Corredores, Codinome Locura

Era primavera em qualquer lugar

misturou riso com lágrima
comprou coisas pela net.
rasgou a renda da saia
atendeu um moço que pedia água
fazia tempo que ninguém pedia água pra ela.
Era quase despejar o que chorou no copo.
Lembrou qualquer coisa da infância.
A lembrança fez qualquer coisa de grito dela.
redemoinho e nuvens vasculham o céu.
espalhou as flores no outono. Era primavera em qualquer lugar.
A dor veio de novo e deu as boas vindas.
Afinal, eram companheiras inseparáveis.

 

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de todas as estações e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso
imagem: Elisa Lazo de Valdez

 

 

Corredores, Codinome Locura

Eu era peixe.

A vida era você, em todos os artigos perfeitos
em pretérito e sede de mar. Talvez por isso,
o cheiro do mar me traga seu corpo
sabe a sal, o dialeto marinho em meu corpo
Agridoce,
a doçura da alma

 

Dou – te o desgosto da falta
Essa ausência que você tatuou debaixo da água
onde eu era apenas letra muda e absoluta
Sinfonia abafada nas ondas de a – mar.
Você era isca

eu, era peixe.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês marítimo e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura –
Suzana Martins – Roseli Pedroso
*imagem: Khaterina Plotnikova

 

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

beda – quais os caminhos azuis que sua pele tece?

Não fora o teu olhar a ditar-me o caminho
e seria mais um na guerra dos sentidos
Contigo sinto azul em qualquer céu.


Edgardo Xavier, in Azul como o silêncio

Ana,


Às vezes, eu volto nas noites, em dias que já fazem parte do passado… essa história de guardar os dias nos calendários que não gosto, mas que fica registrado na memória. Nessas horas, eu fico em silêncio e quase não cabe em mim a respiração.

Já te contei sobre sua pele e as veias azuis? lembro-me que quando a vi pela primeira vez – em algum agosto de algum ano – seu rosto escondido na cortina e vi suas mãos. Eu disse que nunca vi mãos tão brancas, com as veias saltadas e o azul fluindo… Pensei: ela tem sangue azul… Só te falei isso tempos depois, quando já conhecia toda sua pele, tecida pelas minhas mãos, nas curvas onde desenhei corações.

Hoje vi o céu e seu azul celeste… fiquei horas a espreitar as nuvens desenhando formas e o vento ia empurrando uma a uma rumo ao sul. A gente sempre falava do sul e de quais caminhos a gente seguiria até lá. Não fizemos isso e nem tivemos tempo de viver o norte. Ficamos com a bússola nas mãos a rir do nosso centro oeste. Era assim a vida com você… leve como o azul e as nuvens caminhando para o sul.

Esqueci algumas datas – você deve ter percebido – e algumas coisas que eram para serem esquecidas ainda continuam aqui. Já parei várias vezes na esquina da sua rua, como se algo me levasse até lá. O moço que agora é dono da casa me deu flores hoje… Disse que sentiu vontade de trazer, já que nunca mais fui lá. Dei um café para ele em troca e ele disse que o pé de laranjas deu flores e que logo teremos frutos. Ele disse nesse verbo mesmo, como se eu ainda tivesse parte nas árvores. Dei a ele mudas do alecrim que plantamos e que nunca deu flores. Não sei porque.

Fiquei buscando na memória esse dia, para ver se a data diz algo sobre nós… não me lembrei de nada, mas isso acontece sempre aqui… é nesses dias que busco Marte nesse azul do céu para chegar mais perto de você.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês das memórias azuis e de BEDA.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes  Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – Suzana Martins – Roseli Pedroso

Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Beda – Como foi que a palavra te seduziu?

Havia um burburinho em toda fazenda. De boca em boca e com euforia a palavra era Lavorí e que ele havia retornado.
Vi toda gente a preparar a lenha, minha mãe foi cuidar dos frangos para a comida e apenas meus irmãos mais velhos e os meninos da região continham a expressão do medo no olhar.
– É o homem do saco – meu irmão dizia – se eu fosse você, tinha medo e desenhou-me em gestos e palavras um homem sujo, todo roto, com roupas escuras, barba por fazer, olhar estranho e o pior: levava consigo um saco de linhagem, onde dizem – e com efeito na voz – levava as criancinhas que teimavam com suas mães. Enfim, era um desses peregrinos que andavam sem rumo e na palavra do meu irmão medroso – um mendigo. Não tinha casa, nem família e isso segundo ele só acontecia a um homem que fosse tão ruim, mas tão ruim que ninguém mais gostava.

Ele chegou no fim da tarde, com o sol a beijar o horizonte e em contra luz a imagem dele descendo a estradinha me encheu de encanto. Um saco nas costas, algumas coisas dependuradas no cinto da calça e o riso largo do meu pai a recebê-lo tirou o medo que me rondava o dia inteiro.
Depois do banho tomado e o jantar, todos se puseram em volta dele e foi ali que a palavra encanto ganhou minha vida.
Do saco saíram os livros que ele dizia – amanhã vou ler todos para quem quiser – e da boca dele as histórias mais incríveis. Tinha o dom da palavra e explicava tudo com a magia de quem vivenciara tudo aquilo que dizia.
Foi ali que desejei ser palavra para que alguém, um dia, pudesse ler.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês das memórias e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna GuedesObdúlio Nunes OrtegaDarlene Regina Mãe LiteraturaSuzana MartinsRoseli Pedroso

Corredores, Codinome Locura

Neste começo d’hoje

tuas costas negavam
qualquer espécie de outono
Afinal
a ideia de estação
é só um tema ilusional
engendrado por humanos
que nunca puderam desenhar
tua coluna vertebral
a dedo nu


Matilde Campilho
Ph: Heather Marie

Das rotinas · Desvios para atravessar os quintais · Meus Livros · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Revirei o baú das lembranças doces.

As cartas descrevendo as coisas do dia – a – dia. Os rumores dos insetos no jardim, o vento a balançar as folhas e a rotina a escancarar verdades.

O ritual da noite capta o silêncio e as horas se fazem de ciclos e o dia amanhece dourado de sol.

As luzes refletem nas letras que guardo no baú – mais uma vez não consigo eliminar os vestígios de sua presença na minha vida – junto da letra da canção que mais gostava.

A voz ainda a ecoar o nome e o tempo – quase nada – a passar diante da vida.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais
Scenarium Livros Artesanais
*imagem: Varya

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Em que asa, em que sol?

“Queria ter o sol só pra mim, tê-lo de forma a dele poder de vez em quando ceder parte apenas a um dos meus amigos mais íntimos” 

Luís Miguel Nava

Edi,

Posso eu te desejar mais do que o sol? Posso eu te desejar mais além do que asas? Devo te confessar que entre tantas conversas com sua mãe, em muitos momentos, nós duas te desejamos sol – nem sei se ela falou sobre isso com você – nos dias em que a notícia ou um telefonema dizia a ela sobre o frio do seu lugar. E em muitos momentos, eu te desejei asas… para que você fosse além das dificuldades que se apresentavam.

Sabe, dias desses, fiquei a lembrar-me da vez que te vi e te conheci… seu olho foi mais rápido do que a porta e alcançou sua mãe na cama. Eu, que já te conhecia de antes, de palavras, de fotos, fiquei ali, inerte, olhando seu olhar de amor para minha menina. Naquele dia, eu quis te tocar e dizer o quanto eu te admirava pelos olhos de sua mãe.

Lembro-me de quando nossos olhos se encontraram, eu já era reverência e logo quando você saiu, o brilho no olho dela foi de importância… Foi ali, que entre uma ligação de Marcelo e sua presença que senti a sensação de pertencimento em sua família. A minha – marido e filho – estavam no estacionamento aguardando o resultado da cirurgia, porque quando ela era frágil – e foi tantas vezes – ela era “nossa”. A gente a fazia forte para guiar você e seus irmãos.

Eu estive muitas vezes presente nas meias-noites em que ela esperava para te abraçar nesse 25 de julho – ihhh, e quanto ela demorava para abraçar vocês em datas especiais – e eu morando quase 15 Km de distância e brigando com o fuso – e sendo amparo ali. Ou parte do desejo dela. Ela era tanto amor quando desligava o telefone que eu movia céus e mundo para estar presente nas datas de 29 de maio, 16 de julho e 25 de julho.

Posso te confessar que você é um presente. Sua amizade é um amparo que me fortalece. Não saberia descrever a importância de sua mãe em minha vida e eu que ganhei ela através de Marcelo – ainda vou escrever sobre isso – tive a presença dela através de você.

Você é o extraordinário da poesia e tão menino dentro desse homem que abraço e te ofereço o sol para os dias frios e asas para alcançar o infinito, porque de alguma maneira ele te pertence… eu e ela já te demos ele de presente em anos anteriores. É seu! Basta pegar!
Abraço carinhoso,

Mariana Gouveia
Ph: Cristina Coral

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

A vida por um instante parecia laranja.

Havia um céu dourado quando amanheceu. A vida por um instante parecia laranja.

Parece até que o céu está em festa. E devia estar… Descobriram sete exoplanetas no espaço. Eu descobri uma flor nova que se abriu e a manhã era desenhada a lápis.

Escrevi palavras no ar… coube no horizonte suspiros de encantamento quando acordei.

Falei sobre o tempo com as meninas que sempre me acompanham na rota do trabalho. Falaram da chuva que cairia segundo a previsão do tempo.

O mapa visto colorido fica tão bonito.

Pensei em quantas palavras você diria.

Senti fome dessas palavras e das coisas que a manhã trazia em outros tempos. Desejei viajar nas histórias que você me contou e caminhar pelas calçadas segurando suas mãos. Tem dias que o sonho beira a realidade.

Tive de viver o caos dentro das horas e cantei para o vento, você.

Mariana Gouveia
das palavras das cartas
©️Aleah Michele 

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta para Luís Eduardo.

que abraço seria o nosso
se fosse possível podar um coração
como se fosse uma árvore
Raquel Serejo
Martins

Sabe, filho, depois que escrevi uma carta para seu irmão, que assim como você, só viveu algumas horas, venho aqui falar com você. Queria te contar tantas coisas e me vejo muda, sem palavras nesse dia que amanheceu estranho.

Acho que minha alma segue a tenacidade dos dias e como sempre faço cuidei primeiro das flores. Arranco as ervas daninhas que insistem em brotar aqui, uso o regador que improvisei para aguar elas e recebo o pouso das borboletas. Depois, sigo na rotina da casa e assim, a manhã passa ligeira.

Não me recordo desde quando os bichos vem para minhas mãos. Meu pai diz que desde sempre, porém, hoje, pensei no dia que em que você nasceu há 35 anos atrás. Molhei as plantas como sempre, recebi pousos na mãos… Alguém gritou no prédio vizinho, uma ambulância passou pela rua e a bolsa estourou. Minha vizinha protetora – dona Nega – me pegou pela mão e seguimos duas ruas acima rumo ao hospital, enquanto alguém avisava ao seu pai o tempo de você nascer.

As minhas mãos já antevia a vontade de te ter nelas e você foi leveza por alguns minutos. Nos dias seguintes, elas ficaram vazias. Repetiu-se o mesmo gesto que senti quando seu irmão também se foi. Repeti várias perguntas no coração, revoltei-me com a singularidade das coisas e chorei e mais uma vez, voltei para casa de mãos vazias.

Mas, descobri que o tempo é essa coisa inexplicável… e que você, filho, ainda é meu filho mesmo vivendo tão pouco comigo e que as mães sempre serão mães, mesmo quando os filhos vão embora… não importa de que maneira.

Ainda assim, eu folheio os calendários e conto os dias dentro dos anos. Minha memória ainda guarda coisas nossas e ainda tenho perguntas que nunca foram respondidas. Mas, cada vez que uma borboleta pousa em minha mão te embalo no coração.

Te amo infinitamente,
Mariana Gouveia

Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais · Sete Pecados

Inveja

Nosso amor era tão perfeito, que o destino
ficou com inveja.
Adriana Soleira

Ela era território meu. Lugar onde eu vagava e vivia e sentia quase posse. E sempre dentro da noite quando o silêncio dela chamava por mim, eu ia.
E assim, nas estações plenas que eu era feliz colhia vontades dela dentro de mim.
Ela era a origem onde meu poema nascia. Desenhada a dedo na pele nua.
Um dia e de repente alguém chegou. Primeiro, o riso dela dividiu-se e eu nem percebi. Mas, ela em sua transparência de rotinas me explicou sobre o desejo de ter um porto seguro. Eu, era a tempestade que a deixava plena, mas em voo constante.
(…)

Foi quando eu comecei a pecar. Sentir inveja…

Da lua que eu mostrei pra ela. Da cortina que o vento balançava e dançava pra ela. Invejava a rua que ela passava.
Eu era o hieróglifo onde ela gravara seu nome, seu código, seu mapa. Minhas histórias sempre terminavam nas dela. No meu quintal voavam os pássaros dela. Todo dia para mim era um recomeço e todo dia expiava meu pecado de invejar instantes dela.
(…)
Talvez a vida siga incompleta, talvez, talvez… Tudo é um caminho novo e desconhecido.
O que sei que é ali além das esquinas há um instante que invejo e que renego saber. O vento no telhado arrasta o nome dela e espalha pelo céu a imensidão de estrelas que ela fez nascer na minha vida, e enquanto abro o portão saio rua afora, reconhecendo os ladrilhos lilases na calçada e aliviada presencio a felicidade dela e para mim, é isso o mais importante.

Mariana Gouveia
Poema da Série Sete Pecados
Scenarium Plural Editora – 2015
*fotografia: Katia Chausheva