Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Sexta, 29 — *a cidade envaidece inteira com a chegada do crepúsculo.

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — todo dia, de Suzana Martins

Bambina mia,

eu vigiei o céu hoje para te oferecer o crepúsculo, nesse dia tão seu. Sei que é o instante que mais gosta e sei também que a cor te toca. Lembrei-me de outros aniversários com você. Todos eles poderiam ser emoldurados e o auguri gravado em fita cassete para ouvir no toca fitas antigo do meu irmão.

Havia uma margarida vermelha na janela e o cheiro do bolo na sua cozinha inteira. Esse dia devia ser eternizado – anotei na agenda. Depois disso, o dia virou saudade nos anos seguintes. Eu ia querer muito caber no seu abraço nesse dia… mas os dias foram se costurando em avessos nesse ano a viagem foi adiada. E como de costume, escrevo uma missiva onde junto com as palavras vai meu cuore para você.

Na parte alta do bairro, onde sempre vou para fotografar a lua em noites de lua cheia eu gritei seu nome, bem na hora em que a manhã quase deixava de ser madrugada para se tornar dia. A última estrela acabou de sumir entre as nuvens e a cidade ao longe se vestiu com as cores crepusculares.

Sabe, bambina, eu ainda me espanto com algumas coisas que nos ligam de uma maneira única que parece que tudo foi traçado antes. Não posso dizer que é o destino, nem acredito em coincidências, mas percebi que nossos caminhos foram se cruzando em esquinas dentro de um passado meu e futuro seu, em fusos que nos fazem rir… e eu adoro ouvir sua risada.

A cidade envaidece com a chegada do seu dia e dessas cores dentro das palavras que você gosta. A meteorologia determina atenção em vários alertas coloridos. Será que haverá uma tempestade em sua homenagem? Te conto em uma próxima carta. De resto, te envolvo no meu abraço carinhoso com todos os desejos de bem viver.

Amo tu imenso!
Auguri!
Feliz aniversário!

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Domingo,10 — *Flores que nascem resistentes nos muros e nos quintais

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia  – do texto de Nirlei Maria Oliveira

Todo mundo deveria ter um quintal… falei isso com Lunna – mia bambina – nas conversas rotineiras que mantém meu lado lúdico ativo enquanto os olhos não podem ler.

Comentei isso depois de “vê-la” encantada com as frutas que rudemente esborrachava no chão. Quando ela retratou o sabor das amoras e das uvaias e a hortelã encontrado em meio a uma moita de samambaias eu voei para além dos meus muros e corri para o futuro quintal dela. Uma cadeira encostada na parede branca, os ladrilhos formandos caminhos entre as árvores… eu vibrei.

Ela já não era mais peregrina do meu lugar e quando falávamos de quintal, ela estaria repleta de afetos que só um quintal emana. Seríamos ponte entre o meu quintal e o dela. Já imaginou uma rede de pontes interligando quintais vida afora? Além de ruas de cima ou esquinas da rua debaixo? É como se uma janela abrisse e o cheiro de chá exalasse seus aromas entre meu capim limão e o hortelã miúdo dela.

No meu quintal os cães implicam com os gatos… no dela, o gato estranha o povo recém-chegado onde antes o lugar era só dele… e a vizinha mexeriqueira busca contato logo com quem prefere os animais a pessoas.

Todo mundo deveria ter um quintal. Nem precisava ser grande, ter horta, pedrinhas brancas mostrando caminhos de estufas onde as orquídeas soltam suas folhas e a baunilha exala seu cheiro peculiar.

Mas deveria ter pelo menos um pé de jabuticaba – ou alecrim plantado em vasos grandes ou no chão mesmo, rodeados de vinca e suas variadas flores.

Hoje, com as moradias – em sua maioria – fixadas em edifícios enormes e o paisagismo predominante em folhagens, um quintal traz a poesia de manhãs mornas, de folhas recém caídas e o sussurro do vento. E tem os pássaros – que muitas vezes ela nem sabe o nome… só que é grande e outros que cantam nas madrugadas daqui e de lá.

No meu quintal, há um desvio onde pássaros e borboletas cruzam em suas rotas rumo ao céu. No dela, o pássaro metálico cruza em meio ao cinza e o verde – agora tão dela quanto meu.

Você ouve o som das flores? Quando as pétalas roçam umas nas outras o som das flores ecoa…, mas isso, só consegue ouvir quem tem um quintal.

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais

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Sábado, 09 — *Alcanço o balanço… plantado no quintal de casa.

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia – do texto de Lunna Guedes

Bambina mia,

não tenho balanço no quintal, mas já tive, assim como você, lá na infância e via o mundo do alto quando chegava minha vez, depois dos outros irmãos. Acho que para mim era diferente do que para eles. Eu voava até bater o pé no galho da mangueira e meus pensamentos voavam para além da estradinha que serpenteava o rio.

Depois disso, o balanço se transformou em memórias gostosas que sempre arranca risos em conversas com os irmãos, quando lembramos dele. Dessas memórias me lembro do cheiro da malva seca e do cheiro das flores de manga… e em nossas conversas o balanço – teu, lá da tua infância – sempre me causa ternura. Já reparou como nossas histórias se atravessam? Como agora, onde um desvio no meu quintal me leva apara o seu.

Acho isso lindo, assim como acho lindo quando nossos pensamentos se ligam à tempestades ou chuva mesmo – e garoa – e a lua e os poemas… o sabiá laranjeira, o beija-flor e até as farfallas…eu não saberia explicar e nem quero… quero apenas sentir essa conexão com todas as cores da inveja – ops – assim como o vento, as folhas, a madrugada e as canções de Léon.

Quando meu quintal invade o seu acho a mais extraordinária das aventuras. Quase sinto o cheiro da flor de maracujá, porque o canto dos pássaros consigo ouvir quando falo com você.

O ipê não comporta um balanço, senão já plantaria um só para te alcançar plena de voos, mas alegra-me saber que agora acorda com os pássaros como eu e o chá de hortelã que faz para tu e o tuo bambino também chega até aqui na doce forma de compartilhar.

Aceita um xícara?

Bacio,
Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Quinquilharias

Quarta, 06 — *Só pensei nas delícias dos nossos dialetos.
* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — da prosa de Mariana Gouveia

Bambina mia,

desde que li a palavra quinquilharias para o desafio do projeto fotográfico 6 on 6 fiquei imaginando como a palavra me alcançaria e claro que tive que aproveitar o projeto do blogvember e transformar dois em um. Então, bambina, só pensei nas delícias dos nossos dialetos intercalando entre nossos quintais. Quinquilharia é uma das palavras que mais gosto… acho lindo a sonoridade assim como acho lindo essa nega maluca e os tachinhos de cobre que eram de minha bisavó, depois de minha mãe e agora são meus. Estavam em uma caixa guardados entre outras quinquilharias e limpei para a foto. Vai me dizer que o latãozinho de leite não é lindo!!

A minha coleção de conchas, que ganhou morada em um vidro no fundo do armário também fazem parte do meu acervo de trecos e quinquilharias. E tenho certeza – ok? – de que você concorda comigo de que nossos baús, caixas, gavetas e vidros e dialetos não se maravilham em manhãs de diálogos e instantes, dentro das palavras que escolhemos e gostamos.

Mas, bambina… pasme! Na caixa de papelão com os “relicários” da família sob meus cuidados – ou quase – achei essas armações que eram de um ex cunhado… e que serão devidamente devolvidas amanhã. Foi um achado mesmo, e nem sei como vieram parar na parte obscura do baú… Essas sim, ganham a versatilidade do nome quinquilharias…

Entre as minhas lindas-tristes tralhas velhas estão algumas encomendas que as clientes nunca vieram buscar, do século passado – ohhh!!! – e parte do acervo do curso de artesanato que dei para mulheres em situação de vulnerabilidade. Ganharam abrigos no canto do baú e volta e meia algum deles consegue ser adotado como presente para alguém.

Sabe, bambina, não vou negar que minha quinquilharia preferida é essa mala. Era do meu pai e para evitar brigas, antes que ele partisse me deu, porque sabia do meu amor por ela. O forro interno ainda é o tecido original. Data de antes de eu nascer… A mala deve ter carregado sonhos, as camisas de linho de meu pai, o embornal que ele levava nas viagens para a cidade para trazer pão e tantas saudades. Eu sempre a disputei entre outras quinquilharias que ele prezava como tesouros. Hoje, ela guarda memórias, que também fazem parte das minhas quinquilharias e se misturam com as suas em um dialeto só nosso.
As bonecas e principalmente, a Frida, eu que as fiz… lá em meados de alguma adolescência e ficaram guardadas como modelos. Dormiram até ontem na mala quando as acordei para a foto.

Essa bandeja simples traz o início de uma menina que sonhava em escrever e levar as palavras mundo afora. Debaixo do pé de sete copas, a menina aprendia a emoldurar palavras, tecer linhas e escrever sonhos. Talvez, o universo já havia preparado tudo para que a minha rua cruzasse com a sua e os nossos quintais se interligasse da melhor forma, dentro do cuore.

Ti voglio bene!
Amo tu!
Grazie per tutti!
Mariana Gouveia
Post parte do projeto fotográfico 6 on 6
Lunna GuedesClaudia Leonardi Obdulio Nuñes Ortega – 
Roseli Pedroso – Silvana Lopes
e BlogVember via Scenarium Livros Artesanais


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6 on 6 – Páginas de livros

Bambina mia,

o calor abrasador transforma minha cidade em um lugar infernal. Como você já sabe, estou impossibilitada de escrever devido alguns procedimentos em meus olhos e já faz algum tempo que não leio nenhum livro. Portanto, as fotos aqui já foram feitas há algum tempo. E claro que eu vou usar mais as páginas dos meus livros.

Eu ainda fico boba quando vejo meus livros publicados e quando tiro uma ou mais fotos deles – e ou de alguma pagina específica – repito a pergunta de sempre: fui eu mesma que escreveu isso?

Claro que amo fotografar as páginas de outros autores… e misturo-me nos poemas como se fossem meus.

Mas devo dizer que além dos poemas, poesias, prosas o que a Scenarium nos proporciona além do livro costurado em fitas de cetim, as gravuras transformam as páginas dos livros em arte pura. Gosto muito disso!

Eu já te contei que a primeira página que li de um livro veio avulsa nos livros que a gente recebia de doações na fazenda. Ainda me lembro da história… nunca consegui encontrar o nome do livro. Um dia, conto sobre isso.

Bambina, de todas as fotos de páginas que vi por aqui e escolhi ao acaso, as que recebi de leitores, com marcações especiais me comovem. Não poderia deixar de colocá-las pelo menos duas aqui.

Você pode imaginar como mio cuore se fez feliz por causa dos cuores desenhados na fotografia da página… é ou não é uma doçura? Para uma escritora, isso vale muito mais do que qualquer prêmio. E devo isso à Scenarium e a você. Grazie por tanto!


Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes – Silvana Lopes – Obdúlio Nunes Ortega – Claudia Leonardi – Roseli Pedroso

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6 on 6 – manias literárias

o afecto dentro da palavra ‘quintal


ais além dos sonhos repousa uma palavra que nos acalma depois das grandes chuvas.
é como se no chão se abrisse uma enorme janela; um tapete como passagem para outros mundos. o afecto. as aprendizagens. a lentidão da comida. tudo, tantas vezes, cabe na palavra quintal.
Ondjaki

Bambina mia,

Depois que “ouvi” sua missiva confesso que quebrei o resguardo dos olhos e fui ali procurar o tema delicioso para caber mais no lugar redondo de suas palavras. Te contei que quis muito pendurar em um quadro seu áudio. Pena que AINDA não posso fazer isso. Mas, voltando ao assunto do tema, durante minha busca eu achei outro texto do mesmo poeta que eu já admirava, e um título me chamou atenção para o afeto dentro da palavra quintal, e de quintal você sabe que entendo. E claro, que minhas manias literárias cabem na palavra quintal e afeto. Meu quintal sempre serviu de amparo-cuidado-afago-ombro em dias difíceis e também companheiro em minhas leituras e arte.

Sempre que folheio um livro estou acompanhada de xícaras… seja com café, água, sucos e café. Logo para além da varanda, entre uma busca e outra de livros ganho companhias de asas… sejam de farfallas – como você diz – ou de aves. Geralmente, é no meu quintal que nossas conversas acontecem. É nele que te mostro a mágica de asas, de flores, de folhas, de poder escrever e até minhas lágrimas em momentos de dores.

Você sabe que é ali – ou aqui – debaixo do meu pé de ipê que nossos diálogos viram horas e horas de trocas… e é também onde recolho as folhas que servem de marcações de páginas dentro das histórias que leio. Tem aquelas que guardei para te entregar pessoalmente, a que se quebrou dentro do poema que amo tanto… As que vieram pelo vento e nem nasceram aqui, mas de algumas forma se misturam com as folhas dos livros que leio.

Sabe, bambina mia que também me peguei pensando se nosso encontro já estava programado em alguma esquina ou se fui eu que te encontrei entre os tantos atalhos que pego na vida… acho até que já te falei sobre isso e já te conto sobre uma outra mania minha que vai para além do meu quintal… esparramo os livros na cama e vou levando-os para o quintal. É onde leio algumas passagens de poesia para os pássaros.

Outra mania literária – ou sei lá que nome dou – é colher as flores que se desprendem dos galhos, seja pelo vento, ou força da natureza mesmo para secarem entre as paginas. Algumas se transformam em matéria prima para meus artesanatos. Outras, ficam ali, pousando na poesia escolhida como se fizessem parte da mesma.

Até nos dias frios eu me atrevo ficar um pouco ali, repetindo a velha mania de dividir com meu pé de ipê um afeto com uma xícara de chocolate quente – que você bebe mais do que – e um livro. Ainda não encontrei no meu lugar uma livraria que coubesse minha alma ou algum sebo. O único que me cabia desapareceu pós pandemia. Foi depois dela que minhas manias passaram a ser vivenciadas aqui.

E como você mesma disse que estamos muito para além dos planetas e tempo eu misturo a literatura que me abraça com toda arte que possuo nesse quadrilátero dos meus muros. Uma xícara de café, um livro seu, uma aula programada para as meninas que cuido, uma omelete ganha ares de biblioteca aqui. As livrarias daqui, bambina, tem as mesmices de sempre, com os livros convencionais, feitas apenas para que o leitor entre, compre seu livro e vai embora. Ainda assim, minhas manias sempre atravessam esses muros e vão para além das ruas – ♡ – e pousam nas palavras do poeta lá de longe, mesmo que não tenha mania nenhuma:


(…)

é como se no céu se abrisse um enorme chão, sem tapete de passagem para outro mundo. às vezes penso que ouvi uma voz sussurrar: foi o afecto quem inventou a palavra quintal.
tudo, tantas vezes, dentro da palavra quintal.

Grazie mille!
bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes – Silvana Lopes – Obdúlio Nunes Ortega – Claudia Leonardi – Roseli Pedroso

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6 on 6 – à mesa…

Em minha defesa, à mesa, com meus verbos expostos, desde a fome aos cacos das xícaras que quebrei… desde o olho do cão faminto querendo migalhas…
ao sonho do livro costurado sobre a mesa.

Bambina mia,

na minha mesa espalho suas cartas e os envelopes laranjas… falar sobre o tema me traz à memória a minha mesa da infância – e já falei sobre isso – sob o pé de sete copas, mas não tenho nenhuma foto para registrar. Mas, se eu fechar os olhos ainda ouço as risadas de todos os irmãos e com alguns passando debaixo da mesa. Em dias quentes, o barulho da faca cortando as ervas em um tec tec antes do almoço. O olho de minha mãe atenta ao ritmo da faca… O controle sobre as cartas, bambina, que escrevíamos ali, na mesa de madeira, que na mudança para cá eu trouxe uma tábua, que se transformou na mesa pequena que me segue desde sempre.

Hoje, minha mesa vira simbolismo nos artesanatos que crio, na mistura do papel sobre as linhas que teço em crochê, nas entregas das encomendas restantes. A mesa cabe a bagunça que a arte abraça.

E como a docilidade atinge meus dias, degusto da fome, da vontade, da leitura e de tudo que afaga a alma.. tudo ali, na mesa que tem coisas da minha infância e coisas atuais. É o que preciso depois de dias difíceis, sem rosas murchando sobre a mesa por falta de água. É o sopro distante da serenidade dos dias onde me cabe. A autora que tão bem sabe de mim e me cede especiarias em palavras.

Sabe, bambina, é a mesa que a família se reúne para as comemorações. Se eu fosse colocar a mesa dos aniversários, dos almoços de domingos, de reuniões de batismos, etc… eu seria crucificada. O olho vermelho da irmã, o bico do sobrinho, o borrão da luz da janela apagando metade da família. Meu olho volta para a mesa do canto, onde os bibelôs – companhias das noites de insônia silenciam – ou não? Fui somente eu que ouvi piados??

O reflexo da luz da rua bate na janela da sala. sou eu quem vejo ilusão na mesa de centro? As borboletas voam na parede da sala. A minha memória guarda as imagens para os dias que não vou poder ver nem na claridade dos dias. O tempo hoje é entre aspas para além dos óculos escuros. Era de mesa que falávamos? Conto sete passos de olhos fechados da sala até a mesa da cozinha… e nove, até a mesa de canto onde os livros para ler esperam… Conto os passos até a mesa de canto do quarto e finalizo a noite, mesmo sabendo que AINDA estou aqui.. no rompante das horas, para os dias que virão.

Bambina, mas em se tratando de mesa… ah, a sua povoa meu imaginário real. Pode isso? Pode sim! Ainda tenho a memória ativa do bolo de fubá no prato, do primeiro livro meu sendo costurado – e nem era cetim ainda.. Lembro-me que mais do que a mesa sob a árvore de sete copas – que serviu de lugar para minha infância e as brincadeiras mil em volta dela – a sua mesa serviu de colo para o meu sonho… o de escrever sentimentos.

Grazie mille!
Bacio,
Mariana Gouveia

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6 on 6 – The book is on the table

Hoje, só por hoje pode sentar ao meu lado, até que eu leia todos os livros sobre a mesa.

Bambina mia,

fiquei me perguntando se eu rompia o ritual de te escrever nesse dia ou se corria o risco de ser repetitiva, mesmo mudando as fotografias. Mas ainda assim, como sou dos ritos, vou seguir meu cuore. Só pelo prazer de te escrever. Dessa vez, vamos falar sobre os livros na mesa ou da mesa que recebe os livros, quase como camas, para que fiquem ali, à espera de serem lidos. Antes a mesa acolhia livros alheios… Hoje, acolhem os meus. Se eu retroceder alguns anos atrás, isso era apenas um sonho.

O tema desse julho insano me lembrou a minha primeira professora de inglês e da minha dificuldade com a língua falada mundo afora. Ela era bem jovem na época e tentava fazer com que os alunos se familiarizassem com o one, two, tree, four… o mais engraçado é que ela me encontrou nas redes sociais e se encantou com o Borda-se… Ela lembrou-se de que eu já usava a agulha e as letras, lá nos anos idos da minha infância-juventude. Prometi levar um livro para ela e o farei assim que possível.

Mas, sabe, bambina, que atrevi-me a usara uma foto sua – sorry – porque amo demais essa fotografia, essa mesa e claro, esses livros. rs… Tenho lembranças doces desse móvel e me emociono ao lembrar-me. Sinto saudades dos momentos que passamos ao redor dela e de te ver costurando um a um os livros pedidos. Lembro-me até a canção que tocava no dia…

De vez em quando, esparramo os livros sobre a mesa da varanda, juntamente com suas cartas… Releio uma a uma tentando encontrar a primeira, que perdi dentro de algum livro não encontrado ainda. Sei que está por aqui, entre um verso de algum poema ou de uma poesia. Faço isso, às vezes, para usar depois a frase que me marcou e guardo ali, para futura resposta. Um dia, encontro…

Nessa carta, bambina, não podia deixar de colocar sobre minha mesa as primeiras versões de Lua de Papel I, II e III. As capas já desbotaram em uma parte, porque ao levá-los daqui para ali tomamos pingos de chuva, em uma outrora que choveu. Já sinto saudades da chuva e sei que você também. As nuvens vem, mas mudam seu rumo para além do muro.

Acho que assim como temos em comum tantas coisas, a mesa de madeira também nos ligam em memórias e lembranças… é sempre sentada à beira dela que com um livro em mão ouço seu convite para mais um café… e nunca recuso e em muitas vezes, seu chamado já chega com minha xícara fumegando na mesa enquanto folheio um dos livros costurado.
Hoje, sou eu que te convido para mais uma xícara… aceitas?

Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes – Silvana Lopes – Obdúlio Nunes Ortega – Claudia Leonardi Roseli Pedroso

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6 on 6 – Sunsets

Devia espreitar a tarde onde o sol morre para nascer em algum lugar fora da minha visão.

Bambina mia,

já se tornou rotina te escrever no dia 6 e embora o foco do projeto seja as fotografias, não posso deixar de te levar pela mão e mostrar o céu do meu lugar, em sua forma mais bela que é quando as cores da tarde se juntam com as do crepúsculo em um caso de amor.

Já falamos muito sobre essas horas e também sei que são as suas horas favoritas – tanto as horas em que as manhãs chegam e te abraçam e as horas bruscas que acontecem do dia pegando a noite pela mão – e você sabe, bambina, que meu lugar é conhecido pelo calor e pelo sol abrasador, embora, nos últimos dias a tarde tenha se fechado com temperaturas mais suaves e a moça da previsão continua alertando para os perigos da baixa umidade por aqui… mas, é ali, quando a cortina vai se fechando que meu olho busca o céu.

Durante a caminhada no fim do dia é que me transformo em solar. Em cada direção que olho, o sol se reinventa tanto que busco nomes para esse instante e não encontro. Parece que sempre é verão, mesmo com o outono rondando ainda por aqui. E a natureza se enfeita com os raios solares como se estivessem se vestindo para uma festa.

E mesmo sendo outono, e ele se mostrando tão desenhado no meu quintal, eu viajo para outras estações e te mostro, com dedo apontado em riste: vês? olha o avião! Já te contei que eu percebi que mudaram a rota dos voos? Pois é! Agora eles passam em linha reta no meu lugar e cruza o quadrante do muro como se viesse trazer notícias suas. Alguns passam tão baixo que dá para ver a numeração da aeronave. E quando isso acontece canto Calcanhoto e sua versão linda da música Inverno:

No dia em que fui mais feliz,
Eu vi um avião
Se espelhar no seu olhar até sumir

Depois que a melodia acontece aqui, abro os braços, como já te contei tantas vezes e penso nos sons dos “seus” aviões que passam sob seus olhos…

Bambina, o sol daqui é um caso a parte… ele se transforma em personagem principal quase todos os dias. Você já sabe onde sento nas minhas tardes, pelas conversas que temos e sabe que meu quadrante dentro dos muros faz com que minha visão dessa hora seja limitada e atrevo-me a pegar a câmera e caminhar para além da rua de cima e ali, faço a despedida diária do astro maior que predomina aqui.

Sabe o que eu mais queria te mostrar quando viesse aqui? Esse céu de outono onde as nuvens se esparramam como se fosse me abraçar. As nuvens abraçadas pela luz parecem sorrir. É claro que tudo isso acontece sob meus olhos admirados e sabe, bambina mia, mesmo que eu veja isso todos os dias serão sempre com olhos de admiração e espanto que essas imagens farão esses efeitos em mim. Até mesmo quando não há uma única nuvem no céu, nessa hora, o espetáculo se apresentará único todos os dias. E era essas imagens que eu queria te mostrar hoje. Vens?

Bacio,
Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Silvana Lopes – Obdúlio Nunes Ortega – Claudia Leonardi

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6 on 6 – The Colors of the Rain

chove mais uma vez 
a infância é um pássaro aceso nos ramos das árvores 
um território de meteoros incendiados
numa bacia de plástico com água da chuva


José Carlos Barros

Bambina mia,

mais uma vez trago notícias da chuva que, ultimamente, tem caído todas as tardes no meu lugar. Engraçado, é que nunca reparei nas cores dela e o tema desse 6 de abril me fez reparar nesses instantes aquosos e deparei com minha cidade cinza ao longe… Ela, que sempre foi conhecida como cidade verde, vista da escada que dá para o telhado se apresenta, ainda que verde – pelas copas das mangueiras dos quintais vizinhos – me trouxe as nuances dos telhados antigos e predominou o cinza, essa cor tão natural para mim.

Sabe, bambina, acho que esse ângulo é o que você mais conhece de minhas chuvas. O bebedouro do meu pássaro de todo dia e o pé de ipê ao fundo, com seus verdes em diferentes tons. É daqui que eu te mostro os raios e gravo os ecos dos trovões para te enviar.

E por falar em pássaro de todo dia, acho que ele gosta mais das chuvas do que eu… quase não consigo registrar o banho dele sob a água. Me divirto vendo ele em um bailado dançante entre o varal de roupa e seu bebedouro. O verde-musgo de suas penas molhadas se misturam com o ipê ao fundo. Isso só é possível com a chuva espaçando.

Mas, sabe, bambina? As cores me encantam quando a chuva deixa seus rastros em meu quintal, nas flores que bebem da água e se misturam com ela. É possível ver a gota “engolir” as flores e parece até que a chuva deixou diamantes no meu lugar. Seja no fim da tarde, ou no sopro novo das manhãs, a chuva nos une e sempre grito seu nome por aqui. E curiosamente, sinto que a chuva sempre me traz um pouco de mar.

Você sabe que meu lugar é a cidade do sol, mas esse outono mudou os dias por aqui. As ipomeias que duram o tempo de um dia, com a chuva, desfilam suas cores em gotas e permanecem intactas até o anoitecer. Mas você sabe também que eu adoro o cheiro da chuva, logo assim que cai, na terra seca. O petricor é o perfume da chuva – já falamos disso – e ao te escrever imagino de que cor seria esse cheiro da terra recebendo as gotas da chuva… delírio meu, bambina… releve!

Pego o guarda-chuva e mudo os insetos de lugar sempre que chove, apesar de achá-los lindos com as gotículas sobre a carapaça. Mas, como a natureza é sábia, acho que eles mesmo sabem onde buscar abrigo nos lugares que já deixo preparados para eles. E muitas vezes, nem uso o guarda-chuvas não… adoro me banhar na chuva que cai em gotas dimensionais. Isso sempre me arranca sorrisos e me deixa colorida na alma e é assim que encerro minha missiva para você, para nesse fim de tarde, onde o ontem foi um tempo entre aspas me colorir nas cores da chuva.

Amo tu imenso!
Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
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Participam comigo:
Lunna Guedes Silvana LopesObdúlio Nunes Ortega Claudia Leonardi