Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta de mim para mim…

Por fora
tenho tantos anos
que você nem acredita.
Por dentro, doze ou menos,
e me acho mais bonita.

Por fora, óculos;
algumas rugas,
gordurinhas,
prata nos tintos cabelos.
Por dentro sou dourada,
Alma imaculada,
corpo de modelo.

Por fora, em aluviões,
batem paixões contra o peito.
Paixões por versos, pinturas,
filosofia e amigos sem despeito.

Por dentro, sei me cuidar,
vivo a brincar, meio sem jeito.
Não me derrota a tristeza;
não me oprime a saudade;

não me demoro padecente.
E é por viver contente
que concluo sem demora:

é a menina
que vive por dentro,
que alegra
a mulher de fora !

Luan Jessan

Minha querida!

Às vezes, recuo no tempo para mapear os caminhos que você trilhou. Lembra-se dos tropeços dos 15 anos? Do seu olhar destemido dos 20? Da segurança dos 30 e da consciência dos 45, lembra-se?

Hoje, aos 55,com os cabelos brancos e algumas certezas e muitas dúvidas é como se aquela menina tivesse seguido uma bússola e que foi dar no instante de agora.

Você gosta de flores, pássaros, cães, borboletas, joaninhas. Não necessariamente nessa ordem e ainda falta itens nessa lista. De escrever, de se encantar com a vida miúda do seu quintal e da liberdade desmedida de amar sem medidas.

Escreve, costura, borda, cozinha e ainda sonha… rega a felicidade diária como se estivesse regando as flores nos vasos… chora como se estivesse limpando as vidraças da janela para ver melhor o que está de fora…

Hoje, essa mulher que você olha diante do espelho é apenas reflexo das tantas mulheres por ai que te inspiram… Hoje, você é essa forma moldada ainda inacabada… sua voz chega aos quatro cantos e ao analisar seus passos, concluo que eu e você seguimos um processo que nos permitiu estar onde estamos agora.

Cruzamos cidades, ruas, vilas, aldeias e florestas… As estradas sempre nos ensinou como caminhar. Muitas vezes, nos perdemos em atalhos que não nos levou em lugar algum e nos fez retornar ao ponto de início. Em outros, o atalho foi a melhor maneira de cruzar as pontes e chegar aonde queríamos… e quer saber? Se me fosse permitido voltar atrás e reviver tudo de novo eu faria os mesmos caminhos!

Feliz Dia todo dia das mulheres!

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Floresc(S)er de amor

No lugar onde minha pele termina
começa seu nome em detalhes que te descreve.
O silêncio me orienta e em meio aos rumores do vento
só ouço o seu suspirar.
A minha voz te nomeia de flor

e a delicadeza do jardim, preenche em mim a fragrância do teu suspirar.
Dentro de mim chove sensações de sementes
daquelas que o vento espalha para nascer flor

Floresc(S)er de amor.
Em minha solidão
preencho você de mim.

Mariana Gouveia
Ph: Anna O.

Corredores, Codinome Locura

Esboço do sentir

As curvas medidas por mim, na simetria azul do crepúsculo enquanto ela pensa em flores. Esboço do sentir.
As ruas de um país distante descritas em um livro que quase ninguém leu. A história dela rabiscada em arte pura, como quem escreve em todos os idiomas, [o amor].

E a geografia exposta nos versos que canta enquanto as hortênsias azuis dão flores em um dia que não é primavera. A estação visitada em todas as fases e a lua passeando no céu [azul].

As escolhas das canções uma a uma falando de cor e ali, entre o arrepio da pele e a sonoridade dos dias eu invento um encontro imaginário e o vento a cantar as folhas em um dia natural de [de outono].

Mariana Gouveia
Ph: Sandra Silva

Corredores, Codinome Locura

teus olhos/meus olhos

 

encantados
luz multiplicada
nos olhares-candelabros
e nos lábios
o sopro úmido
e o silêncio ruidoso
do que sentimos
e na pele o sentido pleno do toque e do prazer.

 

Mariana Gouveia
*imagem: Laurie Kaplowitz

 

Corredores, Codinome Locura

Busca

 

Despe-me
quase alada
de asas me faço
para voar em ti.
nua.

Na leveza dos teus gesto
me solto em teu braço

[eu ia lá fora
em brancas nuvens, esparsas
buscar-te]
no entanto, era em mim que vivias…

Meu corpo, teu céu
meu céu, teu olhar
Serve-se do céu
asas, canto
pouso e a leveza da vida no olhar.
A tua asa faz poesia em minha pele.

Mariana Gouveia
*imagem: Amy Judd

O lado de dentro

Ave, amor!

haverá os dias em que as manhãs semeadas a pássaros voarão em mim.

 

Quando falava… da sua boca
voavam pássaros!
Aves banhadas na saliva do beijo
No contorno dos lábios… o pouso seguro.

Quando falava… exalava poesia
Hálito fresco de carinho doce
De eterno desejo… de vontade própria. 
De sublime amor.

Quando falava… era como se o céu
se abrisse…  e alada, eu me perdia no voar.

Não sei como lidar com o silêncio 
Por que quando falava…
soava como uma prece {minha}

Ave, Amor!

Mariana Gouveia
Ph:  Miss Aniela
In: O Lado de Dentro
Scenarium Livros Artesanais

Corredores, Codinome Locura

Enquanto eu inquilina

enquanto eu inquilina

Enquanto eu desatino,
você, menina;
eu, pé no chão,
você rumo.
Enquanto eu pluma,
você, asa;
enquanto eu inquilina
você podia
ser moradia,
ser casa.

Enquanto eu descalça,
na rua
você insinua
indecisão
enquanto eu paixão,
você razão.
Enquanto eu cama,
você…chão.

e assim eu me entrego,
não nego
mexe comigo,
com minha emoção
enquanto eu demonstro ternura
você, aventura
loucura.
Paixão.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Alada

 

carregava sonhos
desses alados
que voava nas asas
que ria por tudo
que dançava sem música
e que cantava sem voz.

Lembrava-se das palavras dela
e do pedido terno para ir de scarpin vermelho
e quando os tirou percebeu que de seu rastro
voavam borboletas
as mesmas que faziam festa no seu coração.

Mariana Gouveia
*imagem: Moony Wolf.

Corredores, Codinome Locura

extratos I

# extratos I

Afinal, há coincidências.
falo isso por causa dos girassóis…

E aprendi palavras novas e sabores intensos
ementa…

bebida servida aos goles de sol
e minha voz te procura
e tua risada me sacia

um girassol, uma pedra, uma ave – qualquer coisa extraordinária.
Qualquer palavra vira mimo.
Qualquer segredo vira poema
qualquer rosto vira o seu.

Sobressalto a cada toque da alma
e aprendi a desenhar teu nome nos vidros das janelas dos ônibus
(hoje, desenho corações que é uma beleza!)
a conversar sozinha chamando teu nome.

Afinal, há coincidências.
Dessas de ver coração em tudo que é flor.

Mariana Gouveia