Scenarium Livros Artesanais · Sete Pecados

Inveja

Nosso amor era tão perfeito, que o destino ficou com inveja.
Adriana Soleira

Ela era território meu. Lugar onde eu vagava e vivia e sentia quase posse. E sempre dentro da noite quando o silêncio dela chamava por mim, eu ia.
E assim, nas estações plenas que eu era feliz colhia vontades dela dentro de mim.
Ela era a origem onde meu poema nascia. Desenhada a dedo na pele nua.
Um dia e de repente alguém chegou. Primeiro, o riso dela dividiu-se e eu nem percebi. Mas, ela em sua transparência de rotinas me explicou sobre o desejo de ter um porto seguro. Eu, era a tempestade que a deixava plena, mas em voo constante.
(…)

Foi quando eu comecei a pecar. Sentir inveja…

Da lua que eu mostrei pra ela. Da cortina que o vento balançava e dançava pra ela. Invejava a rua que ela passava.
Eu era o hieróglifo onde ela gravara seu nome, seu código, seu mapa. Minhas histórias sempre terminavam nas dela. No meu quintal voavam os pássaros dela. Todo dia para mim era um recomeço e todo dia expiava meu pecado de invejar instantes dela.
(…)
Talvez a vida siga incompleta, talvez, talvez… Tudo é um caminho novo e desconhecido.
O que sei que é ali além das esquinas há um instante que invejo e que renego saber. O vento no telhado arrasta o nome dela e espalha pelo céu a imensidão de estrelas que ela fez nascer na minha vida, e enquanto abro o portão saio rua afora, reconhecendo os ladrilhos lilases na calçada e aliviada presencio a felicidade dela e para mim, é isso o mais importante.


Mariana Gouveia
Poema da Série Sete Pecados
Scenarium Livros Artesanais
*fotografia: Katia Chausheva

Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

A solidão na astrologia das coisas.

Ph: Julija Jankelaityte

Li a sorte na borra do café.
Encontrei trevo de quatro folhas, no quintal.
Ri da moça que queria encontrar a linha da vida.
Estava a beira de um cais,
– no outro lado do rio… o mar!
Nos jornais, a notícia do eclipse
Contei os dias nos dedos da mão…
O mar emudeceu
Não me traz mais o som da sua voz
Entendi coisas antigas…
A solidão na astrologia das coisas.

Mariana Gouveia
In, Sete luas – Scenarium Livros Artesanais
Eclipse – pág. 51

Divã

Inquietação pelas borboletas

Sentei de novo na poltrona cinza, voltada para a janela.
Depois dos cumprimentos banais a visão de uma borboleta voando rente a janela me tirou a atenção.
Eu sabia decifrar os sinais. Ri.

Ela percebeu meu olhar distraído e seguiu para onde eu olhava.
– A distração das borboletas – ela disse.
– Ah, não sei por que, onde estou sempre aparece uma – falei.
– É coincidência…
Percebi que ela procurava as palavras certas para dizer. Evitou o assunto borboletas.
– Vamos aos trâmites convencionais – ela continuou.
– Não acredito em ninguém convencional. Essa hipocrisia boba do comum.

Pediu que eu decifrasse o incomum. Qual o objetivo do imaginário.
– Eu disse comum.
– Algumas pessoas gostam de imaginar que tem um lado secreto. Ajuda a enfrentar a realidade.
– Eu gosto de imaginar que tenho um lado real. Me ajuda e enfrentar o meu lado secreto.

a borboleta voltou.
Ela me conta sobre sua infância e sua inquietação pelas borboletas.

Mariana Gouveia – do Divã
*imagem: Mira Nedyalkova

Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

No Cais Outra Vez

 

O barco de papel ancorado no canto
da mesa da cozinha.
Um envelope a espera da resposta.
A tarde deixando o dia e levando o sol
para navegar outros mares.

Saudades.
A alma ultrapassa a porta
e vai em busca do oceano…
A nado

Sete luas
Mariana Gouveia – No cais outra vez
Editora Scenarium Plural
*Imagem: Freepic
Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

O barco de papel…

ancorado no canto da mesa da cozinha
Um envelope a espera da resposta
A tarde deixando o dia e levando o sol
Para navegar outros mares
Saudades
a alma ultrapassa a porta e vai em busca do oceano
A nado.

Mariana Gouveia
In – Sete Luas
Editora Scenarium Plural
*Imagem: Wallpaper The Best

Corredores, Codinome Locura

Nem todo dia tem noite pros lados do Sul.

O sol dorme no horizonte dos olhos dela
e há prenúncio de tempestade vinda do leste.
O verão brinca no riso que ela adora desfolhar

Há qualquer coisa de trilha musical que me envolve quando pensa nela.

As canções que ela cantou – ou que eu pensei em ouvi-la cantar –
nunca sei quando meus pensamentos são maiores que meus desejos
nem quando é noite no centro oeste da minha imaginação
porque sempre há um sol nascendo no horizonte dos olhos dela
onde as meninas dos olhos dela brinca de viver só para mim.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

Acho que te criei no interior de minha mente.

 L,

Essa carta não será enviada e fará companhia as tantas outras que escrevi – e não digo sobre as que rasguei, embolei, joguei fora – e será apenas palavras escritas no vento, como o coração que vagueia nas nuvens. Foi escrita em uma primavera de ontens que penso ter vivido.

Perdi a conta dos dias de solidão sem sua voz, sem seu riso e sem o olá tão único e distinto. Aqui, continua quase tudo igual. Os cães ainda vivem ao pé de mim e essa frase dita assim me faz lembrar teu sotaque. Já te contei que busquei seu rosto em outras pessoas? Dias desses, ao atravessar a rua te vi, ou melhor, pensei ter te visto. A pessoa atravessou a faixa de segurança e cruzou a avenida rumo a praça dos correios.

Corri logo depois do ônibus parar ao meu sinal – loucura minha, digo – para ao chamar teu nome, perceber que a solidão me faz ver coisas e a vi de novo dias atrás na missa. Cheguei a pensar que a tal pessoa poderia ser sua parente.

Minha analista acha que crio projeções de vontades que tenho aqui dentro. É verdade, tenho uma analista que fica a me ouvir e apenas repete o que um dia você disse sobre esse amor ser o mais bonito dos amores.

Como disse Silvia Plath:  Acho que te criei no interior de minha mente e te busco nos aromas das flores, na chuva morna que já te lavou a alma aqui. É engraçado como as coisas tomam formas dentro da imaginação. Parece que foi ontem tudo e hoje, não consigo nem relembrar as datas. O calendário vira do avesso e me engana na sorte das rotinas. O dia do santo do seu lugar, o aniversário que é logo ali, o endereço que não lembro mais e o telefone que busco o número nas mensagens antigas.

Aqui, tudo é bloqueio entre as frases cortadas e o engano de sua presença. A vida é assim mesmo…  os finais são necessários para um novo começo, mas no fim o que fica mesmo é saudade.

Beijo meu

M

Afetos · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Voa, menina, voa!

Ph: Tumblr
Eles olhavam e não a viam. Ela fazia mais sombra do que existia.
Clarice Lispector

Querida A,

Escrevo- te como presente. Deveria te dizer que as letras são tuas e que você é apenas a personagem das minhas memórias. Te nomeio Ana e assim te faço real, quase toco – a nas palavras que avançam dentro da noite. Era você ali, no meu lugar comum e o riso cabia no ritmo das ruas. Para amanhã, as mãos escrevem a palavra final.

Não cabe a verdade das palavras tolas. O que vejo é você para além das cartas e diários que dizem mais sobre mim do que sobre você.

Era você ali, menina mulher com cheiro das folhas caídas no quintal. Sua história cantada nos cordéis da feira da rua de cima e vi que você é inventada na fé. Do espelho que quebrou ainda restam os cacos na pazinha na porta do fundo e o casarão já tem seu nome escancarado nas cores intensas e nas flores lilases esparramando – se nos muros.

É primavera e você poderia ter nascido em qualquer dia e fixo meu olhar nos dias em que te esperei. Hoje, te guardo dentro do meu abraço e ficamos partículas de um acaso, de encontros e reencontros nas esquinas entre a rua do meio e a rua de cima.

Atravesso a tarde como o vento que sacode as cortinas. As cartas espalhadas na cama e seu nome sendo perpetuado nas mulheres de sua vida e agora na minha. Dou – te a estrela mais brilhante e afirmo na densidade dos dias que ele te pertence em pura espécie de benção e de vontades.  E que a liberdade te abrace na rotina dos dias.

Na sua estante, livros que desenham sua história na minha e você se transforma na personagem que cuido, trato e defino com nome de flor. O que será amanhã, quando o dia romper a aurora e você virar apenas sopro ou suspiros?
Amanhã, você será apenas a liberdade das gaiolas abertas.
Voa, menina, voa!

Mariana Gouveia

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

O jardim aonde ela plantou corações.

mui de muito cor de coração dou de dourado pé de pétala vem do ventre algo de algodão.
Tomás Cunha Ferreira

Pela ordem natural das coisas o casarão ficou pronto e no jardim o amor agarradinho brotou poucos dias antes da primavera. O riso dela ecoava pela casa e Amy era a sinfonia que mais se ouvia.

Nas árvores ao redor havia ninhos de aves e o canto delas era o que se ouvia pela manhã – soube disso depois da noite que dormi aqui, em uma dessas noites em que ela ardia em febre – e a leveza do lugar me faz sentir em casa.

Ajeito os lençóis para que ela fique bem dentro do delírio. As cartas do baú se transformaram em minha leitura preferida, enquanto a luz do abajur muda a cor dos cabelos dela.

As fotografias estão espalhadas em quadros diversos e algumas cartas também fazem parte da decoração. Ela rascunhou uma em spray na parede que fica perto da janela. A impressão que dá é de que as palavras voam a cada balanço das cortinas.

Ela acorda. Pergunta sobre as horas e pede algo para comer. Meu instinto de mãe antecede a vontade dela e ouço histórias de carrocel, de quando ela e Madalena atravessava a cidade para que ela brincasse na roda – gigante…

– Já te contei que adoro roda – gigante? – ela antecede meus pensamentos, enquanto devora a sopa de legumes – e que havia um parquinho ao fim da avenida e que pelo que me lembro eu e minha mãe éramos as únicas clientes. O carrossel era uma delícia! Eu chamava o cavalo azul de alazão e voava nos braços de minha mãe.

Amanhã ela faz 40. Lembra de detalhes do bolo de cinco anos, do de dez e do de quinze. Depois disso, viveu de solidão na casa dos tios e só descobriu que o casarão era dela dois anos depois que os pais morreram em um acidente.
Sempre viveu de ausência – essa era a verdade – e é verdade que nunca sentiu falta de presença. Essencialmente, as visitas dos tios e parentes próximos eram apenas para cumprir rituais e foram espaçadamente diminuindo até não se fazerem mais necessárias.
Nunca questionou o destino, nem a dor que sentia nos dias em que a presença da mãe clamava no peito. Lembrava sempre do que a mãe dizia como ensinamento. Buscava interesses na literatura, na arte e nos gostos pelo que era vivo e aprofundava a pintura. Sabia que o dom rondava a forma crítica que encarava o mundo. Não permitia ninguém se aproximar tanto. Era mais por proteção, como a mãe ensinara.

Amanhã ela faz 40 e é tão menina dentro dos dias. Os fones no ouvido – o que desencadeou a febre que passou, enfim, foi a dor de ouvido – e ela não ouve o vento que agita as flores no jardim, enquanto dorme…

O jardim é só meu nessa noite, enquanto espreito o sono dela enquanto o vento faz melodias no jardim… O jardim aonde ela plantou corações e que em plena primavera a vida lhe sorri.

Mariana Gouveia

 

 

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

As memórias são quase uma casa difícil de habitar.


Toda a vida tive esta sensação:

quem me dera que houvesse alguém que me pegasse pela mão

 e se ocupasse de mim.

Etty Hillesum

– Devia te prevenir que ia fazer geleia de pimenta. Os pés, no fundo do quintal foram generosos.

Meus olhos lacrimejavam e ela ria diante do meu nariz vermelho.

–  Quando eu faço isso é como se eu trouxesse minha Madalena até a cozinha e ela ficasse ali – no canto da mesa, com a xícara posta como se estivesse sendo servido o café – a espreitar minhas mãos a retirar as sementes e me encantar pelas cores rubras e achar o nome dedo de moça incrível.

–  Meu desafio habitual – disse emocionada por ela – é apontar o lápis e escrever cartas em papel em branco. Ver o cinza a descrever histórias que ainda acredito fazerem partes de minha memória. Das “dedo de moça” lembro – me da horta cercada e os pés floridos em miudezas… – funguei, enquanto o olho ardia e eu saia para o quintal.

– Tenho que recriar a horta no quintal. Há um canteiro morto para ressuscitar… – riu, enquanto tentava com que as memórias não viessem tão fortes dentro das lembranças – eu era ainda menina quando as duas me ensinaram o processo de retirar as sementes e a maneira de esterilizar o vidro. O anis estrelado dava o sabor discreto que fazia/faz toda diferença. Era quase alquimia juntar os ingredientes e parece que vejo Madalena parada perto do fogão a misturar-se densa dentro dos pensamentos. Pensar é vago. Dá essa incerteza de ter vivido. As memórias são quase uma casa difícil de habitar. Era como se um poema por dia fosse recriado e eu era posta dentro dele.

– Entendo… – e estendo as mãos para um abraço onde ela se aninha.

Acho que ela pediu silêncio enquanto a voz de Amy enebriava toda casa. Depois, cantou a musiquinha que repetia meu nome um monte de vezes… e meu nome virava canção.
– Mariana conta um, um conta Mariana…

Mariana Gouveia