Projeto Diário das quatro estações

Sim , eu também escrevo diários

Sim , eu também escrevo diários

A primeira vez que vi um diário foi através das mãos da minha mãe.
Era todo enfeitado com um pássaro na capa, feito com pedaços de pano e o pequeno cadeado com chave já me dava a sensação de segredo.

Com mais três irmãs e três irmãos era fácil perceber o cuidado e a sensibilidade dela. Quando eu escrevia a palavra amor logo começavam o coro do: tá apaixonadaaa! E isso durava um dia inteiro e às vezes, até semana.
Naquele pequeno caderno era onde eu apontava meus segredos e guardava minha intimidade. A chave era motivo de procura pelos irmãos enquanto ganhavam broncas de minha mãe.

Com o tempo, a chave foi perdida e como para eles tudo que era fácil perdia o encanto, pararam de me perseguir e passei a escrever sobre os dias. Tudo era motivo de palavras, poemas ou mesmo uma frase.

Ali, em alguma das folhas foi colado o tecido da roupa que eu mais gostava. A renda do primeiro soutien…a mecha do cabelo em seu primeiro corte. O brinco que era um grão de arroz e por descuido meu foi perdido um.

Logo, o pequeno caderno encheu e outro veio tomar seu lugar. Desde então, os dias eram descritos com a intensidade do viver.
As frases das músicas que eu amava e cantava para desespero dos meus irmãos e os poemas que eu amava ler.
Às vezes, quando eu voltava ao pequeno diário ria de algumas coisas escritas. Me espantava com algumas anotações. Meus dias eram descritos da mesma maneira intensa de viver e ainda faço isso com o mesmo amor e cuidado.
Escrever o diário é como embarcar em uma viagem rumo a um lugar desconhecido, onde daqui a alguns anos a viagem se torna visível diante do que leio.
Hoje, de cadeados abertos, te convido a embarcar comigo nessa viagem.

Mariana Gouveia

Scenarium livros artesanais
Diário das Quatro Estações
Lançamento 27 | 08 | 16 – a partir das 16h
Biblioteca Mário de Andrade
R. da Consolação, 94 – Consolação

 

 

Cadeados Abertos · Das palavras das cartas · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Carta ao meu pai aos cuidados das lembranças

juara

Choveu essa noite, pai. E enquanto assistia a chuva a cair, o cheiro de terra molhada me carregou para a infância. Virou quase abril esse dia que antecede junho.

É seu aniversário amanhã, pai, e a chuva benze o dia para que seja abençoado também. Sabe aquele cheiro que exalava quando as primeiras gotas caiam e a roça de toco ganhava o respirar para acolher sementes? Senti o mesmo cheiro aqui. Deve ser o céu a te brindar mais um ano. Perdi a conta dos dias que não chovia, talvez por isso, o barulho das gotas no telhado tenham me levado para dentro das lembranças. Quase me envolvi no paletó de flanela com florzinhas miúdas. A sensação é plena, pai, e, embora já tenha passado tanto tempo, eu ainda sinto tão forte os instantes vividos, que é como se fosse um filme a desenhar as lembranças diante dos meus olhos

O fogão a lenha a crepitar ardência e o cheiro do café coado na hora acordada nossa fome e todos os sentidos. Hoje os cabelos brancos emolduram seu rosto e distância não me permite o abraço de perto. Ligo o rádio e ele toca suas músicas, enquanto as gotas suavizam e um céu alaranjado anuncia mais uma vez essa coisa insistente de quebrar as previsões.

A canção me traz o encanto da terra e, nessa hora meu coração te abraça. Posso dizer que o tempo não parou, pai, e o seu radinho de pilha intocável, a nos contar histórias e nos ligar ao mundo. Lá fora, o dia pinta diante de mim a cena que revivo e quase chego a sentir o cheiro de relva molhada, enquanto os animais se preparam para o dia que vem chegando.

Engraçado que a gente não manda nas lembranças e a vida acontece dentro delas. Sempre quando chove me lembro do cheiro da horta, onde colhíamos os legumes fresquinhos. Essa sensação é tão estranha que é como se eu estivesse com um livro aberto e as imagens aparecessem em minha frente.

Meu encanto pelos cavalos, as borboletas e aves é como se fosse um presente seu, em seu amor pela natureza e sua força diante do trabalho. Como nesse dia deixar de te escrever e dizer do meu amor, embora saiba disso sempre. Estamos marcados pela sua força e vontade de viver. A vida te deu momentos difíceis, mas a maneira de ainda cultivar a fé e levantar os olhos ao céu em agradecimento, é o mesmo sempre; e é com esse gesto que dedico minha oração a Deus.

Feliz Aniversário,

Daqui, de onde as lembranças me abraçam, te beijo

Mariana Gouveia
In Cadeados Abertos – Diário das Quatro Estações
pág. 171
Editora Scenarium Plural

Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações

Colhe-se leveza nos caminhos percorridos.

Uma brancura se estende e o infinito é logo ali…
me surpreende a vida do lugar… a maciez do toque, as cores misturadas e um horizonte todo para percorrer – onde o olho alcança há colheita ou plantação…
O dia, ao nascer, reserva sementes para logo se tornarem frutos, e os frutos, logo serão matéria-prima de algo para se construir... e assim, construo pontes rumo à minha história.

Mariana Gouveia
In Cadeados Abertos – Diário das Quatro Estações
Editora Scenarium Plural
pág. 15
*Campo de algodão depois da colheita – Interior de Mato Grosso

Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações

Nascimento

Nascimento

Vi a vida nascer do lado da cerca. Era uma explosão de amor nos olhos de quem paria.
Lembrei-me de quantas vidas vi nascer assim, ao pé dos olhos.
Bicho de asa, de voo, de bico, bicho que ama. Era quase uma magia pura ver nascerem as coisas. A flor que brota, o milho plantado. O bebê esperado.
Vi a graça de um sol que nascia. A lua que surge enchendo o céu com sua beleza.
Sou uma parteira de nascimento. De pegar na mão e chorar pela dom da vida de quem nasce. Seja gente, seja bicho, seja planta. Tudo que nasce me toca.
Nesse instante, Deus me faz um carinho na alma.

 

Mariana Gouveia
In Cadeados Abertos – Diário das Quatro Estações
Editora Scenarium Plural
pág. 25

Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações

Havia prenúncio de ave na chegada

Havia prenúncio de ave na chegada.

Os olhos comiam o dia amanhecendo. Alguém dava pinceladas de cores nas tintas. Verde em profusão de amor. Nos tons que ultrapassam cinquenta vezes mais do que os olhos podem contar.
Lembrou-se da aula de arte. Verde-água, verde-musgo, verde-bandeira, verde!
De repente, o inverno se desenha colorido. Pega a mala da saudade e ali guarda o instante. Ri. Logo ele aponta ali, mais ali.
Flashes que quando criança podia imitar.
Ousa repetir o gesto. Parada em um mesmo ponto. Se vendo ali, criança. Gesticulando sonhos. Ainda nem era tempo de chegadas e já murmurava alegria.
Bem ali, o dia acelerava a magia e era necessário viver.

 

Mariana Gouveia
In Cadeados Abertos – Diário das Quatro Estações
Editora Scenarium Plural
pág. 23