Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Geometrias – das geometrias do meu lugar.

Bambina mia,

Andei procurando uma forma diferente de falar de geometria com você sem necessariamente sair por aí fotografando os espaços da minha cidade. Lembro-me de que te perguntei sobre o que pensou dentro da palavra geometria e ouvi sua gargalhada… Resolvi modificar meus gestos dentro da palavra e te escrever… Sabia que depois disso vi geometria em todas as coisas… Rá!
Em cada canto há uma janela quadrada – às vezes, retangular e até oval. Por isso resolvi seguir meu olho e te mostrar a geometria das coisas daqui.

As borboletas daqui, depois que passei a observá-las, me trouxeram nuances geométricas, não só nos desenhos que formam em suas asas, mas juro que vi um formato de triângulo quando ela pousou em meu dedo. É lúdico, bambina… mas é quase triangular essa asa, não é?

Confesso que vi um hexágono na ipomeia lilás e suas gotas. A trepadeira está coberta delas, e quando ficam penduradas também tem o formato de triângulos… e como há triângulos por aqui, em diversas coisas…

Sabe, bambina, eu fiquei mesmo feliz quando vi o reflexo do arco-íris no quadrado do piso da varanda… Aconteceu a primeira trovoada de maio aqui e me lembrei de você… Gritei seu nome – o que já nem é estranho mais – porém, o ritual do arco-íris levou a chuva para outro lugar e só deixou os trovões por aqui.

Nos retângulos de pedras que cobrem uma parte do quintal servem de caminhos para o joão de barro. A ave parece brincar de amarelinha e arranca um riso meu. As flores de ipê fazem cama por ali, quando caem, sob a leveza do vento. Acho que já te mostrei isso. O chão fica dourado de flor.

Mas, é através da janela, sem suas cortinas lilases que o céu se desenha para mim, bambina… os retângulos – ou seriam quadrados? – me mostram as nuvens e suas nuances, ainda com indícios da chuva que não veio…

Bambina mia, encerro com a lua e seu círculo natural chegando em minha noite. Claro que faltaram tantas coisas, mas esse espaço cabe apenas seis fotografias. Eu poderia ter te mostrado as manchas engraçadas nas costas das ladies bugs que vivem aqui, o triângulo disfarçado no besouro que encontrei esses dias no pé de algodão e até as geometrias diversas na folha do mesmo pé de algodão. Mas fui escrevendo formas por aqui… Meu abraço cabe direitinho no seu abraço. Seria um enlace… é geométrico o abraço?

Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6 – Geometria
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes Obdúlio Nunes Ortega Roseli Pedroso e Suzana Martins

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Cartas para abril – Cuiabá, manhã de sexta-feira santa,

Bambina mia,

O poema que me enviou me fez pensar em Ana. Ela adorava ficar parada, em um banco de praça, em uma calçada de qualquer esquina a observar quem passava. Maryann, é enriquecedor isso! Já imaginou o quanto de história tem em cada um?

A minha imaginação até flui no outro, no desconhecido… Mas eu escrevo a partir dos detalhes que a realidade oferta… Nem tudo é real, mas eu preciso da realidade para dar vida a minha narrativa. Ana preferia imaginar… de maneira peculiar: lúdica, poética, vaga… Eu queria ir ao sítio dos outros, desvendar as histórias, saber os nomes, ler sobre os segredos, trocar cartas…  e foi em uma carta que te encontrei.

Ir ao sítio dos outros não quer dizer invadir espaços que não são meus. É dar o toc, toc — dizer: oi, sou eu, estou aqui… e esperar que a porta se abra. Ana era voyeur que se perdia nos olhares, nos gestos. Espiava… dava cor aos transeuntes e lá de Paris dizia: o moço que perdeu o sapato me acompanhou até a praça da faculdade. Eu dei a ele o cachecol vermelho que você me deu. Estava muito frio… eu acho que ele perdeu um amor. Ela me escrevia de dentro da vida e eu respondia de dentro da minha saudade.

Mas havia um limite entre ela e o outro que era justamente a imaginação. Vejo um pouco dela em você. Essa inquietação com relação as pessoas. Ela era o próprio barulho — como você — e ecoava em tempestades mil. Com o outro, era distância nunca ultrapassada… os metros dos olhares. Uma troca de livro, uma sopa quente, um café noir e a mesa da cantine para ela. Seu passatempo favorito era ficar horas a observar o movimento-pessoas-personagens-imaginação.

Quando falo de Ana — as memórias, às vezes, nos traem — lembro-me do olhar amoroso comigo, do ônibus elétrico e seus olhos tragando minhas emoções. Enquanto o motorista descia para acionar o fio que se soltou. Você cabia na nossa história. Sua mão alcançou a minha e foi o amparo mais doce que senti na vida.

E foi ali que percebi que seu sítio cabia em mim… Você, tão avessa aos humanos. Tão canina quanto eu e tão aconchego para os que tocam o seu coração. Isso tudo é uma exceção à regra, mesmo porque, em muitos momentos, a regra decepciona.

Grazie Mille!

Mariana Gouveia
Carta publicada no blog da Scenarium Livros Artesanais
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Participam comigo
Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Carta à minha bambina aos cuidados do sábado

Bambina mia

Escrevo-te para dizer que recebi o beijo na asa do bem-te-vi que ronda por aqui. Para mim é sempre o mesmo que vem com o o ritual do ” bemquetevieuquetevi”.

Ele compõe meus sábados de amarelo e enquanto estendo as roupas no varal, tenta roubar a ração dos cães. Entre um lance de sorte e outro, ele consegue algumas e deve ser por isso que ele está sempre por aqui.

Percebi sua alegria pelo envelope vermelho… era para causar mesmo esse impacto e a carta foi escrita desenhando os fatos que acontecem no meu quintal.

Agora, ele está estrelado. O chão reflete nas poças um lua minguante que começa a surgir. Choveu a noite toda de ontem e as estrelas, hoje, ganham um brilho diferenciado.
Haverá eclipse solar amanhã, mas confesso que quando isso acontece por essas bandas, o tempo nunca colabora. Ou quase nunca.
No meu quintal há um “eclipse”, elipse de um beija-flor… Chiquinho criou vida no quintal e começou sua implicância com o bem-te-vi.

Por falar em bem-te-vi ele teve filhotes. Já o vi tentando voos no pé de mangueira da vizinha do fundo. Logo ele se insinua por aqui. É uma algazarra só e um bater de asas e o pássaro a tentar pegar comida para os filhos e os cães a tentar pegar um instante de asa.

Assim, a vida cria riquezas dentro do que meus olhos veem e alcançam além das suas palavras que me trazem a esperança de amor:
– Aspetta che io me voi adoppo.

e eu te respondo:
– Ti aspetto

Bacio
Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – miudezas

A vida é tão miudinha que a gente tem que vivê-la ao máximo para ela se engrandecer”
Minha mãe

Bambina mia,

A tarde já ensaia seu final aqui no meu quintal e ouço os trovões para além dos muros… você sabe que meu lugar tem além da ave de todo dia as miudezas que encantam meus olhos. O jardim é enfeitado por elas… E quando chove, eu tento protegê-las.

Eu poderia te escrever e falar sobre as grandezas que enxergo aqui… teria muita história e coisas para contar e mostrar. Mas, hoje, vamos falar sobre essas coisas mínimas, que muitas vezes, nem enxergamos quando passamos apenas o olho ligeiro.

Sabe, bambina, eu fico horas entre a levezas das pétalas e os insetos miúdos que aparecem aqui. Já enumerei mais de 100 espécies. Algumas, parecem partículas de átomos de tão pequenas e não deixam de ser, sendo que somos todos parte desse universo imenso.

Para falar a verdade, eu ia te contar sobre outras miudezas que povoam minha memória e traz lembranças da infância. Mas, essas, estão guardadas no Armário das Maravilhas e quando for possível, falaremos dela. Por enquanto, quero te trazer pela mão enquanto troveja e te escrevo a singularidade das joaninhas e insetos que moram aqui.

Quando me deparo com alguma lady bug – como tu chama – em uma folha, flor, ou capim, eu penso como somos pequenos diante da magia do universo – mesmo imensos em nosso tamanho e ego – e vejo aqui, nesse quadrado de 130 metros quadrados que é meu quintal a magnitude nas miudezas das coisas.

Bambina mia, muitas vezes, uma pequena demonstração de afeto muda o dia de alguém, um afago na cabeça dos cães faz o instante ser feliz, um riso leve para um desconhecido na rua faz ele se sentir em paz, mesmo que por poucos minutos. A gente nem sempre repara na pequenez das coisas… nem sempre somos tocados pelo mínimo, porque de alguma forma sempre queremos o muito. Mas, a vida é feita de pequenas coisas que nos engrandecem, como minha mãe me dizia, lá na infância. E como aqui, uma pequena chuva começa a cair, finalizo essa pequena carta para tocar a grandeza do tuo cuore.

Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesnais
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Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Delírios

Ph: Liat Aharoni


eu nunca antes tive delírios
– mas dizem que tudo sempre aponta para um possível começo.
Seria esse o meu?…

 

 

Lunna Guedes – Lua de Papel
*imagem: Liat Aharoni

 
Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Te dou trovões como adereço

Bambina mia,

logo pela manhã eu vi as nuvens se formarem e a moça do tempo traçou todos os alertas para meu lugar. O sol era uma mistura entre a claridade de um dia que queria amanhecer e tentava atravessar as cortinas de chuva. Fotografei para te mostrar.

Logo depois, vieram os trovões como adereços de nossa conversa. Por pouco perdi o tempo deles, porque eu queria te mostrar o som oco que fazia o chão tremer a cada batida. Fiquei imaginando como as pessoas tem medo deles – a minha mãe tapava todos os espelhos da casa com lençóis brancos – enquanto desde pequena eu abria os braços para acolhê-los.

Então, a Mariana não sabe antecipar trovões?

Eu me apeguei primeiro no instante anterior da nossa conversa e só quando busquei a conexão com o cuore que consegui te mostrar os ecos deles no meu quintal. Foi quando para além dos muros a frase do tuo nonno reverberou aqui: sta arrivando! Fiquei tão íntima dele nesse momento, bambina! “Roubei” de tu o homem pelo qual já tenho carinho só de ler a palavra nonno. Eu o reverencio sempre para além das palavras, só pelos instantes que ele te deu. Isso me emociona.

Quando as nuvens engrossaram na palavra trovejar e o céu escureceu em plena manhã eu só consegui suspirar. Durante esses dias atrás eu perdi coisas de viver. Você sabe bem e juro que quase tomei banho na chuva, mas segui sua ordem de me cuidar e domei esse ato que me torna tão natureza. Gosto dos pingos batendo em meu corpo… dessa vez, foi só as mãos e as flores.

O pássaro de todo dia fazia festa no varal e o verde das folhas do ipê pareceram mais verdes ainda. O vento dançava enquanto eu ouvia os trovões e a canção que você me mostrou um dia – se minha mãe estivesse aqui, isso seria impossível – e esse pensamento traz um riso ao meu rosto.

Enquanto te escrevo e os estrondos ressoam em meu céu eu penso em você que nasceu tempestade e da única tempestade que vimos juntas da varanda do seu lugar. Aquele dia, bambina, eu guardei como adereço para minha alma e guardei também a frase que tu repetiu para mim ao som do vento: …trovões sonoros do lado de dentro! É o que escuto agora.

Amo tu imenso!
Grazie por tanto!

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · infinitamente · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Queria ver se chegava por extenso, ao contrário

força e pulsação e graça,
isto é: a luz, de dentro,
despedaçando tudo,
e concentrada:
estrela.
Herberto Hélder

Lunna, bambina mia, amore… 

Não importa qual nome te chamo ou em qual letra me declaro. Cursiva? News time? De lápis? Caneta?Eu te pinto com palavras. Em cores minhas-tuas-nossas. Muitas vezes, começa no azul do meu céu, com minhas manhãs calorentas… Em outras, no ocre das folhas que encontra em seu caminho, no verde da árvore – já minha, de estimação – que você me entrega na visão de sua janela.

Eu te escrevo amor, bambina e te escrevo por extenso, gigante dentro de mim. Te escrevo lunar – Lunna tu – em canções onde repito e repito seu nome.
Te escrevo força. Da pessoa que se mostra no abraço.  Na tempestade que se anuncia no meu céu, nos trovões que transpassa a alma e o cuore.

Te escrevo pulsação. Do cuore. E no pulsar das palavras te descubro missiva. Dessa de envelope único, de entrega imensa quando ama. De palavras que atravessam tempos e se esparramam em cadernos.

E assim, te leio. Única! Absoluta. 
Tão menina, às vezes, tão mulher em tantas. 

Nas minhas manhãs, a sua risada é sinfonia que ouço ao som do vento no meu quintal. Mas às vezes, é apenas o aconchego de uma quietude quando te sei aí, dentro dos seus silêncios.  Esse dia eu nem preciso marcar na folhinha. Ele é tão seu e por isso, minhas palavras te abraçam nesse ritual nosso.
Você é o poema que me alcança, você é a ligação de pessoas tão lindas para mim e io te voglio bene!

Auguri!
Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso Suzana Martins

Das palavras das cartas · infinitamente · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Estou sozinha. Entre dois mundos.

De quando em quando o tempo sai dos livros e inscreve-se nos corredores das casas nas prateleiras dos móveis e observa mudanças iguais neste presente passado.
Não compreende que como ontem,
hoje foi amanhã, e depois, é quase sempre agora.
Quando saio de mim só quero poder voltar para encontrar a prateleira, o corredor
e encontrar o tempo cá passado, mas bem arrumado, a dias, por meses.
Como sono para ficar no inconforto do vago, no corredor deste dia a dia, surdo.
Como sei das rotinas, das minhas, nunca me cansaram as dos outros.
Gonçalves de Sousa

Bambina mia,

Enquanto te escrevo penso na hora que você já viveu e que sempre invado com meu passado estranho. Já estranhei muito esses fusos – hoje, não mais – e agora até acho lindo ganhar uma hora quando vou te ver e perder uma quando volto do seu lugar. É como se estivéssemos em dois mundos diferentes, mas um dentro do mundo da outra.

Quando li seu texto meses atrás veio na memória o que vivi com você na Paulista. A minha passagem pela famosa avenida da Paulicéia desvairada não poderia ter sido mais emblemática para mim.

Você disse: eis a Paulista! E foi me guiando pelas calçadas para não esbarrar em ninguém. Esse cuidado sempre me comoveu durante nossos passeios pelas ruas do seu lugar. Lembro-me do moço vendendo cds… o outro, com camisetas nas mãos, a mulher com brincos grandes e roupas coloridas – você sendo minha guardiã para que não me barrassem – e uma figura tridimensional vindo em nossa frente.

“o que é que acontece para que, dentre tantos estranhos, um único ser salte aos olhos, de tal maneira, que me invada-preencha-e-ocupe-total-mente?”

Essa sua frase me fez lembrar dele. Juro que por muito tempo fiquei com aquele ser na minha cabeça. Tão branco que parecia ser transparente e pensei que ele poderia ter vindo de outro planeta – falávamos da mesma pessoa, amore? – e sempre que me lembro da Paulista, ele vem em minha memória. Lembro-me que você falava sobre um edifício e explicava alguma coisa sobre o grafite estampado nele… mas, eu fiquei impactada com ele vindo em nossa direção.

Nossos olhos se encontraram… e eu vi gentileza dentro deles. Lembro-me da essência ou aroma que emanava dele… Cruzou por nós e se foi como se fosse um sonho. Com sua roupa branco metálica como se fosse de outro mundo e como se adivinhasse meus pensamentos você disse que a Paulista vagueia em universos paralelos. Nunca falamos sobre isso, mas é uma memória que me conduz ao meu primeiro dia com você.

Isso acontece muito entre a gente… as suas memórias sempre se intercalam nas minhas. E coisas que vivi atiçam as lembranças que tuo cuore carregam. Quantas vezes já me emocionei com o carrilhão do tuo nonno? Já te contei que eles me fazem lembrar do relógio Orient que meu pai por tantos anos carregou no braço direto?

E o dente de leão que a gente sopra espalhando os desejos ao vento? Em sua língua materna, se chama soffione… Achei tão lindo que repeti a palavra tantas vezes que fiquei em dúvida se tatuava a flor ou a palavra em mim. Foi como se eu tivesse ouvido a palavra dita por você em áudio em uma manhã de segunda.

É engraçado escrever no quarto. Geralmente, vou ao quintal para captar essências do que quero escrever. Mas, de repente, lembrei-me da última vez que nos vimos. Você costurava livros, a gérbera vibrava na janela do seu quarto e eu vagava nos mundos que nos ligou. Nunca fui tão grata ao universo como aquele dia.

Tocava Try na sua playlist e havia janelas abertas na quadra vizinha. A gente ria de coisas aleatórias… o café servido pelo Marco, a Jane dog aos seus pés e eu guardei essa imagem na memória para lembrar em dia como hoje até chegar à próxima vez para criarmos mais lembranças desses mundos nossos tão diferentes e tão iguais.

Bacio
Mariana Gouveia
Missivas de Primavera
Estão junto comigo nesse projeto
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Experimenta a suave melancolia de uma manhã feliz.

Um dia feliz
Às vezes é muito raro
Falar é complicado
Quero uma canção
Fácil, extremamente fácil
Pra você, e eu e todo mundo cantar junto

Jota Quest

Roseli querida,

Reparei que nunca te escrevi uma carta e aproveitei esse domingo estranho – amanheceu frio aqui – para te levar pela mão no meu quintal. Queria te mostrar os ritmos das borboletas por aqui… Já faz tempo que percebi as lagartas no pé de cleome e de como rapidamente foram devorando as folhas. Eu plantei essa espécie, justamente para elas…

Depois de alguns dias, ao invés das lagartas, foram os casulos que se formaram… eu acho pura magia essa transformação, Roseli… e mesmo que eu já tenha visto várias vezes esse processo, é sempre como se fosse a primeira vez e a cada vez me emociono, então, se meu olho lacrimejar, não repare, viu?

Domingo amanhece aqui com uma tonalidade de azul tão linda que acho um pecado assistir sozinha esse céu… assim como sinto uma dó enorme alguém não presenciar as borboletas nascerem. Já te contei que elas nascem pela manhã? algumas espécies demoram cerca de uma semana para eclodirem o casulo e ganhar voos nos desvios do meu quintal.

Algumas, como se precisassem de amparo, buscam minhas mãos, mas isso, é só até as asas ficarem firmes e elas vão para as flores, plantadas para ela e para o Chiquinho.

Eu diria que minha casa é habitada por elas… assim como pelas suculentas, os cambacicas – que brigam com Chiquinho pelo bebedouro – e por essas manhãs melancólicas, mas felizes… quer experimentar comigo elas?

O chá – ou café – pode ser escolhido pelas ervas frescas, quase ao toque de mão através das janelas… assim como a geleia de jabuticaba, ou de menta – que eu aprendi a fazer recentemente – com pimenta. Mas, se você preferir o café, eu ainda o faço da maneira antiga, no coador de pano, torrado e moído pelo meu pai, vindo lá do lugar onde ele mora… e só não vou te dizer que ele plantou, porque a força dele já não dá mais para isso.

Sabe, Roseli, te mostrar meu canto, mesmo que em fotografias e palavras me faz sentir nostalgia sobre a época dos encontros…

Eu sempre fui de casa cheia, de risos largos, de manhãs de domingos com a cozinha em polvorosa na preparação da macarronada com queijo, da carne assada e maionese. Mas, o tempo foi levando os irmãos para longe, e hoje, nessa manhã atípica – mas feliz e tranquila – te agradeço pela companhia. Que as borboletas tenham adoçado seu dia e que setembro nos envolva em seus dias na proximidade do carinho.

Abraço carinhoso,
Mariana Gouveia
Missivas de Setembro
Scenarium Livros Artesanais

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Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Beda – As plantas acenavam ao vento de agosto…

Bambina mia,

agosto durou tanto aqui, que parecia que eram dois meses em um só. Devo confessar que dancei no quintal em uma noite escura, sem lua, ouvindo a canção que você me enviou. Eu estava sem sono e a madrugada corria solta. Um céu cheio de estrelas e pela primeira vez, senti medo de ir para a rua de cima. Não sei porque. Dançar foi o que me coube em um quintal escuro e um céu cheio de estrelas.

Agosto foi um eco em um quarto abafado – você sabe – e os dias no calendário se estranharam na folhinha na parede da cozinha, onde anoto o dia do gás. Mas, devo confessar que até minha mãe dizia que agosto tinha esse sufoco na alma. Era o mês dos cachorros loucos – e nunca entendi essa expressão – e a gente vivia com medo da baba do cachorro da vizinha, coitado. Nunca mordeu ninguém.

O ipê do meu quintal floriu… Te mostrei em fotos o amarelo dourando meu quintal… mas, quando agosto já quase dobrava os dias em seu final de mês, e já havia amanhecido, bambina… a rua de cima se enfeitou de cor… eu quase fiz reverência para a árvore que se desdobrava em amor em forma de botão de flor. As plantas acenavam em um vento de agosto que nunca tinha visto e fiz o sinal da cruz.

Na volta, eu passei no mercado e vi a massa que você usa e quis fazer igual. E lá vou eu para a cozinha – essas coisas de alquimia que já te contei – e pica-se o tomate, o pimentão, o alho, e a abobrinha. Sabe que faço isso em homenagem a tu, né? E o sabor me levou até você… Já falei das vezes em que queria te trazer até aqui? Queria te mostrar as quatro estações, simultaneamente dentro do meu dia e ressarcir o calor que você sentir em um abraço. Queria te mostrar a rua de cima e mostrar minhas coisas para você e depois, te devolver para o teu lugar dentro de um abraço… O mesmo que te pedi hoje. O mesmo que ganhei de você hoje.

Tem dia, que parece um mês… Beira a teoria do caos… Mas, tem dia que a leveza vem através de risos largos, de silêncio confortante e de saber-te ali.

Isso eu sei… e pode ser em qualquer dia, de qualquer mês…

Amo tu imenso!
Grazie!

Mariana Gouveia
Das palavras das cartas
Agosto é o mês dos ipês rosa na rua de cima e de Beda.
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