Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 — meus pets

Desde que me entendo por gente sempre tive contato com animais. Sejam eles cães, aves, insetos, cavalos e até um beija-flor. Quando menina, os insetos me perseguiam e vinham parar na minha mão. As borboletas, joaninhas e libélulas. Com os cães, minha relação sempre foi intensa. Tinha a Diana, uma cachorra perdigueira, que me seguia aonde eu fosse. Depois, Catita, uma golden retrivier que me deu Guga. Ambos já morreram velhinhos.
Ganhei Meg logo quando Catita morreu. Era uma viralata caramelo, de pequeno porte. Viveu por 14 anos. Nos mostrou o amor de uma forma tão intensa que mesmo depois de 8 anos de sua morte, ainda reina aqui, nas conversas, na saudade.
Lolla chegou até nós depois de sabermos que ela recebia maus tratos e lá vou eu, marido e filho tirar ela das mãos do seu dono. Assim que ela nos viu fomos abraçados por ela e seu olho pedia ajuda. A trouxemos e com sua doçura preenche nossos corações com amor e fome. Não conheço ninguém que tenha mais fome que ela.

Lolla já existia por aqui quando Yoshi chegou. Eu a retirei de seus antigos donos, que a maltratavam. Se apaixonou por ele – assim como nós aqui de casa – assim que o viu.

Acompanha seus passos, seus movimentos e até suas poses. Onde está ele, ela fica.

Ela, super doce… ele, ranzinza e mau humorado. Mas, ela sempre está ali, ao lado. E o amor é nítido entre os dois, mesmo ele sempre querendo tomar o lugar dela nos cantos da casa, do quintal, da varanda.

E basta dar um lambeijo, e ela sabe que ele acalma. E basta o abraço, e ele cede.

Os dois são a alegria, as companhias, o voltar a ser criança na correria no quintal até ela pedir arrego e deitar cansada, mesmo com ele insistindo na brincadeira.

E como não podia deixar de ser, também é meu pet, um menino voador, que nasceu aqui no meu quintal e já teve sua história contada aqui e aqui. Chiquinho é meu beija-flor e possui o dom de me acalmar e como não poderia resumir minha vida com ele em uma simples foto, resumi num mosaico alguns instantes.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6
Scenarium Plural Editora.

Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Das maresias

A cidade cumpria seu rito de anos … O sol castigava a todos, como sempre…
Naquele dia, o mar cantava em meu ouvido.

Maresia pura em minha boca.
Peguei minhas mãos – tuas – toquei de leve meu corpo… era pele gozo, vontade.
Naquele dia – como nunca havia sido de ninguém – fui sua,

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium plural Editora
*magem: Mira Nedyalkova

Scenarium Livros Artesanais

Censura, não!

Desde pequena que a palavra Censura ronda a minha vida. Nasci em plena Ditadura e mesmo não tendo convivido cara a cara com ela… bateu em minha porta e misturo as duas coisas porque aprendi que uma está de mãos entrelaçadas com a outra.
Eu ainda era menina e ouvia a história sobre meu pai ter sido Delegado da cidade, onde nasci/cresci. Uma cidadezinha do interior de Goiás, que era distrito e muito tempo depois virou município.

Meu texto no blog da Scenarium Plural
Vai lá!

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – meus cantos

Sou feita de cantos… Caberia em mais de mil… na cidade, no quintal, na rua de cima. Mas, o primeiro canto que escolhi, dá para lugar nenhum… É um pequeno espaço entre a parede e a inspiração. Uma janela que não se abre, nem se fecha… o meu portal.

O canto do muro, no quadrante leste, onde o sol a cada manhã doura tudo que é vida no meu quintal.

A varanda com suas cadeiras e a calma servida no café da manhã… Onde passo grande parte do dia. Seja para aproveitar o momento ou nos afazeres entre o artesanato e as fotografias. Quase grito que o canto que me cabe é entre esses muros.

Mas o artesanato e seu espaço é meu canto onde esqueço do tempo. As linhas, os tecidos e acessórios e a leveza de espaço. Meu tempo.

As fotografias – uma das minhas paixões… as máquinas, o espaço, o estudo… é onde sou imagem.

Embora tenha tantos cantos – que não cabem aqui – a cozinha é meu lugar preferido.
É onde sou capaz de virar criança e ficar horas dentro das lembranças. Na louça que herdei de minha mãe… no alimento a ser preparado. Mas, mais do que ter um canto, sou essa memória de espaços e lugares. E assim, cada vez mais, sou eu.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Scenarium Plural Editora

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

“Use a sua ilusão de alguém”

Bambina mia,

Algumas palavras nos abraçam. É quase como alguém que estava de viagem, chegou e o abraço mata a saudade dos dias. Li sua resposta um monte de vezes. Reli em meio a jutas, fios, linhas, agulhas e cores de Natal… e soou tão estranha a palavra Natal. Mas, para quem faz artesanato, natal começa em meados de agosto e reverbera em setembro. São tantas linhas entre o vermelho, o verde, o tecido xadrez, o branco… a barba do Papai Noel…

Fiquei presa na minha ilusão de alguém, pensando como será a vida em dezembro… e fico assustada com a possibilidade de ruas cheias… preciso respirar!

Durante essa pandemia sai muito pouco, por extrema necessidade e vi uma cidade normal. E eu, que antes amava a palavra multidão entrei em pânico, dentro da segurança do carro, vi as faixas de pedestres sendo tomadas por gente… uma multidão!! – sem máscaras, com elas no queixo, na testa, na mão – que cheguei a odiar a palavra.

Recebi uma encomenda para formular tabelas de cores para um trabalho de uma revista. Usei as cores do meu quintal… As cores vão se formando em minha frente e eu penso em você… na modelagem do pão, na cor em que foi se formando quando ele já estava quase pronto e nos utensílios vermelhos de sua cozinha. A palavra suspiro ganhou fôlego no meu peito – é outra palavra que gosto muito: suspiro – parece os doces que minha mãe fazia com claras de ovos e coloria para dar sentido à mesa do natal… Essa é uma palavra que não gosto, apesar de gostar de bordá-lo e enfeitar a vida de alguém.

E devo confessar que acho também a palavra carta extraordinária… e sorvo missiva como quem bebe um gole de ristreto e penso em você enquanto tento imaginar porque alguém sumiria assim, como a sua correspondente. Vejo tantas possibilidades dentro do silêncio, lembro-me de tantas outras que surgiram em minha vida como fôlego de carinho e de repente, viraram fakes de esperança em muitos nomes diferentes. É quase a mesma sonoridade do miss you… e a palavra me leva à uma que minha mãe repetia em um ditado popular…Costume.

Fomos feitos para acostumar. Essas coisas da vida em comum, que ficam marcadas, como a canção do Roberto, que tocava lá na minha infância. O tempo é o remédio para tudo e as manhãs de sábados para a escolha dos ingredientes de um diário, embora hoje ainda seja terça e eu preciso deixar as linhas dessa carta para voltar para as linhas dos bordados.

Grazie mille (outra palavra que amo e que tem a sua sonoridade em mim)

Mariana Gouveia

Scenarium Livros Artesanais · Sete Pecados

Luxúria

Entregou-se tanto ao vício da luxúria
que em sua lei tornou lícito aquilo que desse prazer,
para cancelar a censura que merecia.

Dante Alighieri

Entrei chamando pelo nome dela. Uma canção e a voz dela cantarolando baixinho me fez rir. Pediu a toalha que estava sobre a cama e surgiu nua, dançando imitando o ritmo da música. Hoje tento lembrar qual, mas não consigo. Acho que a visão dela nua é a única coisa que minha memória registrou.
Na ordem a seguir do “enxugue minhas costas” minhas mãos a tocou. Senti que a pele arrepiou. A dela e a minha. Jogou os cabelos de lado, para que a toalha passasse pela nuca e nesse instante uma magia aconteceu. 
Não sei explicar qual desejo se apresentou maior. Ou se meu espanto diferenciava os momentos. O que sei foi que o que aconteceu a seguir ultrapassou a vontade normal.
Na mesa ao lado da cama, as taças, o vinho e as uvas envolvidas no gelo em uma travessa.
Ela riu e a segurança do riso, no toque me paralisou. Me pegou pela mão e me direcionou na tarde que se desenhava lá fora.
Não sei determinar quem começou ou qual respiração era mais intensa. O que sei é que fui levada ao labirinto mais mágico que vivi na vida. A sensação de plenitude me atingiu e ainda hoje, quando penso em tudo, sinto a mesma coisa.
Pensar em como aconteceu me faz reviver cada instante e é isso que me abastece de poesias para continuar vivendo.

– A tarde transpira ocasos na vida. Dos mais bonitos! – ela disse.
– A tarde transpira surpresas inimagináveis antes – eu disse.
– Algo como proibido?
– Algo como a luxúria…Algo que nunca pensei fazer. Mas agora fico a pensar que parece que estava a esperar por isso desde sempre.
– A tarde faz isso comigo. Sempre desenhei isso aqui, esse instante e agora que você está aqui, parece sonho.
– Um sonho bom, espero.
– O melhor dos sonhos! – ela disse num riso entre beijo e toque.
E a promessa de mais tardes e noites e manhãs febris me fez querer que os dias durassem mais do que as horas todas que eu teria, só para vivê-la.

Mariana Gouveia
Sete Pecados
Scenarium Plural Editora

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

BEDA – Carta à minha bambina dentro dos verbos indefinidos.

Bambina mia,

Como comecei o mês te escrevendo, finalizo agosto nesse diálogo contigo. Te encontrei na madrugada…. no lugar improvisado na mesa da cozinha. O café espresso na xícara onde pousa uma borboleta. Te contei da lua? Ela estava exuberante ontem. Hoje, ela é uma bola vermelha. Linda e triste.
Enquanto te escrevo penso que te levei pela mão para te mostrar a rua de cima, na madrugada. A brisa suave me fez te invocar presença. Você não aguentaria o calor – mesmo em pensamento – que fez hoje, por aqui. Fui mostrando-te a rua de cima, a casa amarela, onde o sol vibra em qualquer tempo – lembra Adélia e seu poema Impressionista – e a árvore, que está ali, há anos, faz barulho quando passo. Parece dar um bom dia e eu assopro – como todo dia – em direção às folhas e elas vibram na intensidade da hora.
Há sempre um gato preto – acho que nunca falei dele – à espreita e mia como se eu tivesse algo comestível na bolsa. Todo dia! Para desespero dos cães que odeiam gatos.
Depois da lua de ontem, da madrugada morna, o dia foi insuportável. O céu e o cinza da fumaça a deixar a alma triste. Agosto foi muitos meses dentro de um mesmo mês e vibro com a chegada de setembro. Logo será primavera e com ela virá a chuva. Abraço-te ainda com sua voz a ecoar por aqui. Amo tu!

Bacio

Mariana Gouveia
b.e.d.a — blog every day august —
Adriana Aneli — Claudia Leonardi — Darlene Regina
 Lunna Guedes — Obdulio Nuñes Ortega — Viviane Almeida

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

BEDA – Carta à minha bambina aos cuidados da pipa.

Bambina mia,

Alguns gritos ecoaram na noite passada, pássaros noturnos rasgaram o céu do meu quintal. Se eu tivesse medo, diria que esses voos rasantes foram inspirados em uma noite de terror. Trovejou longe na tarde – achei que ia chover- e chamei teu nome… Mas, foi só uma nuvem passageira e o sol continuou em sua intensidade máxima enquanto as fragilidades secretas das palavras vagou entre o que é Plural e singular e eu lembrava das sementes que você gosta de estourar.

Enquanto te escrevo nessa manhã de sábado a vida acontece logo ali, na rua de cima. Ouço risos de crianças e resolvi dialogar com você através dos ecos que vem dali. Eles costumam brincar como antigamente. Jogam bolas de gude, amarelinha e empinam pipas. Às vezes, a rua de cima é invento meu… às vezes, não… Lá, na rua de verdade, vejo um menino que não ouve palavras comuns – e nem escuta o que eu digo – mas que entende o que mostro. Ou o que leio. Comecei a ler para ele nas sextas -feiras. Alguns silêncios só podemos ler em braile ou deciframos códigos que nem sabíamos saber.

Às vezes, é realidade bruta. As crianças empinam as pipas, que enroscam em fios de alta tensão e ali, se tornam esqueletos de pipas que ao menor vento fazem barulho enquanto o vô da casa amarela fica tão ranzinza que a rua fica quieta. E o menino que não fala, nem ouve fica espiando eles a correrem para lá e para cá, em busca da pipa perdida.

A minha rua é quieta como no dia em que o vô da rua de cima fica ranzinza – eu expliquei para ele a palavra preguiça dita por você e ele preferiu a ranzinza mesmo – com exceção dos passarinhos que se agitam e voam para a árvore do vizinho, depois que meu quintal ficou “pelado” de árvores.

Sobre a noite passada ainda, tem noite que a solidão é feita de asas e voa rua acima, noite adentro e eu só vejo as luzes azuis de tvs ligadas refletidas nas janelas com cortinas esvoaçantes na rua de cima. Isso me lembra o relâmpago que o céu reflete e penso no som do trovão e da vontade de chuva que tenho. Outro vulto de voo de pássaro me assustou… pensei em você e nas nossas conversas de pássaros.

Por acaso, você tem medo de pássaros?

Tem coisas suas que ainda não sei – ou até sei, quando suas histórias se misturam nas minhas – mas a vontade foi de mergulhar vermelho adentro quando um trovão ecoou longe, na noite passada e a lua estava magnífica em conjunção com Saturno e Júpiter. Dizem que hoje tem de novo… Vem ver comigo?

Bacio,
Mariana Gouveia

b.e.d.a — blog every day august —
Adriana Aneli — Claudia Leonardi — Darlene Regina
 Lunna Guedes — Obdulio Nuñes Ortega — Viviane Almeida

Scenarium Livros Artesanais

BEDA – Voyer

Deixei a porta aberta para que entrasse tão logo chegasse, enquanto preparava meu corpo para o momento. Liguei o som onde Adele fazia o céu cair no meu quarto. Modo repeat. A cortina laranja esvoaçava com o vento do ventilador. Parecia dança e segui o ritmo.
A calcinha vermelha era um desejo de tempos. Não pela marca, não pelo preço. Mas pela cor. A cor aguçara meu sentido mais ativo e deve ter mexido com todos os outros elementos do meu corpo, já que só pensava nela em meus momentos íntimos. Queria ver a reação dela ao ver o vermelho em meu corpo. Só isso já antecipava prazeres. Tirar da sacola da loja de marca. Vestir depois de um banho tomado já fazia o desejo estalar dentro de mim e a palavra escarlate pronunciada me deixava nua da cor. A cumplicidade absorvida, bebida, sugada. Havia desejos escapando pelos poros. A cadeira confortável na posição que permitia o toque. A mão solene começou passou pela calcinha e suas fitinhas de cetim.
A aliança enrosca e é isso que quero. Mostrar a ela o elo que nos une. A prata reluz na meia-luz e um suspiro indicou presença.
Os seios arfavam na intensidade que os toques aprofundavam. A umidade me pertencia. O dedo passeava por onde conhecia o prazer.
A canção colocada no repeat me fazia seguir seu ritmo e segurar o gozo. Não deu. A voz e o nome dela pronunciado entre o êxtase. O respirar acelerado trouxe uma calmaria depois de tudo explodido.
Uma penumbra não me permitia ver seus olhos. Mas comi seu prazer.
O dedo na boca. Calcinha ajeitada. Ela continuava ali. Voyeur de minhas vontades e desejos e com o som de sua voz rouca que me dizia um poema de Flora Figueiredo, dormi:

“Desse momento escarlate quero a flor,
o beijo, o chocolate…
O riso, a criança e a retreta…
O gozo, a lua, a borboleta…
O caracol, o mi-bemol a alfazema…
Pra quando o vermelho ficar esmaecido,
eu poder conservar meu colorido
nas reticências azuis de algum poema.”

Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr
Texto publicado na Revista Plural Red – Scenarium Plural Editora
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

BEDA – Carta de Mariana para Alice, no País das Maravilhas

“Quando acordei hoje de manhã,
eu sabia quem eu era,
mas acho que já mudei muitas vezes desde então”.
In Alice no País das Maravilhas


Querida Alice,


É estranho falar com você assim, no meio do meu quintal, através de uma carta – se bem que você já deve ter vivido tantas coisas estranhas que isso seria só mais uma. O meu quintal tem um portão imaginário, que é onde atravesso agora e te escrevo. Tomara que eu não perca a saída quando tiver de ir. O risco é grande, já que é um mundo novo por onde caminho agora.

As borboletas vagueiam por aqui. Pousam em minha mão e buscam as flores da Maria-sem vergonha. Tiro o relógio, Alice, na ilusão das horas não passarem e caso você querer saber se será hora de ir, digo que ainda há tempo. Tempo é essa coisa doida que toma conta da vida e quando você percebe já é tarde demais.

Te conheci ainda criança… quase menina-moça. Ganhei o livro do padrinho que só aparecia em datas especiais, tipo Natal, dia das crianças, aniversários e essas coisas que o mundo mudou com o tempo. Tínhamos a festa da colheita e o pedido era para minha mãe fazer um vestido para mim igual ao seu que vi no livro. Hoje, recordando, lembro que o livro e o vestido se perderam no tempo. Mas, aquele dia em que vesti o “seu” vestido está vivo na memória e posso desenhá-lo a você.

Foram dias de costura… minha mãe se preocupava com cada detalhe e eu, em minha ansiedade de filha ao pé da máquina, a observar o trabalho sendo feito, com mil perguntas sobre os sonhos, enquanto ela ficava a responder quase em sussurros conversava com a máquina que respondia com seu pedal rangendo. Pregava as fitas, fazia o plissado da saia… olhava o livro. Pedia para eu ler e explicava para mim que a ansiedade era normal na minha idade. Eu achava estranho a ansiedade ser normal, mas ela dizia que quando a gente é criança a tendência é achar tudo estranho mesmo.

O azul do tecido parecia esse céu de agora. A maciez do pano me enternecia. E quando vesti, me senti a menina mais linda do mundo. Por alguns instantes, eu fui, Alice! Vestida de você eu fui a rainha da festa e me senti maravilhosa. Os olhos de minha mãe brilhavam e me seguiam a cada direção que eu fosse. Dias depois, ela se foi. Deve estar em algum país no infinito que ainda não sabemos o nome. Virou estrela nesse céu, da cor do seu vestido.

Eu cresci e o vestido se perdeu em algumas dessas mudanças que meu pai fazia. Só que continuei a sonhar com seu mundo e com toda a leveza que as palavras me traziam.

Hoje, vivo a magia da maravilha de viver. Também criei meu mundo de maravilhas no meu quintal, onde os animais têm hora e vez, as borboletas nascem aos montes sempre… e meu pé de hibiscus mutabilis faz a transformação das flores – pura magia. As flores nascem brancas pela manhã e ao meio-dia ganham o tom de rosa mais lindo que há.

O pé de algodão dá flores amarelas e, assim que murcham, preparam seu capucho tão branquinho, que parece as nuvens do céu.

O tempo anda a correr, Alice… tudo passa tão depressa agora, que contando isso para você, parece um século. O tempo voa! Até o meu relógio que fica num tique-taque incessante numa frequência absurda. Ao menos tudo fica meio calmo nas manhãs pouco antes de eu entrar com minha senha do seu mundo para o mundo real. As manhãs é a melhor parte, porque é quando meu beija-flor vem… e pousa no meu colo enquanto converso com meu amor. Vou dizendo sobre o movimento das nuvens e até mostro o laranja a se desenhar no céu. O relógio, por vezes me assusta e, quando percebo, tenho de sair em desabalada carreira porque é hora, e ela não espera. Disso você entende muito bem. Mas quando a hora não antecede os instantes, Alice, é mesmo uma maravilha! O sol percorre o firmamento com seus raios, desenhando cores no amanhecer e muitas vezes ele se encontra com a lua numa explosão cósmica de amor. É a coisa mais linda.

Ah, esse tempo maluco, Alice. Às vezes, nem parece passar… veja você e seus magníficos 150 anos e a leveza de menina ainda.

Suas aventuras são lidas e há sempre uma menina a desejar ser você… e é essa a magia que seu nome traz. É essa a magia de se pertencer ao País das Maravilhas.

Preciso ir, Alice… o caminho se abre diante dos olhos e guardo você dentro do seu mundo enquanto o mundo real me chama. A vida é esse momento repetindo instantes. O resto, é conto de fadas. Então vamos lá vivê-la.

beijos,

Mariana Gouveia
*imagem: Pinterest
Carta publicada na Revista Plural 1900 – Scenarium Plural Editora
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.