Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Da renda ao pouso…

Ana,

Dizia que o rumor do silêncio tinha o barulho da asa da libélula. Chacoalhava o dia no calendário torto. Falava do tempo que escorria em água do céu. Enquanto o animal estendia em renda seu leve som.

Tinha os gestos repetidos dentro das manhãs. Rotinas de doçuras enquanto a melancolia do céu beijava a flor sem vergonha que teimava em brotar na singularidade do jardim.

Tinha ocos feitos a mão, rasgando a parede ocre. A palavra me acolhe na sombra e assombra quem ainda acredita no acaso. As letras cabiam em envelopes coloridos. Algumas traziam notícias boas. Outras, envelopes com o timbre dos telegramas. Minha mãe tremia quando abria e via os códigos que retratava histórias que não queria saber.

Vi a morte diante dos olhos… Vi a vida me dar as mãos.

Em outros envelopes, as letras continham afagos na alma. Houve um começo de vida no subsolo. Germinava raízes onde tinham espinhos.

O fim é mesmo fim quando a solidão aflora dentro da companhia. De bônus – o voo – o pouso.

E era tanta imensidão de vontades na palma da mão.

Mariana Gouveia
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Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

b.e.d.a – Já viu o azul, Luci?

Luci,

Havia uma cor azul no estuque da parede. Houve noites em que a solidão me trouxe barulhos na janela e se eu disser que a noite aqui é puro inverno? É frio, e eu tremo. A água gelada que caiu em ritmo de castigo parecia canção sobre a pele.  Era som de mais para quem enlouquece de silêncio. Às vezes, bato na parede-janela-pernas para que o som alcançasse o lugar e eu ouvisse algo que não fosse essa imensidão de silêncio em mim – diria que nasci muda- surda – talvez o comprimento do dia seja esse largar de minuto. A hora certa para o rito das cores: uma para aplacar o grito; outra, para curar a dor e mais uma, para que as fantasias se espalhem nas paredes e os ecos sublimem a sílaba e… eeeee.

Você deve saber que ando furtiva nas noites. As beiradas do telhado têm cores fabulosas. Dali, quase consigo alcançar o céu. E esse sentimento meu é quase toque e o infinito cabe nessa lucidez das perguntas em vão: o que vim fazer aqui? Cabe em mim esse vão absurdo entre a ponte e o rio, sem que eu desague no mar?

Mariana Gouveia

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Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta à Terra

Querida Terra,

Dizem que você tem uma carta, que é basicamente uma declaração de princípios éticos fundamentais para uma sociedade justa, sustentável e pacífica… é estranho ter uma declaração com as regras que por princípios já devia ser assim. Cada ser humano deveria fazer de tudo para te proteger. Infelizmente, não é o que acontece.

Eu deveria falar sobre sobre isso, mas vou te lembrar de coisas que me alcançam sobre você. Seu cheiro, depois de uma chuva invadindo meu quintal é a lembrança mais terna que trago em mim. Isso também acontece quando rego as plantas. O orvalho da manhã sobre os capins me faz lembrar que você abriu sua caixa de joias e deixou seus brilhantes espalhados por aí.

As flores do ipê, que de tão dourado me leva para além da memória da minha infância. A diversidade que você pontua na fauna, na flora são tesouros que não sabemos nomear e muitas vezes, maltratamos. Acho que somos os únicos seres que destrói o lugar onde mora… os únicos que não valoriza a riqueza sob os pés.

Nesse dia, data que te atribuem e todo mundo relembra os princípios básicos para que você seja salva – amanhã, tudo volta ao normal – eu te reverencio… me curvo diante do rio e louvo teus seres, tuas matas, teus rios, tua vida.

O gesto é simples e simboliza que descalça sinto a energia vinda de você, de sua força e seu poder.

Que saibamos valorizar isso.

Te toco, te abraço, te vivo!

Mariana Gouveia

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Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Pode ser em Cuiabá ou uma vila qualquer da França…

“Chaque grande chose naît d’un tout petit rien…”

Linda Sandra,

Comecei a habitar dentro das manhãs, nas pinturas que você cria e nas cartas que eu escrevia. Era como se eu pegasse em sua mão e caminhasse com você pelos seus caminhos. Ouvia as canções no idioma que adoro. Era quase um presságio de coisas que deveriam acontecer. Lá pelas tantas, acontecia em Paris. Ou em alguma vila qualquer da França. Ou nos cantos do meu quintal. Caia neve de sua janela e as cortinas dançavam com o rabo do cão. Andava pelas vielas de aldeias que nem sabia o nome. Eram tantos os detalhes que você desenhava em palavras, enquanto aqui, o sol ardia e meus cães corriam atrás dos pássaros que teimavam em ciscar a grama.

Eu morava ali, entre o mar e o rio. Nas flores do seu caminho diário… Entre os jardins suspensos e o seu. Pisava na terra pura, com cheiro de chuva nas manhãs onde o sol raiava e o orvalho parecia diamantes e o grilo misturava-se ao verde do lugar, enquanto dentro das palavras fazia as cores se misturarem na alma.

Colocava em cada envelope flores ou folhas secas… Lia poemas, folheava o livro que ensinava a rota dos meus quintais. E uma amizade nasceu dentro da arte. Era diário o entregar de flores… como se fosse um poema que ainda não nasceu. Um vento azul, um sopro de mar e essas coisas miúdas que tão bem fazem na vida da gente.

Deve encontrar cogumelos no caminho, enquanto aqui, o outono me traz eles nos cantos dos vasos de hortênsias. Vivia a primavera e pensava nas cartas coloridas que chegará aqui dias desses. Nos fusos que confundem o ritmo do tempo… enquanto você amanhece, eu ainda sou madrugada. Pensei nessa carta para te desenhar … Pois eu habito em cartas e com elas eu viajo até você.

Bisous

Mariana Gouveia

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Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

b.e.d.a – Meu irmão

Meu irmão querido,

Na minha memória, de todas as coisas que vivemos as mais marcantes tem você, com um capim na boca ou sendo o dono da bola no campinho da fazenda. Tem você com medo dos bichos e dos meus rompantes mato afora…

Poucas vezes eu disse te amo – disse algumas vezes, é verdade – em poemas, cartas ou mesmo perto. Seu jeito meio sisudo inibe, ás vezes… mas o meu amor, tenho certeza de que você sente todo dia. Somos oito irmãos e você sempre foi um guardião… ali, mão estendida, feito protetor e sem coragem para dar bronca.

Sabe, lembro-me também das camisas brancas de uniforme marcando sua presença no guarda-roupa e quando você ganhou o mundo e foi cuidar de sua família, eu fiquei meio órfã…

Na casa antiga já não havia você na espreita para ver se eu fazia alguma arte. Já não havia os quadros de campeões de todos os estados na parede da sala e não havia sua presença mais em silêncio me esperando em qualquer canto da casa.

Hoje, eu sou pura emoção… passamos dias difíceis e diante da bondade do criador, mesmo sendo portador de uma doença complicada – insuficiência renal – você se recuperou desse vírus que está matando famílias inteiras.

Eu louvei, vibrei e chorei pela sua coragem, pela sua fé e por ouvir tua voz me dizendo que venceu…

A gente sabe que ainda teremos dias complicados pela frente. De recuperação, de força, de fé e de muito amor. Tive pessoas maravilhosas que fizeram de tudo para te dar suporte e nos dar suporte. Nem posso citar nomes para não cometer injustiça… mas, como lá, em uma festa de santo, você era meu par… sou seu par para toda vida.

Te amo sempre!

Mariana Gouveia

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Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Para além das serras nobrenses…

As pessoas
intensas
imensas
e densas
são feitas
de barro,
de sopro…

De barro
para que as
sementes
germinem.

De sopro
para que as
sementes
se espalhem.

Tudo mais
é pedra,
é vácuo.

Oswaldo Antônio Begiato

Mestre,

Um dia, um sábio da aldeia me falou sobre lealdade e confiança. Sobre amizade e respeito. Perguntou-me se eu confiava em você e meus olhos brilharam para além das serras de Nobres e disse a ele que eu acreditava mais em você do que em mim. Ele soprou a mão dele e colocou aquele sopro na minha e com as mãos justapostas fez referência e disse que se havia algum homem na terra que merecia confiança, esse alguém era você. E que você tinha o dom da amizade.

Me falou de suas idas nas aldeias e de como você agia com cada tribo de uma maneira tão intensa que todos te adoram. Eu ainda era novata na saúde indígena e lembro-me da maneira que você me ensinou a entender todas as tribos. E ali, entendi sobre o que o sábio da aldeia quis dizer. E quando seu abraço me acalentou em dias difíceis eu entendi o seu dom da amizade.

Poucas vezes, eu vi pessoas que realmente se preocupavam/preocupam com os indígenas. Poucos os entendem como você. A sabedoria da terra te ensina, mas a bondade de seu coração, põe em prática.

Descobri que a melhor maneira de homenagear os indígenas hoje, no dia atribuído a eles, seria te homenagear. E tenho certeza de que eles concordariam… você espalha a semente da serenidade ao lidar com eles e você é o “chefe” que eles adoram.

Mestre, falar de você vai além das etnias e tribos. Falar de você é falar de amigo, de sabedoria e de humanidade. Que isso seja espalhado por onde você passar e que todos os espíritos guerreiros estejam contigo em prol do bem maior.

Obrigada por me acolher, me apoiar, me instruir e ser essa mão estendida sempre… que a beleza das serras nobrenses te renove todos os dias… (essa última parte foi apenas brincadeira… rs).

Mariana Gouveia

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Era assim no tempo das flores…

O que me dói tem um nome que não obedece a mapas: a memória é um tempo desavindo.

Rui Nunes

Cris,

Abri a estante dos livros e vasculhei em busca dos poemas que lemos juntas ainda lá na outra casa. Lembrei-me do baú com a cartas de Leonor que encontramos e foi dali que surgiu a ideia de escrevermos um diário juntas. A sua risada ecoando na janela quebrada, imitando a moça do diário foi uma das cenas mais lindas que vivi na vida:

O amor devia ser tecido como uma renda e enquanto os dias não passam e a vida passa em branco, eu sou só espera…”

Sabe, Cris, eu me casei, você se casou e os dias foram nos roubando as horas. Cada vez que marcávamos um encontro acontecia algo e a gente ficou cultivando a saudade como se fosse um vaso de flores. As flores que plantei aqui já floriram e a brisa traz o cheiro delas para dentro de casa. Era assim no tempo das flores naquela rua de terra onde a gente buscava o telhado de casa para falar de estrelas e do diário que a gente nunca mais escreveu. O pé de ipê floriu de novo, os girassóis que plantei estão tão bonitos e a flor do campo se vestiu de vermelho e só por isso, lembrei-me de você.

Hoje, eu senti saudades e resolvi te abraçar através dessa carta até que tudo isso passe e a gente possa de novo se encontrar.

Abraço carinhoso,

Mariana Gouveia
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b.e.d.a – Minha Odara…

Deixa eu dançar, pro meu corpo ficar odara
Minha cara, minha cuca ficar odara
Deixa eu cantar, que é pro mundo ficar odara
Pra ficar tudo joia rara
Qualquer coisa que se sonhara
Canto e danço que dara

Caetano Veloso

Meu girassol,

Sabe, Cláudia… plantei um girassol para você. Dois meses antes de seu aniversário e seria o presente para te entregar. Só que, o girassol brotou, foi despontando as folhas e surgiu a flor mais linda – majestosa mesmo – e no ápice do brotar da flor, o mundo se transformou nesse caos.

Com o passar dos dias, a flor foi murchando – o que é natural em cada flor – e o caos continuou igual. Os meses foram passando e parece mentira que tudo continua igual ao ano passado. Nem me lembro do que era normal, antes de me trancar entre os muros, você se lembra?

Hoje, venho te dar a flor e dançar Odara com você… foi a música que cantamos em algum aniversário seu e depois, em nosso último abraço. Desse, eu me lembro e era aconchego puro teu olho me guiando portão afora, depois de uma tarde inteira no Reino das Águas Claras… Lembra-se?

Como eu sinto falta daqueles dias em que os meninos eram crianças e hoje, vendo fotos vejo o quanto eles cresceram e de como se tornaram pessoas fortes e cientes de humanidade.

Depois disso, tantas coisas já aconteceram… em cada amanhecer, o cheiro de café na cozinha me leva até aos nossos cafés… Isso, sem falar nos filmes que a gente assistia juntas.

Sei que não é seu aniversário, nem nada… mas um girassol nasceu por aqui e resolvi te abraçar na simbologia da flor. É a maneira mais sublime de estar perto mesmo longe.

Quando tudo isso passar teremos tantas coisas para fazer e sementes para plantar. Se cuida, fica bem e ouça nossa música, que foi ouvindo ela que te escrevi.

Te amo!
Dança comigo?

Beijo,

Mariana Gouveia
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Corredores, Codinome Locura

b.e.d.a – Parabéns, Cuiabá!

Minha Cuiabá,

Seu nome ronda minha vida desde antes de vir morar aqui. Desde pequena, quando minha mãe falava de você, a imaginação me fazia passear por seus lugares. Me fascinava quando ela falava de suas árvores e de você ser conhecida como cidade verde.

Ainda lembro-me da primeira vez que andei pelas suas ruas. Eu era menina ainda e a sua avenida principal ladeada de palmeiras me encantou. Foi amor à primeira vista, e eu nem sabia que viria morar aqui.

Quando cheguei para morar foi encantador e desde então me apaixono sempre por você. Seu céu, o mais lindo que há! O sol, com toda fama de abrasador me traz amanheceres deslumbrantes e entardeceres magníficos.

A lua, tem a delicadeza de caminhar sobre seu céu de uma maneira que não se vê em nenhum outro lugar. E o seu povo, o mais acolhedor.

Hoje, você completa 302 anos. Tantas histórias, tantas transformações e ainda assim sempre minha cidade. Sempre meu lugar. Em todas as ruas, em todos os becos você tem a história detalhadas nas igrejas, nos casarios, na sua gente. As suas ruas me conhecem e seu rio me acolhe nos momentos de dor. Sou grata pela acolhida e por já fazer parte de você e de sua história!

Parabéns, Cuiabá!

Mariana Gouveia
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b.e.d.a – Já te falei…

Querida Teresa,

das coisas que acontecem aqui, no meu quintal? As perguntas começaram a me rodear enquanto as nuvens faziam figuras estranhas no céu. Me silenciei por tantas perdas e quase sufoquei. Achei melhor te escrever. Faz tempo que a gente não se escreve mais. Foram muitos fatos que aconteceram que me vi perdida, sem rumo para as cartas. Retomei apenas por aqui, para suprir essa ausência. Nunca mais fui em busca dos postais que você tanto gosta. Passo os dias cuidando das plantas e fazendo artesanato. Dizem que a arte salva da loucura.

Confesso que gosto de ficar entre os meus muros afofando a terra no vaso das hortências que ainda não floriu, mas já é possível ver botões se formando. Minhas suculentas me fazem mudá-las de lugar cada vez que a chuva vem. A maioria não gosta da chuva. O pé de orai pro nobis já floriu imensas vezes e até plantei tomates e cebolinhas. O tomateiro está lindo e logo deve dar frutos e a cebolinha já usei várias vezes para o molho e saladas.

Espero que esteja bem e que alguma coisa nessa vida te traga esperança para esses dias difíceis. Prometi a mim mesma que não falaria das perdas e sim de como o cheiro de terra molhada me abraça quando a chuva chega. Por falar em chuvas, o céu me avisa em trovões que logo choverá. Vou ali recolher as roupas do varal.

Um abraço carinhoso
Mariana Gouveia
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