Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

BEDA – ‘o que o café te faz lembrar?’

Meu cafezal em flor, quanta flor meu cafezal
Ai menina, meu amor, minha flor do cafezal
Ai menina, meu amor, branca flor do cafezal
Era florada, lindo véu de branca renda
Se estendeu sobre a fazenda,
igual a um manto nupcial
E de mãos dadas fomos juntos pela estrada

Toda branca e perfumada, pela flor do cafezal
Meu cafezal em flor, quanta flor do cafezal
(Cascatinha e Inhana)

Bambina mia,

Desde que chegou até a mim sua pergunta as lembranças vieram desfilar em minha mente. Primeiro, me lembro das flores brancas a enfeitarem os pés de café e em noite de lua cheia, da janela com as cortinas esvoaçantes era a coisa mais linda de ver. Depois, a memória me leva para a tua cidade e capto ali, o que o sabor busca dentro de gente: alma. A fazenda ficava ao pé de uma colina e havia dois tipos de roça – a de toco ( feita depois de uma queimada programada, em uma parte do terreno, onde plantávamos milho, feijão, quiabo, abóboras e legumes variados) e a do terreno preparado para a plantação de café. Quando a florada acontecia, meu pai suspirava e dizia que aquilo parecia um buquê de noiva com cheiro e tudo. Os olhos dele refletiam a singeleza e a magnitude da beleza que a gente via.

Era um dia comum e em uma noite qualquer. E como mágica, a flor acontecia e o café era abençoado por ele, que tirava o chapéu da cabeça e em reverência ao céu curvava à terra. Dias depois, o fruto verde começava a se desenhar, para logo em seguida o vermelho tomar conta de tudo.

Na frente da casa… o terreiro era preparado para a acolhida e a secagem. Passávamos horas a rastelar os grãos para a secagem completa.

– Agora vamos embalar, acolher os grãos para seu destino – dizia ele, feliz com a cor esparramada no quintal – e com isso, o saco de aniagem era o ninho dos grãos separados por grupos.

Dentro da simplicidade dele, sabia e conhecia a especificidade de cada grão e em seu toque de mão acariciava o café, levava ao nariz, aspirava o cheiro e com um gesto de separação costurava o saco. Os especiais, eram escolhidos para as sementes de futuras plantações e outros saiam dali direto para o torrador e depois disso, o moinho e o cheiro exalavam em toda a casa. Hoje, as lembranças me abraçam dentro da palavra amor. Era isso que meu pai gostava de fazer. As canções que falavam de café cabiam em sua boca como declaração de amor genuíno. Muitas vezes, repetia que os pés plantados ali em 10 hectares era o ouro verde/vermelho e negro e que a simbologia daquilo tudo era nossa vida.

Tudo era parte de um ritual que começou lá, numa fazenda do interior de Goiás… na escolha da semente até chegar no líquido fumegante na xícara esmaltada verde com florzinhas vermelhas. O bule fazia parte do jogo que pertencia a mãe de alguém desde não sei quantas gerações.

Talvez, essa mesma lembrança se junta às que eu vivi em tua casa. O ristreto exalando corredores inteiros, o barulho da cafeteira e a xícara servida a mim para dividir algo tão teu e de tuo menino: seu lugar. A mesa na cozinha, o cão a rodear minhas pernas e o aconchego de colo que parecia que eu já havia vivido isso antes.

A cidade ainda dormia – ou estava mais acordada do que nunca – e os títulos dos teus livros me levaram para a fazenda de meu pai e o cheiro do café a evocar lembranças.

Tudo isso se mistura em mim como um gole saboroso de café, servido na cozinha da casa de pau a pique, na fazenda ao pé da colina e o sabor do café feito por você e entregue em mãos com olho de acolhida.

Grazie por tantas lembranças! Grazie por existir em minha vida.

Bacio,

Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural Que tal um café? – Scenarium Plural Editora
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.


Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

BEDA – Carta à Alice, no País das Maravilhas

Alice: Quanto tempo dura o eterno?
Coelho: Às vezes apenas um segundo.
(Alice no País das Maravilhas)

Lewis Carroll

Querida Alice, embora eu viva no seu mundo, você quase não conhece o meu. Com exceção de uma rainha de copas que anda rondando minha vida, em mim quase tudo é maravilha.
E devo isso a você.

O seu sonho adentrou dentro do meu sonho e ganhou asas. O tempo, esse tão curto que o Coelho avisou, passou ligeiro por aqui. – nem vi meu filho crescer. Hoje, olho do lado e vejo um homem naquele menino que ensinei as primeiras palavras – nem percebi o som da fala, o bigode desenhado. Eu sempre vi ali, um menino. O meu menino. Que ganha asas e voa pelo mundo, independente de mim. As paredes me apertam aqui, Alice. E sufocam meus pensamentos na ligeireza dos dias. E beber o líquido da vida me faz tão pequena. No mundo falta água. E vejo aqui, onde moro, o desperdício dessa bebida tão essencial. Um dia aprenderemos? – sei lá! Tenho medo! –
Acho que não.

Mas ainda assim, no dedilhar dos meus dias maravilhas me alcançam onde passo. O riso solto de uma criança. O voo do meu beija-flor Chiquinho que me visita todos os dias de manhã, como se despejasse em mim no seu cantar a maravilha de viver.

Os animais me perseguem como a ti, Alice. Tenho aqui no meu quintal libélulas dançantes no varal onde minhas roupas dançam para secar. Borboletas pousam entre o aconchego de minhas mãos e na delícia dos dias vejo uma maravilha de gente na vida. Vejo-me nas metamorfoses das rotinas e sou invariavelmente rompedora de casulos de sonhos, de vontades e de desejos.

Dentro dos meus sentidos, Alice, percebo as coisas que acontecem ao redor como se eu fosse uma personagem viva dessa história. Converso comigo mesmo e isso acontece com frequência, o que causa uma certa estranheza no meu cachorrinho que procura por pessoas invisíveis e abana o rabo como se me considerasse louca. Por falar em louca, me vem à cabeça a rainha de copas que vive rondando minha vida. Mas como o próprio Coelho amigo seu disse: “os poços da fantasia acabam sempre por secar e o contador de histórias, cansado tentou escapar como podia: o resto amanhã…Já é amanhã!”

Então, vamos lá, Alice…Viver a vida esperando que o resto seja hoje porque o eterno dura apenas esse breve instante de viver.

Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural O mundo de Alice – Scenarium Plural Editora
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

BEDA – A viagem que não acaba nunca

“Antes eu não sabia
porque é que se deve
– dia após dia –
andar sempre em frente
como se diz até 
o corpo aguentar. 
Agora sei. 
Se vieres comigo 
digo-te”. 

José Agustín Goytisolo

Bambina mia,

Espalho na mesa as fotos e lembranças que trouxe das viagens que fiz. Os roteiros e bilhetes – alguns amarelados pelo tempo – outros, tão recentes que ainda tenho na ponta do dedo a textura da presença, do lugar…
Muitas vezes, a viagem foi logo ali, depois da ponte – a bordo da linha 55… mergulhava dentro de outra cidade – e nessa cidade. Na casa de uma pessoa viajava pelo mundo através de suas histórias. Embarcava rumo aos sabores e perfumes de ruas desconhecidas, desenhadas apenas para mim. Era como se tivesse cruzado o oceano e mergulhado nas ruas de Paris. Até que em uma dessas viagens, nos perdemos em um aeroporto qualquer. Foi bom para o aprendizado de alma e de que o caminho se faz caminhando.
Algumas das vivências foram em aldeias indígenas levada pela mão dentro do olho do pajé ou cacique. Encantei-me com as crenças, a cultura e um mundo novo. A natureza fazendo um país no peito. O respeito pelo outro e o ensinamento de que tudo tem uma razão definida e disso não podemos fugir. Haverá sempre um trem chamado destino e que tem passagem certa entre nós. Estaremos prontos para embarcar e a aproveitar a viagem?
Viajei também pelo amor… esqueci as palavras e fiquei com o som das gotas de chuva e dos trovões, que me fizeram chamar por seu nome. Senti o calor dos raios de sol que rasgam intensamente as nuvens e imaginei a pele a sentir o toque.
Abri os braços… abracei o vento… fiz castelos na areia… mergulhei no mar e no campo, senti o cheiro das flores dentro da estação…
Passei noites a espiar a lua e vivi as loucuras da noite. Através das ondas do rádio viajei pelo mundo inteiro. Fui peregrina da fé… adentrei em igrejas e castelos. Sobrevivi aos corredores das dores e saí dali cheia… de poesia.
Viajei até você também… e a bordo da palavra sonho: toquei a realidade. Da sua sacada… eu vi a noite de sua cidade e mergulhei madrugada nas suas calçadas. Senti o frio da garoa e te abracei em sua rua. Ouvi as canções que você cantarolava e com seu menino aspirei o aroma do café servido na xícara que tinha um coração.
Mas há uma viagem que me chama… que me obriga a fazer as malas… e mapas que trago na memória – feito tatuagem. Trago na pele o arder de um sol diferente do meu e o vento me espera para tocar folhas altas. Sou passageira dessa nave e o embarque se aproxima. Em breve parto para essa viagem… a que eu ainda não fiz…

Vamos?

Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural Wild Nights – Scenarium Plural Editora
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

BEDA – Carta ao amor

Querida minha,


O dia acontece sem demora. A chuva antecipa a vagareza nos gestos. O guarda-chuva quebra e o vento leva o pedaço rumo ao muro gigante da rua de cima. E eu me lembro de você sempre que alguém assovia uma canção conhecida – que liga tua vida à minha e faz com que o som pareça ecoar dentro de nossa história.
O acaso, é essa fotografia que vejo dependurada na parede e tem suas iniciais gravadas no peito, enquanto a trovoada acontece lá fora… As gotas, trovões e um pedaço do céu a alaranjar no Oeste – são gritos de sua alma na minha.
Ainda sinto o tatear de suas mãos a tocar-me com o desejo nos gestos. Vejo vestígios de um sapato na enxurrada e teu sotaque e relembrar uma curva do mar em que os calçados continham liberdade de alguém. Bebo a chuva na palma da mão. A madrugada tem o dom de perdurar dentro das manhãs sonolentas. O sabor agridoce na boca dos teus sabores em mim. A leveza da pele úmida de vontades e ainda o encontro que não veio – e eu apenas o imagino…

Na volta, a chuva já se foi e o dia tem aspecto de inverno. Apenas a palavra da estação vibra em mim e penso nos instantes mágicos madrugadores que a gente viveu. Na memória, sua pele trouxe a leve ironia das manchinhas nas costas. Nem era de Deus essa pele com pintas, onde desenhei nas pontas dos dedos o mapa imaginário do teu lugar.  Sinto que estou em você, e pensando nisso me aninho em teu colo como miolo de flor.

Me coloquei dentro das histórias de um outro país que você já visitou. Não era seu perfume que exalava… era a rua de alguma cidade estranha e suas lâmpadas a iluminar as sombras nas calçadas; sou levada dentro da história e respiro a canção… 
Lembrei-me da dedicatória de um poema seu. O vulto das suas letras em carvão quase desenhando corações nas rotinas do dia. Fui me desmanchando nas suas poesias como líquido que escorre afoito feito rio que deságua no mar…
Era pouco, tão pouco ali o mar – tão imenso em seu alcance com o céu – a beijar o sol com suas rotinas de aves e gaivotas. Era pouco – e era tanto e quanto aquele rio pedinte de toque, de encontro. E no pulsar das margens que o ladeiam, o suspiro, e era tanto – um mar de saudade – um rio de água doce de vontade nos gestos dos dias. O avesso do mundo é essa lonjura nos mapas que vi nos livros de histórias onde te invento uma história com final feliz para nós duas.

Beijo

Mariana Gouveia
*imagem: Ines Rehberger
Carta publicada na Revista Plural Erótica – Scenarium Plural Editora
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

Scenarium Livros Artesanais

leu… está lido!

Há livros que te alcança a pele, a alma e o coração. Alguns são passageiros. Outros, você lê e eles seguem seu rumo, seja num cantinho da estante, ou mesmo em um banco na praça. Logo quando leio e a história ganhou vida em mim eu o “esqueço” em um banco de praça ou no banco do ônibus. Virou coisa comum esquecer livros em algum banco, numa loja, por aí…
Mas, tem livros que ficam para sempre, para que esteja sempre ao alcance das mãos, como se fosse uma bíblia, e volta e meia você o busca e entre uma xícara de café e os pés descalços, ganha nova cor, outras sensações e são infinitos dentro da alma. Porém, há livros que passam por nós como uma nuvem. Você leu e está lido.

Lembro-me que meu irmão trouxe um livro quando retornou de uma viagem – O perfume, história de um assassino, de Patrick Süskind. Como sempre era eu quem lia primeiro passei alguns dias nessa leitura e embora tentada a parar algumas vezes, consegui terminar.

O livro conta a história de Jean-Baptiste Grenouille, dono de um olfato apurado, péssima aparência e de poucas falas, ele descobre nos cheiros e aromas do mundo o sentido de sua existência. Rejeitado desde seu nascimento, quando foi abandonado pela mãe junto a restos de peixes em um mercado, também é uma pessoa que não exala cheiro, que não se emociona, que cresceu como um animal que “fareja”, e que não apenas desconhece os nomes dos odores que identifica, mas também de tudo aquilo que se constitui humano.

Para mim, a leitura foi como um sonho surreal, desses que você acorda e tem a sensação de que viveu alguma aventura, alguma coisa insólita. Não posso contestar a maneira que o autor usa os adjetivos nas descrições dos aromas e nem de como sua escrita ganhou a proporção de “unanimidade” que virou até filme. Nem estou aqui apontando o dedo para quem gostou. Dentro desse contexto, nem é resenha o que escrevo, é apenas minha opinião mas pelas sensações que o livro me causou do que propriamente pela escrita.

Lembro-me apenas da sensação que eu sentia ao ler e perceber que os aromas tão detalhados me faziam sentir pavor. A história não me ganhou, mas algumas partes do livro ficaram em mim até hoje, e é claro que sempre quando sinto um odor mais forte, o livro volta a memória.

“… as pessoas podiam fechar os olhos diante da grandeza, do assustador, da beleza, e podiam tapar os ouvidos diante da melodia ou de palavras sedutoras. Mas não podiam escapar ao aroma. Pois o aroma é um irmão da respiração. Com esta, ele penetra nas pessoas, elas não podem escapar-lhe caso queiram viver. E bem para dentro delas é que vai o aroma, diretamente para o coração, distinguindo lá categoricamente entre atração e menosprezo, nojo e prazer, amor e ódio. Quem dominasse os odores dominaria o coração das pessoas.”

Cheguei ao fim do livro apenas empurrada pela curiosidade de ver o final.  Enquanto para muitos o livro foi memorável, inclusive para meu irmão, para mim, li e está lido.

Mariana Gouveia
Texto coletivo
Scenarium Plural Editora

Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Havia um jeito de ave no meu peito.

O voo cego. O pouso em qualquer canto.
A gaiola dentro das entranhas, prendendo a liberdade de respirar.
A falta não respeitando lembranças.
Objetos que são marcas que ela deixou.
O sentido da vida na posição morta.
O mapa sem rotas certas.
Apenas a falta.
Havia um jeito de ave no meu peito.
O voo cego. Sem ninho para pousar.

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das quatro estações.
Scenarium Plural Editora

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 — Através da minha janela, eu vejo!

Da minha janela, os dias se escrevem com asas.

Tão logo amanhece – muitas vezes antes dele amanhecer – eu recebo a visita de Chiquinho – meu beija-flor – e minhas janelas se enfeitam com seus pousos e voos rasantes. O dia começa determinado em asas e cantos.

Das minhas janelas tenho a visão do quintal todo que é composto de dois pés de ipês – um rosa e outro amarelo onde os pássaros fazem festas, um pé de algodão, a caixa com ervas, a escada que leva ao telhado, a moita de maria-sem-vergonha para as borboletas e um céu imenso, colorido de cada dia com suas nuvens parecendo potes de algodão.

Também vejo os varais onde estendo as roupas e disputam atenção com os cambacicas – os quais chamo de intrusinhos, pois roubam a água de Chiquinho – e transforma o quintal em uma luta por espaço.

Com o olhar estendido, além dos muros, a mangueira soberana do quintal da casa de frente tem me proporcionado visões que eu não imaginaria, nesses tempos de quarentena e que se tornaram rotinas: tucanos que colorem a minha visão através da janela.

Para além das laterais, meus olhos vigia o céu, com suas nuvens e quisera eu não ter os telhados vizinhos que me podam algumas visões depois do sol nascer e também dele se por. Seis fotos são poucas para que eu traduza o que meus olhos veem através de quatro janelas pequenas, com grades entrelaçadas. Ficaram de fora as libélulas, os hibiscos, as lanternas chinesas e o trevo de quatro folhas de três espécies diferentes. Além dos bem-te-vis que roubam a comida dos cães.

Mas eu não poderia deixar de colocar a lua, que lindamente em suas diversas fases atravessa o céu do meu lugar e se acomoda entre os hibiscus mutabilis como se buscasse moldura para enquadrar sua beleza.
Foram seis meses, onde sob o olhar e direção de Lunna Guedes, da Scenarium Plural Editora compartilhei fotos que retrata parte de minha vida, do meu lugar.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Scenarium Plural Editora

Participam desse projeto:
Darlene Regina — Isabelle Brum — Lucas Buchinger
Lunna Guedes — Obdulio Nunes Ortega


Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – — Quem sou eu?

É a pergunta que me faço às vezes, e sempre que encontro a resposta vem logo outra pergunta, porque me vejo mutante, várias. Depois de uma poli quimioterapia virei poli. Poli gratidão, poli esperança… poli amor. Passei a vivificar os dias e me permitir essas mudanças que os dias e as ocasiões me apresentam todos os dias.

Enfrentar uma doença grave me fez mais forte. Me fez mais leve, mais corajosa diante da vida. E dos dias. Às vezes, eu choro e rio. Às vezes, eu rio e rio – às vezes, mar – maresia sem nunca ter sentido a sensação de sal na pele, mas com o sabor na boca a programar saudades, vontades. No tato com a natureza sou pouso. Aprendi a ser escolha e minha escolha foi ser livre. Na beira do abismo você tem opções: ou pula ou volta…eu escolhi voar.

Sou a natureza viva e colo para os que querem pouso… Sou a natureza e a liberdade de amar os animais.

E sou pouso para os amigos e amparo. A que acolhe e é acolhida.

Sou a vivacidade delas, sou a militante, a que pontua, se mostra, se doa e recebe. Sou abençoada pelas pessoas que o destino coloca em meu caminho.

Sou a que escreve e a que lê… a que aprende e sempre busca mais. Sou alma, palavras e verbos. Essa, sou eu… com as nuances de um conjunto de pessoas, de animais, de amor e fé.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Scenarium Plural Editora

Participam desse projeto:
Darlene Regina Lunna Guedes — Obdulio Nunes Ortega

Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

b.e.d.a – Tenho um dragão de estimação.

A fresta da janela dava para o céu.
Dentro da noite, quando a lua acontecia
no ponto sul do quintal,
… invadia o meu quarto.
E alguns fenômenos estranhos aconteciam
no espelho do guarda-roupa.
O dragão das histórias ganhava vida.
E eu dormia abraçada com a lua.

Mariana Gouveia
Projeto Sete Luas – No cais Outra vez
Scenarium plural Editora
*imagem: Jade Danielle Smith

*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.


Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

b.e.d.a – Rituais

Quando pequena, aprendi a fazer certos rituais.
Cortar os cabelos para crescerem mais rápido.
E, nas noites serenas de sextas…
Acender a fogueira para revogar a graça de tudo,
e podia ser colhido.
Unir agulha,
linha e pano branco para cerzir as quebraduras

Mariana Gouveia
Projeto Sete Luas – No cais Outra vez
Scenarium plural Editora
*imagem: Ahndraya Parlato

*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.