15, junho,
Bambina mia,
Quando criança nunca fui dada aos rodopios… ficava tonta atoa. Eu era bem magrinha e meu eixo não comportava a “violência” de um giro, imagine dois ou mais. Até na brincadeira da ciranda eu era barrada depois de umas voltas. Mas lembro-me bem de mãe nos prevenindo sobre os redemoinhos que eram frequentes em nosso lugar. O mais perigoso era o redemoinho de fogo, que surgia após alguém fazer uso de queimada para a roça de tocos.
Isso acontecia mais perto dos ventos de agosto onde o calor e a secura ocupava os campos e a roça… a pressa da colheita movimentava toda gente dos arredores em um mutirão de durava dias e volta e meia alguém relatava o redemoinho para os lados do sul. Meu pai dizia que o repicar do vento miúdo nas folhas trazia o recado antes do redemoinho acontecer. Doía em algum lugar nele e de chapéu na mão pedia para todos se prepararem…
Sabe, algumas histórias seriam lendas – imagino eu – e outras traziam relatos de pessoas que foram levadas pelo tal torvelinho que varreu a roça, acabando com grande parte das plantações. O vento começava de leve e ia ganhando força, principalmente depois da colheita onde o campo ficava em aberto sem nenhuma proteção de mato. Isso era assustador para a maioria dos meninos enquanto eu ficava encantada ouvindo as histórias e imaginando mil outras. Mas, quando acontecia tínhamos de seguir as regras da minha mãe ou nunca mais sairia de um castigo inimaginável.
Quando no meio da lavoura isso acontecia, deitávamos no chão, de barriga para baixo até a fúria do vento passar. De vento, eu não tinha medo. Mas minha mãe tinha e evocava Santa Bárbara e isso me lembrava a árvore de florzinhas miúdas perto da porteira que tinha o nome da santa… depois, pedia aos ancestrais em um ritual perto do oratório. Minha mãe tinha frente aberta com todos os deuses, santos e mistérios… eu pensava que ela sabia o quão mal um vento forte pode fazer, mas ainda assim, eu abria os braços e não girava – porque ficava tonta – mas dançava com o vento que rugia, até ouvir o grito dela chamando meu nome completo, o que era um terror, prenúncio de uma ladainha dos perigos que durava o resto do dia.
Dias desses, quando fui de férias ao meu lugar assisti de novo um redemoinho se formar para além da cerca e ir correndo sob a terra. As memórias todas voltaram e suspirei pensando se ela já havia superado esse medo de vento e se ela ainda assoviava para chamar o vento brando que ela mesma dizia ser o espírito santo. Algumas memórias ficam para sempre dentro da gente, e mesmo quando as revivemos, em alguns momentos parecem histórias que foram apenas contadas e só.
Bacio,
Mariana Gouveia

Deveria assistir a cena do filme ‘um golpe do destino” e ver a personagem rodopiando no deserto. Gosto quando exaustos, ficam mudos e com o olhar atados um no outro.
CurtirCurtido por 1 pessoa
Ah, vou procurar o filme então. Grazie!
CurtirCurtir