Corredores, Codinome Locura

Tu, bicho

Tu, bicho
de pouco instante…
de pouco trilho
De asa leve

De voo fácil
de brilho intenso

Tu
bicho de movimento
de prata ao sol

de colorido…
Liberdade

Bicho de amplidão…
de dominador do céu
de possuidor de terras

De subterrâneos
Dos atalhos das folhas
Das multiplicações das espécies

Da surpreendente cor
Ou da falta dela

Tu, bicho dos esconderijos

Da esperança
e dos símbolos de palavras ditas.

Bicho és tu.
bicho tu és…

Das asas e voos
e horizonte amplo…
e pousos certos.

мαriαηα Gøuvєiα
O Lado de Dentro
Scenarium Livros Artesanais

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Ainda sobre Luci e a borboleta

Luci,

eu vi sobre a partida da borboleta. À princípio, eu chorei… Imaginei como seria o céu de borboletas…. Depois, Luci, percebi que esse é o caminho da vida… Seja ela de inseto,, de gente, de bicho.
Aprendi desde pequena com meu pai que a lei da vida é imutável… Tem coisas, Luci, que a gente não pode fazer nada… Então, o que nos resta é fazer aquela oração da serenidade para aceitarmos o que a gente não pode mudar.
Enquanto isso, que sejamos colo, Luci, que sejamos abraço e acolhida para quem precisar… Seja bicho, gente ou borboleta.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

As leituras de 2020.

“Seja lá qual for o material que de que nossas almas são feitas,
a minha e a dele são dos mesmo.”
Emily Bronte

Geralmente, não faço um balanço dos livros que li ao longo do ano. Como disse em outros posts, minha estante é limitada. Não tenho muitos livros… minhas leituras ganham contornos com adoção de amigos, algum presente que ganho e os livros da Scenarium Livros artesanais que preenche minha estante com sua arte, fitas e histórias lindas.

2020 foi um ano diferente. Li muito e confesso que li bem menos do que gostaria. Comecei 2020 lendo Alice, uma voz nas pedras, romance de Lunna Guedes, como parte do Clube do Livro da Scenarium. Alice foi um golpe no estômago, foi falta de ar. Li Alice em 2020 três vezes. A primeira, como participação no Clube; a segunda, em uma leitura on line para uma amiga de Portugal, já em plena pandemia e por fim, a terceira, em um grupo de mulheres que sofreram agressões de seus maridos/namorados,etc. Embora já tivesse lido Lua de Papel – I, II e III – também de Lunna Guedes, na época de seus lançamentos, li novamente, da mesma forma on line para a mesma amiga. Receituário de uma espectadora, de Roseli Pedroso com suas crônicas deliciosas.
Devo confessar que foi uma das coisas que me ajudou a suportar o isolamento, durante todo o período mais crítico.

O que sol fez com as flores, de Rupir Kaur foi um sopro de vida:
“essa é a receita da vida
minha mãe disse
me abraçando enquanto eu chorava
pense nas flores que você planta
a cada ano no jardim
elas nos ensinam
que as pessoas
também murcham
caem
criam raiz
crescem
para florescer no final”

O tempo da violetas, de Sarah Jio, O Morro dos ventos uivantes, de Emily Bronte devorei em quase uma semana os dois livros. Li também Razão e Sensibilidade, de Jane Austen… Foram os mais marcantes.

Foram 48 livros lidos entre janeiro a dezembro de 2020. Não dá para enumerar cada um, mas confesso que foi acalentador no ano louco que vivemos… A leitura me salva… os livros me fizeram mais leves… Comecei o ano lendo Aos Sábados, de Lunna Guedes e há mais quatro deliciosos livros a minha espera. E você? Qual livro está lendo nesse momento?

Mariana Gouveia
Blogagem Coletiva
Scenarium Livros Artesanais

Ana Claúdia Soriano — Obdulio Nuñes Ortega — Roseli Pedroso Lunna Guedes

Corredores, Codinome Locura

Encanto

encanto

.

não era pra ser distante, vida
nem era para ter medo
nem era para saudade, ida
nem era para partir tão cedo

não era para histórias, era
o sol contava o dia sem segredos
e a cortina disfarçava o corpo
envolto em teus rápidos dedos

do teu hálito quente sopro
o chá verde fumegante, sabor
era pra ser da vida, o jogo
e descobrir na gota, cor!!

e os sabores, todos tão iguais
e diferentes em sentidos… tanto
que ao saborear quer mais
e ao ter mais se vive…encanto!

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

eu aprendi subtrair o calendário ao avesso…

Contei dias. Vários. Depois de amanhã, amanhã, hoje… Eu poderia dizer ontem.
Ontem eu ainda caminhava pela rua e via o por do sol e ao fundo o céu a encantava.
Eu falava de destino, de dias sem explicação e ela queria tradução de tudo. Quase como que encantada eu digitava minhas impressões em teu corpo.
Marcava as linhas que fazia o contorno do seio para agora, poder redesenhar na mente.
Isso foi há dias, eu acho. Mas penso como ontem.
E meu destino é sempre como o amanhã. Entre parênteses o gosto dela flutua no céu da minha boca.
Seguido de dias que virão em memórias
Eu posso rasgar os bocados dos dias… Posso somar as madrugadas onde eu aspiro o cheiro dela em cada lençol da manhã que rasga o sol.
Eu roubo as horas em que fui dela e revivo tudo de novo.
Minha casa tem atravessada a presença dela. A cadeira, permanece intacta como se esperando sempre.
A distração me faz em cada frase chamar teu nome e vira canção nos dias que se seguem.
Não posso roubar os dias do tempo. Posso absorvê-los como conta-gotas e preparar caminhos pra quando ela voltar.
Posso viver todo dia como se fosse ontem. Não foi ontem, eu acho. Mas de tamanho sentir que tenho dela, parece que foi.

Mariana Gouveia
Ph: Tumblr

 

Corredores, Codinome Locura

Entre a estação e a primavera

Leio histórias que lembram você. O homem da esquina entoa um mantra dentro da solidão – pede sementes da flor que nem nasceu – faz perguntas sobre o amor que canto na letra da canção. Inventei sua presença, ali, no canto do jardim. É lá que beijo pétala a pétala da flor.

Essa impossibilidade do toque não me afeta – fecho os olhos e a alma busca – porque eu toco-a. Vejo de perto seus caminhos – seu céu sob o rio – e outras mãos que podem te tocar. Era quase nada essa distância – é preciso um certo encantamento para viver a vida – para superar esses corredores cheios da noite.
Perguntas rondam minha vontade de falar. Quase esqueço o último pedido do não. Onde esse medo de nada que vasculha minha noite? Onde essa flor que se abre dentro das ausências e mora nos poemas que me leem?
Onde o pólen se transforma na onda que se arrasta em meu quintal?
Dentro das perguntas em volta da flor apenas seu nome e minha declaração de amor.

Mariana Gouveia
Ph: Nishe
Entre a estação e a primavera

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

tutela

Luci,

eu também já tive infinitas vezes – e ainda tenho, e sei que terei – alguma borboleta sob minha tutela. Já aconteceu de uma noite, sob intenso temporal, eu ficar com uma em minha mão e mesmo que eu colocasse ela arrumadinha – quase embrulhada – em algum canto, ela revoava e voltava para mim.

Eu acho que elas nem sentem o peso do mundo sobre elas. Elas apenas são. O meu quintal tem de área livre 20×10 e aqui, além do meu pé de ipê, de trepadeiras variadas, trapoeirabas azuis, orai pro nóbis com buquês que parecem feitos para noivas, orquídeas, lantanas e muito mais plantas, elas acham graça de vir para dentro de casa. Você já conhece a história do meu beija-flor Chiquinho… pois com elas ainda é mais engraçado… eu as chamo de bebês… e surgem casulos em cada lugar que você nem imagina. Passo horas vigiando, guardando elas também dos cães.

Algumas fazem o desvio no meu quintal, mas outras – atrevidas – ficam horas sob meu celular como se fosse ninho. Outras, resolvem usar minhas mãos como se fosse cama… Ah, Luci, tu ia adorar ver isso. Estendo as mãos e elas vem.

Depois disso, posso contar os dias e casulos começarão a invadir os galhos, as portas e os lugares mais inusitados que daria um livro. E sabe, Luci? Quando conto isso, muita gente duvida… tenho de mostrar fotos e provar… até parei de falar das borboletas. Algumas, nascem fortes e voam tão logo a asa sangre – sim, elas sangram – voam alegremente… Outras, ficam por aqui, como se meu lugar fosse abrigo… é o tempo delas…

Sei que isso é para poucos, Luci… a natureza reconhece seus iguais e nessa hora, confesso que me sinto diferente… privilegiada. E sei que você também se sente assim. Acompanho seus ritos, seus instantes e seus amigos que de uma forma ou de outra te buscam para se protegerem.

A vida é tão confusa, tão doida e doída que isso, nesse período que estamos vivendo me fez mais forte. É essa espera de vida que me faz seguir… lamentar pela vida dos que foram, chorar pelo que não posso mudar, mas tentando fazer diferença no que posso e sei que você também faz assim… por isso, te abraço através dessa carta e espero um dia, quem sabe, te abraçar dentro do meu quintal.

Beijo,

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Scenarium Livros Artesanais

Portas Abertas: Codinome Lucidez. Uma resenha.

Por Marcos de Farias

Conheci Mariana Gouveia num entremez, no hiato entre um e outro ato da ópera. Aconteceu quando me deu na telha começar a registrar o meu tédio na rede, ocasião em que pari um blogue. Bem, na verdade verdadinha veraz não conheci realmente à Mariana, somente à distância, enquanto lia seus escritos, de modo assim fantasmal, internético.
Mariana, a Gouveia, desde o começo gostei de pensar nela assim, cerimoniosamente, como se me dirigisse a uma castelã. Dona Mariana, dos Gouveias. De Goiás e Mato Grosso adentro.
Falava do que mesmo? Já se me esqueço. Não, relembro, quero escrever sobre. Homessa, nunca termino um período!
Bem, PORTAS ABERTAS: CODINOME LUCIDEZ, livro de Mariana Gouveia, que escreverei deste jeitinho, com as maiúsculas nos lugares errados, sapecando um itálico se o editor de texto suportar. Uma resenha, minha ambição. Mas queria muito mais, queria que não fosse a resenha laudatória habitual. Queria, quero mesmo, que seja uma conversa aqui do lado de fora sobre o que ocorreu no lado de dentro. Que seja este um texto que soe como um assobio despretensioso.
De Mariana, primeiro, conheci seu estro. Uma escrita sedosa, no seu blogue O OUTRO LADO (PORQUE O LADO MELHOR É O DE DENTRO). Depois os livros, como este Portas Abertas, com páginas atadas por fitas.
Portas Abertas é um daqueles livros na linha da declaração atribuída a Clarice Lispector, “gênero não me pega mais”. Não é confessional, mas é. Não há o narrador onisciente clássico. Mas é como se houvesse e a quem eu chamaria de comedido. Há fluxo de consciência, também comedido, quase a medo de ser desrespeitoso, toca aqui e toca ali, mas nunca se aprofunda. Há fluxo, mas o que informa, o que se nos dá a perceber são as pequenas coisas. Um teto, uma boneca, uma janela, um sofrimento, uma fotografia.
Um monólogo da personagem, Maria, um livro-razão de sentimentos. Liberta do manicômio, mas com ele dentro de si, se reconstruindo com as peças que tem à mão. Refazendo-se com pequenezas diversas, agregando silêncios.
Os americanos chamam de “Revelatory Plot” ao texto literário que aparentemente prescinde do enredo. “Kishōtenketsu” é o termo japonês para uma estrutura que não atende aos padrões ocidentais da escrita definida por suas tensões. Quem leu Yukio Mishima irá entender. Existe um centro, um fulcro e dele a escrita se irradia e, portanto, não começa e nem finda, mesmo quando há morte, mesmo quando se propõem finais. Assim também o “Portas” de Mariana, simples até a medula, como se toda a coisa pudesse ser reduzida a um momento íntimo, a um ato banal se irradiando em teia, como um cobertor definindo relevos.
Falei de Mishima e me vem à mente um seu conto no qual o motivo condutor é uma garrafa térmica que ao ser aberta produz um som que assusta a uma criança e partir disto levamos um tempo enorme de leitura para perceber que trata da história de um pai, exilado em um país estrangeiro onde encontra uma amante do passado. Ou uma frívola concubina imperial que corrompe um homem santo e no processo alcança a iluminação.
Aparentemente sem ponto de ancoragem, “Portas Abertas”. Só a voz de Maria e o enredo dos dias.
Portas Abertas: codinome lucidez é um livro que tem primeira página, depois outras e mais outras.
E, se você o encomendar, virá atado em fitas (uma ideia linda, um achado da editora, a Scenarium) e necessariamente você cogitará que alguém o montou, assim, despretensiosamente, com fitas unindo papéis diversos.
Acho que é tudo o que eu tinha a dizer sobre o livro e sobre Maria e sobre Mariana, a Gouveia, de Goiás e Mato Grosso adentro.

Corredores, Codinome Locura

Petulância

 

Que petulância da moça,
que, depois de roubar-me a alma
atravessar um oceano de possibilidades
levar ainda meu juízo e calma
me colocar num mar de imprevisibilidades,
deixar-me escondida dentro dela
ainda me pergunta se tenho alma pra ela.

Mariana Gouveia
in, O Lado de dentro

*imagem:  Stumble Upon

Corredores, Codinome Locura

Néctar

 

Gostava das frutas que via
Lambia
Como se fosse o néctar mais doce da vida.
Sentia ela em cada mordida.
E era como se fosse o manjar dos deuses.

Mariana Gouveia
Ph: Tumblr