mãe,
A vida é esse desenho de escolhas que fazemos nos dias… “é esse gosto de viver” – você diria – e de repente, diante das palavras me pego pensando no que eu gosto. Não vou falar sobre os bichos, nem sobre as pessoas… Vou falar sobre a magia que você em tão pouco tempo introduziu em minha vida e carrego comigo através de coisas que gosto.

O rádio…
é mais do que gosto. Uma paixão que você fez nascer em mim. Tudo sobre o “mundo lá fora” nos chegava através do rádio, lembra? Aquele aparelho, colocado em um suporte, como se fosse um trono, os programas, as novelas, os jornais, e as cartas… foi ali, que desejei ser radialista. A semente plantada, cuidada e realizada anos depois. Aquele aparelho mágico que te encantava e passou a ser parte do meu mundo.

A máquina de costura… a suavidade da linha sobre o tecido é algo que gosto… e em cada corte, cerzido ou ziguezague impulsiona em mim o que você ensinou.
Ainda hoje o som dos pedais me trazem você na memória. As lembranças me levam pela mão e vejo as misturas do tecidos se transformando em arte. Isso, você me deixou como herança, porque a poesia dos dias plantados dentro de mim, na infância, é o que me faz ser hoje o que sou. Você conseguiu, mãe, dar os pontos, ligar as linhas e acho que você se orgulharia de mim.

O rio… aquele que banhou minha infância me dá a liberdade de pisar descalça e absorver a leveza da vida. Lembra-se, mãe, de que à beira do rio, na lavagem das roupas, você dizia que todos os rios se encontram quando viram mar? Assim, em cada rio que molho meus pés, eu reverencio aquele rio que vou reencontrar um dia quando chegar perto do mar.

As cartas… sabe, mãe… as cartas que a gente escrevia uma para a outra, dentro da distância que o tempo nos roubou ainda as tenho. Mas, depois disso, as cartas se transformaram em uma espécie de diálogo que traço com os que amo. Os envelopes de hoje são coloridos – eu prefiro os vermelho, você sabe – e os papéis de carta já não são como os nossos com os desenhos feitos por você…Recebo cada lindeza em forma de quarto que dá vontade de emoldurar.

Meus livros, mãe… lembra-se de quando você dizia que um dia, alguém iria ler minhas histórias em um livro… e hoje, muita gente em todo mundo lê as minhas histórias. Com isso, além de realizar meu sonho, trago o seu junto impresso nesse trabalho lindo que minha editora faz. É a arte que você gostava misturada com a poesia que você me guiou.

Os ipês… ah, os ipês que tão bem desenham agosto dentro de mim, nas canções da minha infância, nas cores que parecem feitas a mão… Hoje, eu os tenho no meu quintal e cada flor que brota eu reverencio você, nesse mês tão louco, mas tão dentro de nossa história. Os buquês se formam e os tapetes se misturam em meu quintal tão variado de vida.
A vida, é esse instante vago, mãe e a gente, às vezes, nem percebe que na singeleza das coisas o Universo é essa magia de um bem maior e essa carta foi uma maneira de chegar mais perto de você.
Beijo,
Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural O mundo de Alice – Scenarium Plural Editora
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.






















































