Morria de medo de amar. Amou. Cantava a sorte de um amor tranquilo na vitrola vintage que ganhou do pai e os discos de vinis trazia o fado – sempre via dentro do olhar que ela nunca viu – que em noite de lua embalava o sonho de eclipsar a vontade do beijo dela. Não era a dança sob a lua no quintal, nem a maresia que invadia o quintal dela… Não era nada disso que alimentava as noites de luar prateado. Não era o mar e sua rota torta, inquilino dentro do peito que fazia ela viver… era a vida feita e refeita dentro do amor que o nome dela trazia poeira estelar quando cantado. Era essa espera no cais. Outra vez.
Mariana Gouveia Ser de Flor Texto publicado no livro Sete Luas Scenarium Livros Artesanais
Eu nunca consegui ocupar o silêncio de uma casa… pelo menos, não me lembro. Desde pequena, com seis irmãos, a algazarra era imensa e mesmo eu sendo a mais quieta entre eles, o silêncio não existia e fui deixando o barulho gritar em mim.
Dos barulhos que eu mais gostava era o dos trovões e mesmo com todos os espelhos tapados com lençóis e o medo de minha mãe dos raios que sempre acompanhava a fala do céu quando acontecia uma tempestade, para mim, o trovão era a voz do céu… rompia o silêncio ou abafava os gritos dos irmãos em correria pela casa e eu ficava em pé, na porta ou janela, maravilhada com o eco a estrondar enquanto meus irmãos se escondiam. Buscavam abrigo no colo ou ao lado da mãe.
Com o passar do tempo e a distância entre os meus irmãos, eu rompo o silêncio que em alguns momentos me ronda com música, o canto dos pássaros e o vento.
Hoje, meu dia foi quase igual ao seu e enquanto sua missiva ganhava minha emoção, trovejava aqui… e como se fosse sintonia, o toc toc da mensagem ecoou com seu nome sendo gritado no quintal.
Esteve quente o dia inteiro e antes que o aroma que nós duas amamos – o petricor – exalasse por aqui, trazendo a docilidade de suas letras, trovejou… e ao gritar seu nome lembrei-me que descobri sobre o nome petricor dias desses – que é nada mais que o cheiro do pingo da chuva na terra seca. Fluído etéreo. Sangue dos deuses – é quase poesia… já, imaginou, bambina, a poesia no nome das coisas? O aroma que a chuva provoca ao tocar o solo… é como se perfumar para encontrar alguém e juro que me lembrei de sua rinite e sorri quando descobri que esse cheiro é quase como o cheiro do seu abraço…
E veio o vento, trovões e chuva e meu quintal vibrou com o petricor a aromatizar o jardim enquanto chorei… Essa semana, foi de partidas e de nascimento. Alguém se foi, porque era o tempo de ir e um menino nasceu sob meus olhos. E sob seus olhos, um ninho se fez colo… Fico me perguntando onde as coincidências nos alcançam sempre?
Enquanto os relâmpagos cortam o céu eu encontro a resposta: é no silêncio que se ocupa de nós. O da sua casa e o da minha… nesse piar que ocupam sua varanda e o meu quintal. O silêncio que grita em nós.
Se eu pudesse dar somente um conselho pra Savana de ontem, eu diria: “Acolha seu passado, se preocupe menos com o futuro e renasça quantas vezes for preciso no presente. Isso é muito poderoso!” Savana Leão
Querida Savana,
O dia amanheceu mais fresco porque ontem choveu aqui… não aquela chuva que a gente gostaria que caísse, a tal chuva da manga e do caju mas senti o cheiro de terra molhada – um dos cheiros mais deliciosos que senti na vida – foi passageiro, e os pingos deixaram sua presença no quintal.
Sorri quando descobri que era seu dia e logo a caneta ganhou forma no papel e vim aqui te abraçar. Roubei a sua frase e iniciei a carta com ela. Lembrei-me de quando ouvi seu nome pela primeira vez. Havia um matéria em um blog, com um texto belíssimo e ali, me apaixonei por você… a menina que costurava roupas para bonecas e que ama a magia da costura.
Lembrei-me da mulher corajosa, que renasce a cada dia, mesmo com todas as perdas e adversidades. Lembrei-me da mulher que escolhe as cores, que traça moldes e cria mais do que uma peça que veste o corpo… cria roupas que abraçam a alma.
Durante anos, fiquei a te acompanhar de longe. Eu, a menina dos retalhos, patchwork, bordados e crochê, encantada com a menina da costura, tecidos e criatividade. Até o primeiro abraço, até o primeiro vestido, até o primeiro riso – tímido seu – e estava ali, em minha frente a mulher que desbrava as retas, tesouras e linhas. E eu descobri que você era a mesma que criava as saias de tule e possuía de fato, a alma de leão.
Sei que esse ano foi difícil, mas assim, como a frase sua lá em cima, você renasce na dor e se fortalece na família… e a poesia ronda tuas mãos no doce ato de costurar a vida. E que bom que minhas poesias conseguiram te ajudar, em algum momento.
Nesse seu dia, há previsão de chuva… não sei se irá chover ou não… a previsão, às vezes, falha… mas o que não pode falhar é a sua fé em dias melhores… é a sua coragem diante da dor… o que não pode falhar são os traços feitos dentro dos dias para que você seja feliz.
Dias felizes para você, além de aniversários e vida afora.
Beijo,
Mariana Gouveia Agosto é o mês de Savana e de B.E.D.A Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega – Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina *Essa carta também faz parte do Projeto 52 Missivas – Scenarium Plural Livros Artesanais.
Não tinha endereço na plaqueta da rua nem número em casa nenhuma. A casinha quase a tocar as árvores ao longo da rua, que era estrada… A direção se dava pelos cheiros. As flores do jardim reacendiam na alma a rota do abraço e a lembrança da chaleira sobre o fogão de lenha já alertava meus sentidos para o chá. Não saberia nomear o sentido das coisas. Algumas, o universo me dá sem ter nome… Outras, me caem como presente divino. As ervas que vim buscar estavam a secar em um balcão improvisado a espalhar aromas que eu conheço bem. Ela riu como da última vez que a vi. Eu coube bem dentro do abraço. Depois de levar a bronca por ter faltado ao último São Cosme e São Damião. Fez mil perguntas buscando dentro do meu olhar as respostas reticentes que eu dava. Desconfiava das minhas desculpas…Ria do meu embaraço a falar do tempo. Lia meu olhar como uma carta aberta letra por letra. Ela conhecia bem meus silêncios e dentro deles muitas vezes foi benção e voz. A casa tinha seu cheiro de amor em cada retrato de santo na parede e o ramo de arruda na mão a benzer meu olhar. Tomei um banho de chuva. As ervas a envolver minha pele como se dela fizesse parte. A busca pelo meu canto de sempre. O respirar para dentro num ritual que eu já havia vivido e sentido. Muitas vezes, ali, debaixo do pé de maracujá, eu descobri minha rota de fuga. Mas também descobri o meu norte e mais uma vez busco refúgio dentro do olhar dela. Ela repete gestos em orações e silêncios. A mão toca minha testa como se pudesse com a mão tirar o que me afligia. As horas ali, parecem não pertencer ao mundo dela. O tempo para dentro do tempo. O rádio de todo dia toca uma canção antiga. Ela se recorda pela milésima vez quando me conheceu e daquele momento em diante eu virei filha – com ar de brava reclama da filha desnaturada que some de vez em quando – e de como derrama seu amor por mim. Eu respiro carinho em cada canto dessa casa que também é meu lar. O chá fumega espalhando a essência de cura pelo ar. Os biscoitos de nata desmancham na boca e naquele momento eu percebo o quanto sou abençoada e de que preciso repetir mais vezes esses instantes. Estendo o braço para a simplicidade do toque. Mão leve que toca e pronuncia as palavras certas. Ri de minhas histórias…canta a canção que aprendeu pelo rádio. Pego as ervas depois do abraço carinhoso e vou rumo à cidade. Ainda posso ouvir a voz dela a ganhar eco na projeção das árvores. As orientações ainda a ecoar na mente e no coração. Ainda a vejo no portãozinho de madeira a acenar tchaus com gestos de beijos. Ela é toda inspiração de fé e coragem. Ela é a dona dos cabelos brancos mais brancos ainda e jeito gostoso de vó. Volto energizada, benzida e curada. A vida sempre me dando atalhos com direção certa e eu apenas a dizer sim ao Universo.
Amém! Amem… Mariana Gouveia Agosto é o mês de abraços e de B.E.D.A Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega – Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina *Texto publicado na Revista Plural North and South pela Scenarium Livros Artesanais
Aquela seria a primeira noite que eu dormiria fora. Uma ansiedade enorme tomava conta de meu coração. E reparei que os meus irmãos também estavam ansiosos. Eu nunca havia dormido longe deles… Mas aquela era uma noite especial. A lua apontava no céu quando os meus irmãos me acompanharam até a porteira, que rangeu ao ser aberta. Mal sai… e eles já haviam sumido pelo caminho de volta. O cheiro gostoso de sopa exalou no ar e ela me recebeu com um sorriso. Pela primeira vez olhei direito para ela. Os olhos azuis piscaram e percebi que ela tinha o céu dentro deles. Os cabelos estavam soltos… sem o chapéu de capim dourado deixando a mostra os cachos caídos sobre os ombros. Os fios brancos se pareciam com fios de algodão que ela me ensinou a tecer na roca, que ficava no centro da casa. Ela me sentou na cadeirinha, colocou o prato diante de mim, que despejou no ar um cheiro delicioso. Enquanto comia, ela contava histórias e me ensinava truques. À noite, aquela casa parecia ainda mais misteriosa e aquilo me encantava. Eu buscava cada detalhe-objeto. A lamparina no teto, a cadeira que tinha uma manta de crochê por cima. Um retrato amarelado na parede onde havia mais de cem crianças amontoadas — as que suas mãos fizeram nascer. Depois de comer, me levou para a janelinha. Uma escada nos colocava lá no alto. E o que vi, me deslumbrou: uma lua imensa no céu e um jardim de cogumelos gigantes. Como brilhavam… À luz da lua, eles pareciam maiores do que eram, e tinham uma coloração especial — um tom meio azulado. Ali, a minha fantasia delirou. Eu pensei ter visto um monte de duendes entre eles. Compreendi que estava vendo uma coisa secreta. Aqueles cogumelos eram experiências que ela fazia. E ao dividir comigo, tocou-me com toda a sua arte. Acho que nem meu pai sabia da existência deles. A cama fofa, os pirilampos piscando — pareciam estrelas no chão. O cheiro da massa de pão, o silêncio da noite. Sentia como se estivesse lendo um livro, virando página por página. Eu era uma espécie de Alice no País das Maravilhas. As horas voaram… e eu ali, a sorver cada precioso segundo de encantamento e magia. Ali, era a casa da dona Fulô — a casa de uma bruxa, segundo os meus irmãos. E para mim — uma menina sonhadora que vivia poesias — era a casa de uma Fada. Aquela foi uma noite de sonho… nem dormi direito. Queria guardar tudo no baú da memória. E, com medo de que tudo se perca, esparramo palavras aqui, fazendo o que ela não sabia fazer. Ela não conhecia letra-palavra no papel. Dona Fulô era uma contadora de histórias, que fazia poesia com a voz, os olhos, as mãos e os pés. Com ela aprendi a recortar a eternidade, a ouvir o rumor dos pássaros, o restolhar das folhas na mudança da estação, o amadurecer dos frutos em bocas ávidas e a força do vento nas folhas onde histórias se escrevem, como eu prometi que faria naquela noite…
Confesso que olhando minha estante me deparei praticamente somente com livros escritos por mulheres, com quatro exceções apenas. E juro que não foi proposital.
Os livros que vou adquirindo/ganhando/emprestando ao longo dos dias por coincidência, são a maioria escrito por mulheres. Foi uma grata surpresa!
Entre eles, Alice, uma voz nas pedras, de Lunna Guedes. A escrita de Lunna me encanta desde o blog Catarina voltou a escrever e me abraçou por inteiro em Lua de Papel I, II e III. Sou apaixonada pela história de Alexandra e Raissa e seus personagens encantadores.
Lunna me iluminou em sua Lua de Papel e me verteu de cores em Vermelho por Dentro. Nos Meus Naufrágios delirei… mas Alice, Uma Voz nas Pedras me deixou sem cor e cheguei a me perguntar: o que você está fazendo aí, que não faz nada para mudar as histórias que você conhece? Captei os sentimentos e não me sai da cabeça a mulher que vive uma relação abusiva e ainda se acha culpada de tudo. Alguém aí se identifica?
Lunna nos leva por caminhos que são tão conhecidos, tão reais que chega a doer e emocionar. Já li o livro três vezes, em situações diferentes e confesso que me dói a alma ver Alice em tantos rostos conhecidos. Se você se pergunta aí qual é o seu lugar no mundo, acho que está na hora de ler Alice, uma voz nas pedras.
Mariana Gouveia Esse post faz parte da Maratona Literária do grupo Interative-se. Participam desse projeto Lunna Guedes, Obdúlio Ortega, Roseli Pedroso, Ale Helga, Isabelle Brum
Estou de volta pro meu aconchego Trazendo na mala bastante saudade Querendo um sorriso sincero, um abraço Pra aliviar meu cansaço E toda essa minha vontade (Dominguinhos)
Querido lugar,
Enquanto atravesso a ponte de madeira ouço o barulho do rio a serpentear por entre as árvores. Devo te confessar que o bosque perto do rio é meu lugar preferido nessa cidade onde nasci e cresci. Posso fechar os olhos e mesmo assim, reconhecer cada árvore, cada pé de fruta, cada trieiro que me leva sempre ao mesmo tempo, mesmo tanto anos depois.
Estou de volta, para rasgar as promessas feitas em um tempo de felicidade. Um tempo em que as fotografias em preto e branco tingia as paredes da sala cheia de cor no riso dos irmãos.
Parece que as coisas não passaram por aqui. Até a ave noturna é a mesma – pelo menos o canto – e isso atiça minhas memórias anos atrás quando vim aqui me despedir. Naquele tempo, meu coração possuía o encanto da juventude e jurei nunca esquecer esse lugar e prometi voltar assim que pudesse.
Não sei quantas noites, de olhos fechados, cruzei a ponte nas lembranças e me sentei de frente a esse rio com suas margens cheias de memórias e chorei. A alma não queria ter saído daqui. Foi ali, o primeiro beijo em um amor que nem lembro o nome. Também foi ali o tombo e a perna quebrada para tantos dias e onde a primeira borboleta pousou na mão e me fez criadora de asas. Aqui, as lembranças têm o cheiro de roupa limpa e vem na memória o ritual da minha mãe a quarar os lençóis de linho nas pedras do lado enquanto cantava uma canção regional do lugar.
As ruas mudaram, é verdade – não há mais os paralelepípedos na rua principal – e a matriz ganhou uma fachada moderna. De resto, a minha cidade está cheia de passado… no colégio em que estudei, a pintura ocre é a mesma de que eu me lembrava e o portão range como se chorasse por eu ter ido. O mercadinho da esquina – que era nosso e um tio comprou, ainda tem os potes de doces expostos e o sabor do pé de moleque, baba de moça e maria mole é quase uma oração.
O tempo não passou… sou eu ainda, a menina a decorar poemas no banquinho da praça e as tranças presas com a fita de veludo laranja a ecoar saudades.
O tempo passou, sou eu mais uma vez, de frente com meu passado que me transformou em tudo que sou hoje e que reativa a memória com os sabores, as cores e as lembranças de um tempo que insiste em morar nas fotografias da estante. A relutância em tirar fotografias me faz sair emburrada em quase todas, mas a família toda reunida em frente da casa para registrarmos o amor em dimensão de tempo, um dia.
Mariana Gouveia Carta publicada no Caderno de Notas Scenarium Livros Artesanais
“Para eliminar o sofrimento, elimina-se a memória. Uma cirurgia aparentemente simples, única solução. Só que eu não consigo, tudo é vivo dentro de mim” Ignácio de Loyola Brandão
Querida minha,
As minhas mensagens, na milésima tentativa vagueiam como se oscilando entre palavrões no quintal, pudesse te alcançar. Como seu nome fica tateando as paredes parecendo fuga? E você, sendo ausência dentro do vestido solto todo de poá?
O amor é esse vento de inverno. Revolve as folhas no quintal e causa encantação aos seus olhos quando o sépia o invade. Já te contei dos diferentes formatos das folhas daqui?
Invento os verbos enquanto o relógio atinge o ápice da noite e rabisco mais uma vez seu nome dentro de um coração mal desenhado.
É meia noite no fim dessa página. Há uma réstia de luz invadindo o espaço da cortina lilás. O dia, daqui a pouco, renasce e fica esse amargor na boca como se o ontem fosse apenas uma parte a mais do que não vivi.
Meia noite é quase um poema e nas paredes tateadas rastreio impressões tuas, de um tempo em que nunca esteve aqui.
Os relógios do tempo moderno piscam em uma luz azulada. Você sabe que de vez em quando chove aqui e as gotas cantam canções da minha infância? E que os ipês florescem fora do tempo em algumas noites fora do tempo?
O inverno não amadurece no tempo aqui, minha querida… Ultimamente, ele tem chegado fora da estação e causa arrepios na pele, esse vento que canta lá fora…as flores – que antes se abriam no cerrado – moram no meu quintal e invade a varanda com suas garras e o perfume suave do que amarela a manhã – que já surge além do horizonte – enquanto percorro a casa inteira e seus aposentos vazios de presença.
Há ali, no canto, a estante recheada de livros e cada um traz a história descrita, vivida e sentida. Há os bibelôs imóveis – as corujas e o galo de Barcelos entre as xícaras com as borboletas pousadas, inertes esperando o amanhecer.
A solidão e sua negritude na escuridão me lembram a frase do meu pai que dizia que “é no ápice da escuridão que o sol nasce” e ele vem em ritmo de solicitude. Na esquina, o moço da reciclagem canta sua canção de amor que nunca acaba. A solidão é essa moça com vertigem e cheia de incerteza.
A curva entre o canto e o pé de amora imprime no muro um coração às avessas e o musgo seco do tempo das chuvas detalha imagens que não sei quais são, mas parece que conheço de algum tempo. A meia noite, é quase o que antecede o dia. O relógio parece até que faz pausa quando no ápice da hora, o instante se faz.
Deparo com a minha figura insone no espelho do corredor e vejo ali, na estranheza da humana que apenas se recolhe em saudades… de tudo que não vivi.
Beijo,
Mariana Gouveia Carta publicada no Caderno de Notas Scenarium Livros Artesanais
E depois o dia voltou como habitualmente… Marguerite Duras
Querida minha,
Escrever-te, é essa falta de fôlego na alma. Até onde o coração, feito de palavras, alcança seu amanhecer? Até onde, esse mesmo vento invade tua quase manhã – enquanto aqui é madrugada – e balança ao mesmo tempo as cortinas das janelas, nesse lado de cá?
Mas aqui, ainda era noite e a solidão das horas fazia com que no quintal nenhuma luz brilhasse. Eu já te disse que em muitas noites que passei em branco foi ouvindo o tic tac do relógio marcando o tempo sem você? E que de olhos fechados o vácuo entre a madrugada e o sol raiar lá fora, passa uma imensidão de tempo dentro dessas mesmas horas?
Devo confessar que morri em muitas dessas noites brancas. De uma página em branco, ninguém se livra. Havia corredores imensos em minhas veias que se fechavam. Pássaros noturnos traziam os sons da noite e ainda era meia noite e meia. Os vagalumes invadem a lateral do muro em noite sem lua e lá, acontece um ritual que admiro no escuro. Nessa hora, viajo nas lembranças da infância e quase esqueço desse fuso horário que separa meu sentimento da vivência.
Mas as lembranças saem e retorno ao vazio branco da noite. As lâmpadas da rua queimaram – ou apagaram – por algum motivo. Só tem uma penumbra tênue e quase embaraça as vistas quando vejo os vultos no quintal.
As sombras das árvores parecem fantasmas com suas garras sobre o momento que não passa. Às vezes, a vida dói! O conta gotas do floral é quase mantra diante da ansiedade oculta durante o dia. Como se o dia nascesse na liberdade desse sentimento! Como se a essência da planta invadisse a passiflora que desenha um botão na madrugada quente. O botão da flor é essa singeleza da cor que traz a beleza de noites imensas mergulhada no silêncio.
Na paisagem interior, as lembranças ecoam nos retratos expostos na estante, enfileiradas sob uma toalhinha de crochê. E me vi percorrendo mapas traçados na mente, com o dedo traçando teu nome nas vidraças, na poeira dos móveis que enfrenta a solidão junto com o licor de pequi.
Lembro que talvez, você nem entenda a palavra e nem o sabor exótico do meu lugar. Era tudo tão além da presença, que ainda escrevo como se você estivesse aqui.
E é tão lá essa distância e é tão aqui esse sentimento que simboliza tua falta na noite. Acho que te contaria uma história. Talvez, te marcaria na soma do amor enquanto os cães latem para alguma coisa que não consigo ver o que é. E os bibelôs parecem que conversam entre si e riem de minha insônia e falta de jeito para lidar com essa solidão.
Qualquer pergunta fica sem resposta e enquanto na rua reina um silêncio absurdo ouço o slogan da emissora de tv – plim plim – em alguma casa vizinha.
De noite, todos os gatos são pardos… – já li isso em algum lugar, mas é mentira. O Iglu – gato branco da vizinha da casa de baixo – passeia em cima do telhado como se estivesse em um desfile e os cães com sua gana de sangue rompe o silêncio da madrugada até que Iglu em sua pose de estrela atravessa todo muro como se provocasse os cães. A madrugada chega dominadora. Quase refém dos ponteiros que insistem para o dia clarear.
Sinto o cheiro das ervas sendo tocadas pelo orvalho. A madrugada tem essa magia de tocar na suavidade das flores. O vento, é só um afago na alma enquanto chamo seu nome.
Cadê você que nem cabe nas letras? E quando a falta é só esse vazio de água, de maresia, de ar… O que procuro nessa imensidão de noite quando a palavra rio ecoa feito onda? Só mais tarde entendi o que procurava – um mar.
Beijos
Mariana Gouveia Carta publicada no Caderno de Notas Scenarium Livros Artesanais
acima de tudo tenho saudade de duas cores azul e ver-te Xilre
Ainda era madrugada quando a insônia bateu… Lembrei-me de que era nessa hora que você ia dormir. Esse tempo e o caos que se abateu sobre o mundo mudou nossos hábitos e vamos driblando as coisas que nos toca e nos choca. Eu faço revisitas quando a insônia bate. Vou aos lugares que me abraçam e dessa vez fui até você e sabe do que mais me lembrei? Do cheiro do seu bolo de fubá e voilá! Fui para a cozinhar fazer um bolo…
Um galo canta na vizinhança e coloco Léon para me acompanhar. Os pássaros já fazem algazarras lá fora e pego todos os ingredientes sob o olhar atento de Lolla. Já te falei que ela tem uma loucura por cozinha? Basta ir na cozinha e ela acompanha com olhar pidão, como se ficasse sempre à espreita de alguma lasquinha de qualquer coisa cair e vapt! Yoshi sempre fica na dele como se dissesse que os humanos dele não o deixaria sem comer nunca… menino marrento, que torce o focinho para qualquer coisa que se ofereça a ele e só depois resolve comer e daí, limpa o prato.
Vou adicionando os ingredientes lembrando da ordem de cada um seguindo minhas notas mentais, enquanto faço um café. O cheiro é um carinho na alma e hoje, no dia do café – rio quando lembro-me desse fato – isso de marcar dias das coisas me perturba desde criança… mas, isso, é história para outra missiva.
Os raios do sol já atravessam a janela e a forma vai para o forno. Aproveito os quase trinta minutos para o bolo assar e vou aguar as plantas. As suculentas estão cada vez mais bonitas e as minhas três espécies de trevo também… mas, meu olhar alcança o vaso de hortênsias plantado recentemente e os botões que já haviam começados a florir desabrocharam em tons de lilás… Lembrei-me de um texto seu em um dos blogs que não existe mais que falava sobre a cor. Não lembro qual… mas a alusão à cor e a você ficou marcado.
As hortênsias não são azuis como eu imaginava… são de um lilás que acalma e o vaso recebe a água do regador. Léon repete o refrão e a canção já é outra. Eu aspiro o cheiro do bolo enquanto um dos vizinhos deve ter feito café, porque os aromas se misturam aqui, no meu quintal. Quase grito que dou um pedaço de bolo em troca de uma xícara do café… Parece que o meu não cheira tanto assim…
Desligo o forno e minha memória tem você, tuo bambino e Jane dog… que assim como Lolla fica também à espreita dos farelos ou um pedaço qualquer. Sinto-me presa nessa lembrança e aceito ela como um presente para começar o dia. Aceita um café?