Lunna Guedes · Meus Livros · O lado de dentro · Scenarium Livros Artesanais

Beda – O cenário da minha Scenarium.

– a arte de fazer livro de artistas –

Olhando a foto parece que foi ontem, e contando os dias no calendário já são 10 anos… e se eu te contar que as histórias que eu escrevi – e até as poesias – viraram livros costurados com fitas de cetim, você acredita?

Eu escrevi cartas, romances e até diários. Fui Coletivo de gente tantas vezes e fui Plural. Nesse universo de papel couchê e costura oriental. A arte exposta de forma artística. Sabe aquele lugar que você quer estar e gosta de estar? É esse sentimento de pertencimento que me toca.

É a paisagem que a Scenarium me coloca, como parte da história criada, sentida e vivida. Através do olhar atento de Lunna Guedes e dos cuidados de Marco Antônio Guedes. Eu presenciei a criação dos livros e fiquei comovida vendo a agulha fluir entre a fita de cetim e a folha de papel costurando meu sonho.

A primeira vez que vi o livro sendo costurado tocava Try … fiquei calada, encantada com a rapidez com que o livro se formava diante de meus olhos. Cada poema ganhando ritmo na arte da costura.

O lado de dentro foi costurado com a trilha musical que tocava ao fundo, em um apartamento, no 13º andar de um edifício do bairro Liberdade em São Paulo. Meu olho alcançou a cidade do alto e vi ali, o sonho realizado. A foto acima mostra as capas da edições revisitadas do meu primeiro livro. Depois dele, vieram mais cinco.

Ali, era a menina que sonhou um dia ter um livro publicado, no cenário da minha Scenarium. Podia dizer que minha editora era tão singular dentro de uma pluralidade de pessoas que junto comigo realizavam sonhos. Talvez bem mais do que realizar sonhos, a Scenarium acreditou que eu podia falar com o mundo através dela.

E de repente a gente se assusta quando vê que já se passaram 10 anos. E de repente, livros costurados pela Scenarium ganham o mundo. E me arrisco a dizer que esses 10 primeiros anos foram apenas o ensaio. A gente ainda tem muita coisa para fazer para encantar vocês.

Viva a Scenarium Livros Artesanais e Viva Lunna e Marco!

Mariana Gouveia
Agosto é o mês da Scenarium e de Beda.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega  – Mãe Literatura – 
Suzana Martins  Roseli Pedroso

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Ignoramos ser no horror, que forjamos nossa mortalha.

Bambina mia,

Quando me fez o convite para a próxima viagem, não pensei duas vezes… sabe aquele instante em que a pessoa te pega pela mão e te puxa levando por histórias, caminhos, ruas e praças? Foi assim que me senti. Adoro quando você me leva pelos seus caminhos, pelas suas ruas, pelas suas praças e feiras.

Adoro quando me mostra as folhas que você encontra por aí. Adoro ainda mais quando sua história se mistura com a minha. E cá estou eu, no quintal enquanto a lua cheia surge imensa logo depois do muro. Você sabe que sou fascinada pela lua e ontem aconteceu a lua de “morango”. Uma super lua que caminhou lentamente no céu. Fiquei horas com a câmera em punho registrando – e ainda estou – o movimento dela. Ora entre nuvens, ora em um céu forrado de estrelas. Ouvi Bethania e vi a lua se banhando em um balde aqui.

Me vi embalada pelas lembranças. Já te contei tantos causos do meu pai e de como ele nos envolvia em poesia, talvez até sem saber. Meu pai banhava a lua cheia… – te contei isso hoje – e guardava a água em potes de barro ou moringas. Servia para curar males da alma e do corpo. Descobri que sua nonna também e quando descobri isso meu cuore acelerou. Nossas falas foram se entrelaçando e como sempre, você está sempre na minha frente. Quando eu vivo as horas, você já viveu. Mesmo você sendo minha bambina, é como se estivesse um tempo a frente do meu… o meu espelho reflete em tantas coisas que você já viveu.

Você precisa do elemento urbano para existir… já eu, preciso do lúdico, dessas coisas que as memórias me trazem. Já tenho tantas suas guardadas aqui. Ainda me lembro de alguns edifícios com seus nomes enquanto um ônibus nos levava pelas ruas do seu lugar. Mas também tenho nas memórias coisas de sua vida em que eu nunca estive e senti-me lá. Eu seria capaz de atravessar o oceano agora e ver a lua sobre tua cidade… e mesmo sem poder fazer isso, parece que já fiz… entende isso?

A lua segue seu curso, bambina e consigo ver as estrelas sendo apenas acompanhantes desse movimento lunar. Parece que vi um pássaro noturno voar aqui e lembrei-me de um poema de Matilde Campilho, que gosto:

“Li sobre pássaros e passei a saber que os pássaros medem a distância em unidades de corpo e não em metros: a densidade de cada corpo não importa, o que importa é a distância entre eles. Ainda assim me perguntei muitas noites sobre a qual seria a medida de uma asa”

O poema me lembrou coisas que conversamos… será que a asa é essa sintonia que nos liga? Ou seria a medida dela seria esse convite aceito para continuar a viagem com você? Para responder a sua pergunta digo: vou sempre, bambina mia… com você, vou até a lua.

Bacio,
Mariana Gouveia

Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Vermelho por dentro.

Quinta-feira… o sol a pino e uma fuga por ruas inventadas para automóveis e não para pessoas.
O silêncio dos contornos a faz feliz.
Ela dispara seus passos e leva consigo qualquer coisa de felicidade.”

Pela quarta vez – e como se fosse a primeira – li Vermelho por dentro, de Lunna Guedes, publicado pela Scenarium Livros Artesanais. A primeira vez que o li, ele trazia o cheiro de livro novo, com a delicadeza das ilustrações de Adriana Aneli. Sorvi o livro em dois dias, na época, como se bebesse uma taça de vinho. A história me encantou. Mãe e filha e seus sentimentos misturados em mágoa, ausência, distância e ainda assim, o amor e seus paralelos mesmo com tantas contradições nessas relações.

Na segunda vez, fiz uma leitura via chamada de vídeo com uma amiga. De tanto eu comentar sobre a história, nas manhãs de terças e quintas-feiras eu lia para ela. Foi como ofertar um presente. Explicar os personagens, comentar sobre algumas frases. Levamos um mês para ler as 323 páginas. O livro já não tinha cheiro de livro novo, mesmo porque já havia sido emprestado para algumas pessoas… mas tinha cheiro dos lugares que o livro descrevia… era como se eu estivesse andando pelas ruas de Paris ou São Paulo.

Na terceira vez, li o livro em um projeto que faço parte, onde cuidamos de mulheres em situações de risco, ou sofreram agressões de seus companheiros e senti que a leitura foi um bálsamo para elas. O livro tinha o cheiro de esperança. Nas manhãs de sábados, passávamos duas horas entre aulas de artesanatos e leituras. Era uma desculpa para que pelo menos, em algum momento, elas se desprendessem das suas próprias histórias e embarcassem numa viagem… Confesso que em muitos momentos me emocionei e de como algumas partes do livro cabiam na vida de cada uma delas.

No mês de abril, ao abrir a estante o livro me chamou. Foi um convite. Ele se ofereceu e eu mergulhei de novo na história de Eva e Deborah. Confesso que sou apaixonada pela Anne. Talvez pela paixão pela fotografia tenha nos unido. Novamente me vi envolvida na história e foi como se tivesse lendo pela primeira vez. Não vou dar spoiler por que quero que você descubra e se encante pelo Vermelho por Dentro.

Respirou fundo… a cabeça estava cheia, a alma em suspenso e todas as coisas de sua vida embaralhadas. Sentiu o coração palpitar, o ar lhe faltou.
Medo da vida, dos afetos… de acreditar de novo e falhar. Deu um passo para trás, baixou os olhos para ver dentro.
Sentiu o toque na pele… o beijo nos lábios…

Vermelho por dentro me vermelhou em encantamentos. É uma história que te prende do início ao fim e por fim só nos faz suspirar. Se eu fosse você, eu clicava aqui e pedia um para chamar de seu.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Ações-emoções-falas-gestos se oferecem em reprises, como um filme. 

Bambina mia,

Aceitei um convite seu de agora a pouco para aumentar o som e foi o que fiz… Pink agora ecoa no meu quintal enquanto te escrevo e lembro-me que a primeira vez que ouvi Try foi aí no seu lugar. Você estava a beira da mesa tecendo fitas de cetim unindo minhas palavras de Cadeados Abertos. Em pé, na porta, guardei aquela imagem e salvei na memória o refrão para quando voltasse ao meu quintal. Desde então, a canção faz parte da minha playlist que tem seu nome. Essa playlist é a trilha sonora de minhas tardes-noites de todos os dias onde acrescentei algumas canções coreanas que tocaram meu coração nos últimos meses.

Mas, eu queria te falar da manhã que surgiu aqui, sem o frio intenso que já arrastava há alguns dias… Busquei no canto norte – ah, o Norte – do muro os primeiros raios do sol que falamos tanto e revisitei nosso diálogo de ontem – as últimas palavras antes do sono me consumir – e do quanto elas me acalentaram depois de um dia triste e tenso. Me aninhei no seu abraço e vaguei pelo espaço do meu lugar.

Depois dos afagos nos cães e de coar o café, a primeira coisa que faço pela manhã é caminhar no quintal, com a xícara nas mãos… verifico os casulos, as joaninhas no pé de algodão – que pasme! nasceu de novo e já está grande, depois do último que foi arrancado em uma tempestade – e vou aguar as plantas. Mas, hoje, meus olhos pousaram no Encontro – esse pássaro que ganhou ninho por aqui, com sua asa de filete laranja – e fiquei horas a ouvir o trinado dele que você já ouviu em alguns dos meus áudios, no varal. Somos sim essas observadoras de pássaros e tudo isso se transforma em momentos nossos.

Já te contei que chorei com sua missiva e de como comecei a manhã igual você descreve nela… Mas juro que só vi sua missiva depois das palavras iniciadas em meu caderno de florzinhas rosas no começo da tarde e fiquei a imaginar como o universo nos liga mesmo que através da escrita em momentos – quase – iguais onde me aconchego dentro do abraço que sempre me oferece. Já te disse que é o melhor lugar do mundo para mim?

Aqui, encostadas no pé de ipê estão as cadeiras – não tenho poltronas – de fios onde suspiro em alguns momentos do dia. É onde disputo os voos dos pássaros que voam por cá e muitas vezes com Yoshi que quer a cadeira preferida e seu inseparável travesseiro. É aqui que te acolho em tantos momentos e onde meu riso te alcança nas conversas bobas e variadas.

É onde também te grito quando os trovões ecoam por aqui. Maio já se precipita dentro dos dias e eles só aconteceram por aqui uma vez… Por enquanto, o som que ecoa aqui é Try – que está no modo repeat enquanto as imagens invadem minhas mente como se fosse reprise, como um filme. 

Bacio,

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lua de Papel · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

a missiva que ficou nas pétalas de uma flor

eu nunca antes tive delírios
– mas dizem que tudo sempre aponta para um possível começo.
Seria esse o meu?…

Lunna Guedes – Lua de Papel

Bambina mia,

Já anoitece por aqui… enquanto no seu lugar o frio que tanto gosta dá sinais de aviso o meu lugar já sente a falta de umidade. Alguns diriam que já parece julho… Vejo o reflexo do sol na parede sem reboco da casa vizinha. Fica mais alaranjado meu quintal.

Ontem falávamos da flor que você viu e me lembrei da delicadeza que me ofereceu. Já era quase poesia a pequena pétala – imagine transformá-la em missiva, então? – e me recordei que tenho ela no quintal em suas várias cores. quando conheci a flor, descobri primeiro a de cor branca e só depois as outras vieram em forma de mudas.

Aqui, elas servem para as borboletas que são atraídas pelo cheiro de suas mini flores… mas, dizem que elas também servem de calmante, e por isso, ajuda a combater a insônia. Vou me lembrar disso em noites insones. Se chama lantana… mas achei lindo que algumas pessoas chamam ela de planta arco-íris. prefiro apenas que elas sejam o alimento das borboletas e joaninhas que moram por aqui.

Adoro esses mini buquês onde as cores se completam e suavizam. Parece até que a flor se veste para a festa… penso em você caminhando e de repente, o sol te traz o laranja vivo da flor e te faz pensar em missivas. Dei uma atenção especial a elas hoje e pensei nas palavras que te diria. A flor agora terá um significado diferente aqui.

Às vezes, acontece de cair quase todas petalazinhas e fica apenas uma resistente. Nem o vento consegue derrubá-la. Durante o inverno, o pé murcha e parece que vai morrer, mas isso dura pouco tempo. Logo ela surge de novo vigorosa, com flores mais robustas e assim segue em sua vida de flor.

Mas é agora no fim do dia que ela se faz presente com sua fragrância no quintal, como se fizesse perceber… pena que essa missiva não consiga te levar o perfume – suave- da flor… mas, com a delicadeza das florezinhas que te abraço enquanto a minha xícara de chá e uma canção espanta a solidão por aqui.

Te voglio tanto benne
Bacio,

Mariana Gouveia
Texto publicado na Coluna Plural – Scenarium Livros Artesanais
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura 

só por desacato à flor

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Das cartas que recebi…

Caríssima,

… quando sua missiva chegou, eu estava com os livros de Cecília – que tenho comigo – em mãos. São três. Gosto imenso quando ela diz: tenho fases como a lua, fases de andar escondida, fases de vir para a rua – é como se a poeta-mulher falasse comigo enquanto ando pelos cômodos da casa. Somos um par…

Gosto da correspondência da escritora, que durante muito tempo – por pudor ou algo que se assemelhe a isso – me recusei a ler. Sentia-me uma intrusa… uma daquelas damas inglesas – falsamente educadas – a fazer uso do vapor da chaleira, para abrir envelopes e descobrir possíveis segredos.

Hoje, minha cara… ao sentar aqui para escrever-te , tenho consciência de que os meus correspondentes ajudaram a forçar a escritora que sou. Foi através das muitas folhas tingidas com grafite que mantive o exercício da escrita e quão prazeroso era dizer-me em linhas as outras pessoas, meus primeiros – e essenciais – leitores. Era um tempo de espera… os correios nunca foram ágeis. Curioso que nesse tempo em que tudo é tão ágil e é possível dizer-se tão depressa, pouco ou nada se diz.

Eu gostava imenso daqueles dias, em que era surpreendida com envelope na caixinha de correspondência, trazendo notícias de um mundo-outro. Conheci lugares-pessoas-vidas-realidades sentadas no canto do sofá-verde-musgo da sala – era o meu bilhete de embarque.

Lembro-me que em um dos diálogos com uma correspondente – ela me disse, num sem fôlego, ao reescrever -me de canto de mundo-vida… acho a palavra “carta” tão extraordinária. E eu lhe respondi dias depois em meio a um sorriso cheio… prefiro missiva porque tem cor-som-aroma – todos os ingredientes necessários para estimular o meu imaginário. Ela aceitou a palavra e respondeu… se parece com um pombo que leva um envelope a alguém (treinado-adestrado que foi para esse fim).
Falamos da palavra durante dias… até que ela respondeu com sorrisos – não os desenhou, tampouco os escreveu, mas estavam lá nas entrelinhas – eu gosto e prefiro porque é poético e me fez pensar em outras palavras: ‘miss you’ .

Eu entendi o sentido… e era engraçado como dizia muito de nós duas – figuras estrangeiras a viver em mundos alheios. Longe de casa e a dialogar uma com a outra: figuras tão impróprias. Durante anos nos correspondemos – quase que diariamente. Sem envelopes-selos-folhas-de-papel. Apenas palavras na tela – essa comunicação moderna. Não passava um dia sem que ela chegasse com seus desenhos de mar-céu. Me lembro que lhe falei dos aviões que cortavam os céus do novo bairro para onde havia me mudado. Tudo era novidade. os dias transcorriam repletos de descobertas.

certa vez lhe contei – hoje fomos à feira. Os três. Descobri a moça dos ovos, com quem conversar por alguns segundos, enquanto escolhe os melhores ovos pra as minhas não-receitas. Me fez sentir saudades dos dias de sábado… esse lugar detido em alguns ontens que coleciono. E ela me respondeu – há tempos não deixo o meu casulo. Frágil casulo que rompo a cada dois ventos.
O que são esses ventos? Um deles é você… que me levou à feira. Coisa comum na minha outra vida. E agora, sento-me com você à sua mesa, e aprecio os seus movimentos de mulher forjada num desses ontens. Gostei da maneira como usa essa palavra. Irei imitá-la. espero que não se importe…

Ela me falava da filha a medida que crescia. Da saudade que estranhava sentir do seu passado… com o qual se recusava a lidar. e da tentativa de lidar com a idade, os medos e ser alguém para os que amava. Eu gostava de sabê-la minha… de saber que eu havia provocado risos em seus lábios ou que tinha lhe arrancado de um momento de dor. Amava como enxergava as palavras que usava para descrever… poucas pessoas compreendiam as minhas frases e rituais.

Certa vez lhe disse – hoje eu precisei de um guarda-chuva vermelho para sobreviver a multidão dos pretos – e ela, respondeu apressada, numa nota breve apenas para que soubesse que estava ali e sabia do que ia dentro de mim naquele instante – enfrente a multidão dos pretos com a pele-carne-matéria, com tudo que tem. Use a sua ilusão de alguém.

Mas, de repente, não houve mis respostas-diálogos. Apenas o silêncio de um dia azul. Percebi que ela tinha razão… miss you é tão sonoro quanto missiva… porque traduz o que se sente quando o dia seguinte – e todos os dias imediatamente após ele – acontece sem notícias. Demorou, mas eu me acostumei ao silêncio e hoje ao me lembrar desses dias, gosto do penso-sinto… e dos versos de Cecília que me servem de suspiro e é com ela que me despeço e vago-viajo até você nesse dia quente, sem ventos ou nuvens.

au revoir


Perguntei: “Que me vale ter casa, parentes, vida?
Sou a terra que estremece? ou a multidão que avança?
Ó solidão minha, ó limites da criatura!
Meu nome está em mim? no passado ou no futuro?
Ninguém responde. E o fogo avança para meu pequeno enigma”.
Apenas um anjo negro entreabriu seus lábios,
verdadeiramente como um botão de rosa.
“Death”
DEATH?
Por que me falas nesse idioma? perguntei-lhe, sonhando.
Em qualquer língua se entende essa palavra.
Sem qualquer língua.
O sangue sabe-o.


Lunna Guedes
Carta publicada em Catarina voltou a escrever
Scenarium Livros Artesanais
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura 

só porque hoje abri os envelopes laranja

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

É seu, o lápis de cor!

“A vida tem a cor que você pinta”.

Mário Bonatti

Bambina mia,

Inauguro minha manhã nos primeiros raios de sol que chegam. Ontem, choveu. Pareceu-me que trovejou também. Ouvi o céu fazer seus rumores. Mas, hoje não. Hoje, o céu desenha nuvens sem segredos. Como se abrisse sua caixa de lápis de cor e com ela, tal qual uma criança danada que rabisca as paredes recém-pintadas, nuvens brincam com as nuances das cores.
Nesse momento eu penso em você e de como as palavras me conquistaram. Não! Minto. Foi o silêncio mesmo. Era uma menina do sótão, que através de histórias me levava a passear por entre as dela. O cão, o menino, C, o amor da vida dela. Outono, missivas.
Fiquei na janela como a espreitar um livro, que eu folheava docemente querendo fazer parte de tudo. Cada história me cabia. Cada personagem, era eu, fingindo-me tão conhecida que chegava a cumprimentar.
Confesso que o que me chamou atenção foi o Caderno Vermelho. Ali, eu me envolvia como se fizesse parte do que ela (d) escrevia… A cortina que o vento balançava quase me jogava dentro das tintas e das letras.
Era Outubro quando ela surgiu misteriosa aos meus olhos em um ano qualquer. Primavera nas folhinhas que designava as estações enquanto ela gritava que preferia o outono.
Consegui acompanhar seus passos pela cidade. Mostrava-me o inusitado do tempo, a umidade ou a secura do dia. Ela deu-me a chave que abria a porta para as possibilidades. Para o sonhar e ao mesmo tempo, despertava-me na ansiedade dos dias. O dia, que para ela sempre começa depois que o meio dele se foi.
– Ah, não me queira tão cedo, menina. Sou da tarde, depois da xícara do café fumegante e de ler e reler os e-mails. De viver o aconchego do cão. Da foto do aplicativo que mostra que acordei. Dos caminhos até o café, onde pessoas de ontem passam por você e seus olhos não guardam o que você viu. Ou por que a cidade é urgente demais e hoje, o que era ontem, não é mais.
Sem estar pronta, ela está toda preparada. De riso solto e de braço que nesse instante, eu ia querer abraçar. Ou apenas calar diante de tua presença.
Então, guardo minha caixa de lápis de cores e reabro quando o sol já colore a tarde e vagueia na imensidão do céu.
Vejo o calendário. Já não é mais o dia que ela falou em poesia. Já é outro e desponta com a celeridade peculiar do astro solar e quando você percebe já não é mais esse dia. O calendário muda na velocidade das horas e nesse momento, dou-te a arte. Essa que se desenha nos momentos que viveu.
Dou-te a emoção do silêncio. Esse, que grita em tuas paredes e que revolve os lençóis brancos jogados sobre os móveis e que quaram sobre tuas lembranças. Dou-te a orientação sobre os caminhos que te levam ao encontro da esquina.
São olhos que você nunca havia visto, mas que, te mostram onde caminhar. Ou apenas silenciam ao teu passar.
Toma. É seu o lápis de cor que pinta esse céu com as tempestades que a meteorologia adivinhou em você. Pinta tua vida com o riso dos encantos e que só a magia dos poetas conseguem descrever. Não precisa estar pronta. Nem é necessário que esteja. Te refaz perante meus olhos ávidos, o sonhar. Redesenha nas paredes dos seus sonhos a vontade do viver enquanto eu escrevo o que ainda conheço, mas imagino entre meus dedos na melodia de aquecer a alma o que aspiro conhecer.

É seu, esse lápis que te dou e que diariamente com ele, você descreve  o amor e pinta dia de sol com cores renovadas. E nas levezas do artesanato, encaderna sonhos e os espalha como semente em um jardim.

É seu, o lápis de cor.

Mariana Gouveia
Texto publicado no caderno de Notas – Terceira Edição
Scenarium Livros Artesanais

É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Ale Helga – Mãe Literatura – Darlene Regina

só porque eu ouvia Èra Già Tutto Previsto

Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Catarina voltou a escrever…

– Abre aspas –

Preciso de uma maçã para estalar na boca e
ouvir o delicioso som-calmante de seu clec

–  Fecha aspas – 

Lunna Guedes
Catarina… voltou a escrever
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · O Mapa de Vênus · Scenarium Livros Artesanais

Coletivo o Mapa de Vênus

Chove e as hortênsias — em seus buquês —
parecem a tempestade alagadiça que pediu…

Os trovões ecoaram como se fossem derrubar o céu
— ouvi alguém dizer: “parece que o céu vai cair”
E eu pensei em nuvens vindo ao chão.

Mariana Gouveia

O Mapa de Vênus é um projeto coletivo, produzido pela Scenarium Livros Artesanais, sendo poemas em resposta a missiva enviada pela coordenadora do projeto Lunna Guedes… Cada autora criou uma narrativa em forma de versos, sendo elas: Anna Clara de Vitto, Katia Casteñeda, Mariana Gouveia – euzinha-, Nirlei Oliveira e Suzana Martins.

E para comemorar o lançamento, estaremos em uma live na próxima sexta-feira, dia 18/03/2022, às 18hs – horário de Brasília – no ig da @scenariumlivros.

E se você quiser adquirir um para chamar de seu, clica aqui

Mariana Gouveia
O Mapa de Vênus,
Scenarium Livros Artesanais
Fotografias e Arte de Lunna Guedes