das coisas breves · Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

as horas pálidas da vida

Quarava os lençóis bordados no sereno, geralmente, em noite de lua cheia com o cheiro de dicuada no ar.
A mãe que fazia o sabão, em seu tacho de ferro e moldava as bolas para o dia seguinte…
As ervas a ferver para a tintura dos lençóis de cambraia e que a mãe queria mudar de cor.
Os olhos, com ondas de mar vendo a correnteza a passar, levando a lua em cada maré.
O céu, ponto de apoio para a menina que desejava voar.

Mariana Gouveia
Coletivo Sete Luas
Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Sunsets

Devia espreitar a tarde onde o sol morre para nascer em algum lugar fora da minha visão.

Bambina mia,

já se tornou rotina te escrever no dia 6 e embora o foco do projeto seja as fotografias, não posso deixar de te levar pela mão e mostrar o céu do meu lugar, em sua forma mais bela que é quando as cores da tarde se juntam com as do crepúsculo em um caso de amor.

Já falamos muito sobre essas horas e também sei que são as suas horas favoritas – tanto as horas em que as manhãs chegam e te abraçam e as horas bruscas que acontecem do dia pegando a noite pela mão – e você sabe, bambina, que meu lugar é conhecido pelo calor e pelo sol abrasador, embora, nos últimos dias a tarde tenha se fechado com temperaturas mais suaves e a moça da previsão continua alertando para os perigos da baixa umidade por aqui… mas, é ali, quando a cortina vai se fechando que meu olho busca o céu.

Durante a caminhada no fim do dia é que me transformo em solar. Em cada direção que olho, o sol se reinventa tanto que busco nomes para esse instante e não encontro. Parece que sempre é verão, mesmo com o outono rondando ainda por aqui. E a natureza se enfeita com os raios solares como se estivessem se vestindo para uma festa.

E mesmo sendo outono, e ele se mostrando tão desenhado no meu quintal, eu viajo para outras estações e te mostro, com dedo apontado em riste: vês? olha o avião! Já te contei que eu percebi que mudaram a rota dos voos? Pois é! Agora eles passam em linha reta no meu lugar e cruza o quadrante do muro como se viesse trazer notícias suas. Alguns passam tão baixo que dá para ver a numeração da aeronave. E quando isso acontece canto Calcanhoto e sua versão linda da música Inverno:

No dia em que fui mais feliz,
Eu vi um avião
Se espelhar no seu olhar até sumir

Depois que a melodia acontece aqui, abro os braços, como já te contei tantas vezes e penso nos sons dos “seus” aviões que passam sob seus olhos…

Bambina, o sol daqui é um caso a parte… ele se transforma em personagem principal quase todos os dias. Você já sabe onde sento nas minhas tardes, pelas conversas que temos e sabe que meu quadrante dentro dos muros faz com que minha visão dessa hora seja limitada e atrevo-me a pegar a câmera e caminhar para além da rua de cima e ali, faço a despedida diária do astro maior que predomina aqui.

Sabe o que eu mais queria te mostrar quando viesse aqui? Esse céu de outono onde as nuvens se esparramam como se fosse me abraçar. As nuvens abraçadas pela luz parecem sorrir. É claro que tudo isso acontece sob meus olhos admirados e sabe, bambina mia, mesmo que eu veja isso todos os dias serão sempre com olhos de admiração e espanto que essas imagens farão esses efeitos em mim. Até mesmo quando não há uma única nuvem no céu, nessa hora, o espetáculo se apresentará único todos os dias. E era essas imagens que eu queria te mostrar hoje. Vens?

Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes – Silvana Lopes – Obdúlio Nunes Ortega – Claudia Leonardi

Das palavras das cartas · Meus Livros · Scenarium 8 · Scenarium Livros Artesanais

À Emily

Emily,

Assim como você, eu nunca recebi uma carta do mundo e já escrevi algumas vezes para ele. Devo te confessar que procuro a parte mais bonita dele. Porque as coisas aí fora estão terríveis demais. Eu já escrevi tantas cartas que não enviei, tantas que embolei e o mundo, em muitos momentos, não foi afável comigo.

Já pensei em enviar postais e falar do meu lugar, das mãos que tocariam os postais da lua. Já imaginou se envio essa lua cheia que clareia todo meu quintal, com seu lume em sua fase mais bela?

Com quais mãos ele – tão cruel em alguns dias – receberia meu afago? Emily, às vezes, penso em gritar para o carteiro e perguntar se ele mandou um bilhete, um manuscrito que só eu e ele entendemos…  mas, o moço que estende as mãos com envelopes pardos e seu uniforme amarelo me diz que tem saudades das cartas em envelopes branco e suas listras verde e amarelo – cores que me aborrecem no hoje – e eu apenas aceno com a cabeça.

Acho que pensamos as mesmas coisas – notícias simples da natureza… mas, ele entenderia o meu pé de ipê florido em uma tarde de fim de agosto, quase 40º e o sabiá laranjeira pedindo chuva? Ou da solidão que minha alma sente – quem sabe a mesma sua – em dias mornos.

Sabe, Emily, eu sempre escrevi cartas e sempre esperei respostas. Seja do mundo, ou dessa solidão desvairada. Fiquei de mãos vazias tantas vezes – assim como você – e minhas mãos de camponesa cavou silêncios… de afáveis, colho borboletas… será que a resposta virá em forma de asas? Ou eco de tambores?

Você percebeu, Emily, que sou muita perguntadora e que quando vi sua solidão imensurável, nas faltas de respostas desse mundo que se ativa cada vez que escrevemos poemas provocou em mim a mesma solidão.

Eu também sofro das noites insones e sou viciada nesse som de envelopes recém rasgados e do cheiro da cola quando selo um deles.

Eu sou a louca das cartas que nunca tem respostas… as minhas, muitas vezes, já nascem desfeitas mesmo antes que eu as escreva.

Portanto, Emily, junto minha solidão à tua… minhas palavras se esbarram na branda majestade que endereçam a verdade de quem escreve esse vazio, em forma de poema. Aqui não acontece nada… é apenas esse vácuo, de uma resposta que a gente já sabe que o mundo ficará devendo.

Com carinho,
Mariana Gouveia
Carta a publicada no Coletivo A terceira noite
Scenarium 8
Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Meus Livros · Scenarium 8 · Scenarium Livros Artesanais

Meus tesouros

Fiz biscoito de polvilho e revisitei as coisas que me acompanham a vida toda. Descobri que meus tesouros são os mesmos que eram de minha mãe. A caixa de costura e suas agulhas de vários tamanhos, em cobre, e o dedal. O bastidor, tão antigo — ela dizia — a mãe, a avó o usaram, a bisavó não… E a máquina Singer, com suas correias cantoras.

Quando minha mãe se foi, o pequeno tesouro ficou comigo. A panela preta de três pés — que hoje serve de suporte para as flores que enfeitam a mesa, também. O caldeirão de fazer o feijão, o bowl de alumínio batido e a compoteira de vidro.

As compotas eram servidas ali, combinando com as taças e a colher. A frigideira de fritar ovos, com o cabo de madeira… Minha irmã mais velha disse que acompanhou o nascimento de todos os sete filhos, ali, pendurada na prateleira com as panelas de alumínio. O tacho de cobre e o pequeno filtro de barro — uma das miudezas que guardo dentro da estante e faz companhia para as porcelanas. Os três frades com um copo-garrafa nas mãos. O elefante amarelo, a xícara de ágata e suas florzinhas vermelhas.

É como se eu tivesse ficado com os tesouros da família. E nos encontros com os irmãos, os objetos servem para reavivar as lembranças.

As panelinhas tão minúsculas — quatro ao todo — que minhas irmãs e eu brincávamos de cozinhadinha. A rabinha de fazer café, em alumínio puro… Cada uma das irmãs — as quatro — têm as suas miniaturas.

No baú, a foto em preto e branco, a última carta escrita pela minha mãe e uma caixa de chapéu com os riscos de bordados que ela criou. Tudo exposto dentro de minhas lembranças.

Agora que o tempo ultrapassou o próprio tempo, conto os anos que cada objeto tem. Alguém da família disse uma vez: tal mãe, tal filha. Como se as relíquias guardadas nas caixas, expostas em uma mesa com a toalha de crochê fossem tralhas.

Cada um deles tem um significado,

com nossa história particular.

Das minhas coisas, para além da herança, a fita de veludo laranja que enfeitava minhas tranças, o caderno de poesia com as letras miúdas que eu “roubei” da irmã mais velha. O primeiro vestido da sobrinha com flores miúdas azuis… A primeira camisa do meu filho, que eu mesma costurei quando ele completou um mês… O papel da balinha e o palito do sorvete que dividi com Ana — a de Marte — os tsurus e os quadrinhos com os kanjis… O coração da Maricota — a boneca de pano despedaçada pela Meg — minha cachorrinha que já se foi…

Um único brinco em forma de grão de arroz, par do outro perdido e as lembranças tantas, expostas em um quadro único, em letras garrafais contando a minha história em delicados instantes.

Mariana Gouveia
Texto publicado no Coletivo Armário das Maravilhas
Scenarium Livros artesanais

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – The Colors of the Rain

chove mais uma vez 
a infância é um pássaro aceso nos ramos das árvores 
um território de meteoros incendiados
numa bacia de plástico com água da chuva


José Carlos Barros

Bambina mia,

mais uma vez trago notícias da chuva que, ultimamente, tem caído todas as tardes no meu lugar. Engraçado, é que nunca reparei nas cores dela e o tema desse 6 de abril me fez reparar nesses instantes aquosos e deparei com minha cidade cinza ao longe… Ela, que sempre foi conhecida como cidade verde, vista da escada que dá para o telhado se apresenta, ainda que verde – pelas copas das mangueiras dos quintais vizinhos – me trouxe as nuances dos telhados antigos e predominou o cinza, essa cor tão natural para mim.

Sabe, bambina, acho que esse ângulo é o que você mais conhece de minhas chuvas. O bebedouro do meu pássaro de todo dia e o pé de ipê ao fundo, com seus verdes em diferentes tons. É daqui que eu te mostro os raios e gravo os ecos dos trovões para te enviar.

E por falar em pássaro de todo dia, acho que ele gosta mais das chuvas do que eu… quase não consigo registrar o banho dele sob a água. Me divirto vendo ele em um bailado dançante entre o varal de roupa e seu bebedouro. O verde-musgo de suas penas molhadas se misturam com o ipê ao fundo. Isso só é possível com a chuva espaçando.

Mas, sabe, bambina? As cores me encantam quando a chuva deixa seus rastros em meu quintal, nas flores que bebem da água e se misturam com ela. É possível ver a gota “engolir” as flores e parece até que a chuva deixou diamantes no meu lugar. Seja no fim da tarde, ou no sopro novo das manhãs, a chuva nos une e sempre grito seu nome por aqui. E curiosamente, sinto que a chuva sempre me traz um pouco de mar.

Você sabe que meu lugar é a cidade do sol, mas esse outono mudou os dias por aqui. As ipomeias que duram o tempo de um dia, com a chuva, desfilam suas cores em gotas e permanecem intactas até o anoitecer. Mas você sabe também que eu adoro o cheiro da chuva, logo assim que cai, na terra seca. O petricor é o perfume da chuva – já falamos disso – e ao te escrever imagino de que cor seria esse cheiro da terra recebendo as gotas da chuva… delírio meu, bambina… releve!

Pego o guarda-chuva e mudo os insetos de lugar sempre que chove, apesar de achá-los lindos com as gotículas sobre a carapaça. Mas, como a natureza é sábia, acho que eles mesmo sabem onde buscar abrigo nos lugares que já deixo preparados para eles. E muitas vezes, nem uso o guarda-chuvas não… adoro me banhar na chuva que cai em gotas dimensionais. Isso sempre me arranca sorrisos e me deixa colorida na alma e é assim que encerro minha missiva para você, para nesse fim de tarde, onde o ontem foi um tempo entre aspas me colorir nas cores da chuva.

Amo tu imenso!
Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes Silvana LopesObdúlio Nunes Ortega Claudia Leonardi

das coisas breves · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Dos bilhetes – 4

lunna guedes

Caiu um raio nos arredores da hora anterior. Ressoou por toda parte. Agora há clarões por trás dos prédios. As janelas estão acesas e a hora cheia me faz pensarem preparar uma xícara de chá. Eu ainda não desisti do cappuccino.
O olhar vez ou outra corre a paisagem lá fora. Assusto-me com a declaração de fim de ano piscando em algumas janelas. Não me acostumo com as festas de inverno em dias tão quentes. É como se estivessem se enganando – trocando as coisas de lugar.
Eu não sou uma pessoa de Natal – mas experimentei a data. Uma colega da Faculdade quis que eu fosse passar a data com a família dela. Foi estranho. Permaneci muda na maior parte do tempo. Ouvi palavras sonoras… frases inteiras. Mas não estava presente. Estava sentada perto da lareiras, era quase meia-noite. Faltava pouco quando me dei conta dos vazios que colecionava dentro.

Um pesadelo do qual não pude acordar. Fazia frio! Mas eu precisava escapar daquilo e ir lá para fora… caminhar calçadas.

Ficar longe… de mim.

Dos bilhetes
Publicado no Projeto Coletivo A Sul de Nenhum Norte
Scenarium Livros Artesanais

Continua…

das coisas breves · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Dos bilhetes – 3

lunna guedes

Você me fez pensar na infância… quando eu tinha vizinhos e escrevia histórias a respeito de cada um deles. Convivo com estranhos nessa hora cheia. Às vezes, esbarro neles no corredor ou no elevador.

Não sei as histórias e nem me interesso por elas.

Na semana passada… uma mulher do outro lado da rua – no prédio da frente, em sua janela acenou sorridente e mandou beijos. Não sei como lidar com isso. Parece um fantasma a morar na janela da frente. Eu os prefiro morando numa parede…

Nos quartos de hora, ao sair na varanda, meu olhar corre ligeiro até a janela de número oito – assegurando-me dos vazios que aprecio. E se não avisto a estranha criatura, respiro aliviada.
A outra janela – a que gostava de espiar… está fechada há tempos. Não há movimentos por lá. Não sei para onde foi a menina que gostava de se despir para olhares curiosos.

A chuva continua e os relâmpagos e os trovões.

Dos bilhetes
Publicado no Projeto Coletivo A Sul de Nenhum Norte
Scenarium Livros Artesanais

Continua…

das coisas breves · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Dos bilhetes – 1

lunna guedes

Escrevo-te nessa hora última. Explodiu um trovão ao longe e eu sorri para todos os ontens que trago na memória.
as nuvens foram se avolumando. O dia acabou pouco antes das três. A chuva caiu sonora, lavando o asfalto da Alameda, quando eu ainda estava a escolher uma lembrança para degustar – como num jogo onde se move uma peça.

Escutei dentro…o badalar do sino da Catedral – um eco dos dias vividos em pequenas aldeias.
As mulheres rezavam as seis em ponto… e as contas do rosário passeavam entre os dedos enrugados das mãos.

eu silenciava a minha voz e pensava na jogada seguinte, qual peça moveria: o bispo ou apenas um dos peões.

Por dentro, repetia versos malditos riscados na parede do meu corpo e me sentia feliz por pensar no inferno de Dante.

Dos bilhetes
Publicado no Projeto Coletivo A Sul de Nenhum Norte
Scenarium Livros Artesanais

Continua…


Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Meus Livros · Projeto Fotográfico 6 on 6

6 on 6 – escrito por uma dama

Bambina mia,

de onde venho a palavra dama tinha outro sentido. Talvez seja aquele mais antigo, cheio do charme do interior… por isso, talvez, meu questionamento em dizer o que a editora pensou ao citar a palavra dama. Eu acho que caberia mais a palavra mulher e suas nuances. A mulher e sua escrita aguerrida, a mulher e sua luta diária. Mas, já que falamos sobre escritos vou me ater aos escritos – por uma dama – E claro, que em minha lista você e seu clássico Lua de Papel em sua trilogia ocupa um espaço único. Ah, tá!… você vai dizer que sou suspeita e sou! assumo-me fã dessa trilogia e as mulheres que você retrata nelas.

Minha menina nuvem Suzana Martins e seu InverSus é esse arrancar de pele, de se desnudar e eu sou muito babona nela. Suspeita? Totalmente! E cabe inteiramente dentro do mio cuore.

Faço reverências todas as vezes que leio Rozana Gastaldi Cominal. Ela é maravilhosa e nos alcança com seus escritos vorazes. Retrata a mulher em seus mais variados jeitos.

Katia é essa explosão! Labareda. um UAU dito em voz alta e entre suspiro… E você sabe de meu começo de história com Katia Castañeda. Para mim, mais do que o olho de admiração, vem o fogo de seus escritos. É de arrepiar a pele e de queimar a alma.

E confesso, bambina, que quando leio Adriana Aneli eu sinto o sabor do espresso saindo da cafeteira mesmo sendo outro livro dela que esteja lendo. A escrita é saborosa e degustativa. Por falar nisso, vamos tomar café?

E para não dizer que não falei de damas para além das escritoras da Scenarium nem vou dizer nada sobre a escrita de Jane Austen, porque foi através de você que me vi debruçada nos escritos dela. Portanto, isso é culpa sua!

Claro que faltaram mulheres fabulosas da Scenarium e outras mais. Porém, em seis fotos eu só consegui absorver e sorver em instante o que me inspiro em você. Daqui a dois dias o mundo falará do dia internacional das mulheres. E depois disso, a roda do tempo girará até o próximo dia 08 de março e essas mulheres bravias terão sempre escritos para me inspirar dentro de minha forma de dama, “quase” recatada e do lar.

Bacio,
Mariana Gouveia
Participam deste ptojeto: Claudia Leonardi – Lunna Guedes – Silvana Lopes – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso

Das palavras das cartas · Meus Livros · Scenarium 8 · Scenarium Livros Artesanais

Uma carta…

Por Mariana Gouveia

Ph: Pinterest

Minha Clarice,


Ler as suas palavras me fez viver dentro do seu afeto. Como podemos nos dizer vivas nessa redoma doida que nos atinge em cheio? Onde anda minha segurança perante os meus defeitos?

Como a mulher que escreve diferencia da mulher que tem irmã, sentimentos-pensamentos não tão comuns dos normais.

Eu acho os escritores anormais.

Eles vasculham almas além das deles, expõe vontades escondidas no oco do silêncio e no fundo manipula nossas vontades. Por isso, a frase que me escreveu me tocou tanto: Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro…

Você tem noção, irmãzinha, de que essa frase será descrita/escrita/falada/contada/cantada milhões de vezes num futuro que não sabemos?

E como saber qual é o defeito que me atinge? E qual molda minha alma chamada tão sua? E do quão estranho é essa relação comigo mesma? E que tenho uma irmã escritora que me absorve sempre?

Os conselhos me fazem rir… será que você mesma os segue? Sei da intenção por trás das tuas palavras e meu coração se aquece com o seu cuidado. Somos parecidas e isso me compadece na alma.

O desassossego que me invade, deve ser irritante para você e sei que grande parte do escrito cabe tão bem em você, quanto em mim. O fato é que, em você, elas explodem em sentimentos e, talvez, por isso, seja menos avassalador quanto em mim. Em mim, eles explodem! Causam confusões e perco-me de mim diversas vezes.

Fico pensando em como quatro anos te mudou tanto e de como isso poderia ser revertido. Há coisas que nos mudam para sempre. Dizem que o caminho nunca é o mesmo quando passamos por ele… ou seria o rio?…

Tudo muda com o tempo e sabemos que tanto eu quanto você já não seremos mais as mesmas, não importa se rio ou caminho. Eu a vejo corajosa e bebo dessa fonte para enfrentar os meus medos.

A resignação só combina com você
até certo ponto.

Tenho certeza de que dará voltas e será sempre a irmã de que me lembro e admiro. A mulher que tem o poder de dominar o nó vital sem se esgueirar nas estranhezas do outro.

Quando você se refere ao respeito a mim, me faz refletir sobre quando isso deixou de ser importante para mim. A gente rasteja mais do que devia aos outros e quando nos damos conta, viramos uns marionetes…

Mas vou buscar a perfeição
dentro de suas palavras.

Viver para saber a diferença do céu e inferno. Como saberemos, Clarice? Onde é o fim de um e o começo do outro? Vou tentar ser eu e basear meus atos nos seus escritos.

A vida é um sopro para além da alma e sinto que a minha passa com o drama da poesia e a graça da comédia. Deveria dizer-te que sim, que tudo será como diz e que quando retornar a vida seguirá igual ao que era antes… Mas, diga-me se antes você não pensava no agora, como está? As mudanças causam-me medo, de sobremaneira que tento ser igual todo dia. Não é covardia, como dizem os outros… É apenas preguiça do sentimento que esfria as rotinas e as tornam banais. Também gostaria de assisti-la sem que soubesse. Seria minha irmã digna de raiva por algum motivo? Esse pensamento me arranca sorrisos quando a imagino fora de si, por algum motivo, ou a própria personagem que escreve. Mas sei que ainda assim, você seria a minha irmã de sempre e que eu admiro e a personagem, cópia que vez ou outra eu seguiria.

Era para ter te escrito e falar das coisas neutras, e esquecer um pouco a sinceridade que o momento exige, mesmo sabendo que podemos e vamos fazê-lo… falar do sol que amarela as paredes da casa ao lado até quase o fim do dia. Falar do vestido de flores delicadas que comprei e dizem – combina comigo – para me arrepender logo depois e nunca mais usá-lo… Do weekend que se encerra com ares de outono, com as folhas das árvores da rua caindo, espalhando um farfalhar que parece canção rua afora.

O que me resta é desejar-te aqui para o abraço demorado, o riso cúmplice e a alegria compartilhada para quando nos reencontrarmos.

Abraço com saudades,
Sua irmã

Carta publicada no Coletivo Scenarium 8 A Terceira Noite
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