Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Quando fui chuva

Quando já não tinha espaço, pequena fui
Onde a vida me cabia apertada
Em um canto qualquer acomodei
Minha dança, os meu traços de chuva


Maria Gadu

Fui ao baú desenterrar poemas. Choveu a manhã toda e se estende para a tarde.
Ouvi Gadu e sua voz a ecoar a palavra que era poema dentro da melodia.
Ouço os barulhos da casa… os pingos da chuva no balde a guardar momentos e a luz chega pela janela… sou esse cotidiano que chove todo dia, e as flores bebem a água que cai.
Ainda visto o pijama da noite, e o dia segue seu rumo de hábitos, manias e defeitos… O pássaro de todo dia pede abrigo na escada enquanto lá fora a vida acontece e eu sou um nome que habita dentro da solidão. Lavo o uniforme sujo e soletro o canto da ave que pousa perto de mim. Vasculho os diários guardados e leio livros que estavam ali, parados, como a esperar para exalar histórias… passo da sala para a cozinha enquanto os trovões ecoam e parecem dizer que aqui o universo tem um portal estranho. Revisito os casulos que se preparam no pé de orquídeas silvestres. Cuido para que eles não molhem. Sou essa metamorfose que cresce e muda a cada dia. Desfolha em asas a borboleta que nasce. Está aqui e a sinto absolutamente indefesa diante dos dias. Da asa escorre o líquido da vida – é apenas um inseto… alguém diria – em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das outras coisas e ela está aqui, sendo pouso em minha mão e neste momento eu sei e sinto ao certo o que significam certas palavras como a palavra paz.  A vida segue líquida dentro do dia e prossegue nos gestos que faço apenas observando a chuva dentro da canção de Gadu.

Mariana Gouveia
Participam desse projeto
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso

Corredores, Codinome Locura

Depois da chuva…


Querida M,

Aqui, depois da chuva aquietou-se o vento. Nasceu uma vida na esquina. O homem que domina o trânsito cantou.  Uma pessoa falou de muros e eu lembrei do grafite apagado na rua de cima. O pássaro de todo dia fez rasantes dentro da chuva. O jardim cercado perdeu as folhas por causa dos cães.  Mais uma vez o mito é desmitificado. Nenhum herói dura para sempre. Nem te contei a história dos versos que eu declamei enquanto a vida nascia, ali, entre flashes curiosos de celulares gravando a vida que nascia. O dia mudou dentro das rotinas e as flores caíam em desatino no quintal. A chuva clareia a maresia nas calçadas. No lugar do coração, o mar e sua sede de estar, preenchendo o tempo de vida de quem nascia.  As lanternas iluminaram o dia diante do susto. Ganhou o nome de flor como homenagem ao santo. Dediquei as palavras das cartas no caminho onde respirei quem nasceu sob meu olhar.

Mariana Gouveia
Participam desse projeto
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Das cartas que escrevi

Mudei a porta de lugar várias vezes.
Uma, para o vento entrasse; outra, para ele saísse.
Descortinei as vidraças embaçadas.
Vi azul e mudei a cor do quintal.
O sol alaranjou o gris que morava ali.

Querida minha,

Escrevo-te para dizer que o pássaro que beija a flor perdeu penas em uma briga com outro. Sei que vai rir quando ler e ver a imagem. Temperamental, o menino. Apesar de perder as penas ele ganhou a luta e agora reina absoluto em seu bebedouro. Acho que há bebês de cães por perto. Passam a madrugada chorando.  Está chovendo quase todo dia. As flores ficam mais vivas e o calor mais ameno. Mas também faz com que as ervas daninhas se alastrem mais rapidamente do que o normal. Tenho que limpar mais vezes o quintal. Adoro o cheiro do mato sendo arrancado. É como se a clorofila se infiltrasse em mim. As joaninhas aumentaram nesse verão. Não sei se a estação colabora para isso, mas o fato é que elas estão em maior número no pé de algodão. O hibiscus mutalibis encheu de flores e até o mamoeiro deu frutos, o que faz a alegria dos pássaros.
Por falar em pássaros, o bem-te-vi teve filhotes na mangueira do vizinho do fundo. Já ensaiou os primeiros voos hoje.  A vida vai seguindo igual, independente da estação, da previsão do tempo. Os dias parecem voar tal qual o pássaro que beija a flor e que perdeu as penas e o meu amor continua igual.

Mariana Gouveia
Participam desse projeto
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega Roseli Pedroso

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Aconteceu abril.

não uma e meia nem sete nem quatro,
trinta e oito da madrugada,
duzentas e onze da manhã,
uma escuridão infinita
 
António Lobo Antunes

Pai, aconteceu abril no meu quintal e ele não chega como antes. Embora, o céu já antecipa os dias de sol por aqui, com as folhas amareladas caindo, abril lembra títulos de livros e filmes. E é o que acontece, pai. Abril chega despedaçado e com a solidão e a dor instaladas em muitos corações. Parece que as noites são mais escuras e longas.

Dias desses lembrei-me de que estamos em plena quaresma e de como era nossas rotinas dentro desses dias “santos”. Confesso que ainda sigo alguns dos seus rituais. Talvez, mais pela forma de lembrar de você do que propriamente por medo de um castigo divino.

Nesses dias tão difíceis, busco nas memórias momentos bons para atravessar com mais tranquilidade tudo o que está acontecendo, pai. E me admira que seu olhar é o mesmo de quando eu era criança e sua fé também. Um dia, você disse: “a fé que move as montanhas é a mesma que te fará viva nos dias duros e é nos momentos difíceis que se cria a couraça para viver. A gente precisa criar uma couraça!”. Confesso, que naqueles tempos, apenas guardei na memória mais uma das frases ditas por você… só que hoje, ela faz todo sentido.

Busco o equilíbrio na mesma fé que você me ensinou e na serenidade que você transmite. Vai ficar tudo bem, pai… embora a gente tenha perdido tantas pessoas nossas. Embora, lá fora, um vírus maldito transmuta e esvazia famílias inteiras, a gente se arma dessa couraça e vivifica a fé. É o que nos deixa forte para seguir.

Te amo além dos dias.

Beijo,

Mariana Gouveia
Participam desse projeto
Adriana AneliAlê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio OrtegaRoseli Pedroso

Corredores, Codinome Locura

Grito

 

Minha alma é intensa…
grita ausência,
grita falta tua
grita pele nua

quer gritar emoção
quer você na mão
Nunca é por acaso a insinuação
descubro-me perdida nos pensamentos teus.
enquanto que os meus
seguem direção do teu coração

O dia inteiro te busco,
te caço, me acho
perdida em abraços

que nunca troquei
beijos que não dei

mas que compartilho
seguindo o trilho
dos caminhos que vão me levar
onde você está

entre cachoeiras, entre pantanais
numa tarde inteira visito teus quintais

visito você e pra não me perder
abro os olhos e grito que amo você
meu amor é mais.

 

Mariana Gouveia
Ph: Anouk Lacasse

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta de mim para mim…

Por fora
tenho tantos anos
que você nem acredita.
Por dentro, doze ou menos,
e me acho mais bonita.

Por fora, óculos;
algumas rugas,
gordurinhas,
prata nos tintos cabelos.
Por dentro sou dourada,
Alma imaculada,
corpo de modelo.

Por fora, em aluviões,
batem paixões contra o peito.
Paixões por versos, pinturas,
filosofia e amigos sem despeito.

Por dentro, sei me cuidar,
vivo a brincar, meio sem jeito.
Não me derrota a tristeza;
não me oprime a saudade;

não me demoro padecente.
E é por viver contente
que concluo sem demora:

é a menina
que vive por dentro,
que alegra
a mulher de fora !

Luan Jessan

Minha querida!

Às vezes, recuo no tempo para mapear os caminhos que você trilhou. Lembra-se dos tropeços dos 15 anos? Do seu olhar destemido dos 20? Da segurança dos 30 e da consciência dos 45, lembra-se?

Hoje, aos 55,com os cabelos brancos e algumas certezas e muitas dúvidas é como se aquela menina tivesse seguido uma bússola e que foi dar no instante de agora.

Você gosta de flores, pássaros, cães, borboletas, joaninhas. Não necessariamente nessa ordem e ainda falta itens nessa lista. De escrever, de se encantar com a vida miúda do seu quintal e da liberdade desmedida de amar sem medidas.

Escreve, costura, borda, cozinha e ainda sonha… rega a felicidade diária como se estivesse regando as flores nos vasos… chora como se estivesse limpando as vidraças da janela para ver melhor o que está de fora…

Hoje, essa mulher que você olha diante do espelho é apenas reflexo das tantas mulheres por ai que te inspiram… Hoje, você é essa forma moldada ainda inacabada… sua voz chega aos quatro cantos e ao analisar seus passos, concluo que eu e você seguimos um processo que nos permitiu estar onde estamos agora.

Cruzamos cidades, ruas, vilas, aldeias e florestas… As estradas sempre nos ensinou como caminhar. Muitas vezes, nos perdemos em atalhos que não nos levou em lugar algum e nos fez retornar ao ponto de início. Em outros, o atalho foi a melhor maneira de cruzar as pontes e chegar aonde queríamos… e quer saber? Se me fosse permitido voltar atrás e reviver tudo de novo eu faria os mesmos caminhos!

Feliz Dia todo dia das mulheres!

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Floresc(S)er de amor

No lugar onde minha pele termina
começa seu nome em detalhes que te descreve.
O silêncio me orienta e em meio aos rumores do vento
só ouço o seu suspirar.
A minha voz te nomeia de flor

e a delicadeza do jardim, preenche em mim a fragrância do teu suspirar.
Dentro de mim chove sensações de sementes
daquelas que o vento espalha para nascer flor

Floresc(S)er de amor.
Em minha solidão
preencho você de mim.

Mariana Gouveia
Ph: Anna O.

Corredores, Codinome Locura

Esboço do sentir

As curvas medidas por mim, na simetria azul do crepúsculo enquanto ela pensa em flores. Esboço do sentir.
As ruas de um país distante descritas em um livro que quase ninguém leu. A história dela rabiscada em arte pura, como quem escreve em todos os idiomas, [o amor].

E a geografia exposta nos versos que canta enquanto as hortênsias azuis dão flores em um dia que não é primavera. A estação visitada em todas as fases e a lua passeando no céu [azul].

As escolhas das canções uma a uma falando de cor e ali, entre o arrepio da pele e a sonoridade dos dias eu invento um encontro imaginário e o vento a cantar as folhas em um dia natural de [de outono].

Mariana Gouveia
Ph: Sandra Silva

Corredores, Codinome Locura

teus olhos/meus olhos

 

encantados
luz multiplicada
nos olhares-candelabros
e nos lábios
o sopro úmido
e o silêncio ruidoso
do que sentimos
e na pele o sentido pleno do toque e do prazer.

 

Mariana Gouveia
*imagem: Laurie Kaplowitz