Cadeados Abertos · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 – — meus livros!

nenhum abismo me cabe
nessa hora, eu voo

Mariana Gouveia

Ter um livro publicado era o sonho de criança. Quando em 2015 a Editora Scenarium Plural me fez o convite, a emoção tomou conta de mim e veio a parte mais difícil que era escolher entre infinitos poemas apenas 50 deles para fazer parte do livro. O livro fazia parte da Série Exemplos e coube a Lunna – minha editora preferida – a fazer a seleção. Desde então, O Lado de Dentro se tornou o filho do qual cuido com carinho.

Em Diário das Quatro Estações – Cadeados Abertos fui fiel ao meu estilo de vida.  Era como me desnudar diante de quem lia:

preciso sobreviver ao encanto
que teus olhos me apresentam em miudezas e rotinas
Dou-te os sentidos plenos no toque
das palavras, invento recantos onde seu amor me ampara
Para isso, basta sentir-me tua.
Adivinho que você nasceu em algum canto do mundo. E os séculos nos pertencem.

Mariana Gouveia – Cadeados Abertos – Diário das Quatro Estações
23, Outubro Pág. 93

Os dias foram acontecendo dentro da minha rotina. Entre o trabalho e as previsões, a lucidez das horas e a saudade o diário foi criando vida. O horóscopo trazendo opções de escolha e a bênção do pai a dirigir sentimentos. Assim, o diário foi visto pelos olhos do amor. Um convite e ele virou um livro. Um livro onde dedico alegria, esperança, momentos lindos e uma história rica de amor. Em alguns dias, uma palavra bastava. Em outras, vivi todas as estações e ainda assim, era náufraga de um mar que não conheço e de um rio onde bebo na fonte.

Entre um livro e outro aconteceram outros projetos onde fui acolhida dentro do amor e da pluralidade e me vi pecadora em Sete Pecados. Na delicadeza do fluir, dentro de um conjunto Plural fui liberta e Coletiva.

Mas, em fases de Lua, me transformei juntamente com seis mulheres em Sete Luas. Um trabalho lindo, delicado, minucioso e generoso com as autoras. Serei suspeita se dizer que foi o mais lindo dos trabalhos… Serei suspeita se dizer que nos transformamos em lunação.

Depois de luas, diários e Plural ganhei a dor e a leveza em Corredores. Foi o que me fez chorar e eu vivi a história na pele e na dor de alguém. Mas, também vivi a liberdade e a alegria de ser mão ao toque e te convido a passear pelas páginas deles.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural – 2019
Participam também desse projeto: Lunna Guedes– Obdúlio Ortega

Meus Livros · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Revista Plural

Projeto Fotográfico 6 on 6 — minhas noites!

Eu gosto muito das horas despretensiosas. A beleza mora nelas.
Joakim Antonio
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Confesso que minhas noites são feitas de silêncios. Ou de monólogos intensos pelo quintal. Quando o sol se prepara para a troca com a lua, minha cidade – que dia 8/04 completa 300 anos – se transforma em silhuetas através das janelas do ônibus. Aspiro ali, o lugar de fé, também o prédio mais alto da cidade e a respiração acalenta nas sombras o que foi o dia.

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E dependendo da fase, lá vem ela dominar o decanato e ascendente. Cada tempo tem sua necessidade e ela em sua fase de cheia invoca os deuses e faz o cabelo engrossar e mais uma vez, nessas noites eu relembro as lições do pai.

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No meu quintal, nas minhas noites, às vezes, a lenda acontece na caixa velha de eternit e o eco se renova perto do pé de vento. Era ali que as histórias eram contadas e é ali que minhas noites são feitas de sopros. O calor, quase sempre, é asfixiante e bem embaixo do pé de ipê o cogumelo arrebenta e a frescura toma conta da alma. É onde aconteço dentro de minha história.

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Há noites em que ela surge em vírgula e me vejo lunar nas minhas noites. Chamo um nome, lembro do uivo, refaço rituais que aprendi quando criança e sou pura fascinação. O céu ganha minha atenção e conto histórias que nuca esqueci.

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Nas histórias, o que me envolve é a lua – e na ausência dela minhas noites ficam ocas, vazias – e o céu é meu templo. Realinho os mantras e faço orações para o universo em todas as fases de lua e de quebra, ainda ganho estrelas.

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E para finalizar, sou colo do pássaro de todo dia que em minhas noites é aconchego para além da alma. Ali, no varal, pouco antes de deitar ele vem em oferta de carinho e poesia.

Sou quase extensão de histórias que se aninham entre si e fazem de mim o que sou hoje: uma insone nas noites sem lua. E como diz um dos meus poetas queridos Joaquim Antônio: “Eu gosto muito das horas despretensiosas. A beleza mora nelas”.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural – 2019 Participam também desse projeto: Lunna Guedes Obdúlio Ortega Maria Vitória

Lunna Guedes

Post Coletivo – 8 curiosidades sobre a minha vida literária

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Nos últimos anos me tornei singularmente Plural e minha vida literária ficou mais rica  e me vi rodeada de autores contemporâneos com uma escrita deliciosa.

Confesso que fiquei indecisa ao escrever esse post coletivo porque poderia dizer de  diversas maneiras sobre as 8 curiosidades sobre minha vida literária e poderiam se somar e multiplicar e se tornar mais de uma lista.

Desde pequena fui embalada por livros e histórias que minha mãe contava. Lia de tudo. De bula de remédio – que tinha as letras miúdas e minha mãe não enxergava bem – até os jornais que embalavam as compras do mês e que trazia novidades da cidade.

A lista que segue não é definitiva e se for escrever sobre isso de novo, pode ser que não mude nada ou mude algumas coisas. Então, aí estão as 8 curiosidades – nem tanto, para quem me conhece – sobre minha vida literária:

1 — Nunca li e sei que não irei ler:

O cemitério de Praga de Umberto Eco. Juro que até tentei. O livro ficou ali na parte da frente da estante como um convite e não passei da primeira página. Desisti. Esqueci em algum banco de praça de propósito.

2 — Não sinto vontade alguma de ler:

Harry Potter e seus tantos títulos e nomes que nem me recordo agora. Me perdoem os que gostam. Confesso que os livros estão ali, no guarda – roupa do filho e a cada faxina fico pensando se esqueço – os em algum banco ou se pergunto ao filho – que está longe – de quem são para devolvê-los.

3 — Uma indicação recorrente: Lua de Papel. Lua de Papel me levou para a lua. Li e virei lunar. Mergulhei na história e depois disso, toda vez que olho para a lua é de Lua de Papel que me lembro e viajo novamente pelas palavras. Me vejo dentro da história a espiar os movimentos. Aspiro cada página como meu. Sempre dá vontade de ler de novo e quando acontece isso, parece ser sempre a primeira vez. A trilogia me alcançou em grau maior no papel de Alexandra. Lunna Guedes agarrou mio cuore com seu Lua de Papel I, II e III.

4 — Último livro que li:

As Violetas de Março foi mais um dos livros que me conquistou nos primeiros parágrafos por conta da narrativa da autora. Em uma das feiras de livros que um shopping faz aqui a capa me chamou atenção e o cheiro do livro me ganhou. Minha conexão foi imediata por logo ter sentido as emoções em cada palavra escrita por Sarah Jio. Li em quatro dias.

5 — Leria de novo e de novo e de novo:

Lua de papel…. e já emprestei dezenas de vezes os três livros para amigos. Já li e reli infinitas vezes e sempre arrepia a alma e a pele.

6 — Autores que chegaram e ficaram na pele-alma-memória:

Manoel de Barros, Lunna Guedes, Raquel Serejo Martins, Aden Leonardo, Elizabeth Bishop, Manuel A. Domingos, Ana Hartley, Mia Couto e dezenas de outros que me tocaram a alma.

7 — Todo mundo gosta menos eu:

Paulo Coelho. Tirando O Alquimista – que foi uma leitura conjunta com meu filho ainda pequeno, para um trabalho escolar – não consegui ler mais nenhum livro dele.

8 — Uma indicação que me surpreendeu:
Raquel Serejo Martins – Aves de Incêndio foi um presente desde a capa laranja e a poesia encantadora de Raquel a desvendar a asas e a alma.

Agora, abro um espaço para as levezas da vida e se a pergunta for o livro que me marcou… me desenho em Sete Luas. Pela Editora Scenarium Plural onde sete autoras se desnudam nas sete fases da lua.  Um luxo! Recomendo e recomendo.

Sei que gosto cada um tem o seu e como tudo é renovável nessa terra não deixe que minha ideia te atinja. Se você gosta de chá, café, cerveja ou apenas água, o que importa é que brindemos a vida.

Mariana Gouveia
Projeto Coletivo – Scenarium Plural

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 — meus ingredientes!

“Minha mãe cozinhava exatamente:
Arroz, feijão roxinho, molho de batatinhas.
Mas cantava”.
Adélia Prado

 

Minha mãe dizia que a casa começa com as xícaras e o coador de café. Foi dela que herdei esse amor pelo grão que nós mesmos colhíamos e que meu pai torrava, para depois moer e coar. Falar disso é como abrir a janela e respirar o tempero da memória. É como estender a toalha de mesa e espalhar, bem aqui, os meus ingredientes.

— O alimento é a poesia para o corpo! — minha mãe dizia, enquanto ao redor do fogão a lenha preparava os ingredientes para fazer os biscoitos. Aquilo se tornava um ritual, quase uma festa.
Depois da massa pronta, eu e meus irmãos passávamos a enrolar e fazer figuras, enquanto ela fritava. Lembro-me de que havia cavalos, estrelas e letras com as iniciais de cada um dos nomes dos filhos.

O polvilho, nós mesmos fazíamos logo depois da colheita da mandioca. Tudo era marcado por rituais para não desandar a massa e para não azedar o pão. Era preciso ficar na memória o rito da mandioca sendo ralada, lavada e espremida. Daquela água branca, da cor de leite, assentava no fundo das bacias o pó claro que serviria para fazer quase tudo nos próximos meses. Desde o pão de queijo ao mingau. O jirau montado no quintal para secar o polvilho. O tempo certo para o polvilho doce e o azedo.

Repetir a receita e, com o chá de erva-doce, merendar em volta dela. Descrever isso é como voltar no tempo: preparar os ingredientes, sovar a massa…

A memória se volta para o passado e o tempero principal se chama saudade.


Não tínhamos fogão a gás e preparar o forno de barro apenas para assar um bolo era desperdício de tempo e de lenha. Minha mãe colocava a massa em uma panela e a tampava com um prato cheio de brasas por cima.

O tempo de cozimento era o mesmo de um forno convencional, e o cheiro era a fragrância do amor a exalar pela cozinha toda.

Das coisas de que me lembro, vejo minha mãe de cócoras — talvez para chegar à altura da minha irmã caçula — comendo com as mãos. A cozinha rescendia a especiarias das mais diversas ou às ervas frescas que ela colhia na “hortinha” próxima da janela.

A memória busca as lembranças dentro da cozinha. Os temperos traduzem a saudade. Minha mãe sempre foi a figura central daquele espaço. A mesa era sempre larga e grande para caberem os sete filhos e a turma do trabalho da fazenda. Tenho isso tudo vivo em mim, e com certeza foram esses instantes que me fizeram ser o que sou hoje.

O momento da partilha dos pães, o fogo a crepitar no fogão… O cheiro do leite a ferver enquanto queimamos os dedos na ânsia de não deixá-lo derramar sobre a chapa quente. A lembrança fica presa nas coisas, o aroma invade as recordações e a saudade continua a ecoar seus ingredientes.


Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural – 2019
Participam também desse projeto: Lunna Guedes  – Obdúlio Ortega 

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Projeto 6 missivas — uma carta a um amigo

O Homem cansa-se;
o espírito não.
O Homem rende-se;
o espírito nunca.
O Homem arrasta-se;
o espírito voa.
O espírito vive
quando o Homem morre.

 

O Homem parece;
o espírito é.
O Homem sonha;
o espírito vive

O Homem está amarrado;
o espírito é livre.

O que o espírito é…

o Homem pode ser
Mike Scot
(Waterboys)

Já faz tempo que não falo com você e hoje, quando passei na rua que tem seu nome fiquei imaginando como se sentiria sabendo que você tem uma rua toda sua.
Lembrei-me do dia em que colocaram a primeira placa e de como seu irmão segurou minha mão bem forte.

– Cara, ele agora é dono de uma rua inteira! A rua em que ele soltou pipa e brincou de bola de gude. A rua em que ele caiu e ralou todo o joelho e namorou com a menina mais linda da cidade naquele canto.

A gente riu e chorou e mais uma vez repeti como te conheci e como fomos parceiros no rádio uma vida inteira. Uma vida que durou o tempo de uma curva e um sopro te levou. Os intervalos eram tão caros para o cliente e tão baratos para nós e você conseguia o meio termo. A roupa da loja de tecido, o tênis que você desejou a vida toda… o cartão transporte gratuito – infiniiiito para uma vida toda – e seu grito ecoava nos corredores.

Ali, não tinha um que não tivesse uma história com você e depois que tudo passou fiquei eu, só, na sua rua. Relembrei cada instante dourado de nossas vidas. O dia em que sua mão me ofereceu parceria e nem meu nome você sabia. A marmita com ovo frito e a parte maior oferecida sua para mim com ombro de amigo.

Isso foi bem antes de você ganhar uma rua com seu nome…

O ônibus que pego passa todos os dias por ela e nas madrugadas as placas com seu nome escrito me levam para além do rádio – nossa paixão – e como nossa parceria era divertida. E de como a vida ficou vazia sem você.

A compota de laranja que o pote escondia e você dividia na delicadeza do abraço. O microfone dividido, as canções escolhidas e o riso que era seu companheiro rotineiro. E a reciclagem que você fazia no caminho a pé com as latinhas – e que virou seu apelido. E se pudesse te chamaria a vida toda de Divisão. Você era pura divisão de amor.

Nunca te vi triste e essa leveza você carregava e fazia leve quem te tocava.

O rádio nos ligou e quantas vezes dessas janelas – da foto – a gente ria de qualquer bobagem. Dávamos apelidos para quem passava lá embaixo, na calçada.
Eu, a menina caipira que escrevia as coragens que você narrava e você o menino do girassol e dos cabelos ao vento que trazia a magia na voz. Uma voz que ecoava estado afora.

Um vento te levou para além das ondas do rádio e hoje você foi saudade no meu coração. Te senti de leve quando meus olhos avistaram seu nome na placa de rua.

Moço, moço!

Mais do que duas janelas você tem uma rua que é só sua.

Saudades!

Beijo molhado de carinho (frase nossa ao terminar o programa Todo sábado é de festa – Radio A Voz do Oeste)

*minha homenagem ao meu amigo de um infiniiito inteiro Edson Luís da Silva. Radialista que foi soprado pelo vento em um acidente de carro ocasionado por um motorista embriagado.  A rua com nome dele citada fica na avenida principal do bairro Tijucal, Cuiabá – MT

Mariana Gouveia
Projeto Uma Carta por mês –
Editora Scenarium Plural Editora — uma carta a um amigo
Participam: Lunna Guedes |  Maria Vitória | Adriana Aneli | Obdulio Nunes Ortega

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 – Nós dois

Procura-se…. Pessoa feita triste por verbos pretéritos e palavras ouvidas.
Alguém que seja capaz de se surpreender com gestos incompletos e actos falhados.
Pede-se o favor de responder através de um sorriso vago que possa ser tudo.
Nuno Camarneiro  


Parecia tão distante a palavra nós dois. Eu, tão acostumada a ser só e resolver tudo só, de repente, vejo uma mão estendida me indicando caminhos.

Em alguns horizontes você me mostrava a direção. Era como se ali, tão cúmplice e parceiro estava o amor.
Tão sombra e tão presente. Nós dois! Quase um em meio a tantos.

A realidade sendo constante na sonoridade dos dias. A imagem registrada, era você e sua amizade mais atuante junto ao amor.

Com o passar dos anos, os olhos complacentes diante de minhas aventuras e de como os poemas faziam parte do espaço onde existimos… o poema é sempre sua mão estendida e seu ombro de amparo.

Basta saber de você ali… onde seu riso é parte principal de minhas rotinas.

Esvazia os meus dias da solidão dos poetas e é silêncio quando minha alma grita nas solidões tantas.
Não é só de amizade que falo, nem de companheirismo – esse tanto de espelho refletido no peito – onde o jardineiro do jardim cuida dos arredores dos quintais. Onde o dedo aponta o céu e os passos me seguem para além das cartas e de outros amores.

Mais do que as infinitas possibilidades nós dois somos o amor.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural – 2019 Participam também desse projeto: Lunna Guedes  – Obdúlio Ortega  Maria Vitória

Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

Post Coletivo de Janeiro / Meu Livro Proibido Favorito

“Qualquer forma de amor que encontre…
Viva – o”
Anais Nin

 

Quando Delta de Vênus chegou na fazenda, no ano de 1979, enviado juntamente com outros livros pela minha avó materna percebi que minha mãe ao folhear mudou o semblante e o colocou na parte mais alta da prateleira, onde nenhum de nós alcançaria.

Sabendo que aquilo atiçaria ainda mais a nossa curiosidade disse que era um livro proibido para menores e que havia sido enviado por engano para a gente. Era visível o constrangimento dela, que ainda nos achava pequenos demais para falar de sexo e falou isso tudo meio cifrado. Ainda não era a hora e ai de quem ousasse pegar o livro sem autorização dela.

Aquele livro virou o centro das atenções todas as vezes que sentávamos para ler, e distraidamente um dia, minha mãe o deixou em cima da mesa enquanto procurava o livro certo para cada um e meus olhos passou ligeiramente na primeira página.

“Ele as levava tão alto, fazia – as girar tão depressa em sua série de encantamentos, que em sua partida era como se houvesse algo semelhante a um voo”.

Busquei entender o que havia de estranho na história que seria proibido para a gente além de uma história de amor. Fui reprimida por questionar e o livro foi levado quarto adentro e ali, onde não sei, foi esquecido.

Só fui ler Delta de Vênus quase 16 anos depois. Não sei se movida pela curiosidade do filme que era comentado entre os colegas de faculdade e que não vi. Talvez ainda sentisse na pele a reprimenda de minha mãe ao ler os contos e pensei que ela comparou com as histórias das moças da Rua do Meio da cidade e que movia o nosso imaginário nas conversas dela com as comadres.

Delta de Vênus foge do romantismo que julguei lá ainda na minha meninice, só por causa de uma frase e embora compreenda que a exigência do patrocinador fosse isso, o erotismo carnal, em seus diversos modos foge do tradicional e vagueia em suas nuances diversas com base na sexualidade.

E se você gosta de sexo sem pudores e de literatura de qualidade que foge do convencional, originados na mente de uma mulher excepcional à frente de seu tempo, arrisque-se neste Delta de Vênus.

Este post faz parte da postagem coletiva e participam deste projeto os escritores: Lunna Guedes –  Ale Helga – Fernanda Akemi  – Gustavo Barberá – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes – Fernanda Akemi –  Maria Vitória

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 – Urban art (arte urbana)

“Porque amar é uma arte e nem todo mundo é artista”.
Renato Russo

Querida A,


Já te contei que minhas ruas possuem o encanto dos artistas de rua? Quando passo em frente a uma obra penso em como você decifraria a história da peça, do quadro, dos muros pintados ao longo de avenidas.

Às vezes, as ruas contam lindas histórias de amor. As declarações são repetidas ao longo de uma avenida, uma parede mal conservada e ali, o artista expõe sua arte e inspiração.
Muitas vezes, fico imaginando se fez o efeito esperado quando a pessoa se “vê” na frase, nas imagens e no desenho.

Saberia o Fred que Tati Ribeiro o ama tanto? Ah, minha cara, eu adoraria saber e por vezes, ao passar nessa rua me vejo tentada a dizer o que teria acontecido com eles. Chego até a criar a história e um final felizes para eles.

A moça da janela da rua de cima parece que está sempre à espera de alguém e logo duas casas acima, os corações colorem um muro inteiro. Devo confessar que já desenhei com os dedos no ar seu nome dentro de um deles.

Mas, o amor é assim, minha querida. Nos leva por caminhos diferentes e faz com que a gente embarque nas histórias que vemos por aí.

A arte tem essa leveza de explicar com mensagens, o que na verdade trazemos dentro de nós.
Beijo,

Mariana Gouveia

Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural – 2019
Participam também desse projeto:
 Lunna Guedes  – Obdúlio Ortega 
Maria Vitória

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Projeto 6 missivas — uma carta a um desconhecido

Embora não saiba seu nome eu a vejo todos os dias. Meu horário combina com seus rituais de abrir as portas do seu lugar de trabalho.

Há sempre um cão a te acompanhar e seu olho vasculha o ponto de ônibus onde estou. Não chego a ouvir tua voz – o que me faz pensar em como você se dirige ao cão que te atende ao primeiro chamado.

Há tantos anos sua maneira de abrir as cortinas já é conhecida. O cabelo esvoaçante e as portas de correr sobre tuas mãos. Pudesse eu atravessar, atravessaria a faixa de pedestres e te daria o abraço que às vezes, sinto que você procura.

Moça, você desenha unhas, pele e embeleza a alma. Te vejo leve nas manhãs e nas tardes, quando volto, sua figura aparece para mim como um vulto. Às vezes, a sinto cansada. Em outras, você é pura alegria – chega a arrancar um riso aqui também – parece que dança enquanto manipula a tesoura, o secador, as agulhas.

Já desejei saber teu nome para te ligar e dizer que sei de sua luta diária.
Sou apenas aquela que te espia e de longe te admira diante da leveza com que carrega a coragem de todo dia.

Mariana Gouveia
Projeto Uma Carta por mês –
Editora Scenarium Plural Editora – uma carta a um desconhecido
Participam: Lunna Guedes |  Maria Vitória | Adriana Aneli | Obdulio Nunes Ortega

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 – Preto & Branco

 

“Era preto e branco,
Mas meu coração sorriu”.
Wanderly Frota

Contava o tempo dentro das horas. O jardim acontecia nos olhos de quem não via, mas podia tocar e sentir no toque a maciez da pétala. Nunca havia visto um coração, assim de tocar de perto ou atingiu o âmago de um. Podia sentir na boca o gosto de um sabor agridoce.  Quando ouvia a palavra coração podia sentir na pele a magia da mão dela. Quando ouvia falar de cor, só conseguia entender as nuances em preto e branco.

 

Havia escutado em algum quintal que a chuva não tinha cor… com isso, imaginava sempre que as levezas das gotas pertenciam a alguma ave que percorria o céu na dimensão do seu lugar. Podia tocar se quisesse o beijo que tocava a flor e que tinha o nome tatuado nas costas, como se com isso pudesse eternizar momentos.
Descobriu que podia.

Desde pequena conhecia a lenda das linguagens das mãos. Tocava em tudo que é bicho. Conhecia o princípio e o fim dos toques. O dedo a ser pouso e indicação: Siga por ali… o caminho é o meio. E a vida, às vezes, é feita em preto e branco e o que é lenda – a mãe dizia – nunca tem cor. 

Não conhecia o caminho do mar e nem nunca pisara na areia para que a maresia banhasse a pele dela… Sabia que era marítima! Isso sabia. Bastava fechar os olhos e os ouvidos a enganava.  Podiam até enganar o olfato, o tato e quase todos os sentidos… mas a audição não possuía cor. Era preto e branco quando os pés se arriscavam na queda leve da correnteza do rio… era com isso, o sempre ritual do encontro dela com o mar.
E para isso, bastava apenas tocar as estrelas. Do mar.

A ausência da cor gesticulada na mudez das aves. Ninguém explica o azul celeste – é o céu – e a garoa fina que atravessa a janela e cai em meu colo como se fosse uma novela em 3D. A estante ampara as coisas que leu em um livro aqui, outro ali… tudo sem cor, escondido em gestos.  A mãe entendia o sorriso leve quando fechava os olhos e tocava o vento no verbo amar.

Contava o tempo dentro das horas. Sabia definir o caminho e as rotas sem perigo no quintal. Bastava seguir os tecidos fiados nas teias do caminho. Era bem ali, no quadrante leste que a cor começava a fluir. A tábua sem cor, na passadeira entre o rio e a cerca – o arame farpado sem cor – na travessia da floresta. Era o nome um abandono completo de pele e a bússola a decifrar rotinas no mapa. Sabia a direção que podia tomar para a direção das cores… fazia meia volta e em sinal de fé, buscava a vida em preto e branco.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural
Participam desse projeto:
Ana Claudia – Anália Boss – Claudia Leonardi – Fernanda Akemi – Luana de Sousa – Lunna Guedes – Mari de Castro – – Obdúlio Ortega 
Maria Vitória