas


Querida Alice,


É estranho falar com você assim, no meio do meu quintal, através de uma carta – se bem que você já deve ter vivido tantas coisas estranhas que isso seria só mais uma. O meu quintal tem um portão imaginário, que é onde atravesso agora e te escrevo. Tomara que eu não perca a saída quando tiver de ir. O risco é grande, já que é um mundo novo por onde caminho agora.

As borboletas vagueiam por aqui. Pousam em minha mão e buscam as flores da Maria-sem vergonha. Tiro o relógio, Alice, na ilusão das horas não passarem e caso você querer saber se será hora de ir, digo que ainda há tempo. Tempo é essa coisa doida que toma conta da vida e quando você percebe já é tarde demais.

Te conheci ainda criança… quase menina-moça. Ganhei o livro do padrinho que só aparecia em datas especiais, tipo Natal, dia das crianças, aniversários e essas coisas que o mundo mudou com o tempo. Tínhamos a festa da colheita e o pedido era para minha mãe fazer um vestido para mim igual ao seu que vi no livro. Hoje, recordando, lembro que o livro e o vestido se perderam no tempo. Mas, aquele dia em que vesti o “seu” vestido está vivo na memória e posso desenhá-lo a você.

Foram dias de costura… minha mãe se preocupava com cada detalhe e eu, em minha ansiedade de filha ao pé da máquina, a observar o trabalho sendo feito, com mil perguntas sobre os sonhos, enquanto ela ficava a responder quase em sussurros conversava com a máquina que respondia com seu pedal rangendo. Pregava as fitas, fazia o plissado da saia… olhava o livro. Pedia para eu ler e explicava para mim que a ansiedade era normal na minha idade. Eu achava estranho a ansiedade ser normal, mas ela dizia que quando a gente é criança a tendência é achar tudo estranho mesmo.

O azul do tecido parecia esse céu de agora. A maciez do pano me enternecia. E quando vesti, me senti a menina mais linda do mundo. Por alguns instantes, eu fui, Alice! Vestida de você eu fui a rainha da festa e me senti maravilhosa. Os olhos de minha mãe brilhavam e me seguiam a cada direção que eu fosse. Dias depois, ela se foi. Deve estar em algum país no infinito que ainda não sabemos o nome. Virou estrela nesse céu, da cor do seu vestido.

Eu cresci e o vestido se perdeu em algumas dessas mudanças que meu pai fazia. Só que continuei a sonhar com seu mundo e com toda a leveza que as palavras me traziam.

Hoje, vivo a magia da maravilha de viver. Também criei meu mundo de maravilhas no meu quintal, onde os animais têm hora e vez, as borboletas nascem aos montes sempre… e meu pé de hibiscus mutabilis faz a transformação das flores – pura magia. As flores nascem brancas pela manhã e ao meio-dia ganham o tom de rosa mais lindo que há.

O pé de algodão dá flores amarelas e, assim que murcham, preparam seu capucho tão branquinho, que parece as nuvens do céu.

O tempo anda a correr, Alice… tudo passa tão depressa agora, que contando isso para você, parece um século. O tempo voa! Até o meu relógio que fica num tique-taque incessante numa frequência absurda. Ao menos tudo fica meio calmo nas manhãs pouco antes de eu entrar com minha senha do seu mundo para o mundo real. As manhãs é a melhor parte, porque é quando meu beija-flor vem… e pousa no meu colo enquanto converso com meu amor. Vou dizendo sobre o movimento das nuvens e até mostro o laranja a se desenhar no céu. O relógio, por vezes me assusta e, quando percebo, tenho de sair em desabalada carreira porque é hora, e ela não espera. Disso você entende muito bem. Mas quando a hora não antecede os instantes, Alice, é mesmo uma maravilha! O sol percorre o firmamento com seus raios, desenhando cores no amanhecer e muitas vezes ele se encontra com a lua numa explosão cósmica de amor. É a coisa mais linda.

Ah, esse tempo maluco, Alice. Às vezes, nem parece passar… veja você e seus magníficos 150 anos e a leveza de menina ainda.

Suas aventuras são lidas e há sempre uma menina a desejar ser você… e é essa a magia que seu nome traz. É essa a magia de se pertencer ao País das Maravilhas.

Preciso ir, Alice… o caminho se abre diante dos olhos e guardo você dentro do seu mundo enquanto o mundo real me chama. A vida é esse momento repetindo instantes. O resto, é conto de fadas. Então vamos lá vivê-la.

beijos,

Mariana Gouveia
*imagem: Pinterest
Carta publicada na Revista Plural 1900 – Scenarium Plural Editora
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.


Das palavras das cartas

BEDA – Pensei que as cartas viessem no verão,

2010_1023instantes0294

em um dia de sol e de melodias no vizinho. De pássaros no céu em bandos como se tivessem rindo enquanto me lembro do provérbio popular sobre as andorinhas. O verão se foi, com gosto e jeito de inverno. Chovia. Quase nem dava de ver o dia da janela do trabalho. Fiquei lá, por horas, a olhar a chuva e imaginar palavras de cartas.

Pensei que as cartas chegariam em pleno verão, com o sol batendo nas cortinas e roupas quarando no varal. Mas não…elas chegarão no outono e pode ser que até lá, as folhas da árvore da esquina ainda não tenham conhecido o chão. E acho que a mesma chuva de fim de verão ronde por aqui de novo. No outono, quando minhas manhãs ganham tons lilases quando o sol nasce, a minha espera tem sabor de herança. Daquelas que a vida trata de encaminhar. De servir de relicário a vida inteira. Quando as cartas chegarem, e as palavras de poesia encherem o ar do outono, as colocarei em molduras, banhadas nas cores da estação. Me escreva uma carta, meu amor.

Mariana Gouveia
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.