Scenarium Livros Artesanais

A minha relação com a noite: inimiga/amante/amiga…

Houve um tempo que era de medo. Bastava o céu fechar as cortinas e o escuro invadir o meu quintal que esse sentimento anestesiante reinava absoluto no meu corpo, por causa da dor. Eu tirava os chinelos e pisava no chão, para que a terra me fizesse firme ao caos que se estabelecia em mim. A dor é um bicho estranho e noturno. Mesmo quando eu estava entre os corredores, amparada por agulhas e fios… o medo surgia, como um fantasma. A dor era feito a noite sem lua-estrela… E não havia como não associá-la ao que a dor fazia comigo… Um vácuo, tipo guerra em que a explosão é apenas o medo de doer. E doía tanto. Havia noites em que doía tudo.

Mas, eu já fui amante da noite. Quando caminhei pelas ruas escuras. Não me lembro de me sentir tão segura quanto naquele tempo. O moço que cuidava do cemitério me levava pelas mãos, nas madrugadas mornas e era o meu guia. Passo a passo do meu lado… Voz de amparo e de cuidado. De um lado, o rádio onde eu expunha meus sonhos e do outro, o cemitério. Eu era a amante da noite que era o lugar das sombras do muro que me acolhiam sob os olhos atentos do moço que cuidava do repouso… a última morada de muitos.

Mesmo lembrando que antes da dor, o que me acalentava a alma era a rua estreita, que me levava mata adentro e no descampado, onde eu via as estrelas, a via láctea e suas constelações. Foi ali que a noite se tornou minha amiga. Eu era a menina que deitava no tapete debaixo das estrelas e sabia de cor todas as constelações. Conhecia os atalhos e era guiada pelos vagalumes.


Mariana Gouveia
Texto publicado no blog da Scenarium Livros Artesanais
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Participam comigo
Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso  Obdúlio Nunes Ortega

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Carta à Anne

Querida Anne,

Devo te confessar que meu ritual ao te escrever possui a magia simples de entrega – tão eu/você aqui – em frente a janela repetindo nos gestos ao longo dos dias: isso de ser mulher é angustiante. É estranho imaginar como seria se você vivesse nesse tempo. Teriam teus poemas a mesma forma de atingir quem te lê? A mulher que luta pelo que acredita, agora.
Você conseguiria ao longo desse tempo tecer um diálogo comigo sobre os tabus da época em que você viveu? Lembro – me de minha adolescência e da força que minha mãe possuía com seu livro na mão.

Ela era como você… CONFESSIONAL! Estava ali, de pé, as mãos sobre as cortinas esvoaçantes e os olhos dentro do livro, a brisa a tocar a alma e ela tão real, diante da vida e tão certa das dores de quem não queria ser apenas uma dona de casa, mas libertária.

Vi seu olho escorregadio nas fotografias antigas e respiro essa ansiedade vinda de você e atravesso sua poesia com a alma nas mãos.

Como não confundir esse medo real que bate a porta com a sensibilidade quase habitual na palavra morte? Como falar sobre sexo, amor, medo e solidão? Já viajei contigo nesses caminhos tortos e quando percebi, estava só e seus poemas ecoando em mim:


Tudo em mim é um pássaro.

Adejo com todas as minhas asas.
Queriam extirpar-te
mas não o farão.

Diziam que estavas incomensuravelmente vazio
mas não estás.
Diziam que estavas doente prestes a morrer
mas estavam errados.

Cantas como uma colegial
Tu não estás desfeito.

Um sino que toca me faz lembrar que hoje tem missa e que mais uma vez perdi a hora e não pude atender a senhorinha da esquina que pedia um poema quase reza em homenagem a santa do mês. A fé se perdeu nas pessoas que se foram. Sou eu, essa falta de tato dentro da solidão.

Sou esse pulso vazio sem veias na impressão do que acontece no dia seguinte no diário oficial. O rito é esse compasso de espera, de vagar nas lembranças de um tempo que passou enquanto olho-e-te-vejo-olho-e-me-vejo. Sou eu ali, nas entranhas das frases escritas por você e onde me perco na vaga promessa de uma oração de fé no que não acredito.
Hoje, o livro dorme em silêncio enquanto abro os braços e chamo seu nome… vem?

Beijo,

Mariana Gouveia
Carta publicada no Projeto coletivo La Barca
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Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Carta para Sylvia aos cuidados do poema

Ph: Mariana Gouveia

Sylvia,

Amanheci lendo Ariel… caminhei pela cozinha e descalça fui até o quintal com a xícara de café me acompanhando… Devia ter pensado em um vinho para te brindar…  mas para isso, uso o orvalho que cai das folhas da clitória — flor que absorve bem a umidade da noite – e molho o dedo no líquido que escorre da flor. Lembrei-me de que a primeira versão de Ariel foi publicado no ano em que nasci. E por isso me vesti do poema – que abuso, o meu – e me despi logo depois. Eu me vi erótica e te vi gritante, pulsante, violenta e mansa. É contraditório, eu sei…  mas é que você é essa explosão de sentimentos transbordantes dentro de um poema só e que ultrapassa sua obra inteira.

Busquei o êxtase no azul do céu aqui e fiquei a imaginar a cena que você descreve. Repeti infinitas vezes o penhasco, o sulco, o arco, o pescoço e suspirei. Foi tão intenso que pensei em como você conseguiu cruzar esse meio fio e não se encontrar. O eco das palavras ressoava no interno de mim. Sabe o que é isso? Ah, sim! Você sabe muito bem.

Sabe, fiquei presa dentro das palavras e reverenciei as várias deusas em uma só com seu nome. Pensei que estava delirando quando rodopiei no quintal e atravessei meus olhos além dos muros por que me senti sendo espiada. Chamei seu nome e confesso que quase ouvi uma resposta… claro que é apenas meu lado lúdico bebendo suas palavras. Isso porque o café nem é o vinho.

Fiquei pensando em como você é tão atual e de como suas palavras foi esse grito de prazer e dor. Não sei o que te falaria se estivesse frente a frente com você. Acho que o mundo era pouco para sua dimensão e entendo que nem as palavras conseguiram tornar mais leves os seus momentos. Se me pedissem para te traduzir em uma palavra, eu diria: I n t e n s a… tão tridimensional que Godiva se encaixa entre o sagrado da vida e o pecado da morte: d e u s a e deusas não morrem. São deusas.

Mas ainda assim deusas são ousadas e frágeis… e a escritora foi puro desaforo diante da vida e também a flecha e o alvo.  Mas, para mim, você será sempre algo mais do que uma mulher que escreveu… você é a leoa que deixou suas palavras para que ecoassem com elas as dores, o sofrimento e os amores para que o mundo conhecesse você.

Mais do que a escritora, a mãe, a doente, a morta, a viva, a deusa você é a poesia e o poema. Ousada e submissa. Contraditória e subversiva e inspiração para muitas que como eu quer que a liberdade seja sempre sinônimo de mulher. 

Grata tanto!
Mariana Gouveia
Carta publicada no Projeto coletivo La Barca
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Das palavras das cartas · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Solar

A primeira vez que vi o sol nascer nesse lugar perguntei para minha mãe se aqui era mais perto do céu.

Leonor,

lembrei-me de te escrever para falar do quanto meu lugar esteve solar nesse verão. Você conhece os dias quentes daqui e também sabe bem das manhãs ensolaradas. Já te contei que a primeira vez que vi o sol nascer nesse lugar perguntei para minha mãe se aqui era mais perto do céu. Sabe o que ela respondeu, Leonor? Ela disse que o sol mais perto do céu é o que brilha no coração da agente.

Acho que já vivi aqui muito mais dias ensolarados do que nublados. Já te contei que aqui tem apenas a estação do sol, não contei? Tudo aqui é solar desde o amanhecer, Leonor e sabe de uma coisa? Mesmo que reclamando de alguns dias mais quentes, eu estranho o dia que ele não aparece. Mas, isso é tão raro e você pode perceber isso quando esteve aqui.

O mais encantador disso tudo é que ele muda as cores do céu, conforme a hora, o dia e do jeito que as nuvens estão. As ruas também, Leonor, se vestem de dourado e é como se estivessem preparadas para a festa.

Os dias tem sido mais quentes por aqui, Leonor e fico pensando em como você reclamaria se ainda vivesse por aqui. E como vivemos totalmente o oposto do tempo, eu fico boba com as nuances sobre o tempo que as moças da previsão – tanto daqui quanto a daí – erram na discordância do que é bom. Para a que fala na minha TV o tempo fica bom em grande parte do país, podendo chover a qualquer hora. Para a que fala para você aí, os 23º que para mim já é quase frio, faz a terra escaldar de calor.

Nem vou falar sobre a causa desse mudança de tempo no mundo todo, nem do descaso que os países têm com o meio ambiente… o que eu queria mesmo era te falar que quando vejo o sol nascer em todas manhãs, as lembranças me trazem você e nosso silêncio reverenciando o astro rei.

Também me lembro de todos os ocasos que assistimos juntas… e quando o sol se põe trazendo a noite, as minhas memórias te coloca num lugar bonito dentro do coração e acho que compreendo cada vez mais os finais. Sejam os de todo dia quando o sol se vai quanto os de amor que cumpriram seu papel. Mas ainda assim, eu sinto saudades tuas.

Mariana Gouveia
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
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Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Da estação da águas

Tinha dias que chovia e fazia sol. Era a magia do tempo acontecendo e refletia dentro das gotas que caiam… O jardim aproveita os bocados da chuva, era nessa hora que a mãe falava da delicadeza da cura pelas plantas e de como eram abençoados esses dias de água. Ela conhecia a aridez dos dias secos e do quanto fazia falta se a chuva não acontecer. A vontade do jardim de florescer fica mais latente nesse tempo… as ervas daninhas faziam oferendas no quintal e a vida acontecia liquida.
Os gestos nos ramos viviam de entrega à água.
Era amor em pequenos atos da natureza e a gente. Quando o tempo dava um espaço para o sol, a flor se abria e seguia seu caminho rumo ao calor.

As janelas se abriam para que entrasse a energia renovadora do sol dentro de casa… o extravio morno na pele.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
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Das palavras das cartas · Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Era assim em todos os séculos que existiu

e em cada século repetido o ritual do amor.

Ph: Pinterest

Havia chegado com cheiro de maresia e trazia nas mãos o beijo do mar. Se transformou em poema contado dentro do livro. Página a página em ritmo de poesia e o coração tal qual as ondas batia. O nome feito labirinto pronunciado ao vento. Era assim em todos os séculos que existiu e em cada século repetido o ritual do amor. Escreveu quatro cartas para endereços diferentes. Falava do passado, presente e futuro. Desenhou estradas que talvez nunca passaria. Retratou a cidade com seus cheiros, suas calçadas floridas pelos ipês de várias cores. Tentou passar o perfume das ruas através das frases. Imaginou o riso e a emoção de cada um ao abrir o envelope colorido. Contou das nuvens e as manhãs de verão. Explicou os sonhos, detalhou a esperança e cumpriu o rito da promessa. Falou da menina que recusou o livro por desconfiança — afinal, o mundo anda estranho — e perdeu a vontade de oferecer de novo. Escrever não precisa de explicações.
Beijou um a um os acontecimentos e fechou o envelope.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Diário das quatro Estações
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Das palavras das cartas · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

E o pássaro abre a asa na intenção de voar

Descobri cartas antigas de minha mãe no baú das memórias. As letras cursivas pareciam ganhar vida agarradinhas umas nas outras. Em uma delas ela me chama pelo diminutivo do segundo nome… Parecia despedida e na época não percebi. Deu-me direção de caminhos. Orientou- me diante da vida e falou das canções que ela mais gostava.
Nas palavras, um poema sobre asas que eu fiz ainda criança… Falava do pássaro de todo dia que vivia ali, nos arredores. E do luto dela na ocasião da morte do meu avô. Tudo era um voo plano no ar:

” Era a asa do pássaro que tinha a posse…O poder do voo… o limite do céu.
Esse mesmo céu da cor do vestido de minha mãe de antes da morte do meu avô. Depois da partida dele ela se veste só de preto. Uma forma de mostrar a cor da alma. Mas de manhã, quando o sol abre a cortina do dia, o riso dela é colorido. E o pássaro abre a asa na intenção de voar”.

Depois daquele escrito lembro que minha mãe foi à porta, olhou o céu e sua dimensão de cor… entrou em seu quarto e saiu com seu vestido azul. Aprendi nesse dia o poder da palavra e do quanto era importante a escrita. Hoje, o canto de um pássaro invade o dia e junto com as palavras ganhou jeito de lembrança e cor.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Diário das Quatro Estações
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Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Carta à minha bambina aos cuidados do sábado

Bambina mia

Escrevo-te para dizer que recebi o beijo na asa do bem-te-vi que ronda por aqui. Para mim é sempre o mesmo que vem com o o ritual do ” bemquetevieuquetevi”.

Ele compõe meus sábados de amarelo e enquanto estendo as roupas no varal, tenta roubar a ração dos cães. Entre um lance de sorte e outro, ele consegue algumas e deve ser por isso que ele está sempre por aqui.

Percebi sua alegria pelo envelope vermelho… era para causar mesmo esse impacto e a carta foi escrita desenhando os fatos que acontecem no meu quintal.

Agora, ele está estrelado. O chão reflete nas poças um lua minguante que começa a surgir. Choveu a noite toda de ontem e as estrelas, hoje, ganham um brilho diferenciado.
Haverá eclipse solar amanhã, mas confesso que quando isso acontece por essas bandas, o tempo nunca colabora. Ou quase nunca.
No meu quintal há um “eclipse”, elipse de um beija-flor… Chiquinho criou vida no quintal e começou sua implicância com o bem-te-vi.

Por falar em bem-te-vi ele teve filhotes. Já o vi tentando voos no pé de mangueira da vizinha do fundo. Logo ele se insinua por aqui. É uma algazarra só e um bater de asas e o pássaro a tentar pegar comida para os filhos e os cães a tentar pegar um instante de asa.

Assim, a vida cria riquezas dentro do que meus olhos veem e alcançam além das suas palavras que me trazem a esperança de amor:
– Aspetta che io me voi adoppo.

e eu te respondo:
– Ti aspetto

Bacio
Mariana Gouveia

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É a época das chuvas no telhado

Fui ao baú desenterrar poemas. Chove a manhã toda e se estende para a tarde. Ouvi Gadu e sua voz a ecoar a palavra que era poema dentro da melodia. Ouço os barulhos da casa… os pingos da chuva no balde a guardar momentos e a luz chega pela janela… sou esse cotidiano que chove todo dia, e as flores bebem a água que cai. Ainda visto o pijama da noite, e o dia segue seu rumo de hábitos, manias e defeitos… O pássaro de todo dia pede abrigo na escada enquanto lá fora a vida acontece e eu sou um nome que habita dentro da solidão. Lavo o uniforme sujo e soletro o canto da ave que pousa perto de mim.

Vasculho os diários guardados e leio livros que estavam ali, parados, como a esperar para exalar histórias e à volta são as paredes e posso passar da sala para a cozinha enquanto os trovões ecoam e parecem dizer que aqui o universo tem um portal estranho. Revisito os casulos que se preparam no pé de orquídeas silvestres. Cuido para que eles não molhem. Sou essa metamorfose que cresce e muda a cada dia.
Desfolha em asas a borboleta que nasce. Está aqui e a sinto absolutamente indefesa diante dos dias. Da asa escorre o líquido da vida – é apenas um inseto… alguém diria – em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das outras coisas e ela está aqui, sendo pouso em minha mão e neste momento eu sei e sinto ao certo o que significam certas palavras como a palavra paz.
A vida segue líquida dentro do dia e prossegue nos gestos que faço apenas observando a chuva dentro da canção de Gadu.

Mariana Gouveia
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dentro das palavras fazia as cores se misturarem na alma.

Ph: Pinterest

Habitava dentro das cartas que recebia. Lá pelas tantas, acontecia em Paris. Andava pelas vielas de aldeias que nem sabia o nome. Eram tantos os detalhes que ela desenhava em palavras. Gostava de morar ali, entre o mar e o rio. Entre os jardins suspensos e o seu. Pisava na terra pura, com cheiro de chuva nas manhãs onde o sol raiava e o grilo misturava-se ao verde do lugar, enquanto ela dentro das palavras fazia as cores se misturarem na alma. Colocava em cada envelope flores ou folhas secas… Outono em uma cidadezinha onde os cogumelos lembravam as histórias que contava para ela nas noites frias de junho e naquele tempo era inverno. A primavera chegava nos pingentes coloridos que comprou em um país estranho e o verão nos sóis desenhados em cada canto da carta. Habitava dentro das cartas que recebia e só assim começava a viver.

Mariana Gouveia
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