Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Era um ano longo como um século ou um século curto como um dia? 

Por cima dos móveis pela casa só despojos quebrados: copos retratos livros desfeitos
Éramos sobreviventes duma derrocada dum vulcão de correntes enfurecidas e despedimo-nos com a vaga sensação de termos sobrevivido mas não sabíamos para quê.

Cristina Peri Rossi

Olga,

Alguns dias são ocos e feitos para esquecer. Era dia da terapia e vi o recado na porta azul – luto em família e o endereço da capela – onde todo mês busco refugio em um divã ocre. Já fazem alguns anos que você é minha rotina mensal. Passei a ser aquela que você anota, escuta e faz perguntas que quase sempre me recuso a responder. Dali, saio inspirada para as palavras – quase sempre – e volto para casa com notas mentais ou escritas em rascunhos no celular. O seu divã me acolhe, mesmo quando saio de lá sem dizer nada.

Mas, hoje não… hoje segui rumo a capela e isso me fez retroceder em alguns passos… eu a vi de longe, os olhos perdidos no pequeno lago em frente as salas. Seu olho vigiava a dança que os peixes dali faziam como se estivessem em rota de fuga. Na última vez que estivemos juntas aqui, a dor era minha e sua mão me alcançou e depois disso, nunca mais me largou. A gente sempre falou sobre esse lago e se seriam os mesmos peixes ali, já não tão ariscos, acostumados com os olhares de dores de quem anda por esse lugar.

O nosso olhar se cruzou e seu riso opaco fez com que eu sentisse a sua dor – a mesma minha, talvez – já acalmada a muitos anos – e a sua tão latente, sangrando e você falou tudo que estava preso no coração. De repente, mudamos de lugar. Era eu a sua ouvinte, mãos dadas, olho perdido, colo abraço e passos curtos em uma solidão que já conheci bem.

Você falou de um vazio que ainda vai sentir e de como às vezes, a vida é esse sopro que rouba de nós as presenças. Era ontem ainda e ela estava ali, na sua sala, com o vinho e a massa a esperar – como a gente faz para voltar o relógio nos minutos antes de tudo? – e o atraso que acaba com tudo? – como somos incompetentes em tantas coisas e nos achamos o máximo em outras?

De repente, eu não sabia como te responder. De repente, fui ombro para sua cabeça e só. Essa carta, foi um pedido seu… embora, tantas vezes, eu tenha saído de seu lugar comum, fico a cata do que te escrever para que não doa tanto, para que não seja em vão minhas palavras e para que elas te abracem.

Estou aqui sempre!
beijo meu


Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura 

só porque hoje me pediu para trocar de lugar com você

Das palavras das cartas · Projeto52

Um tempo para anoitecer à luz de lâmpadas…

A vida, ela mesma, nos empurra para que continue sendo.
Luciane Ricieri

Luci,

Eu queria nesse fim de tarde – quase noite – sair com você, pelas suas ruas, de mãos dadas e te oferecer meu silêncio. Confesso que antes da carta iniciar andei pelo meu quintal… arranquei algumas ervas para um chá, tirei as folhas secas que caíram. Também brinquei com Chiquinho que voava atrás de mim. Só depois, me sentei aqui vendo o sol se esconder e a noite começa a pedir para acender as lâmpadas.

Falei baixinho com você pensando em sua frase acima sobre a vida e é isso mesmo, Luci… A vida, ela mesma, nos empurra para continuar sendo. É sempre um dia atrás do outro. Lembra-se de quando seu pai se recusava a comer? Nunca esqueci disso. Naquele tempo doía e parecia que ia doer para sempre e hoje, ele te acolhe em sua dor de falta. Nesse meio tempo, já aconteceu tanta coisa ruim e tanta coisa boa que a gente sente apenas o alívio de que tudo passa. Até as dores.

Lembro-me que pouco dias antes de minha mãe morrer ela me disse que “a gente se apega muito a presença física e esquece que algumas presenças invisíveis são mais fortes. Nós é que não escutamos os sinais.” Na época, eu nem pensei muito nessa frase. Só fui deparar-me com ela em um caderno antigo tempos depois dela ter partido. E comecei a sentir a presença dela mais forte em coisas que eu fazia. em coisas que em tantas solidões era como se o travesseiro fosse o colo dela.

Hoje, sei que algum canto de sua casa está vazia da presença física de Teté Binoit… mas, se reparar bem, haverá sempre resquícios dele por aí… e assim a vida segue para além do que somos. Sabe, Luci, eu só quero agradecer por me permitir dividir com você e os seus esses instantes de singeleza da sua vida e até mesmo os momentos de perdas.

Aprendo muito com você a ver a beleza das coisas. Aprendo com sua coragem, com a delicadeza com que trata esses momentos, mesmo nos apontamentos dos dias mais tristes. Sei que foram poucas coisas que você se acostumou na vida. Sei também que não se acostumará com a tristeza e que logo tudo será apenas lembrança, afinal, as cores te rodeiam e por enquanto te abraço. Estou também aprendendo a rezar seus silêncios. O ontem será sempre figurativo, Luci… A vida é hoje – minha mãe diria, se estivesse aqui – porque a gente só pode medir 15 anos de amor e doação contando os dias como a vida toda mesmo.

Te amo!
Abraço carinhoso,


Mariana Gouveia
Carta parte do Projeto 52 Missivas
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura 

só porque quero te dar um abraço

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Ana, que tal um café?

Oi, Ana,

Começo a te reescrever na madrugada. Sinto que o vento traz o cheiro de café de algum vizinho madrugador. Coloco a água para aquecer em um ritual antigo — já que fiz a burrada de, em um momento de distração, jogar o suporte da cápsula da cafeteira fora — enquanto preparo o coador para então saborear o café a me acordar de vez.

Enquanto sigo até o ponto de ônibus, vou criando notas mentais do que gostaria de te dizer. Quase crio uma canção ao repetir as palavras para não esquecer.

Continuo na segunda parada… onde aguardo pelo outro ônibus e mais uma vez o cheiro do café chama a atenção. O vendedor de bolos de arroz me serve com a delicadeza de todo dia. O sabor do bolo típico daqui me leva à infância. Minha mãe usava a latinha de sardinha como fôrma para assar no fogo de barro. Enquanto o ônibus não chega, falamos do momento atual na política e ele logo discorre sobre o filho que tentou um concurso público.

Penso que hoje completo uma carta que comecei a escrever ainda adolescente, quando você chegou a minha mão, através de um exemplar sem capa… de Inéditos e Dispersos que continha correspondências e poemas. Eu saindo da infância e todas as melancolias do mundo dentro de mim. O livro parecia ter sido manuseado sem cuidados e apesar de fino, tinha folhas soltas. Comi as palavras e a palavra correspondência ganhou sentido em minha vida.

Minha mãe usou a palavra “poeta impetuosa” para te descrever. Parei entre a soleira da porta que dava para a cozinha e comecei a escrever essa carta, que ficou parada no tempo. Talvez eu clamasse pela liberdade que você esbravejava e eu invejava nas palavras. Ou talvez simplesmente vivesse essa mesma inquietação tua e que só exercesse minha versão transgressora longe de minha mãe.

O dia chega ao fim. Sinto que não consegui dizer tudo. Hoje, as lembranças pesaram junto à realidade. Embora um sol brilhante do lado poente desenhe nuvens no céu, no ponto leste de minha janela um arco-íris redesenha coragem em mim. Há situações de chuva no céu e os trovões bradam o interior e é dentro de mim que te abraço.

Beijo,
Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Carta publicada na Coluna Plural
Scenarium Livros Artesanais
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura 
Fotografia: Cristina Lorenzo

só porque hoje é o Dia Mundial do Livro

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta ao sorriso feito de covinha…

Eu queria cantar para dentro de alguém, 
sentar-me junto de alguém e estar aí.
Eu queria embalar-te e cantar-te mansamente
e acompanhar-te ao despertares e ao adormeceres. 
Queria ser o único na casa
a saber: a noite estava fria. 
E queria escutar dentro e fora
de ti, do mundo, da floresta.
 
Ranier Maria Rilke

Minha Má…

Algumas pessoas são feitas para abraços e risos e em outras – essas raras – nasce o vento. Hoje, no seu dia te escrevo para dizer que descobri que em você nasce o vento. Percebi hoje no abraço que te dei. Aconteceu uma ventania em seu lugar. Aquele vento que é quase brisa e refresca.

Você é aquela pessoa que mesmo se passando um ano ou mais sem a gente ver quando encontra é como se tivesse visto ainda a pouco. Eu te amo logo ali, na esquina onde te encontrei uma vez vindo da feira. Eu te amo tão longe, em São Paulo onde um jubileu nos levou na Estação da luz. Eu te amo logo ali, nas mensagens de afeto justo quando eu mais precisava. Eu te amo tanto aí, em seu sorriso feito de covinhas – que segundo a ciência é um defeito genético no DNA – esse defeito tão lindo quando seu riso é esse abraço de alma.

Algumas pessoas nascem irmãs… e se eu disser que você é a irmã que escolhi? E se eu te disser que minha história cruza com a sua na rua de cima, nas avenidas, nos templos de orações e no riso do meu e dos seus filhos? A gente quando se encontra – e lamento que seja tão pouco – cumprimos o papel do que o amor precisa.

Hoje, eu poderia te escrever mil cartas diferentes, mas todas seriam falando do meu amor por você e do quanto te quero bem. do quanto sua força me atrai em força e do quanto seu abraço é puro aconchego na alma. Mas, quero apenas dizer que tudo que mais quero é que seu sorriso tenha sempre esse defeito genético que são essas covinhas onde meus beijos cabem no instante de te abraçar.

Hoje, eu estou abastecida e feliz. Te amo sempre!
Feliz Aniversário!

Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura 


só porque hoje é aniversário dela

Das palavras das cartas · Lua de Papel · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

a missiva que ficou nas pétalas de uma flor

eu nunca antes tive delírios
– mas dizem que tudo sempre aponta para um possível começo.
Seria esse o meu?…

Lunna Guedes – Lua de Papel

Bambina mia,

Já anoitece por aqui… enquanto no seu lugar o frio que tanto gosta dá sinais de aviso o meu lugar já sente a falta de umidade. Alguns diriam que já parece julho… Vejo o reflexo do sol na parede sem reboco da casa vizinha. Fica mais alaranjado meu quintal.

Ontem falávamos da flor que você viu e me lembrei da delicadeza que me ofereceu. Já era quase poesia a pequena pétala – imagine transformá-la em missiva, então? – e me recordei que tenho ela no quintal em suas várias cores. quando conheci a flor, descobri primeiro a de cor branca e só depois as outras vieram em forma de mudas.

Aqui, elas servem para as borboletas que são atraídas pelo cheiro de suas mini flores… mas, dizem que elas também servem de calmante, e por isso, ajuda a combater a insônia. Vou me lembrar disso em noites insones. Se chama lantana… mas achei lindo que algumas pessoas chamam ela de planta arco-íris. prefiro apenas que elas sejam o alimento das borboletas e joaninhas que moram por aqui.

Adoro esses mini buquês onde as cores se completam e suavizam. Parece até que a flor se veste para a festa… penso em você caminhando e de repente, o sol te traz o laranja vivo da flor e te faz pensar em missivas. Dei uma atenção especial a elas hoje e pensei nas palavras que te diria. A flor agora terá um significado diferente aqui.

Às vezes, acontece de cair quase todas petalazinhas e fica apenas uma resistente. Nem o vento consegue derrubá-la. Durante o inverno, o pé murcha e parece que vai morrer, mas isso dura pouco tempo. Logo ela surge de novo vigorosa, com flores mais robustas e assim segue em sua vida de flor.

Mas é agora no fim do dia que ela se faz presente com sua fragrância no quintal, como se fizesse perceber… pena que essa missiva não consiga te levar o perfume – suave- da flor… mas, com a delicadeza das florezinhas que te abraço enquanto a minha xícara de chá e uma canção espanta a solidão por aqui.

Te voglio tanto benne
Bacio,

Mariana Gouveia
Texto publicado na Coluna Plural – Scenarium Livros Artesanais
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura 

só por desacato à flor

Das palavras das cartas · Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

A minha rotina clandestina

Sabe amor,
essa carta foi escrita antes do século virar. Os dias de ontem para trás foram confundidos um a um com a dor. Os corredores intensos-grandes fizeram as noites maiores. As paredes trazem recordações e fotografias recortadas onde minhas palavras vasculham a segurança do teu sono no quarto ao lado.
Na mesa da cozinha, rabisco as vontades dentro de um poema. Recordo os outros dias dentro desse mês que dizem ser o mesmo dos namorados e amanhã, justo amanhã, o dia principal. Que coisa estranha, amor! Ter um dia especial para celebrar o que é vivido todo dia. A Antônia da esquina me encomendou um poema para dedicar ao namorado e sei que você não compreende como alguém pode fazer um poema de amor para outra pessoa que nem conhece.
Quem escreve exala sentimentos na pele. Daí escrevo uma coisa, logo sai outra coisa e quando mostro para você, percebo que seu olho desvenda minha alma. Por isso, nem preciso dizer, já o sabe, que todo sentimento é igual, a solidão é a maior companhia de quem escreve e que as rotinas minhas vagueiam pelo quintal.
Da janela, vejo a rua inteira e se dobrar o pescoço colho a lua no quintal, com exceção de quando ela fica nova. Podia até pescá-la nessa fase. Vira isca, amor, no quadrante do pé de algodão.
Você sabe onde colho inspiração, ou melhor, em quais horas a rotina me abraça. Como pode uma noite roubar a rotina assim, de quem escreve? As horas avançam enquanto as estrelas se confundem umas com as outras quando choro… e finjo uma cantiga estranha no banheiro para que a desculpa do sabonete no olho não mostre para você que quem escreve o amor, mesmo sendo amada, chora…
Não é tristeza de pessoa, nem de amar… é a solidão que bate nas coisas mais vagas que a mão toca, seja um inseto pequeno na roseira que ganhei da amiga que enfrenta a morte, ou a borboleta – de todo dia – que me toca como se me benzesse.
Eu devia te falar das benzedeiras… as deusas que me ajudam na procura do que acredito. A força é logo ali, ao pé da cachoeira, onde te vejo dominando o lugar. É uma imensidão de coisas vinda de fora e onde me transformo em criança e suspiro em seu olhar.
Talvez eu te conte amanhã o que vivi ontem e depois de amanhã. Outra história onde desenho finais de tardes com você e com isso, vou narrando vivências e me juntando nas rotinas de outros amores porque escrever para mim… é isso: se misturar nas rotinas dos outros dentro das histórias de amor e vida. Pode até ser ficção, romance, tragédia…
E quando em silêncio, o vento sussurra e você me olha… parece quase amanhã. Esse seu jeito é a poesia que você diz não conhecer, mas que me oferece todo dia com abraço, força, fé e amor.
Te amo infinito dentro das histórias de amor que invento!

Mariana Gouveia
Texto publicado na Coluna Plural – Scenarium Livros Artesanais
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura 

só porque hoje a borboleta apareceu por aqui de novo

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Das cartas que não escrevi…

Leonor,

Diz-me que me amas, diz só uma vez.
Mesmo que seja mentira, diz-me. 
Só para eu guardar o som da tua voz a dizer essa palavra.
 

Inês Pedrosa

Sabe, aqui a vida ainda possui a mesma rotina e os calendários atrapalham os meus dias. Nunca sei quando é essa data – aquela em que você partiu – e sempre parece que é hoje o aniversário que não gosto de relembrar. Havia nuvens de chuva e logo depois o voo ganhou os contornos de distante, longe, muito longe até a aeronave sumir no infinito… depois disso, tudo pareceu apenas sonho.

Perdi a conta de quantas vezes refiz o mesmo caminho até o hangar de onde partiu e de quantas vezes chamei seu nome nas noites escuras, nas noites sem lua, nas noites com lua e nas madrugadas confusas. Aquele barulho estranho no quarto ao lado, milhares de vezes confundi com seus passos. O chiado da chaleira parecia que ofuscava sua voz em algum canto em algum canto da casa.

Eu já ensaiei várias vezes cartas para você, mas o que eu diria além da falta absurda de conversar contigo e falar de coisas bobas entre risos? O que eu escreveria que não fosse para dizer que já fiz e refiz muitas vezes o caminho até sua casa, do campo de papoulas via aplicativo do Google? E só por isso, logo que escrevo amasso o papel e jogo fora, antes que a vontade absurda de falar contigo me faça buscar seu número em algum lugar pois apaguei o da agenda.

Sabe, Nor, as sementes de papoulas que me enviou nunca germinaram… parece até que é desaforo diante dessa saudade enquanto vi em algum lugar seu campo todo vermelho da flor que me encantou. Até hoje guardo algumas em um saquinho de pano bordado junto com suas lembranças para não mais esquecer e quando a solidão invade minhas tardes eu te busco na canção que me lembra você.

Mariana Gouveia
– este post é parte integrante do projeto Caderno de Notas – Segunda Edição 
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura 
Fotografia: Vlada Karpovich

só porque achei o livro de poesias de Maria Teresa Horta

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Das cartas que recebi…

Caríssima,

… quando sua missiva chegou, eu estava com os livros de Cecília – que tenho comigo – em mãos. São três. Gosto imenso quando ela diz: tenho fases como a lua, fases de andar escondida, fases de vir para a rua – é como se a poeta-mulher falasse comigo enquanto ando pelos cômodos da casa. Somos um par…

Gosto da correspondência da escritora, que durante muito tempo – por pudor ou algo que se assemelhe a isso – me recusei a ler. Sentia-me uma intrusa… uma daquelas damas inglesas – falsamente educadas – a fazer uso do vapor da chaleira, para abrir envelopes e descobrir possíveis segredos.

Hoje, minha cara… ao sentar aqui para escrever-te , tenho consciência de que os meus correspondentes ajudaram a forçar a escritora que sou. Foi através das muitas folhas tingidas com grafite que mantive o exercício da escrita e quão prazeroso era dizer-me em linhas as outras pessoas, meus primeiros – e essenciais – leitores. Era um tempo de espera… os correios nunca foram ágeis. Curioso que nesse tempo em que tudo é tão ágil e é possível dizer-se tão depressa, pouco ou nada se diz.

Eu gostava imenso daqueles dias, em que era surpreendida com envelope na caixinha de correspondência, trazendo notícias de um mundo-outro. Conheci lugares-pessoas-vidas-realidades sentadas no canto do sofá-verde-musgo da sala – era o meu bilhete de embarque.

Lembro-me que em um dos diálogos com uma correspondente – ela me disse, num sem fôlego, ao reescrever -me de canto de mundo-vida… acho a palavra “carta” tão extraordinária. E eu lhe respondi dias depois em meio a um sorriso cheio… prefiro missiva porque tem cor-som-aroma – todos os ingredientes necessários para estimular o meu imaginário. Ela aceitou a palavra e respondeu… se parece com um pombo que leva um envelope a alguém (treinado-adestrado que foi para esse fim).
Falamos da palavra durante dias… até que ela respondeu com sorrisos – não os desenhou, tampouco os escreveu, mas estavam lá nas entrelinhas – eu gosto e prefiro porque é poético e me fez pensar em outras palavras: ‘miss you’ .

Eu entendi o sentido… e era engraçado como dizia muito de nós duas – figuras estrangeiras a viver em mundos alheios. Longe de casa e a dialogar uma com a outra: figuras tão impróprias. Durante anos nos correspondemos – quase que diariamente. Sem envelopes-selos-folhas-de-papel. Apenas palavras na tela – essa comunicação moderna. Não passava um dia sem que ela chegasse com seus desenhos de mar-céu. Me lembro que lhe falei dos aviões que cortavam os céus do novo bairro para onde havia me mudado. Tudo era novidade. os dias transcorriam repletos de descobertas.

certa vez lhe contei – hoje fomos à feira. Os três. Descobri a moça dos ovos, com quem conversar por alguns segundos, enquanto escolhe os melhores ovos pra as minhas não-receitas. Me fez sentir saudades dos dias de sábado… esse lugar detido em alguns ontens que coleciono. E ela me respondeu – há tempos não deixo o meu casulo. Frágil casulo que rompo a cada dois ventos.
O que são esses ventos? Um deles é você… que me levou à feira. Coisa comum na minha outra vida. E agora, sento-me com você à sua mesa, e aprecio os seus movimentos de mulher forjada num desses ontens. Gostei da maneira como usa essa palavra. Irei imitá-la. espero que não se importe…

Ela me falava da filha a medida que crescia. Da saudade que estranhava sentir do seu passado… com o qual se recusava a lidar. e da tentativa de lidar com a idade, os medos e ser alguém para os que amava. Eu gostava de sabê-la minha… de saber que eu havia provocado risos em seus lábios ou que tinha lhe arrancado de um momento de dor. Amava como enxergava as palavras que usava para descrever… poucas pessoas compreendiam as minhas frases e rituais.

Certa vez lhe disse – hoje eu precisei de um guarda-chuva vermelho para sobreviver a multidão dos pretos – e ela, respondeu apressada, numa nota breve apenas para que soubesse que estava ali e sabia do que ia dentro de mim naquele instante – enfrente a multidão dos pretos com a pele-carne-matéria, com tudo que tem. Use a sua ilusão de alguém.

Mas, de repente, não houve mis respostas-diálogos. Apenas o silêncio de um dia azul. Percebi que ela tinha razão… miss you é tão sonoro quanto missiva… porque traduz o que se sente quando o dia seguinte – e todos os dias imediatamente após ele – acontece sem notícias. Demorou, mas eu me acostumei ao silêncio e hoje ao me lembrar desses dias, gosto do penso-sinto… e dos versos de Cecília que me servem de suspiro e é com ela que me despeço e vago-viajo até você nesse dia quente, sem ventos ou nuvens.

au revoir


Perguntei: “Que me vale ter casa, parentes, vida?
Sou a terra que estremece? ou a multidão que avança?
Ó solidão minha, ó limites da criatura!
Meu nome está em mim? no passado ou no futuro?
Ninguém responde. E o fogo avança para meu pequeno enigma”.
Apenas um anjo negro entreabriu seus lábios,
verdadeiramente como um botão de rosa.
“Death”
DEATH?
Por que me falas nesse idioma? perguntei-lhe, sonhando.
Em qualquer língua se entende essa palavra.
Sem qualquer língua.
O sangue sabe-o.


Lunna Guedes
Carta publicada em Catarina voltou a escrever
Scenarium Livros Artesanais
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura 

só porque hoje abri os envelopes laranja

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

E a noite branca que se esvai com as luzes

Pai,

Devo te contar que eu ainda sigo vivenciando os rituais dos dias grandes. talvez, mais movida para relembrar alguns momentos nossos do que propriamente pela fé. Repito algumas das orações, alguns gestos e parece que um filme passa na minha cabeça.

Desse dia, eu me lembro de quase tudo. Confesso que algumas memórias esbarram-se nas outras e nunca sei se o ano era o mesmo ou se já é apenas fragmentos de uma mesma noite. O que eu mais gostava era que a quaresma chegaria ao seu final e as restrições das coisas que poderia fazer também.

De tudo que me recordo parece que a gente vivia nesse dia uma peça onde as palavras eram proferidas com o máximo de respeito. Os vizinhos todos, na sala, ao redor da mesa grande e o baralho sendo cortado. A espera da meia noite para que a farofa do frango fosse servida. Depois disso, já era apenas a trama para o sábado de aleluia e as brincadeiras de Judas.

Você se lembra de quando minha mãe ficou muito brava quando o nosso banco de madeira perto da janela foi parar lá no meio do curral? Sorrio de imaginar que ela nunca descobriu quem fez isso.

Desse dia, também lembro-me de sua carta escrita em um pedaço de papelão. Era o único papel que você tinha em mãos, em um ano que pareceu nunca ter existido. Ainda me recordo de suas palavras sobre a solidão desses dias  e de como contava o tempo marcando com carvão atrás da porta da cozinha para não esquecer. Me fez entender que o luto nos faz mais fortes depois que o tempo passa e que a gente deve aproveitar cada minuto que puder – porque depois que a gente morre, aquele dia fica sendo sempre sexta feira da paixão para quem ficou – e que todo instante é sagrado para louvar o amor. Seja o da fé, seja o do coração.

Pai, algumas coisas mudam. Outras, são repetidas como se existisse um manual. Lembro-me da frase logo ao amanhecer de que seria um dia quente – toda sexta-feira da Paixão é assim – não há uma nuvem no céu…

Esse ano foi diferente. Seria um prenúncio de romper os ritos, que penso ser a única dos seus filhos que ainda segue? Aqui, amanheceu chovendo, depois teve a garoa – como se fosse inverno – e as nuvens ganharam contornos de cores no decorrer da tarde. Até senti frio…

E agora, pai, a noite branca se esvai com as luzes… a cidade continua na sua rotina de feriado e eu aspiro o perfume das flores do Orai pro Nóbis que já me dá uma previsão de que a varanda amanhecerá colorida. De uma das coisas que não mudou foi a lua, sempre cheia em seu rito no céu. E assim, mais um ano as memórias me levam para dentro do seu colo e suas histórias que não consigo esquecer.

Bença!

Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura – Darlene Regina

só porque é sexta-feira da Paixão

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

e o dia em suspenso lá fora…

Donnant plus de blé
Qu’un meilleur avril
Et quand vient le soir
Pour qu’un ciel flamboie

Edith Piaf

MInha querida Sandra,

Alguns dias, mesmo os mais difíceis – seja por quais motivos – podem se transformar em instantes suspensos de alegria e carinho. Piaf canta e chove lá fora. Daqui a pouco vai escurecer e o relógio já marcou o fim da espera.

Suas cartas chegaram até mim nesse dia estranho de abril. Amanheceu frio, depois de uma noite de chuva, como se fosse inverno… depois, o sol de todo dia abriu as portas do céu e exibiu seu melhor sorriso… e agora, as nuvens começaram a passar rápido pelo quintal com cores surreais. Parecia Le Nuages, de Monet, e a chuva chegou bravia, com ventos que sacudiram minhas árvores no quintal.

De repente, França chegou em meu mundo, em envelopes brancos, com suas cartas me abraçando, dando colo e o dia amenizou por aqui. Não sei como agradecer o carinho e nem como dizer o quanto suas palavras me acalentaram. Como você mesma disse: tem coisas que nem as palavras conseguem descreveré como cheiro de chuva na terra, que descobri recentemente que se chama petricor – você apenas absorve e sente. Foi assim com cada carta e as delicadezas que vieram junto. Enquanto chove e eu te escrevo acolho os cães ao meu lado.

Lolla não gosta de chuva… se recolhe no sofá, igual a tua Toundra… e como se parecem. Já Yoshi, se refugia no quarto, no travesseiro do pai. Coloco no repeat a canção e cantarolo baixinho enquanto o vento balança as folhas para lá e para cá. Chiquinho ama essa chuva e volta e meia seu canto atravessa a porta da sala.

Ainda preciso absorver direito as suas palavras e rabiscar no papel as respostas… ainda preciso cheirar mais sua arte e delirar, talvez, na poesia que inconscientemente você envia junto. preciso absorver você para que a promessa se cumpra de que dure para sempre a correspondência entre nós.

Por enquanto, sou só acalanto e gratidão.
Bisous,
Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura – Darlene Regina

só porque talvez ela volte a escrever poesias