Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

BEDA — Projeto Fotográfico 6 on 6 | a …gosto.

mãe,

A vida é esse desenho de escolhas que fazemos nos dias… “é esse gosto de viver” – você diria – e de repente, diante das palavras me pego pensando no que eu gosto. Não vou falar sobre os bichos, nem sobre as pessoas… Vou falar sobre a magia que você em tão pouco tempo introduziu em minha vida e carrego comigo através de coisas que gosto.

O rádio…
é mais do que gosto. Uma paixão que você fez nascer em mim. Tudo sobre o “mundo lá fora” nos chegava através do rádio, lembra? Aquele aparelho, colocado em um suporte, como se fosse um trono, os programas, as novelas, os jornais, e as cartas… foi ali, que desejei ser radialista. A semente plantada, cuidada e realizada anos depois. Aquele aparelho mágico que te encantava e passou a ser parte do meu mundo.

A máquina de costura… a suavidade da linha sobre o tecido é algo que gosto… e em cada corte, cerzido ou ziguezague impulsiona em mim o que você ensinou.
Ainda hoje o som dos pedais me trazem você na memória. As lembranças me levam pela mão e vejo as misturas do tecidos se transformando em arte. Isso, você me deixou como herança, porque a poesia dos dias plantados dentro de mim, na infância, é o que me faz ser hoje o que sou. Você conseguiu, mãe, dar os pontos, ligar as linhas e acho que você se orgulharia de mim.

O rio… aquele que banhou minha infância me dá a liberdade de pisar descalça e absorver a leveza da vida. Lembra-se, mãe, de que à beira do rio, na lavagem das roupas, você dizia que todos os rios se encontram quando viram mar? Assim, em cada rio que molho meus pés, eu reverencio aquele rio que vou reencontrar um dia quando chegar perto do mar.

As cartas… sabe, mãe… as cartas que a gente escrevia uma para a outra, dentro da distância que o tempo nos roubou ainda as tenho. Mas, depois disso, as cartas se transformaram em uma espécie de diálogo que traço com os que amo. Os envelopes de hoje são coloridos – eu prefiro os vermelho, você sabe – e os papéis de carta já não são como os nossos com os desenhos feitos por você…Recebo cada lindeza em forma de quarto que dá vontade de emoldurar.

Meus livros, mãe… lembra-se de quando você dizia que um dia, alguém iria ler minhas histórias em um livro… e hoje, muita gente em todo mundo lê as minhas histórias. Com isso, além de realizar meu sonho, trago o seu junto impresso nesse trabalho lindo que minha editora faz. É a arte que você gostava misturada com a poesia que você me guiou.

Os ipês… ah, os ipês que tão bem desenham agosto dentro de mim, nas canções da minha infância, nas cores que parecem feitas a mão… Hoje, eu os tenho no meu quintal e cada flor que brota eu reverencio você, nesse mês tão louco, mas tão dentro de nossa história. Os buquês se formam e os tapetes se misturam em meu quintal tão variado de vida.
A vida, é esse instante vago, mãe e a gente, às vezes, nem percebe que na singeleza das coisas o Universo é essa magia de um bem maior e essa carta foi uma maneira de chegar mais perto de você.

Beijo,

Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural O mundo de Alice – Scenarium Plural Editora
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

Projeto Fotográfico 6 on 6

Projeto Fotográfico 6 on 6 | calendário particular.

Nossa, você reparou que já estamos em Julho e que os seis primeiros meses viraram folhinhas arrancadas do calendário? Talvez você diria: Ainda bem! Mas, os dias voaram e em meu calendário particular os meses se desenharam em instantes que vou tentar mostrar aqui em fotos.

1Janeiro e o iluminar das lanternas chinesas.
Meu pé de lanternas chinesas brotou com as chuvas de janeiro e floresceu trazendo ao meu quintal o colorido das flores.

2- Fevereiro e a viagem ao mundo do circo.
Com alguns dias de folga viajei para uma cidade próxima – Tangará da Serra – para rever meu irmão, sobrinhos e cunhada que trabalham em um circo. A alegria de estar junto deles, a arte circense apresentada por eles e a viagem deliciosa tornou o mês bem especial.

3 – Março – os encontros que não couberam em uma foto só.
Como se adivinhasse o tempo que viria a ficar sem abraços, Março foi o mês dos encontros e reencontros, onde o amor foi firmado entre risos, colos e amizade.

4 – Abril – susto, vírus e pandemia.
Abril foi um devorador de paz. O mundo estava parado, o tempo era outro e por motivos pessoais, fui obrigada a viajar para meu estado de origem. Os dias em hospital, máscaras, noites sem dormir e a sensação de que estava vivendo em um livro de terror.

5 – Maio e suas nuances da quarentena.
Maio não coube em uma só fotos e teriam outras tantas diante dos momentos difíceis e o isolamento me fez mais dentro dos muros, a vasculhar o quintal e aspirar o vento, embora com o coração cheio de dor pelas vidas – já de quem amava, gostava e de pessoas próximas – fui lua, aves e flores, como uma forma de acreditar que tudo isso passará e novos dias virão.

6 – Junho e perdas e ganhos.
A vida brotou em toques, nascimentos e também de partidas duras. Junho foi presságio de comemoração, de lamento, de faltas e de aproximação. Ainda é tudo tão duvidoso e as palavras que ganham espaço aqui é lock down, isolamento social, números, voos, pousos, onde o aconchego do coração é o instante leve pela manhã. De meu lugar, vejo que aqui em minha cidade o medo impera, mas em alguns, a impressão é de que não existe pandemia.
Se puder, fique em casa e se tiver que sair, use máscara, lave bem as mãos e aspire o ar. A vida é tão fugaz que nem percebemos os dias que passam.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Scenarium Plural Editora
Participam desse projeto:
Alê Helga— Darlene Regina — Obdulio Nunes Ortega
Isabelle Brum — Lunna Guedes

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 — Através da minha janela, eu vejo!

Da minha janela, os dias se escrevem com asas.

Tão logo amanhece – muitas vezes antes dele amanhecer – eu recebo a visita de Chiquinho – meu beija-flor – e minhas janelas se enfeitam com seus pousos e voos rasantes. O dia começa determinado em asas e cantos.

Das minhas janelas tenho a visão do quintal todo que é composto de dois pés de ipês – um rosa e outro amarelo onde os pássaros fazem festas, um pé de algodão, a caixa com ervas, a escada que leva ao telhado, a moita de maria-sem-vergonha para as borboletas e um céu imenso, colorido de cada dia com suas nuvens parecendo potes de algodão.

Também vejo os varais onde estendo as roupas e disputam atenção com os cambacicas – os quais chamo de intrusinhos, pois roubam a água de Chiquinho – e transforma o quintal em uma luta por espaço.

Com o olhar estendido, além dos muros, a mangueira soberana do quintal da casa de frente tem me proporcionado visões que eu não imaginaria, nesses tempos de quarentena e que se tornaram rotinas: tucanos que colorem a minha visão através da janela.

Para além das laterais, meus olhos vigia o céu, com suas nuvens e quisera eu não ter os telhados vizinhos que me podam algumas visões depois do sol nascer e também dele se por. Seis fotos são poucas para que eu traduza o que meus olhos veem através de quatro janelas pequenas, com grades entrelaçadas. Ficaram de fora as libélulas, os hibiscos, as lanternas chinesas e o trevo de quatro folhas de três espécies diferentes. Além dos bem-te-vis que roubam a comida dos cães.

Mas eu não poderia deixar de colocar a lua, que lindamente em suas diversas fases atravessa o céu do meu lugar e se acomoda entre os hibiscus mutabilis como se buscasse moldura para enquadrar sua beleza.
Foram seis meses, onde sob o olhar e direção de Lunna Guedes, da Scenarium Plural Editora compartilhei fotos que retrata parte de minha vida, do meu lugar.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Scenarium Plural Editora

Participam desse projeto:
Darlene Regina — Isabelle Brum — Lucas Buchinger
Lunna Guedes — Obdulio Nunes Ortega


Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – — Quem sou eu?

É a pergunta que me faço às vezes, e sempre que encontro a resposta vem logo outra pergunta, porque me vejo mutante, várias. Depois de uma poli quimioterapia virei poli. Poli gratidão, poli esperança… poli amor. Passei a vivificar os dias e me permitir essas mudanças que os dias e as ocasiões me apresentam todos os dias.

Enfrentar uma doença grave me fez mais forte. Me fez mais leve, mais corajosa diante da vida. E dos dias. Às vezes, eu choro e rio. Às vezes, eu rio e rio – às vezes, mar – maresia sem nunca ter sentido a sensação de sal na pele, mas com o sabor na boca a programar saudades, vontades. No tato com a natureza sou pouso. Aprendi a ser escolha e minha escolha foi ser livre. Na beira do abismo você tem opções: ou pula ou volta…eu escolhi voar.

Sou a natureza viva e colo para os que querem pouso… Sou a natureza e a liberdade de amar os animais.

E sou pouso para os amigos e amparo. A que acolhe e é acolhida.

Sou a vivacidade delas, sou a militante, a que pontua, se mostra, se doa e recebe. Sou abençoada pelas pessoas que o destino coloca em meu caminho.

Sou a que escreve e a que lê… a que aprende e sempre busca mais. Sou alma, palavras e verbos. Essa, sou eu… com as nuances de um conjunto de pessoas, de animais, de amor e fé.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Scenarium Plural Editora

Participam desse projeto:
Darlene Regina Lunna Guedes — Obdulio Nunes Ortega

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

b.e.d.a – Projeto Fotográfico 6 on 6 – Monocromático

O meu amor não tem cor… é monocromático. Mas colore minha vida com suas nuances e seu jeito ranzinza de ser menino… apenas é…

E de repente, o amor se amplia e se agiganta. Duplica e enche meu coração de alegria. Ela chega para ser mais e muito.

e quando se torna parte, já é um todo.e como pode ser tão pequeno e tão imenso nesse gostar?

E como pode ser tão gigante e ainda assim parecer uma criança?

Como pode ser tão grande e ainda assim, ser tão imensa em seu instinto de amar?

Porque amor não se mede pela cor, idade, raça, tamanho…
amor é amor e não tem mesmo cor… só sentimento

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6 – Scenarium plural Editora

*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6

Projeto Fotográfico 6 on 6 — Bonapetito

Minha mãe dizia que comer curava… ainda me lembro de meus irmãos e eu em volta da mesa de madeira pura e as panelas ainda fumegando em cima do fogão de lenha e ela incentivando a nós que a comida curava – cura a alma, a fome e a pele.

Quando se fala em comida ou bonapetito o que me lembro é do cheiro da horta e dos legumes frescos. Talvez, o que me leva à toda minha infância – e é o que me move em todos os momentos – é o cheiro da terra molhada, lembrando colheita… seja de abobrinha ou pimentas. Nossa horta fazia um L na casa e era cercada com arames, para evitar o ataque das galinhas. Ali, tínhamos ervas frescas e todos os tipos de legumes e hortaliças. Trocávamos com os vizinhos de outras fazendas naquilo que ainda não havíamos plantado.

Sou goiana e as comidas típicas da região até hoje são de dar água na boca. Com o pequi fazíamos desde licores, até as conservas que duravam até 6/8 meses e o bendito arroz com pequi me traz a alma e o sabor do lugar onde nasci.

Hoje, tenho minha própria horta… cercada, por causa de Lolla – minha cachorra branquela azeda, que insiste em brincar de piscina de terra, caso eu me distraia. As ervas, as pimentas e tomates colho na leveza dos dias. O alecrim que me traz a canção da infância:
Alecrim, alecrim dourado…
e a cebolinha, o coentro e a salsinha que perfumam minha cozinha.

Eu poderia colocar aqui mais de mil fotos, que retrataria a união, o amor e a força que me faz quando volto ao meu lugar.
Minha irmã mais a velha a dominar o fogão a lenha, as frutas, ainda intactas, no mesmo pomar, como se estivessem só esperando que eu chegasse para colher… O peixe fresco, pescado logo ali, no ribeirão onde banhei e os biscoitos com cheiro e gosto de mãe.

Talvez, você estranhe ao ler, mas a foto acima é o único alimento que não me falta todos os dias. Seja um ou outro… Ou todos juntos. É a minha porção de magia que me leva ao que é meu, ao que eu sou e ao que serei. Pode ser que seja o cheiro do alho dourado ao acrescentar os legumes na panela. Pode ser que seja apenas pela lembrança de minha mãe e daquilo que ela mais gostava. Mas pode ser apenas porque eu estou faminta e vou ali para meu jantar.
É servido?
Bonapetito!

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 — Bonapetito
Scenarium Plural Editora

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 – Cores

Meu coração é vermelho, hei ! hei !
De vermelho vive o coração, ê, ô ! ê, ô !
Tudo é garantido após a rosa vermelhar.
Tudo é garantido após o sol vermelhecer.
Chico daSIlva

Vermelhecer é a palavra que me ganhou nessa música e é com essa cor que começo a falar sobre as cores. O vermelho domina meu coração e durante muito tempo foi a cor principal a dominar minha vida, meus cabelos, minhas roupas e até a unha trazia a cor. E no meu jardim ela ganha a intensidade nas flores e nas mais variadas coisas.

Claro que adoro também o azul que é a cor que predomina em grande parte do tempo meu céu, e logo quando acordo e meus olhos ganham o quintal lá vem o:

” Corre e vai dizer pro meu benzinho,
Um dizer assim o amor é azulzinho”…
E Djavan acontece aqui todo dia…

Mas quando vejo as asas de borboletas a voar, as cores deixam de ser vermelhas, azuis ou outras cores e eu vibro na intenção das asas. Nessa hora, os tons se camuflam apenas no estado de ser poesia. É o que chamo de encanto e mesmo que veja isso várias vezes por dia, o sentimento é o mesmo a cada voo.

E as cores acontecem nas mais variadas formas de asas, flores e tons. E as transformações vão acontecendo diante dos olhos e a gente esquece que o que desafia o olhar são apenas nuances de tons que se equilibram em uma grande paleta de cores e formas.

Nesse momento, a vida pede apenas para ser simples e viver o instante. Seja vivenciando a cor de dentro do coração, ou se alegrando pelas cores que os olhos veem.

E que os olhos perdidos de olhar descobre que tudo é um quadro perfeito com suas cores se equilibrando entre a natureza e o viver.

E descubro que mais do que falar de cores, falei de mim em tons que meu lugar me oferece como um presente diariamente.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Cores
Scenarium Plural Editora

Darlene Regina  —  Lunna Guedes — Obdulio Nunes Ortega

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 – Por onde andei?

Meu endereço sou eu
O máximo que faço
é abrir e fechar janelas
para o mundo!
Silvana Conterno

Andei por aí, nas manhãs do meu lugar onde o céu já acontece em seu esplendor logo cedo e a vida começa na rua de cima. É logo ali, que é a saída para o mundo.

E como se fosse um alquimista, o sol se derrama sobre a cidade e alaranja tudo que ele toca. Minha cidade parece feita de papel pintado pelas mãos de um artista que desenha as casas e seus telhados feitos de sonhos.

Andei por chãos onde a fórmula mágica das flores desenham tapetes coloridos nas ruas do meu lugar e a chuva antecede a primavera na essência da poesia.

Se perguntarem por mim, digam que voei.
Alice Vieira

Ah, e andei sobre as nuvens, colhi palavras, letras e abraços… E andei por calçadas com o amor do lado e o riso de cumplicidade na alma.

Voei e pousei na Casa Laranja, nos abraços e distribuí sonhos em forma de livro.

E colhi afetos dentro do mundo Plural onde sou essa caminhante andante por aí.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Scenarium Plural Editora

Participam desse projeto:
Darlene Regina — Isabelle Brum — 
Lunna Guedes — Obdulio Nunes Ortega

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 — Serendipity

Quando esse tema chegou até a mim, fiquei a imaginar quais seriam os instantes que eu colocaria nas palavras.
O acaso vive me trazendo momentos quase que diários onde meu suspiro vai de encontro ao inesperado.

                                                                                                   ” O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar”
Titãs


Logo nas primeiras horas da manhã, a sorte me chama no amor do pássaro de todo dia que o acaso traz para meu quintal. Chiquinho é a emoção diante do inesperado gesto de pousar em meus dedos… ou sobrevoar meu pescoço em busca do afago nas asas. É como se um elo entre a natureza fizesse o sopro do acaso em minha vida.

Na rua de cima, me deparo com a leveza do ipê, como se beijasse a rua e as calçadas – e ainda nem é tempo deles se despertarem para as flores – que tem no mês de agosto sua florada magistral. Mas quem disse que o acaso não pode ser vivido dentro da rotina?
A extensão da rua, logo depois da casa da esquina, a pétala que cai, o cão que late a espera do meu bom dia – ou do biscoito que trago todo dia para ele – e meu afago em sua cabeça é sinal de confiança.

As múltiplas opções que o acaso me desenha vai desde uma árvore quase morta cheia de pássaros em meio a um trânsito caótico e o dia fechando as portas rumo ao poente e um coração de pedra, com as cicatrizes que a natureza causou logo acima da rua do meio.

O cheiro da garoa – que mais parecia uma chuva fina – caindo sobre a grama me trouxe a serenidade para além dos dias tumultuados e dentro da palavra serendipity, uma visita acalentou o dia.

E como se não bastasse um pouso, a vida de asas faz festas no focinho de quem sempre tem olho mágico diante da vida. Tudo é tão cheio de singularidades que a melodia do vento faz jus à sinfonia do silêncio que impera na alma.

Como Pasteur disse: “O acaso favorece apenas a mente preparada“. Mas para absorver as felizes descobertas ao longo dos dias, devemos ter o entendimento de aceitar o inesperado e reinterpretá-lo com o coração.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural – 2019
Participam também desse projeto: Lunna Guedes– Obdúlio Ortega Maria Vitória

Meus Livros · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Revista Plural

Projeto Fotográfico 6 on 6 — minhas noites!

Eu gosto muito das horas despretensiosas. A beleza mora nelas.
Joakim Antonio
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Confesso que minhas noites são feitas de silêncios. Ou de monólogos intensos pelo quintal. Quando o sol se prepara para a troca com a lua, minha cidade – que dia 8/04 completa 300 anos – se transforma em silhuetas através das janelas do ônibus. Aspiro ali, o lugar de fé, também o prédio mais alto da cidade e a respiração acalenta nas sombras o que foi o dia.

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E dependendo da fase, lá vem ela dominar o decanato e ascendente. Cada tempo tem sua necessidade e ela em sua fase de cheia invoca os deuses e faz o cabelo engrossar e mais uma vez, nessas noites eu relembro as lições do pai.

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No meu quintal, nas minhas noites, às vezes, a lenda acontece na caixa velha de eternit e o eco se renova perto do pé de vento. Era ali que as histórias eram contadas e é ali que minhas noites são feitas de sopros. O calor, quase sempre, é asfixiante e bem embaixo do pé de ipê o cogumelo arrebenta e a frescura toma conta da alma. É onde aconteço dentro de minha história.

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Há noites em que ela surge em vírgula e me vejo lunar nas minhas noites. Chamo um nome, lembro do uivo, refaço rituais que aprendi quando criança e sou pura fascinação. O céu ganha minha atenção e conto histórias que nuca esqueci.

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Nas histórias, o que me envolve é a lua – e na ausência dela minhas noites ficam ocas, vazias – e o céu é meu templo. Realinho os mantras e faço orações para o universo em todas as fases de lua e de quebra, ainda ganho estrelas.

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E para finalizar, sou colo do pássaro de todo dia que em minhas noites é aconchego para além da alma. Ali, no varal, pouco antes de deitar ele vem em oferta de carinho e poesia.

Sou quase extensão de histórias que se aninham entre si e fazem de mim o que sou hoje: uma insone nas noites sem lua. E como diz um dos meus poetas queridos Joaquim Antônio: “Eu gosto muito das horas despretensiosas. A beleza mora nelas”.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural – 2019 Participam também desse projeto: Lunna Guedes Obdúlio Ortega Maria Vitória