Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

b.e.d.a – Rituais

Quando pequena, aprendi a fazer certos rituais.
Cortar os cabelos para crescerem mais rápido.
E, nas noites serenas de sextas…
Acender a fogueira para revogar a graça de tudo,
e podia ser colhido.
Unir agulha,
linha e pano branco para cerzir as quebraduras

Mariana Gouveia
Projeto Sete Luas – No cais Outra vez
Scenarium plural Editora
*imagem: Ahndraya Parlato

*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

b.e.d.a – Dentro

Ph: Pinterest

Rebatizei meus silêncios de palavras suas.
Revivi orgias inteiras, plenas, dentro de tua pele.
Era isso que eu chamava de entranhar mesmo quando não estava dentro.

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium plural Editora

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b.e.d.a – Cor de anil

Tinha cor de anil a manhã que te escrevi… tudo azulava como se fosse pintura.
O sabonete, no lugar dele em estado de pouso.
O cheiro a invadir tudo que é canto. Lembrei-me de sua pele que nunca toquei, e das diversas vezes que chorei ao dizer seu nome.
Tudo era esse seu gesto no gostar e suas frases eu escrevi no espelho. Mas lá fora tudo era cor de anil, As trapoerabas se espalhavam ao redor do pé de boldo. Cresceram ali, sem ninguém plantar. Era quase uma infinita coleção de flores espalhadas no quintal.
Fiquei horas ali, a espiar.

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium plural Editora
*imagem: Stavros Stamatiou

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Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

b.e.d.a – a palavra amor

Eu não podia estar melhor dentro da palavra amor. Ela faz com que eu abra a porta com poesia.
Levou-me dentro do paraíso do seu nome. Mostrou-me para sua cidade pelos olhos dela. Foi esse dia em que eu estava sem ter ido.

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium plural Editora
*imagem: Nhu Xuan Hua

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Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

b.e.d.a – saudades…

Engulo sua ausência com café frio. Uma garoa que não existe aqui, cai agora.
Era quase um ciclone a ecoar dentro do peito.
Avisto a saudade no espelho. Bem ali onde o coração alcança.
Repito o nome dela dez vezes. Canto a canção que ela gosta.

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium Plural Editora
*imagem: Claude B. Tenot

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Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

b.e.d.a – O dia rompeu com seus azuis…

A cor preferida dela. Lembro que amava meu céu, e quando eu o descrevia com os detalhes que ela não conhecia, a sua voz ganhava cor de alegria.
Uma libélula pousou no meu varal. Ganhou equilíbrio contra o vento e ficou. Era nessa hora que eu te ligava para escrever o encantamento da cor.
Ainda repito os mesmos gestos, mas só por costume, sei lá.
É estranho continuar tudo igual e não ser mais o que era. O dia segue nas rotinas das coisas.

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium plural Editora

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Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

b.e.d.a – Há asas espalhadas…

em tudo que é pouso,
havia um vento feito de dança.
O rádio tocava uma canção antiga.
Os meninos ainda na rua e o barulho da bola no muro da frente.
Na ponta do telhado, a lua segue seu destino. quase indiferente à saudade que arrasta o pensamento e o coração.

Mariana Gouveia
Projeto Sete Luas – No cais Outra vez
Scenarium plural Editora

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Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

b.e.d.a – Descobrimento

O dia segue a rotina das lendas no diário…
Havia uma carta, escrita com letras miúdas, que contava a história.
Alguém em algum lugar comemorava o dia da Terra. Outro, na aula de história, contava sobre o descobrimento do país. Ela lia mensagens de um lugar distante.
Abriu o baú das memórias … lembrou-se do aniversário da amiga. Cantou canções da infância. Visitou com isso os bosques e sua história. Calçou o chinelo da propaganda e foi ali viver.

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium plural Editora

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Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

b.e.d.a – em solidão peculiar

N’outro dia, ao atravessar a rua
– em solidão peculiar –
avistei um pequeno traço de lua no céu…
um risco prateado – o teu sorriso dentro da
imprevisível quietude das coisas

Mariana Gouveia
Projeto Sete Luas – No cais Outra vez
Scenarium plural Editora

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Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

b.e.d.a – Carta a Al Berto

Fala-me tu do Amor…
e dessa coisa esquisita que é o tempo com quatro dedos de distância entre o ardor das línguas e a asfixia dos corpos.
Fala-me tu do Amor e desse desejo que arrasta a proximidade que anula todos os intervalos em pequenas existências que de tão insignificantes desaparecem numa doçura e amargura.

Conta-me do constante faz e refaz, de ressuscitar e morrer, de adormecer e sonhar, do conforto da luz dos dias na realidade que nos mata. Porque do Amor também se morre e também se vive, como alimentação programada às calorias necessárias para respondermos.

Al Berto

Caro Al Berto,

Aqui trovoa e Cássia Eller canta e recanta ETC no celular… eu poderia endereçar essa carta para além-mar e dizer que era ali, diante das telas, que suas poesias reverberam em minha pele. Onde você era voz, quando eu queria gritar de amor? Onde quando você era escrita e eu arrepios? Quando os poemas que você escreveu há tanto tempo poderia causar o caos em meu interior e assim fazer minha alma flutuar nas memórias de amor?

Aqui chove e eu penso que o infinito devia ser feito de tardes de chuvas. O cheiro da terra a invadir os quartos e as cortinas dançam ao som do vento. Você adoraria conhecer o vento que mora no meu quintal e é bem ali, na curva do muro que o ipê solta o dourado de suas folhas. Daria bem um poema seu, meu caro…

Queria compreender todos os oceanos e dizer-te que em minha casa as aves nascem nos vasos onde brotam as orquídeas e que há dias em que a solidão é mais cruel e você sabe do que falo.

Sabe, Al Berto… escrever-te é como acelerar o tempo do mundo e você é poesia dentro desse tempo… A louça por lavar e a chuva a invadir a sala com sua atemporalidade e eu a imaginar esse diálogo único… Já suspirei lendo o que escreveu há tempos atrás e é tão atual em mim. Já respirei na porta da cozinha enquanto o cheiro das ervas do meu quintal chama meu nome através da essência bruta de viver… é bem ali que quero morrer dentro de sua overdose de beleza.

Os homens que você citou em seus poemas são os que matam hoje em nome do amor e por isso, tantas vezes perdi o rumo de casa e fui ser alento em algumas esquinas levando o verbo para quem perdeu a fé e meu silêncio servia de moradia dentro da dor. Cheguei a declamar um poema seu para uma alma que apenas sentia a dor… e logo depois ela se acolheu em meu abraço como se eu fosse o próprio poema. Era você ali, sendo voz em mim para ajudar quem não acreditava mais em poesias.

A vida é esse vazio cheio no meio de tantas coisas que não têm a ver conosco e são tantos os olhos a nos  espreitar e descobrimos que isso é o viver na sociedade, mas sempre existe um olhar que sendo de outro é o seu…

Li dias desses que é a poesia que vai nos preparar para as lutas… então, que seja isso. O mundo de hoje é feito dessas poesias que nos toca a alma como as suas.

Grata por ter deixado essa válvula de escape para que a gente pudesse enfrentar o mundo atual.

Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural 8 – Abre Aspas
Scenarium plural Editora

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