Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

b.e.d.a – e essa leveza de quem consegue apenas respirar…

Querida Olga,

Eu nem queria escrever, porque as letras para mim são formiguinhas que vão e vêm em carreirinhas, iguais às costuras de minha avó.

Uma canção pede para que rasguem as cartas. Isso era do tempo de minha infância, quando na rádio lia as cartas que as pessoas escreviam.

Pediam canções, amigos, amores, encontros e especialmente, atenção.

Nunca precisei de atenção. Sempre chamei atenção. Esse jeito torto, vago e as flores do jardim. Me disseram que escrever é como se fosse fuga e me pego na noite amassando os papéis e repito com a cabeça na parede: quem disse que quero fugir?

Lembro-me de que alguém falou sobre cartas na infância. Os envelopes pardos a descrever sobre fatos…

Vejo apenas sombras no vulto… as figuras a embrenhar o muro como fuga. E essa leveza de quem apenas consegue respirar.

Feliz aniversário!

Mariana Gouveia
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Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Começar pela palavra…

Eu reconheço mil peles
Mas só uma digital
Do que toca

Marcos de Faria

Meu caro,

Muitas vezes, a palavra me falta e daí eu tateio as coisas no quintal… depois da chuva faço uma vistoria nas folhas, nas poças d’água para salvar a vida miúda que anda por aqui… nesses momentos eu me sinto a castelã que você descreve na generosidade de amigo. A Mariana que faz com que a vida continue quintal adentro.

E vou reinventando fatos, explorando o pé de algodão e ofereço a mão como abrigo. Você sabia que o Chiquinho – meu beija-flor-menino já dormiu uma noite inteira na minha mão? Isso aconteceu depois de um acidente entre ele e o ventilador da sala. Logo que eu o reanimei, meio em prantos, ele se aninhou em minha mão e não saía de jeito nenhum… por mais que eu o colocasse no vaso da lanterna chinesa – um dos lugares preferidos dele – ele voltava pra minha mão.

Sentei-me no chão da varanda, com a mão apoiada na cadeira e ele até roncou. Você já viu um beija-flor roncar? É a coisa mais linda que há… e quando amanheceu, meu braço quase não mexia… e foi assim que passei uma noite inteira com um beija-flor. Já vivi várias outras aventuras com ele, porque o danado é um menino sapeca.

Tudo isso te contei para falar das coisas que vem parar em minha mão… grilos, gafanhotos, pássaros e uma infinidade de borboletas, mas as joaninhas ganham de todos os outros. Basta um descuido e lá vem uma pousar na minha mão… Talvez, isso responda ao seu comentário da palavra na palma da mão… se até os bichos encontram abrigo nelas, imagine as palavras, moço! É que a poesia ronda aqui desde minha nascença, lá no interior de Goiás.

E olha que vibrei aqui com a citação à Adélia! Nossa, e a Hilda, então?! Fiquei boba que só e resolvi te escrever essa carta apenas para agradecer. E o agradecimento vai em forma de abraço e palavra e com as mãos justapostas em reverência a sua amizade.

Abraço,

Mariana Gouveia
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Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

E a loucura será feita de abraços…

Te decorei
para te rezar
todas as noites do meu dia.


Alessandra Siedschlag

Amada Maria,

Saberão os dias em que os corredores serão feitos de risos e que a loucura será apenas dos apertos de abraços.

Haverá os dias em que os espelhos serão apenas partes de relacionamentos e não cacos quebrados jogados no lixo, à medida que a sorte rouba as digitais dos humanos e eu folheio as fotografias na memória como quem rouba dados.

Tudo é esse grito na garganta, preso.

Mesmo que o calendário seja essa rotina de todo dia e você nem saiba seu nome. A loucura é essa improvisação no modo de ser. E é também essa coisa de ave abrir a asa e voar… não conheço outro modo que não seja essa grade.

Não conheço outro canto que não seja o dos anus pretos. Nunca tive nada desarrumado, porque nunca tive nada meu. A colher que me cabia tinha o cabo torto e alguém se apoderou dela e fiquei a ver a cor do cabo a ser servido duas cadeiras além da minha.

A colina, é essa ponta de verde musgo que meus olhos alcançam e de onde chegou a notícia de que alguém morrera na mata da rua do meio.

Mariana Gouveia
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Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

b.e.d.a – dos dias de metamorfose.

Querida flor,

As porcelanas empoeiradas na mesa de cabeceira guardam segredos que eu apenas repetia para o espelho. Depois que coloquei o pano azul para cobri-lo nunca mais ousei pensar neles.

Costurei a garganta todo dia para não cantar as canções daquele tempo em que a maresia trazia o balanço das ondas para o quintal.

Vivi todos os dias a metamorfose de me regenerar na dor. Era a asa quebrada no vento. Era o vento derramando força no pouso.

Queria a mão para que fosse leveza.

Queria leveza para que não doesse a alma – algumas dores nos fazem mais fortes – e para que apenas passasse os dias com suas rotinas. O medo é apenas passageiro… dá apenas coragem para pousar quando é necessário o voo.

Mariana Gouveia
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Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Da renda ao pouso…

Ana,

Dizia que o rumor do silêncio tinha o barulho da asa da libélula. Chacoalhava o dia no calendário torto. Falava do tempo que escorria em água do céu. Enquanto o animal estendia em renda seu leve som.

Tinha os gestos repetidos dentro das manhãs. Rotinas de doçuras enquanto a melancolia do céu beijava a flor sem vergonha que teimava em brotar na singularidade do jardim.

Tinha ocos feitos a mão, rasgando a parede ocre. A palavra me acolhe na sombra e assombra quem ainda acredita no acaso. As letras cabiam em envelopes coloridos. Algumas traziam notícias boas. Outras, envelopes com o timbre dos telegramas. Minha mãe tremia quando abria e via os códigos que retratava histórias que não queria saber.

Vi a morte diante dos olhos… Vi a vida me dar as mãos.

Em outros envelopes, as letras continham afagos na alma. Houve um começo de vida no subsolo. Germinava raízes onde tinham espinhos.

O fim é mesmo fim quando a solidão aflora dentro da companhia. De bônus – o voo – o pouso.

E era tanta imensidão de vontades na palma da mão.

Mariana Gouveia
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Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

b.e.d.a – Já viu o azul, Luci?

Luci,

Havia uma cor azul no estuque da parede. Houve noites em que a solidão me trouxe barulhos na janela e se eu disser que a noite aqui é puro inverno? É frio, e eu tremo. A água gelada que caiu em ritmo de castigo parecia canção sobre a pele.  Era som de mais para quem enlouquece de silêncio. Às vezes, bato na parede-janela-pernas para que o som alcançasse o lugar e eu ouvisse algo que não fosse essa imensidão de silêncio em mim – diria que nasci muda- surda – talvez o comprimento do dia seja esse largar de minuto. A hora certa para o rito das cores: uma para aplacar o grito; outra, para curar a dor e mais uma, para que as fantasias se espalhem nas paredes e os ecos sublimem a sílaba e… eeeee.

Você deve saber que ando furtiva nas noites. As beiradas do telhado têm cores fabulosas. Dali, quase consigo alcançar o céu. E esse sentimento meu é quase toque e o infinito cabe nessa lucidez das perguntas em vão: o que vim fazer aqui? Cabe em mim esse vão absurdo entre a ponte e o rio, sem que eu desague no mar?

Mariana Gouveia

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Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta à Terra

Querida Terra,

Dizem que você tem uma carta, que é basicamente uma declaração de princípios éticos fundamentais para uma sociedade justa, sustentável e pacífica… é estranho ter uma declaração com as regras que por princípios já devia ser assim. Cada ser humano deveria fazer de tudo para te proteger. Infelizmente, não é o que acontece.

Eu deveria falar sobre sobre isso, mas vou te lembrar de coisas que me alcançam sobre você. Seu cheiro, depois de uma chuva invadindo meu quintal é a lembrança mais terna que trago em mim. Isso também acontece quando rego as plantas. O orvalho da manhã sobre os capins me faz lembrar que você abriu sua caixa de joias e deixou seus brilhantes espalhados por aí.

As flores do ipê, que de tão dourado me leva para além da memória da minha infância. A diversidade que você pontua na fauna, na flora são tesouros que não sabemos nomear e muitas vezes, maltratamos. Acho que somos os únicos seres que destrói o lugar onde mora… os únicos que não valoriza a riqueza sob os pés.

Nesse dia, data que te atribuem e todo mundo relembra os princípios básicos para que você seja salva – amanhã, tudo volta ao normal – eu te reverencio… me curvo diante do rio e louvo teus seres, tuas matas, teus rios, tua vida.

O gesto é simples e simboliza que descalça sinto a energia vinda de você, de sua força e seu poder.

Que saibamos valorizar isso.

Te toco, te abraço, te vivo!

Mariana Gouveia

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Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Pode ser em Cuiabá ou uma vila qualquer da França…

“Chaque grande chose naît d’un tout petit rien…”

Linda Sandra,

Comecei a habitar dentro das manhãs, nas pinturas que você cria e nas cartas que eu escrevia. Era como se eu pegasse em sua mão e caminhasse com você pelos seus caminhos. Ouvia as canções no idioma que adoro. Era quase um presságio de coisas que deveriam acontecer. Lá pelas tantas, acontecia em Paris. Ou em alguma vila qualquer da França. Ou nos cantos do meu quintal. Caia neve de sua janela e as cortinas dançavam com o rabo do cão. Andava pelas vielas de aldeias que nem sabia o nome. Eram tantos os detalhes que você desenhava em palavras, enquanto aqui, o sol ardia e meus cães corriam atrás dos pássaros que teimavam em ciscar a grama.

Eu morava ali, entre o mar e o rio. Nas flores do seu caminho diário… Entre os jardins suspensos e o seu. Pisava na terra pura, com cheiro de chuva nas manhãs onde o sol raiava e o orvalho parecia diamantes e o grilo misturava-se ao verde do lugar, enquanto dentro das palavras fazia as cores se misturarem na alma.

Colocava em cada envelope flores ou folhas secas… Lia poemas, folheava o livro que ensinava a rota dos meus quintais. E uma amizade nasceu dentro da arte. Era diário o entregar de flores… como se fosse um poema que ainda não nasceu. Um vento azul, um sopro de mar e essas coisas miúdas que tão bem fazem na vida da gente.

Deve encontrar cogumelos no caminho, enquanto aqui, o outono me traz eles nos cantos dos vasos de hortênsias. Vivia a primavera e pensava nas cartas coloridas que chegará aqui dias desses. Nos fusos que confundem o ritmo do tempo… enquanto você amanhece, eu ainda sou madrugada. Pensei nessa carta para te desenhar … Pois eu habito em cartas e com elas eu viajo até você.

Bisous

Mariana Gouveia

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Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

b.e.d.a – Meu irmão

Meu irmão querido,

Na minha memória, de todas as coisas que vivemos as mais marcantes tem você, com um capim na boca ou sendo o dono da bola no campinho da fazenda. Tem você com medo dos bichos e dos meus rompantes mato afora…

Poucas vezes eu disse te amo – disse algumas vezes, é verdade – em poemas, cartas ou mesmo perto. Seu jeito meio sisudo inibe, ás vezes… mas o meu amor, tenho certeza de que você sente todo dia. Somos oito irmãos e você sempre foi um guardião… ali, mão estendida, feito protetor e sem coragem para dar bronca.

Sabe, lembro-me também das camisas brancas de uniforme marcando sua presença no guarda-roupa e quando você ganhou o mundo e foi cuidar de sua família, eu fiquei meio órfã…

Na casa antiga já não havia você na espreita para ver se eu fazia alguma arte. Já não havia os quadros de campeões de todos os estados na parede da sala e não havia sua presença mais em silêncio me esperando em qualquer canto da casa.

Hoje, eu sou pura emoção… passamos dias difíceis e diante da bondade do criador, mesmo sendo portador de uma doença complicada – insuficiência renal – você se recuperou desse vírus que está matando famílias inteiras.

Eu louvei, vibrei e chorei pela sua coragem, pela sua fé e por ouvir tua voz me dizendo que venceu…

A gente sabe que ainda teremos dias complicados pela frente. De recuperação, de força, de fé e de muito amor. Tive pessoas maravilhosas que fizeram de tudo para te dar suporte e nos dar suporte. Nem posso citar nomes para não cometer injustiça… mas, como lá, em uma festa de santo, você era meu par… sou seu par para toda vida.

Te amo sempre!

Mariana Gouveia

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Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Para além das serras nobrenses…

As pessoas
intensas
imensas
e densas
são feitas
de barro,
de sopro…

De barro
para que as
sementes
germinem.

De sopro
para que as
sementes
se espalhem.

Tudo mais
é pedra,
é vácuo.

Oswaldo Antônio Begiato

Mestre,

Um dia, um sábio da aldeia me falou sobre lealdade e confiança. Sobre amizade e respeito. Perguntou-me se eu confiava em você e meus olhos brilharam para além das serras de Nobres e disse a ele que eu acreditava mais em você do que em mim. Ele soprou a mão dele e colocou aquele sopro na minha e com as mãos justapostas fez referência e disse que se havia algum homem na terra que merecia confiança, esse alguém era você. E que você tinha o dom da amizade.

Me falou de suas idas nas aldeias e de como você agia com cada tribo de uma maneira tão intensa que todos te adoram. Eu ainda era novata na saúde indígena e lembro-me da maneira que você me ensinou a entender todas as tribos. E ali, entendi sobre o que o sábio da aldeia quis dizer. E quando seu abraço me acalentou em dias difíceis eu entendi o seu dom da amizade.

Poucas vezes, eu vi pessoas que realmente se preocupavam/preocupam com os indígenas. Poucos os entendem como você. A sabedoria da terra te ensina, mas a bondade de seu coração, põe em prática.

Descobri que a melhor maneira de homenagear os indígenas hoje, no dia atribuído a eles, seria te homenagear. E tenho certeza de que eles concordariam… você espalha a semente da serenidade ao lidar com eles e você é o “chefe” que eles adoram.

Mestre, falar de você vai além das etnias e tribos. Falar de você é falar de amigo, de sabedoria e de humanidade. Que isso seja espalhado por onde você passar e que todos os espíritos guerreiros estejam contigo em prol do bem maior.

Obrigada por me acolher, me apoiar, me instruir e ser essa mão estendida sempre… que a beleza das serras nobrenses te renove todos os dias… (essa última parte foi apenas brincadeira… rs).

Mariana Gouveia

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