Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Era assim no tempo das flores…

O que me dói tem um nome que não obedece a mapas: a memória é um tempo desavindo.

Rui Nunes

Cris,

Abri a estante dos livros e vasculhei em busca dos poemas que lemos juntas ainda lá na outra casa. Lembrei-me do baú com a cartas de Leonor que encontramos e foi dali que surgiu a ideia de escrevermos um diário juntas. A sua risada ecoando na janela quebrada, imitando a moça do diário foi uma das cenas mais lindas que vivi na vida:

O amor devia ser tecido como uma renda e enquanto os dias não passam e a vida passa em branco, eu sou só espera…”

Sabe, Cris, eu me casei, você se casou e os dias foram nos roubando as horas. Cada vez que marcávamos um encontro acontecia algo e a gente ficou cultivando a saudade como se fosse um vaso de flores. As flores que plantei aqui já floriram e a brisa traz o cheiro delas para dentro de casa. Era assim no tempo das flores naquela rua de terra onde a gente buscava o telhado de casa para falar de estrelas e do diário que a gente nunca mais escreveu. O pé de ipê floriu de novo, os girassóis que plantei estão tão bonitos e a flor do campo se vestiu de vermelho e só por isso, lembrei-me de você.

Hoje, eu senti saudades e resolvi te abraçar através dessa carta até que tudo isso passe e a gente possa de novo se encontrar.

Abraço carinhoso,

Mariana Gouveia
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

b.e.d.a – Minha Odara…

Deixa eu dançar, pro meu corpo ficar odara
Minha cara, minha cuca ficar odara
Deixa eu cantar, que é pro mundo ficar odara
Pra ficar tudo joia rara
Qualquer coisa que se sonhara
Canto e danço que dara

Caetano Veloso

Meu girassol,

Sabe, Cláudia… plantei um girassol para você. Dois meses antes de seu aniversário e seria o presente para te entregar. Só que, o girassol brotou, foi despontando as folhas e surgiu a flor mais linda – majestosa mesmo – e no ápice do brotar da flor, o mundo se transformou nesse caos.

Com o passar dos dias, a flor foi murchando – o que é natural em cada flor – e o caos continuou igual. Os meses foram passando e parece mentira que tudo continua igual ao ano passado. Nem me lembro do que era normal, antes de me trancar entre os muros, você se lembra?

Hoje, venho te dar a flor e dançar Odara com você… foi a música que cantamos em algum aniversário seu e depois, em nosso último abraço. Desse, eu me lembro e era aconchego puro teu olho me guiando portão afora, depois de uma tarde inteira no Reino das Águas Claras… Lembra-se?

Como eu sinto falta daqueles dias em que os meninos eram crianças e hoje, vendo fotos vejo o quanto eles cresceram e de como se tornaram pessoas fortes e cientes de humanidade.

Depois disso, tantas coisas já aconteceram… em cada amanhecer, o cheiro de café na cozinha me leva até aos nossos cafés… Isso, sem falar nos filmes que a gente assistia juntas.

Sei que não é seu aniversário, nem nada… mas um girassol nasceu por aqui e resolvi te abraçar na simbologia da flor. É a maneira mais sublime de estar perto mesmo longe.

Quando tudo isso passar teremos tantas coisas para fazer e sementes para plantar. Se cuida, fica bem e ouça nossa música, que foi ouvindo ela que te escrevi.

Te amo!
Dança comigo?

Beijo,

Mariana Gouveia
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso

Corredores, Codinome Locura

b.e.d.a – Parabéns, Cuiabá!

Minha Cuiabá,

Seu nome ronda minha vida desde antes de vir morar aqui. Desde pequena, quando minha mãe falava de você, a imaginação me fazia passear por seus lugares. Me fascinava quando ela falava de suas árvores e de você ser conhecida como cidade verde.

Ainda lembro-me da primeira vez que andei pelas suas ruas. Eu era menina ainda e a sua avenida principal ladeada de palmeiras me encantou. Foi amor à primeira vista, e eu nem sabia que viria morar aqui.

Quando cheguei para morar foi encantador e desde então me apaixono sempre por você. Seu céu, o mais lindo que há! O sol, com toda fama de abrasador me traz amanheceres deslumbrantes e entardeceres magníficos.

A lua, tem a delicadeza de caminhar sobre seu céu de uma maneira que não se vê em nenhum outro lugar. E o seu povo, o mais acolhedor.

Hoje, você completa 302 anos. Tantas histórias, tantas transformações e ainda assim sempre minha cidade. Sempre meu lugar. Em todas as ruas, em todos os becos você tem a história detalhadas nas igrejas, nos casarios, na sua gente. As suas ruas me conhecem e seu rio me acolhe nos momentos de dor. Sou grata pela acolhida e por já fazer parte de você e de sua história!

Parabéns, Cuiabá!

Mariana Gouveia
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

b.e.d.a – Já te falei…

Querida Teresa,

das coisas que acontecem aqui, no meu quintal? As perguntas começaram a me rodear enquanto as nuvens faziam figuras estranhas no céu. Me silenciei por tantas perdas e quase sufoquei. Achei melhor te escrever. Faz tempo que a gente não se escreve mais. Foram muitos fatos que aconteceram que me vi perdida, sem rumo para as cartas. Retomei apenas por aqui, para suprir essa ausência. Nunca mais fui em busca dos postais que você tanto gosta. Passo os dias cuidando das plantas e fazendo artesanato. Dizem que a arte salva da loucura.

Confesso que gosto de ficar entre os meus muros afofando a terra no vaso das hortências que ainda não floriu, mas já é possível ver botões se formando. Minhas suculentas me fazem mudá-las de lugar cada vez que a chuva vem. A maioria não gosta da chuva. O pé de orai pro nobis já floriu imensas vezes e até plantei tomates e cebolinhas. O tomateiro está lindo e logo deve dar frutos e a cebolinha já usei várias vezes para o molho e saladas.

Espero que esteja bem e que alguma coisa nessa vida te traga esperança para esses dias difíceis. Prometi a mim mesma que não falaria das perdas e sim de como o cheiro de terra molhada me abraça quando a chuva chega. Por falar em chuvas, o céu me avisa em trovões que logo choverá. Vou ali recolher as roupas do varal.

Um abraço carinhoso
Mariana Gouveia
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Quando fui chuva

Quando já não tinha espaço, pequena fui
Onde a vida me cabia apertada
Em um canto qualquer acomodei
Minha dança, os meu traços de chuva


Maria Gadu

Fui ao baú desenterrar poemas. Choveu a manhã toda e se estende para a tarde.
Ouvi Gadu e sua voz a ecoar a palavra que era poema dentro da melodia.
Ouço os barulhos da casa… os pingos da chuva no balde a guardar momentos e a luz chega pela janela… sou esse cotidiano que chove todo dia, e as flores bebem a água que cai.
Ainda visto o pijama da noite, e o dia segue seu rumo de hábitos, manias e defeitos… O pássaro de todo dia pede abrigo na escada enquanto lá fora a vida acontece e eu sou um nome que habita dentro da solidão. Lavo o uniforme sujo e soletro o canto da ave que pousa perto de mim. Vasculho os diários guardados e leio livros que estavam ali, parados, como a esperar para exalar histórias… passo da sala para a cozinha enquanto os trovões ecoam e parecem dizer que aqui o universo tem um portal estranho. Revisito os casulos que se preparam no pé de orquídeas silvestres. Cuido para que eles não molhem. Sou essa metamorfose que cresce e muda a cada dia. Desfolha em asas a borboleta que nasce. Está aqui e a sinto absolutamente indefesa diante dos dias. Da asa escorre o líquido da vida – é apenas um inseto… alguém diria – em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das outras coisas e ela está aqui, sendo pouso em minha mão e neste momento eu sei e sinto ao certo o que significam certas palavras como a palavra paz.  A vida segue líquida dentro do dia e prossegue nos gestos que faço apenas observando a chuva dentro da canção de Gadu.

Mariana Gouveia
Participam desse projeto
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Corredores, Codinome Locura

Depois da chuva…


Querida M,

Aqui, depois da chuva aquietou-se o vento. Nasceu uma vida na esquina. O homem que domina o trânsito cantou.  Uma pessoa falou de muros e eu lembrei do grafite apagado na rua de cima. O pássaro de todo dia fez rasantes dentro da chuva. O jardim cercado perdeu as folhas por causa dos cães.  Mais uma vez o mito é desmitificado. Nenhum herói dura para sempre. Nem te contei a história dos versos que eu declamei enquanto a vida nascia, ali, entre flashes curiosos de celulares gravando a vida que nascia. O dia mudou dentro das rotinas e as flores caíam em desatino no quintal. A chuva clareia a maresia nas calçadas. No lugar do coração, o mar e sua sede de estar, preenchendo o tempo de vida de quem nascia.  As lanternas iluminaram o dia diante do susto. Ganhou o nome de flor como homenagem ao santo. Dediquei as palavras das cartas no caminho onde respirei quem nasceu sob meu olhar.

Mariana Gouveia
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Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Das cartas que escrevi

Mudei a porta de lugar várias vezes.
Uma, para o vento entrasse; outra, para ele saísse.
Descortinei as vidraças embaçadas.
Vi azul e mudei a cor do quintal.
O sol alaranjou o gris que morava ali.

Querida minha,

Escrevo-te para dizer que o pássaro que beija a flor perdeu penas em uma briga com outro. Sei que vai rir quando ler e ver a imagem. Temperamental, o menino. Apesar de perder as penas ele ganhou a luta e agora reina absoluto em seu bebedouro. Acho que há bebês de cães por perto. Passam a madrugada chorando.  Está chovendo quase todo dia. As flores ficam mais vivas e o calor mais ameno. Mas também faz com que as ervas daninhas se alastrem mais rapidamente do que o normal. Tenho que limpar mais vezes o quintal. Adoro o cheiro do mato sendo arrancado. É como se a clorofila se infiltrasse em mim. As joaninhas aumentaram nesse verão. Não sei se a estação colabora para isso, mas o fato é que elas estão em maior número no pé de algodão. O hibiscus mutalibis encheu de flores e até o mamoeiro deu frutos, o que faz a alegria dos pássaros.
Por falar em pássaros, o bem-te-vi teve filhotes na mangueira do vizinho do fundo. Já ensaiou os primeiros voos hoje.  A vida vai seguindo igual, independente da estação, da previsão do tempo. Os dias parecem voar tal qual o pássaro que beija a flor e que perdeu as penas e o meu amor continua igual.

Mariana Gouveia
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Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Aconteceu abril.

não uma e meia nem sete nem quatro,
trinta e oito da madrugada,
duzentas e onze da manhã,
uma escuridão infinita
 
António Lobo Antunes

Pai, aconteceu abril no meu quintal e ele não chega como antes. Embora, o céu já antecipa os dias de sol por aqui, com as folhas amareladas caindo, abril lembra títulos de livros e filmes. E é o que acontece, pai. Abril chega despedaçado e com a solidão e a dor instaladas em muitos corações. Parece que as noites são mais escuras e longas.

Dias desses lembrei-me de que estamos em plena quaresma e de como era nossas rotinas dentro desses dias “santos”. Confesso que ainda sigo alguns dos seus rituais. Talvez, mais pela forma de lembrar de você do que propriamente por medo de um castigo divino.

Nesses dias tão difíceis, busco nas memórias momentos bons para atravessar com mais tranquilidade tudo o que está acontecendo, pai. E me admira que seu olhar é o mesmo de quando eu era criança e sua fé também. Um dia, você disse: “a fé que move as montanhas é a mesma que te fará viva nos dias duros e é nos momentos difíceis que se cria a couraça para viver. A gente precisa criar uma couraça!”. Confesso, que naqueles tempos, apenas guardei na memória mais uma das frases ditas por você… só que hoje, ela faz todo sentido.

Busco o equilíbrio na mesma fé que você me ensinou e na serenidade que você transmite. Vai ficar tudo bem, pai… embora a gente tenha perdido tantas pessoas nossas. Embora, lá fora, um vírus maldito transmuta e esvazia famílias inteiras, a gente se arma dessa couraça e vivifica a fé. É o que nos deixa forte para seguir.

Te amo além dos dias.

Beijo,

Mariana Gouveia
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Corredores, Codinome Locura

Grito

 

Minha alma é intensa…
grita ausência,
grita falta tua
grita pele nua

quer gritar emoção
quer você na mão
Nunca é por acaso a insinuação
descubro-me perdida nos pensamentos teus.
enquanto que os meus
seguem direção do teu coração

O dia inteiro te busco,
te caço, me acho
perdida em abraços

que nunca troquei
beijos que não dei

mas que compartilho
seguindo o trilho
dos caminhos que vão me levar
onde você está

entre cachoeiras, entre pantanais
numa tarde inteira visito teus quintais

visito você e pra não me perder
abro os olhos e grito que amo você
meu amor é mais.

 

Mariana Gouveia
Ph: Anouk Lacasse