para esse nome das coisas. Virei perfume dentro das suas palavras. Vi uma moça da aldeia com borboletas no corpo. Era feito de sol essa saudade. O jardim endoidou de vez quando percebi o vazio por detrás da janela. O calor assolou o cerrado e a meteorologia colocam vermelho puro no mapa daqui. O lugar de mim esvazia o peito e estende a mão, não sou mais além de sombra onde a asa não me abriga. Escrevo cartas antecipando primaveras… a impressão do dia seguinte é quase logo ali, no outro mês, já repetido exaustivamente no sistema. O desejo tão líquido quanto a sede – falta água – e a fome de tocar sua mão, tão marítima dentro desse oceano seco de rio. A ventania consome essa vontade de pouso, onde meu quintal respira maresia nos cantos do muro.
Mariana Gouveia Desvios para atravessar os quintais Scenarium Plural Editora
Falar sobre portas me leva para as igrejas do meu lugar, com suas portas nem sempre abertas. Com suas histórias de fé. Com momentos do seu povo e ritos. Isso me leva para grande parte de minha infância e de minha vida.
As tradições e religiosidades do povo e as características e arquiteturas vão além de templos para os fiéis, muitas delas também são consideradas pontos turísticos. As festas dos santos e tudo que se traduz na vida da cidade.
O povo constrói as tradições através dos tempos e da fé que os move, naquilo em que acredita… Como se a porta sagrada onde se faz o sinal da cruz, os livrasse de todo mal.
Algumas histórias recontadas, transformadas em lendas ou simplesmente passam a fazer parte do cotidiano do lugar.
É impressionante ver que em cada porta que se abre ou se fecha a história fica como testemunha dos relatos, dos mistérios e das confissões de fé.
A historicidade, a tradição e a singeleza do lugar fazem com que toda simplicidade seja mais um motivo da coragem de quem se constrói com fé.
Cada vez que falo de portas, lembro-me de meu pai que sempre dizia: quando Deus fecha uma porta ele abre uma janela… Isso ficou na memória da criança que se tornou mulher. Não é um conselho que eu siga ou fique apegada a isso. Talvez, falando sobre religiosidade, igrejas e fé, o que me vem à memória é um texto que está no meu livro recém lançado, Desvios para atravessar os quintais e retrata bem sobre o que sinto sobre fé, coragem e portas. Muitas vezes, a melhor porta que se abre é a do abraço de um amigo:
“Passei pelo centro quando o sino gemia dentro de um horário errado e me levou para a cidadezinha do interior aonde tudo era feito ao som dos sinos – quando uma criança nascia / alguém morria / alguém chegava / alguém partia e o padre tivesse de passar alguma notícia qualquer – e o povo todo surgia como um passe de mágica. Ouvir o sino da matriz em seu rugido rouco e enferrujado me fez parar e perceber a mudança na fachada da igreja. Tudo modificado desde a primeira vez que a vi. Pareceu-me que só eu havia ouvido o sino. Pessoas apressadas, em seus vai e vem fazendo contraste com os carros em fila aguardando o sinal abrir. As duas torres, seus relógios e seus vitrais coloridos em sua imensidão passava desapercebida pela multidão. Tudo parecia feito de preto e branco. Os instantes, o dia de hoje, a hora… Lembro-me da última vez que estive ali, a procura de apoio e dei de cara com as portas fechadas. Estava com um diagnóstico dentro da bolsa, com coração alarmado e buscava a esperança na fé. Um dos padres me disse que a igreja estava fechada e mandou-me buscar apoio na igreja do meu bairro. Pareceu-me que ele ainda estava ali, atrás da porta, a sensação da porta fechada… de novo dei meia volta e a igrejinha do meu interior, com as portas sempre abertas… Padre Quirino a cumprimentar as pessoas, a acolher as crianças e a oferecer sempre um abraço. A igreja do meu bairro, naquele dia, também estava fechada, mas encontrei a fé num riso de um médico, que nem abriu o envelope do diagnóstico. Abriu os braços para mim e me acolheu no coração como amiga.”
A moça de coração na roupa me cede lugar no ônibus. Passo em frente a lugares onde fui presença. Relembro da história do filme. Faço anotações para a carta que escrevo mentalmente. Os corredores ficaram mais cinza hoje. A menina do beijo rosa se foi. Deixou um coração riscado em uma folha com meu nome. Nas mãos dela tudo virava corações. A voz se perde dentro da viela em frente a igreja. Como dar cor para uma mulher ausente de fé?
As mãos aceitaram o toque… o corpo agradeceu o abraço. Em alguns dias o aconchego vem com o silêncio da alma.
Mariana Gouveia Desvios para atravessar os quintais – páginas amarelas – Scenarium Plural Editora
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Sabia a hora exata em que o universo mudava a rotina da lógica. Tudo agia para que a sensação fosse de surpresa. Cada passo fazia com que a memória ativasse os encontros passados e ainda assim era como se fosse a primeira vez.
Mariana Gouveia Desvios para atravessar quintais Scenarium Plural Editora Encomende o seu exemplar É só chamar (11)99241-5985
em que os telhados velhos trazem lembranças da infância e o cheiro do mato se mistura ao orvalho da manhã. A permissão para sentir vem da natureza que me concedeu a fé enquanto a memória resgata coisas que a menina dentro da mulher não quer esquecer. O cogumelo colhido na floresta como se fosse a cura e o conselho do pai para tomar cuidado com o veneno contido dentro das coisas bonitas — base para mais um ensinamento.
Teve aquele dia, em que o corte no pé foi o momento certo para mostrar a cura… eu chorei uma vida inteira. Ali, como se cada parte do corpo, cada átomo do Universo fizesse parte de mim.
Quero te dizer que tenho shitake colhido ali, naquela parte onde a infância mostrava que tudo é o começo, meio e fim. E a poesia recém-escrita, olho no olho… onde o orvalho cresce na minha própria alma.
Mariana Gouveia Desvios para atravessar quintais Scenarium Plural Editora Encomende o seu exemplar É só chamar (11)99241-5985
Hoje aviso-te que ficarei para sempre arquejando no teu corpo… Só o teu coração saberá se épromessa ou ameaça, mas ficarei para sempre e basta.
Lourdes Espínola
Eu me rendia sempre à tentação de abrir a porta, atravessar a calçada revestida de cores nos ladrilhos lilases que formavam desenhos sobre os tons, abrir o portão da casa dela e entrar. Às vezes, pé por pé para pegá-la em silêncio ou apenas vê-la entre o riso da surpresa e o abraço que me envolvia sempre que chegava.
Cada vez que eu fazia a cena da chegada era como se fosse a primeira vez. A cortina que o vento gostava de convidar para dançar. Os quadros nas paredes formando desenhos de jardim, as flores sobre a mesa, o vinho sempre à minha espera. Como eu queria e ansiava por aquilo durante uma tarde inteira. A gana de querer o abraço me fazia viver cada momento do dia só para que àquela hora chegasse.
Eu a tinha e a queria mais. Era como se tudo que eu desfrutava ainda fosse pouco e eu podia transformar o mundo apenas por estar com ela. A coragem passou a me habitar.
Querê-la era o essencial para que eu respirasse e tudo que vivíamos fazia meu peito bater de felicidades. As sensações de vivê-la era o que me movia. A ganância de possuí-la me fazia dela, mais que tudo. Sorvia da boca dela o ar que respirava e cobria-me da pele, das palavras. O corpo dela, meu diálogo com o mundo e o riso, minha esperança de felicidade. De dia, escondia-se nas letras escrevia sobre política, religião. Costurava as vontades como casulos ao redor do riso, do olhar da boca, dos sonhos. Era artesã do desejo. À noite, ela descobria-se com asas plenas de sonhar. Se mostrava. Amava ela, em metamorfoses em que as asas davam lugar as imaginações. E sempre queria mais.
Mariana Gouveia Poema da Série Sete Pecados Scenarium Plural Editora – 2015 *fotografia: Dorina Costras
Há pecados tão agradáveis que, se os confessasse, cometia o pecado do orgulho. Sophie Arnould
Olho para ela pelo espelho e minha alma fica em êxtase. Em meu céu brilham as estrelas dos olhos dela. Contorno toda sua silhueta como se a desenhasse e quero gritar bem alto. Dizer que a tenho e que cada dia aquele amor é maior do que meu peito suporta. – Isso me deixa orgulhosa! – ela diz – Orgulho é pecado capital. Eu digo. e o riso dela ecoa pela casa afora, chamando atenção de quem passa na rua. – Logo nós tão pobres pecadoras, preocupando-nos com apenas um dos pecados mortais? Estamos cheias deles. – Mas me orgulho de você e da sua praticidade terna em punir sentimentos. Me orgulho de sua pinta nas costas. Dos dedos longos desabotoando a blusa. Da maneira como bebe o vinho… – Esse orgulho não serve…Esse é dos pecados, o menor. – E qual seria o maior? – No conjunto universal, acredito que englobamos todos. – Então te perdoo por todos os teus pecados e até mesmo pela culpa que teus olhos guardam. E não se fala mais de pecados nessa casa. E não falamos. Eu ficava reduzida ao seu olhar e bebia orgulho dentro deles. Ela era minha. De posse mesmo. De contar vantagem que eu possuía o que de mais belo ela tinha. A beleza dela não me escapava. Media cada centímetro de sua pele com as mãos e saboreava a paixão que me sacudia a alma. Tinha a alegria que o vento do cabelo dela sentia ao tocá-la. Tão minha e tão livre. E o riso. Ah, esse riso que ainda ecoa em mim cada vez que lembro dele. Chego a rabiscar a parede com poemas sobre o riso dela. Com os olhos dela eu rezava e com minha alma eu pecava, talvez motivada pelo orgulho maior de amar.
Mariana Gouveia Poema da Série Sete Pecados Scenarium Plural Editora – 2015 *fotografia: Dorina Costras
O envelope que chegava era laranja e as letras corridas como se tivessem pressa de chegar. Havia desenhos floridos nas linhas que se misturavam aos corações onde se entrelaçavam vontades. Os risos, pareciam vir junto e a brisa suave das ruas da cidade, do rio que circundava a pequena floresta de eucaliptos e outras árvores do lugar – o cheiro – dançavam na imaginação como uma folha solta no ar. Falava dos detalhes da vida, da rotina. Do jornaleiro do qual sabia o nome, até a história dele me contou – e parecia que eu também o conhecia – dos nomes dos filhos. Dos tsurus que delicadamente adornavam o céu do seu quarto, todo lilás e da janela podia ver o pé de lanterna chinesa que a vizinha plantara e oferecia dezenas de flores no canto do muro… iluminando o dia com seu laranja – e repetia a frase da canção de Gadu – que me faz ficar bem mais. A flor parecia que tinha a energia de acordar a alma, mesmo depois de um dia frio, um dia triste. Assim, em cada mês, a delicadeza vinha em cores e versos. Uma tela de arte colorida de carinho, recheado de palavras que abraçavam e coloriam o dia.
Mariana Gouveia Desvios para atravessar quintais Scenarium Plural Editora Encomende o seu exemplar É só chamar (11)99241-5985
Resumir um ano inteiro e tão atípico em 6 fotos é um desafio. Eu poderia descrever cada mês com a mesma intensidade com que aconteceram os dias. Mas, até nossas vidas serem modificadas pela pandemia aconteceram encontros, abraços e risos.
A pandemia transformou meu dias em artesanatos, comida, livros, comidas, receitas, comida, fotografias, comida, caminhadas pelo meu quintal, comida, lives, comida, estudos, comida. Nuca estive tanto na cozinha como nesses meses.
Passei a acompanhar o por do sol do ângulo que o muro me permitia e os tons atravessaram os muros e fui brindada pela beleza. Tantas, em nuances e cores…
tantas em formas diversas e de alma.
Chorei perdas, sofri com números, usei máscaras, plantei flores e colhi tudo que plantei. Aguentei desaforos, solidão, e escrevi…
Escrevi e lancei um livro: Desvios para atravessar quintais. Talvez não tenha conseguido passar nem aqui, nem no livro o ano diferente e assustador que o mundo inteiro viveu/vive… Mas, preferi encarar ele com poesias e é assim que esse projeto chega até você que me lê.
A possibilidade de uma vacina renova a esperança em um ano novo que chega. Não somos mais os mesmos. Não seremos. Há um novo tempo no ar. Isso causa medo e ao mesmo tempo me encoraja a acreditar. Enquanto tudo isso não chega, deixo vocês com a poesia:
“O cheiro da grama recém cortada dá a sensação de passado. A memória resgata lembranças que fizeram parte da infância. Contei minha vida em carta. O rádio e sua maneira de resgatar verdades. Tudo acontecia no século passado. A música da sua vida na voz do locutor. As ondas gravitacionais fazendo com que a viagem seja feita passo a passo. O porta-retratos guardando a família toda. Os que já foram parecem mais presentes ainda, mesmo depois de tanto tempo. O verbo era quase um propósito de espera. As ervas no jardim, criando sementes – as flores sendo colo para a vida – e da semente, a flor… fruto. O amor sendo a palavra feminina na cor. Era apenas o regresso de um mundo que sonha vontade.”
Mariana Gouveia Projeto 6 on 6 Scenarium Plural Editora. Se tiver interesse em meu livro novo, é só chamar (11)99241-5985
Traçou a rota do dia. Mudou as rotinas todas. Pendurou a asa no varal. Havia previsão de chuvas. A lua era apenas um risco dentro da nuvem. Um menino de cabelo laranja mudou o dia. Às vezes, o destino improvisa as coisas e as horas têm cheiro de frutas. As distrações traziam vontade em outros idiomas. Um sábio mudou para o endereço além das estrelas, enquanto guerreiros mudam rituais no dia. A paz pode ser descrita em um poema, mesmo com uma guerra interna sendo travada na alma. A sorte do dia sendo decifrada em um jogo de memórias. O riso encerra o abraço com a vida. A ignorância das marés criando hábitos em um dia marítimo. A fortuna chegando na flor de laranjeira. O verbo mudando o fim da página. Os elementos da loucura sendo refúgio para as noites do nada e a verdade desbotada no boato do que o olho criou e a paisagem é essa janela onde o vento bate.
Mariana Gouveia Desvios para atravessar quintais Scenarium Plural Editora Encomende o seu exemplar É só chamar (11)99241-5985