Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

a árvore que abraço, com suas flores amarelas, tardias…

Perdeu o cheiro da chuva, depois do vento. O temporal atingiu toda a rua de cima e numa esquina qualquer o vazio das horas. O homem da reciclagem nunca mais passou… ficou a caixa vazia com as garrafas descartáveis e refaço o mesmo percurso diário das vezes que o vi empurrando a carriola para ver se o encontro.
As meninas do clube perderam a hora na última semana. Vieram caber todas dentro de um abraço no portão. Perguntam também pelo homem da reciclagem. A rua de cima é vazia sem ele. Fica esse oco na esquina onde os cães latem em alerta. Lembro-me que ele conhece as constelações todas, sabe o nome dos rios e entende o movimento do vento. Contava a história da árvore que ele mesmo plantara ali, logo acima da casa da esquina, onde morava antes de se mudar. Hoje, é a árvore que abraço, com suas flores amarelas, tardias, fora de hora. É o lugar onde os pássaros buscam abrigo, depois que fiquei órfã de árvore no meu quintal. Podia não saber meu nome direito — me chamava de menina e eu o chamava de mestre mas conseguia colocar esperança dentro das minhas poesias.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais,
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

A previsão do tempo quase acerta a secura da alma.

Era um vento na janela e não era ficção. A lua, pendente — quase um rasgo no céu — a mostrar todo o seu poder sobre escorpião, rompendo as marés. O pai sempre me avisou para respeitar as fases da lua e o vento — quase uma afronta — vindo do Sul, fazendo com que o perfume incomode minhas lembranças. Fecho os olhos e ganho asas nessa imensidão. Sou quase lua, senhora de si e caminhante no céu. A justa luz me inspira segredos únicos-preciosos — linguagem simples.

Adormeci nos rumores do dia… folhas como travesseiro. Escrevi até doer as mãos, transitando por corredores de ontem — outro voo sem pouso. O cansaço é quase um abismo me oferecendo colo. Reviver certos momentos é quase estender a mão em uma janela invisível e sentir o toque.

A previsão do tempo quase acerta a secura da alma.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais – Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais
Ph: Leslie Ann O’Dell

Scenarium Livros Artesanais

Um livro escrito por um homem na sua prateleira.

Como disse ontem, tenho pouquíssimos livros escritos por homens em minha estante. Um deles é Obdúlio Nunes Ortega. Tenho os dois livros comigo. Rua 2 e REALidade.

Difícil dizer qual é o melhor, então prefiro dizer que gosto muito dos dois. Em Rua 2, Obdúlio vagueia com seu contos sobre a rua em que morava. Cada conto traz a figura de uma casa e seu número. Cada personagem e uma história. Vários fragmentos de sua vida e trajetória.

Realidade costuma ser tema de brincadeiras em algumas conversas. Seria Realidade ou Real idade? Confesso que junto as duas coisas dentro dos contos variados de Obdúlio e passeio com ele através de sua escrita dentro do passado, presente e futuro. A realidade sob a visão do escritor traz a sutileza do amor e suas nuances. Ele nos oferece o alvo e o dardo e cabe ao leitor se posicionar onde melhor lhe couber: dardo ou alvo?

Seus contos trazem cenas cotidianas, em sua maioria, da cidade de São Paulo e suas periferias. suas gentes e lugares.

Obdúlio tem também um blog onde posta constantemente. Serial Ser tem crônicas, contos e poesia. A palavra falada e escrita e tenho certeza de que irá te tocar. Quer conhecer? Basta clicar no link do nome do blog e divirta-se!

Mariana Gouveia
Esse post faz parte da Maratona Literária do grupo Interative-se.
Participam desse projeto
Lunna Guedes, Obdúlio Ortega, Roseli Pedroso, Ale Helga, Isabelle Brum

Alice - Uma Voz nas Pedras · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Um livro escrito por uma mulher na sua prateleira

Confesso que olhando minha estante me deparei praticamente somente com livros escritos por mulheres, com quatro exceções apenas. E juro que não foi proposital.

Os livros que vou adquirindo/ganhando/emprestando ao longo dos dias por coincidência, são a maioria escrito por mulheres. Foi uma grata surpresa!

Entre eles, Alice, uma voz nas pedras, de Lunna Guedes. A escrita de Lunna me encanta desde o blog Catarina voltou a escrever e me abraçou por inteiro em Lua de Papel I, II e III. Sou apaixonada pela história de Alexandra e Raissa e seus personagens encantadores.

Lunna me iluminou em sua Lua de Papel e me verteu de cores em Vermelho por Dentro. Nos Meus Naufrágios delirei… mas Alice, Uma Voz nas Pedras me deixou sem cor e cheguei a me perguntar: o que você está fazendo aí, que não faz nada para mudar as histórias que você conhece?
Captei os sentimentos e não me sai da cabeça a mulher que vive uma relação abusiva e ainda se acha culpada de tudo. Alguém aí se identifica?

Lunna nos leva por caminhos que são tão conhecidos, tão reais que chega a doer e emocionar. Já li o livro três vezes, em situações diferentes e confesso que me dói a alma ver Alice em tantos rostos conhecidos. Se você se pergunta aí qual é o seu lugar no mundo, acho que está na hora de ler Alice, uma voz nas pedras.

Mariana Gouveia
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Lunna Guedes, Obdúlio Ortega, Roseli Pedroso, Ale Helga, Isabelle Brum

Scenarium Livros Artesanais

Qual foi o último livro comprado?

O último livro que comprei tem o selo artesanal da Scenarium Livros Artesanais e é um projeto coletivo: Casa Cheia e também faço parte juntamente com Adriana Aneli, Darlene Regina, Daniel Bonesso, Isabel Rupaud, Lunna Guedes, Obdulio Nuñes Ortega e Roseli Pedroso…

O livro está lindo e claro que dentro de toda suspeita possível ainda continuo achando o livro lindo! Tenho certeza de que, entre os textos você sentirá um que te tocará a alma, isso, se não for todos.

Casa Cheia é esse aconchego de mesa de cozinha onde todos se juntam para contar histórias e e relembrar os velhos tempos. O livro faz parte do Clube de assinaturas da Scenarium 8. E se você estiver interessado em fazer parte desse clube, aqui você tem todas as informações. Segue uma pequena mostra de um dos meus textos que está publicado no livro:

“para quem voa, é permitido o infinito…

Ouço a melodia das asas no meu quintal e transporto-me para a dimensão das lembranças.
Vou te contar como aconteceu esse amor alado e talvez só depois, entenderá que sou feita de asas.
O dia, era qualquer coisa entre 30 de um friorento junho e o dia primeiro de julho. A água no fogão de lenha sempre aquecida na espera de um nascimento rompante. Todos a postos na cozinha, na sala e o pai, entre a agonia de ouvir o choro ou o grito da Dona Fulô, dizendo nasceu – foi assim com todos os três primeiros filhos.
Lá fora, uma garoa fina os mantinham ali, próximos do fogão a lenha e na atividade de picar a galinha para o caldo.
O olhar da parteira era preocupado. Levava muito tempo entre dores, contrações e quietude. A cidade ficava um pouco longe. E foi ali, entre a espera e a busca de ervas para um banho ‘apressador’ de nascimento que ela viu as asas. Um movimento frenético de quem se afogava e tentava sair da poça. Invocou os santos todos que conhecia e salvou a borboleta que debatia desesperada para voar.
Um voo meio desequilibrado e sem jeito e um pouso forçado na dobradiça da janela. E ali, entre o espiar da borboleta colorida, depois de uma manhã inteira de esforços, eu nasci…”

Mariana Gouveia
Esse post faz parte da Maratona Literária do grupo Interative-se.
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Lunna Guedes, Obdúlio Ortega, Roseli Pedroso, Ale Helga, Isabelle Brum

Scenarium Livros Artesanais

Que tipo de leitora eu sou?

Essa imagem tem 18 anos e faz parte de um livro de poesias da escola que meu filho estudou. Na época fui escolhida para finalizar o livro onde alunos de várias séries escreveram sobre a poesia. O texto, em sua edição teve alguns erros, mas o contexto ficou intacto.

Talvez, hoje, se eu fosse convidada novamente para escrever sobre qualquer coisa referente a livros, eu diria a mesma coisa, porque a leitora que sou hoje tem a influência de minha mãe em me fazer escrever.

Minha mãe, com sua simplicidade entendia que a gente só conseguiria sair dali, daquele pequeno mundo que nos rodeava com a leitura. Ela nos preparava para seguir adiante e sabia que somente a educação podia fazer isso, e penso que consegui fazer a mesma coisa com meu filho.

Desde pequena aprendi que ler me trazia tantas coisas que era difícil me ver sem um livro na mão – até hoje ainda é – foi lendo livros que eu quis escrevê-los e com minhas histórias encantar alguém…

A leitora que sou é a mesma que escreve. Às vezes, tanto de uma completa a outra e todas tem os reflexos da menina que fui guiada pela mãe que eu tive.

Mariana Gouveia
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Participam desse projeto
Lunna Guedes, Obdúlio Ortega, Roseli Pedroso, Ale Helga, Isabelle Brum

Cadeados Abertos · Das palavras das cartas · Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Carta a você que me lê…

Querido leitor,

Talvez, a melhor forma de agradecer a você que me lê nesse dia mundial do livro é te escrevendo uma carta. Escrever para mim é desnudar a alma e fazer com que a minha emoção toque a sua.

Claro que desde menina eu sempre quis que minhas palavras atravessassem os campos da fazenda onde nasci e encontrassem amparo em algum olhar, em alguma mão. Uma das maneiras que criei para escrever foram as cartas. Menina ainda, através do rádio, minhas palavras ganhavam cidades, estados e diferentes lugares dentro de envelopes e muitas dessas cartas me trouxeram como respostas amigos do coração.

Nesse meio tempo me tornei artesã, mãe, esposa, radialista e a escritora esperava uma oportunidade que surgiu quando conheci Lunna Guedes. O destino me ligou a ela através de blogs e do selo artesanal criado por Lunna e Marco Antônio: Scenarium Livros Artesanais… o encanto pelo trabalho artesanato que Lunna tão lindamente faz falou mais forte e em 2015 meu primeiro livro de poesias foi costurado em fitas de cetim com o selo artesanal da Scenarium e O Lado de Dentro ganhou forma no papel… já na terceira edição.

O lado de dentro — a poesia de Mariana Gouveia viaja no tempo e espaço, e nos põe sentados a mesa do café,  para divagarmos sobre lugares imaginários onde o vento leva arrepio a pele onde os sentimentos todos se amontoam e são como pétalas na primavera, e são como folhas no outono, e são também verão e inverno.

No ano seguinte, veio o convite para que participasse do Projeto Diário das Quatro Estações. Um projeto inspirado em diário e escrevi Cadeados Abertos e não paramos mais.

Cadeados Abertos — é uma espécie de caixa de costuras que toda casa antiga tinha, com carretéis de linhas, agulhas, dedais e retalhos de tecidos… caixas com botões coloridos e uma tesourinha para cortar o fio. Cada item impulsiona uma lembrança — vivências singulares que nos toma pela mão e conduz aos caminhos do coração da autora.

Participei de alguns projetos coletivos da editora como Sete Pecados, Coletivo, Feliz Ano Velho, Sete Luas e outros, além das edições da Revista Plural com textos e em sua maioria, cartas.

Meu primeiro romance Corredores, codinome: Loucura foi lançado em 2018 e decidimos que ele não caberia em um livro só…Dividimos em dois livros e Portas Abertas, codinome: Lucidez foi lançado em 2019.

Corredores, codinome: loucura — é um romance que nos coloca diante da pergunta: é possível duvidar da própria lucidez? Maria é trancada num hospício pela própria mãe, que promete voltar para buscá-la depois que estiver curada. Entregue aos cuidados de Mathilda — uma mulher que não enxerga pessoas, apenas números numa folha mapeados pela condição determinada por ela e, assegurada pelo Estado que só quer se livrar de seus “doentes”.
A jovem Maria percorre os corredores de sua nova-casa em meio a abusos e punições severas, tentando preservar qualquer coisa de lucidez.

Portas Abertas: codinome lucidez — Maria deixou o hospício com a ajuda do Doutor Arthur… mas, quando se deixa a escuridão, é necessário se acostumar a luz. Leva tempo e não é nada fácil identificar o que sobreviveu após tanto tempo vivendo entre loucos e, de repente, ter sua lucidez reconhecida…

E novamente, o projeto Diário das Quatro Estações me envolveu e surge Desvios para atravessar quintais. Lançado em 2020, em plena pandemia, e talvez, por isso, um sopro na alma dentro dos dias ruins.

Desvios para atravessar quintais… O Diário das Quatro Estações é sobre os dias aleatórios que avançam dentro do tempo e é feito da palavra que cabe no papel antes que sufoque o peito; é o retrato dos meses que ficam na memória das horas e no mapa feito dentro dos muros e para atravessar os quintais usei os desvios traçados no mapa que o coração costurava e mesmo quando desenhava asas na areia sentia que o pássaro voava e que possuía o céu inteiro .

Meus livros são artesanais. Costurados um a um, em costura japonesa pelas mãos da Lunna. O livro artesanal só é costurado quando você o encomenda. Portanto, cada exemplar é único em seu preparo. As histórias, as poesias, os poemas e até mesmo as cartas quando te alcançam já nos emocionaram bastante. Desde a escolha do papel, da capa e da maneira que fazemos chegar até você, mesmo que você não tenha o livro – ainda – mas lê em alguma das minhas redes sociais ou da editora algum pedaço de texto, poema, ou citações.

Há mais coisas na caixinha vindo aí… projetos feitos para te tocar e te emocionar. Espero que até lá esse laço se fortaleça ainda mais.

Por isso, te agradeço e te envolvo no meu carinho.

Abraço carinhoso

Mariana Gouveia

Participam dessa blogagem coletiva:
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega Roseli Pedroso

Caderno de Notas · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

As cidades estão cheias de passado

Estou de volta pro meu aconchego
Trazendo na mala bastante saudade
Querendo um sorriso sincero, um abraço
Pra aliviar meu cansaço
E toda essa minha vontade
(Dominguinhos)

Querido lugar,

Enquanto atravesso a ponte de madeira ouço o barulho do rio a serpentear por entre as árvores. Devo te confessar que o bosque perto do rio é meu lugar preferido nessa cidade onde nasci e cresci. Posso fechar os olhos e mesmo assim, reconhecer cada árvore, cada pé de fruta, cada trieiro que me leva sempre ao mesmo tempo, mesmo tanto anos depois.

Estou de volta, para rasgar as promessas feitas em um tempo de felicidade. Um tempo em que as fotografias em preto e branco tingia as paredes da sala cheia de cor no riso dos irmãos.

Parece que as coisas não passaram por aqui. Até a ave noturna é a mesma – pelo menos o canto – e isso atiça minhas memórias anos atrás quando vim aqui me despedir. Naquele tempo, meu coração possuía o encanto da juventude e jurei nunca esquecer esse lugar e prometi voltar assim que pudesse.

Não sei quantas noites, de olhos fechados, cruzei a ponte nas lembranças e me sentei de frente a esse rio com suas margens cheias de memórias e chorei. A alma não queria ter saído daqui. Foi ali, o primeiro beijo em um amor que nem lembro o nome. Também foi ali o tombo e a perna quebrada para tantos dias e onde a primeira borboleta pousou na mão e me fez criadora de asas. Aqui, as lembranças têm o cheiro de roupa limpa e vem na memória o ritual da minha mãe a quarar os lençóis de linho nas pedras do lado enquanto cantava uma canção regional do lugar.

As ruas mudaram, é verdade – não há mais os paralelepípedos na rua principal – e a matriz ganhou uma fachada moderna. De resto, a minha cidade está cheia de passado… no colégio em que estudei, a pintura ocre é a mesma de que eu me lembrava e o portão range como se chorasse por eu ter ido. O mercadinho da esquina – que era nosso e um tio comprou, ainda tem os potes de doces expostos e o sabor do pé de moleque, baba de moça e maria mole é quase uma oração.

O tempo não passou… sou eu ainda, a menina a decorar poemas no banquinho da praça e as tranças presas com a fita de veludo laranja a ecoar saudades.

O tempo passou, sou eu mais uma vez, de frente com meu passado que me transformou em tudo que sou hoje e que reativa a memória com os sabores, as cores e as lembranças de um tempo que insiste em morar nas fotografias da estante. A relutância em tirar fotografias me faz sair emburrada em quase todas, mas a família toda reunida em frente da casa para registrarmos o amor em dimensão de tempo, um dia.

Mariana Gouveia
Carta publicada no Caderno de Notas
Scenarium Livros Artesanais

Participam dessa blogagem coletiva:
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Caderno de Notas · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

É meia noite no fim dessa página.

Para eliminar o sofrimento, elimina-se a memória.
Uma cirurgia aparentemente simples, única solução.
Só que eu não consigo, tudo é vivo dentro de mim”

Ignácio de Loyola Brandão

Querida minha,

As minhas mensagens, na milésima tentativa vagueiam como se oscilando entre palavrões no quintal, pudesse te alcançar. Como seu nome fica tateando as paredes parecendo fuga? E você, sendo ausência dentro do vestido solto todo de poá?

O amor é esse vento de inverno. Revolve as folhas no quintal e causa encantação aos seus olhos quando o sépia o invade. Já te contei dos diferentes formatos das folhas daqui?

Invento os verbos enquanto o relógio atinge o ápice da noite e rabisco mais uma vez seu nome dentro de um coração mal desenhado.

É meia noite no fim dessa página. Há uma réstia de luz invadindo o espaço da cortina lilás. O dia, daqui a pouco, renasce e fica esse amargor na boca como se o ontem fosse apenas uma parte a mais do que não vivi.

Meia noite é quase um poema e nas paredes tateadas rastreio impressões tuas, de um tempo em que nunca esteve aqui.

Os relógios do tempo moderno piscam em uma luz azulada. Você sabe que de vez em quando chove aqui e as gotas cantam canções da minha infância? E que os ipês florescem fora do tempo em algumas noites fora do tempo?

O inverno não amadurece no tempo aqui, minha querida… Ultimamente, ele tem chegado fora da estação e causa arrepios na pele, esse vento que canta lá fora…as flores – que antes se abriam no cerrado – moram no meu quintal e invade a varanda com suas garras e o perfume suave do que amarela a manhã – que já surge além do horizonte – enquanto percorro a casa inteira e seus aposentos vazios de presença.

Há ali, no canto, a estante recheada de livros e cada um traz a história descrita, vivida e sentida. Há os bibelôs imóveis – as corujas e o galo de Barcelos entre as xícaras com as borboletas pousadas, inertes esperando o amanhecer.

A solidão e sua negritude na escuridão me lembram a frase do meu pai que dizia que “é no ápice da escuridão que o sol nasce” e ele vem em ritmo de solicitude. Na esquina, o moço da reciclagem canta sua canção de amor que nunca acaba. A solidão é essa moça com vertigem e cheia de incerteza.

A curva entre o canto e o pé de amora imprime no muro um coração às avessas e o musgo seco do tempo das chuvas detalha imagens que não sei quais são, mas parece que conheço de algum tempo. A meia noite, é quase o que antecede o dia. O relógio parece até que faz pausa quando no ápice da hora, o instante se faz.

Deparo com a minha figura insone no espelho do corredor e vejo ali, na estranheza da humana que apenas se recolhe em saudades… de tudo que não vivi.

Beijo,

Mariana Gouveia
Carta publicada no Caderno de Notas
Scenarium Livros Artesanais

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Caderno de Notas · Das palavras das cartas

E depois o dia voltou como habitualmente…

                                                                  E depois o dia voltou como habitualmente…
Marguerite Duras


Querida minha,

Escrever-te, é essa falta de fôlego na alma. Até onde o coração, feito de palavras, alcança seu amanhecer? Até onde, esse mesmo vento invade tua quase manhã – enquanto aqui é madrugada – e balança ao mesmo tempo as cortinas das janelas, nesse lado de cá?

Mas aqui, ainda era noite e a solidão das horas fazia com que no quintal nenhuma luz brilhasse. Eu já te disse que em muitas noites que passei em branco foi ouvindo o tic tac do relógio marcando o tempo sem você? E que de olhos fechados o vácuo entre a madrugada e o sol raiar lá fora, passa uma imensidão de tempo dentro dessas mesmas horas?

Devo confessar que morri em muitas dessas noites brancas. De uma página em branco, ninguém se livra. Havia corredores imensos em minhas veias que se fechavam. Pássaros noturnos traziam os sons da noite e ainda era meia noite e meia. Os vagalumes invadem a lateral do muro em noite sem lua e lá, acontece um ritual que admiro no escuro. Nessa hora, viajo nas lembranças da infância e quase esqueço desse fuso horário que separa meu sentimento da vivência.

Mas as lembranças saem e retorno ao vazio branco da noite. As lâmpadas da rua queimaram – ou apagaram – por algum motivo. Só tem uma penumbra tênue e quase embaraça as vistas quando vejo os vultos no quintal.

As sombras das árvores parecem fantasmas com suas garras sobre o momento que não passa. Às vezes, a vida dói! O conta gotas do floral é quase mantra diante da ansiedade oculta durante o dia. Como se o dia nascesse na liberdade desse sentimento! Como se a essência da planta invadisse a passiflora que desenha um botão na madrugada quente. O botão da flor é essa singeleza da cor que traz a beleza de noites imensas mergulhada no silêncio.

Na paisagem interior, as lembranças ecoam nos retratos expostos na estante, enfileiradas sob uma toalhinha de crochê. E me vi percorrendo mapas traçados na mente, com o dedo traçando teu nome nas vidraças, na poeira dos móveis que enfrenta a solidão junto com o licor de pequi.

Lembro que talvez, você nem entenda a palavra e nem o sabor exótico do meu lugar. Era tudo tão além da presença, que ainda escrevo como se você estivesse aqui.

E é tão lá essa distância e é tão aqui esse sentimento que simboliza tua falta na noite. Acho que te contaria uma história. Talvez, te marcaria na soma do amor enquanto os cães latem para alguma coisa que não consigo ver o que é. E os bibelôs parecem que conversam entre si e riem de minha insônia e falta de jeito para lidar com essa solidão.

Qualquer pergunta fica sem resposta e enquanto na rua reina um silêncio absurdo ouço o slogan da emissora de tv – plim plim – em alguma casa vizinha.

De noite, todos os gatos são pardos… – já li isso em algum lugar, mas é mentira. O Iglu – gato branco da vizinha da casa de baixo – passeia em cima do telhado como se estivesse em um desfile e os cães com sua gana de sangue rompe o silêncio da madrugada até que Iglu em sua pose de estrela atravessa todo muro como se provocasse os cães.
A madrugada chega dominadora. Quase refém dos ponteiros que insistem para o dia clarear.

Sinto o cheiro das ervas sendo tocadas pelo orvalho. A madrugada tem essa magia de tocar na suavidade das flores. O vento, é só um afago na alma enquanto chamo seu nome.

Cadê você que nem cabe nas letras? E quando a falta é só esse vazio de água, de maresia, de ar…
O que procuro nessa imensidão de noite quando a palavra rio ecoa feito onda? Só mais tarde entendi o que procurava – um mar.

Beijos

Mariana Gouveia
Carta publicada no Caderno de Notas
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