Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

BEDA – Carta ao George

Meu caro George,

Quando resolvi te escrever, imediatamente pensei na Revolução dos Bichos – que li lá na minha infância. Aqui no meu quintal, a revolução acontece de forma, às vezes, pacífica entre os “moradores” do meu lugar. Todo mundo tem o seu lugar.

Embora, tenha aqui dois caninos – Lolla e Yoshi – que quase mandam na casa. Assumem os sofás, camas e cadeiras e aceleram na correria quando veem bichos que voam. Mas, quem manda aqui é Chiquinho – meu beija – flor – que se acha quase humano, acredite. Ele ataca qualquer intruso que ousa chegar perto de seu bebedouro ou de mim… apesar de que, os cambacicas – os intrusinhos, nome que dei – rompem essa guarda e conseguem saborear o néctar preparado para ele. Até mesmo nas flores de hibiscos e lantanas ele faz revoar as borboletas e implica com o Louva – Deus que mora logo ali, no pé de boldo. O poder aqui, é dele.

Aqui, tenho a leveza das joaninhas – de várias espécies e cores – e que travam guerra com os pulgões, que insistem em querer comer as folhas do pé de jurubeba e as do algodão. Com ela, minha guerra é com os tamanhos. São tão pequenas, que preciso vistoriar o lugar onde me sento, piso, ando. Até a horta… cercada para que os cães não estraguem viram espaços para elas ou outros insetos oportunistas.

Meu caro George, é dentro desse muro onde resguardo meu lugar que preservo minha lucidez. O sonho de poder aqui dentro é de tranquilidade. Lá fora, a persuasão e manipulação continua tão atuante ou até mais de quando seu livro foi escrito.

“Todos os animais são iguais.
Mas alguns são mais animais do que os outros.”

– George Orwell in,
A revolução dos bichos

A verdade, é que, mesmo com tantos erros não aprendemos e continuamos a errar nas escolhas. Os tempos só mudaram nos dias. Seu livro é tão atual que parece que foi escrito agora.

O fato é que ainda vivemos a indefinição e talvez, isso seja o ponto principal de seu livro:

“Fechai os ouvidos quando vos disserem que o Homem e os animais têm interesses comuns, que a prosperidade de um é a prosperidade dos outros. É tudo mentira.”

Aqui, no meu quintal, o interesse será sempre deles.

Abraço,

Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural (F.451) – Scenarium Plural Editora
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

BEDA – Carta ao avesso de minha cidade

“Não aguento mais ser chamado de pau rodado
Já tomo licor de pequi, já danço o Siriri
Como bagre ensopado
Sou devoto de São Benedito
Até já danço o rasqueado
Sou devoto de São Benedito
Até já danço o rasqueado


Adoro banho de rio, vou direto pra Chapada
Na noite cuiabana tomo todas bem gelada
Sou viciado no bozó, pescaria e cururu
Tomo pinga com amargo
Como cabeça de pau

Eá, Eá, Eá, só não nasci em Cuiabá
Mas no que eu cresci
Meu bom Jesus mandou buscar”.
(Pescuma e Pineto)

Não nasci aqui, mas de fato talvez tenha nascido. Ou nasci lá…
O nascer verdadeiro foi em outro Estado, e talvez possa ter inventado – eu explico – essa miragem do lugar da minha infância. Mas, quando cheguei aqui e me deparei com ruas circundadas pelas palmeiras já centenárias e ipês floridos… duvidei do que via – e passei a “inventar” minha cidade de morar.
O cheiro do quintal e suas mangueiras a cantar frutos para o vento… Os pés de cajus a servir de comida para os pássaros pareciam desenhados na minha memória. O pomar era no fundo da casa da vizinha… no meu próprio quintal e calçada afora, dentro do espaço por onde passava.
O linguajar do povo em sua melodiosa prece… as igrejas a desejar a fé nos infinitos terços nos dias da semana. O rio que dá o nome à cidade… a abraça até avançar rumo ao Pantanal. Circunda os bairros e dá alimento aos moradores.
As ruas antigas contrastam com o moderno. Ali, onde cato poesia, descubro o avesso desse lugar que amo… Adoro essa rotina radiante de dia de sol e seu calor abundante que colore meu quintal… minha rua – meu lugar.
Mas, amar essa cidade gera conflito… porque ela mudou tanto, e ainda assim, continua igual.
Antigamente, era tranquilo descrever meu amor por ela… na calçada onde as famílias sentavam para contar seus velhos causos. Meus olhos avistavam a vida na leveza do vento que batia nas folhas da mangueira, que me traziam sombra e aconchego.
Eu não entendo mais esse lugar como antes…e, talvez, você perceba que é isso o que me encanta. Já não há mais cadeiras nas calçadas e nem a criançada a brincar de pipa, bolinha de gude e pique-esconde. Tudo se tornou tão distante das vilas, e os prédios multiplicaram aos meus olhos.
Sinto falta dos lugares feitos para mim… onde me encontrava em poesia e rabiscava nos muros os meus primeiros poemas de amor… falava da cor que diversificava em vários tons da cidade verde… do fruto doce – que como presente nasce no meu quintal. Do sol abrasador que me aquecia… e de que eu, insatisfeita, sempre reclamava.
Eu sempre amei esse pedaço de chão e, ao mesmo tempo, tive raiva… quando as ruas se abriram para mim, me envolvendo com as folhagens das palmeiras que ladeava os caminhos por onde eu passava. E eu, menina, corria solta pela vida… sonhando com a cidade sendo notícia no mundo – senhora de si – com suas cores redesenhando o amor que eu sentia.
Vestia de chita, enchia de poesias as vielas. Serenava nas madrugadas frias… umedecia nas tardes de calor.
Reclamava, reclamava e, mesmo assim, longe daqui, queria existir nela…porque
sempre amei desbravar rotas novas, desvendar os lugares secretos. Comer e beber da fonte do rio… na essência pura de alma cuiabana que tenho.
Eu sei que tudo isso está aqui ainda, mas aquela menina… que aprendeu a desvendar o amor que sentia pela sua cidade, cresceu. E o amor…  infinito, cresceu junto comigo, na mesma intensidade do sol que abrasa – e torna especial e único –  meu lugar.
Com o tempo, me transformei em arrogante, pelo simples fato de poder possuir as ruas, e dançar sob os ipês coloridos dos parques, porque queria o melhor lugar para viver. Mostrar ao mundo a beleza que cada canto continha.
Eu andei por aí e, nos becos, descobri que a força da cidade não é mais a ingenuidade de menina. A cidade cresceu também e tomou proporção de gigante. Seu tamanho é efêmero, porque guarda a singeleza do seu linguajar. Ela se tornou maior do que podia aguentar e, ainda assim, permanece intacta na simplicidade.
Já fui para outros lugares, outros amores…  sempre voltei, por vezes insatisfeita, mas com a sensação de que só aqui poderia chamar de lar… Porto seguro.
Ali, entre a ponte que dividia lugares… que guarda meus desejos mais secretos e que, para ninguém descobrir, o vento levou. Aqui, debaixo das árvores que cede a sombra fresca durante o calor… e nas calçadas onde cresci, sentindo o aroma doce do cerrado…
Busco justificativas para tudo o que eu sinto… Ainda me encanta a diversidade… os mil jeitos. A mansidão com que me abraça, mas eu odeio a falta de regras, a desigualdade, a falta de respeito, de solidariedade que existe.
Pode ser que eu me engane ao ver nascer uma flor debaixo de tanto concreto… onde as escadarias me leva aos lugares de fé, ao acreditar ser possível que esse lugar continue o mesmo… e mude. Que os encantos aconteçam nas manhãs em que vejo pássaros tão variados voando no céu cinzento, e pense que ainda é a menina simples que me encantou.

Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural Avesso – Scenarium Plural Editora
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BEDA – Carta ao Vento

“Nesta ausência que me excita, tenho-te, à minha vontade,
numa vontade infinita…
Distância, sejas bendita! Bendita sejas, saudade!”
Gilka Machado

Caro vento,

Talvez abrir os braços e te acolher dentro de mim, incorporando roupas e cabelos seja pouco… o que eu quero é redemoinho. Aquele lá da infância onde você surgia miúdo e ia ganhando os beirais dos currais e de repente estava lá, espalhando os lençóis nos varais e as pipas dos meus irmãos.
Você me lembra a liberdade… essa frase solta que calada não tem a força e que represada – igual minha mãe dizia – vai roubando instantes nos quintais vida afora. Você se tornando redemoinho fica igual menino furioso e o infinito se torna tão curto para além das cercas.
Tenho em mim os ideais de sua força… é como a força do mar que ganha do rio as gotas e se transforma em gigante. Já imaginou se cada um de nós tivesse na mente a sabedoria de sua força?
O que me lembro de sua fúria vem pelo olhar de minha mãe – eu, menina olho de poesia e os arames farpados em nossa frente – e a cadeira preferida dela em seu centro e as folhas das palmeiras que circuncidavam nosso quintal viraram picadinhos enquanto seu furor rompia o monjolo, as telhas e além da cerca, a árvore de minha infância.
O medo, é esse bicho troncho, que nem avisa quando é de verdade e quando devemos realmente temer. Voltar é impossível na existência – minha mãe repetia – o olho deve ir além. 
Amanhã é outro dia, ela repetia tal qual a palavra do filme que ela nunca viu, mas ouvia via rádio E o vento levou era mantra aqui.
Esse rompante que ultrapassa as barreiras e invade os varais me fascina – é verdade – e ao mesmo tempo me retrai e se eu disser que hoje consigo lidar com seus avanços, minto.
Você é essa lembrança imperiosa que a mente não consegue apagar e ao mesmo tempo é essa ânsia de vida que acolhe o peito e transforma tudo que toco em redemoinhos.
Sou tão pouca diante dos retratos preparados e sou tão frágil feito pena aos seus olhos. A vida tem a dimensão exata do que você é capaz. Uma onda que escapa do mar e causa rebuliço no campo e arranca as roupas dos varais, mas que não pode comigo quando me permito voar.

Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural Redemoinho – Scenarium Plural Editora
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Scenarium Livros Artesanais

BEDA – Recolhimento

As paredes tinham vultos estranhos. Desenhos sem nexo, letras garrafais e traços levando a rotas que sempre terminavam na porta. Eu vi logo assim que cheguei.
Trouxe as flores que ela gostava. As cortinas balançavam com o vento. Ela olhou além da janela com grades e perguntou sobre todos os nomes que eu lembrava. E até de quem eu nem lembrava mais. Perguntou também das Marias. Havia uma infinidade de Marias em nossa rua!
– Tinha aquela que brincava comigo além da cerca – riu, ao se lembrar.
Essa tinha se mudado no ano passado – pensei em dizer… mas já não fazia sentido.
– Tinha a Mariazinha, que me roubou a boneca que sua mãe fez – a lembrança vaga da boneca preta Maricota inundou nossos pensamentos.
Minha mãe prometeu fazer outra igual, no meio de toda a confusão… mas não deu tempo. Ela morreu antes. Só ficou a promessa… no vazio. E, depois, ela veio parar aqui, nesse lugar de recolhimento, e nunca mais falamos na tal boneca.
Ela olhou as flores com riso no olhar. Cheirou cada uma… Pegou um caderno. Os desenhos saltavam das folhas brancas. O balanço na árvore da infância, o riso quase ecoando no papel. O vento nos cabelos e eu a empurrar dizendo ser a comandante… Braços soltos no ar. Riso largo. Ver o riso desenhado trouxe uma leve ternura… meu retrato parecia voar. Eu, sem palavras. Ela, num gesto mínimo-seu…rasgou a folha e me deu.
Comeu um dos doces que eu trouxe… fechou os olhos e disse que era sonho de toda noite esse sabor.
Eu a abracei, enquanto nossos corações batiam ritmados. Cantei baixinho a canção que ela gostava e a embalei… ela falava sobre abandonos. Alguém abandonara a moça do quarto ao lado. Tinha o nome de Letícia, a pobre. Ninguém a visitava. De vez em quando, repartia os doces que eu trazia com ela, como um meio de adoçar a solidão da moça. Também, no dia dedicado ao jardim, contou-me que fez uma trança em Letícia, que ria… mas permanecia com o abandono no olhar.
Nas paredes, reparei que os poemas se misturavam a nomes e datas. Meu aniversário ali, desenhado dentro do coração, e as mãos dadas entre um pacote com laços vermelhos, “da cor do seu cabelo”, ela disse…
A moça de jaleco branco veio dizer o fim a hora da visita. O abraço longo, enquanto eu ajeitava os cabelos dela… o beijo na testa e a promessa da volta.
Os olhos a encarar o teto. O riso de louca a cada expressão…
– Acho que toquei as estrelas… – ela disse. Eu tinha a certeza de que sim.
Lá fora, uma chuva fina caia.
Lá dentro, na janela, ela escondia a lágrima e ria.
Eu já tinha um poema para escrever e iria desenhá-la na chuva, com os cabelos vermelhos de sempre.
O lugar, visto de fora, parece o paraíso.
De dentro, recolhia a alma das pessoas que ousavam atentar contra a normalidade.

Mariana Gouveia
Texto publicado na Revista Plural 1900 – Casa dos Contos
Scenarium Plural Editora
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BEDA – Carta a menina que fui na ciranda da vida.

“Ciranda, cirandinha
Vamos todos cirandar!
Vamos dar a meia volta
Volta e meia vamos dar”

Cantiga Popular

Da minha janela, enquanto uma chuva fina cai, ouço na rua de cima as crianças da casa laranja brincarem. Imagino a roda se formando e os risos me leva até à minha infância. É nesse portal – dentro da minha imaginação – que te escrevo. Escrevo para você – a menina que fui – e que corre atrás dos irmãos e ri diante da roda que se forma. Perdi o anel de vidro em alguma história. Ganhei o verso bonito antes de ir embora para além da estradinha que serpenteava seguindo o contorno da floresta.

Misturo os momentos nessa ciranda insana – palavras da minha bambina –  em que a vida me jogou. O rio secou lá para os lados onde nasci. Dizem que fizeram uma represa para instalar um monjolo – ou uma usina no Norte – e nos campos onde corri, a plantação de soja ganhou rumo afora, até onde o horizonte se mistura com o céu. Arriscam de vez em quando, entre uma safra e outra, o brilho dos girassóis e eles brincam de ciranda em torno do sol.

As mãos da minha irmã caçula a segurar com força enquanto rodopia no ritmo do vento. A palavra ciranda a ganhar contornos de união nos abraços trocados… tudo se transforma dentro da palavra mágica da saudade. Parece que além da janela, ecoa na rua de cima, o vento lá da menina que adorava cirandar e que dentro do tempo corrido, ciranda nas lembranças de lá.

Enquanto cubro a menina com o lençol de flanela para os dias de frio desenho o retrato na parede. A mãe e o pai de olho grudado em nós e o laço de fita a soltar da trança e a xícara a fumegar o chá de erva – doce.

Como as lembranças se chamariam se pudessem falar? Como seria se os álbuns de fotografias pudessem dançar com as cortinas?

As palavras cirandam no suspiro… e em frente da minha janela mora uma ciranda na praça que as crianças brincam. O relógio da matriz canta de hora em hora e de repente, eu cresci… Os balanços rodando, rodando. E o mundo acontecendo lá fora. Uma pessoa levanta, outra senta. As sombras parecem pessoas perdidas no lugar. Uma moça passa correndo. O celular ilumina o rosto de alguém na noite em que a chuva fina lembra a frase da mãe, que mandava a gente correr para dentro – enquanto a chuva de molhar bobo molhava a gente – ninguém queria ser bobo na voz da mãe… A noite é esse brinquedo que risca o chão. E a ciranda do tempo, essa senhora que fica muito tempo sem fazer movimento e depois ganha velocidade da menina que um dia eu fui.

Em frente da minha janela moram palavras que viram cartas que é uma multidão. Acho chique nomear a dança de ciranda e endereçar cartas que talvez nunca envie. Que talvez leia em voz alta andando em voltas no quintal e quem sabe descobrir o nome do futuro dentro dos olhos de quem já foi criança comigo. Eu não sei, mas em dias de chuva essa menina parece apenas um vulto. Em dias normais é apenas o gesto do meu pai que cantava baixinho a cantiga popular enquanto seguia estradinha afora rumo ao horizonte.

Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural Ciranda – Scenarium Plural Editora
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BEDA – Carta de mim para mim

Sabe, falar com você às vezes é como falar com uma estranha… tão íntima que, preciso mergulhar na vida, para te contar.
Eu estou aqui atrás do espelho. Quase rio, quase água, a ondular lembranças de nós duas. Resolvi escrever dentro dessa saudade, do cheiro da floresta, do chá que ainda fumega por aqui e descubro que olhando através da opacidade das lembranças, você é ainda aquela menina que não cresceu dentro de mim. O cheiro do bolo de laranja invade sua cozinha, enquanto abre a geladeira e seus pensamentos se voltam para cá. Um tempo a permanecer vivo em sua memória enquanto o beija-flor visita o varal de roupas e você o chama pelo nome que escolheu.
O gosto do capim dourado, ainda verdinho corre na saliva e traz a mágica que faltava. Acho que é esse gosto que te prepara para os dias reais. Esses em que você acorda descabelada e percebe, aí, do outro lado do espelho que a tinta precisa ser retocada, a sobrancelha feita e o batom já está no fim do tubo. É preciso ligar para a revendedora – pensa – enquanto aqui, o que tinge minha boca é o picolé de uva que era dividido entre os seis irmãos. Um mais afoito dava a mordida para a bronca da mãe logo vir.
Ainda estou com as tranças amarradas com a fita laranja de veludo e que não paro de tocar, por causa da maciez que sinto nos dias vividos, quase conto de fadas, feitos de histórias, onde eu era você e pronto.  E você, além da maciez se encantava pela cor. Tudo que tocava era vivificado pela cor laranja.
Era assim a rotina dos dias, enquanto te vejo na correria entre a cozinha e o banheiro. O quarto e a sala. A comida do cão, o café solúvel – que pela falta de tempo não usa o coador de pano que a mãe mesma costurava – a esfriar dentro da xícara e eu saboreio o crepitar do fogão a lenha e o aroma a invadir os quartos e deles sair os irmãos a pedir o bolo de fubá da mãe.
Era qualquer dia do fim de maio e a estação antecipada nas manhãs tingia de branco os campos e o pai coçava a cabeça a pensar na geada a repetir que nem era inverno ainda enquanto você ai se abana na manhã quente. Pensa no ônibus, na lista de compras e eu, a espreitar a água límpida dentro do barquinho na beira do rio onde os peixinhos lambaris mordiscam os meus dedos. O caminhar até a floresta para a casa de dona Fulô era feito na singeleza dos pulos. O seu caminhar até o ponto de ônibus ganha ares de abraços das meninas do clube – nessa hora, somos quase a mesma – perdida dentro dos abraços que nos energizam.
Eu, no colo da avó postiça, com jeito de bruxa, cara de fada e amor de flor;
você, dentro da voz encantada de a pouco e a manhã transcorria dentro dos nossos nadas.
Eu, a menina do tapete, encantada pelos campos de girassóis, pela moita do capim dourado, e pelo tear que desenhava tecidos nas mãos da mãe. Você, a mulher das palavras, dos naufrágios todos, dos mergulhos oceânicos. A que precisa decidir o que fazer no almoço e a pauta da reunião na empresa; você, a menina de junho, das festas dos santos, das rotas desbravadas em meio as teias de aranha que seu irmão morria de medo. Eu, a menina da geografia espalhada debaixo dos meus pés, sem medo dos formigueiros e suas donas engraçadas a destruir o pé de rosa preferido da mãe. Eu, que nunca conseguia dar respostas às tuas perguntas – do que são feitas as nuvens? E essa grama tão verde, quem pintou? Como chegar nas estrelas? Como avião voa? – e viriam depois dessas mais infinitas questões e eu me perdia em respostas que não te alcançava, para fazer outras que você não cabia.
Eu que sempre soube dos seus imensos temporais internos, dos abalos sísmicos do coração. Você, a louca que sempre clamava a pele, toque, abraço, mãos. Seja em uma árvore onde desenhava corações, ou na estradinha onde escrevia poemas com o nome do menino da fazenda vizinha. A impetuosidade a gritar dentro e a calma com as águas que te fazia descendente delas. Era como se você sempre fosse esse encontro a outro mundo, Fosse sempre esse estado da matéria. Eu, quase lunática, quase volátil e você tão palpável, tão terrestre. Uma precisando da outra pra viver.

E a gente que era riso e choro. Éramos sem fronteiras, dentro dos nossos gestos. Uma a chuva, enquanto a outra, o sol.
Você o silêncio habituado nas noites serenas. Eu, os lugares desconhecidos onde os pássaros acordavam a madrugada que você acolhe tão bem. Eu diurna, à espera, desse lado do espelho. A espiar janelas abertas que você sempre esquecia de fechar. Você noturna, conhecedora das estrelas e sabia descrever a previsão do tempo por elas. Você a conhecer a flores e o jeito de florescer de cada espécie, só porque a fada te contou e aprendeu.
Enquanto eu sonhava com o rio e o barco a atravessar um oceano e você a dizer na segunda pessoa o: tu não sabes que barco de rio nunca cruza oceano?
Eu que conhecia a assimetria da areia a desenhar a prainha onde a mãe buscava a matéria de arear as panelas de alumínio tão brilhantes que pareciam espelhos. Você que conhecia o rio tão bem que o descrevia em palavras que parecia poema de amor e que era espelho onde você penteava os cabelos molhados…O mesmo rio furioso que comia as margens na pororoca que invadia nosso quintal. Éramos as duas, uma que salvava a porquinha que tinha o coração em uma pinta nas costas. A outra, que mergulhava na correnteza exuberante diante dos olhares assustados dos pais.

Hoje, de vez em quando, abre o portal e começa a desenhar trovões na noite onde o céu mostra seu negrume. Enquanto sou apenas respostas nas cartas que escreve.
Não quero que se perca nas manchetes de jornais, nas palavras escritas e nem nas ondas que navega em teimosia ao amor.
Quero que me encontre quando de noite, na solidão das horas de insônia e descubra que apesar de tanto tempo nos separar, somos sempre uma só.

Beijos,

Eu, você,
Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural La Barca

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Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

BEDA – ‘o que o café te faz lembrar?’

Meu cafezal em flor, quanta flor meu cafezal
Ai menina, meu amor, minha flor do cafezal
Ai menina, meu amor, branca flor do cafezal
Era florada, lindo véu de branca renda
Se estendeu sobre a fazenda,
igual a um manto nupcial
E de mãos dadas fomos juntos pela estrada

Toda branca e perfumada, pela flor do cafezal
Meu cafezal em flor, quanta flor do cafezal
(Cascatinha e Inhana)

Bambina mia,

Desde que chegou até a mim sua pergunta as lembranças vieram desfilar em minha mente. Primeiro, me lembro das flores brancas a enfeitarem os pés de café e em noite de lua cheia, da janela com as cortinas esvoaçantes era a coisa mais linda de ver. Depois, a memória me leva para a tua cidade e capto ali, o que o sabor busca dentro de gente: alma. A fazenda ficava ao pé de uma colina e havia dois tipos de roça – a de toco ( feita depois de uma queimada programada, em uma parte do terreno, onde plantávamos milho, feijão, quiabo, abóboras e legumes variados) e a do terreno preparado para a plantação de café. Quando a florada acontecia, meu pai suspirava e dizia que aquilo parecia um buquê de noiva com cheiro e tudo. Os olhos dele refletiam a singeleza e a magnitude da beleza que a gente via.

Era um dia comum e em uma noite qualquer. E como mágica, a flor acontecia e o café era abençoado por ele, que tirava o chapéu da cabeça e em reverência ao céu curvava à terra. Dias depois, o fruto verde começava a se desenhar, para logo em seguida o vermelho tomar conta de tudo.

Na frente da casa… o terreiro era preparado para a acolhida e a secagem. Passávamos horas a rastelar os grãos para a secagem completa.

– Agora vamos embalar, acolher os grãos para seu destino – dizia ele, feliz com a cor esparramada no quintal – e com isso, o saco de aniagem era o ninho dos grãos separados por grupos.

Dentro da simplicidade dele, sabia e conhecia a especificidade de cada grão e em seu toque de mão acariciava o café, levava ao nariz, aspirava o cheiro e com um gesto de separação costurava o saco. Os especiais, eram escolhidos para as sementes de futuras plantações e outros saiam dali direto para o torrador e depois disso, o moinho e o cheiro exalavam em toda a casa. Hoje, as lembranças me abraçam dentro da palavra amor. Era isso que meu pai gostava de fazer. As canções que falavam de café cabiam em sua boca como declaração de amor genuíno. Muitas vezes, repetia que os pés plantados ali em 10 hectares era o ouro verde/vermelho e negro e que a simbologia daquilo tudo era nossa vida.

Tudo era parte de um ritual que começou lá, numa fazenda do interior de Goiás… na escolha da semente até chegar no líquido fumegante na xícara esmaltada verde com florzinhas vermelhas. O bule fazia parte do jogo que pertencia a mãe de alguém desde não sei quantas gerações.

Talvez, essa mesma lembrança se junta às que eu vivi em tua casa. O ristreto exalando corredores inteiros, o barulho da cafeteira e a xícara servida a mim para dividir algo tão teu e de tuo menino: seu lugar. A mesa na cozinha, o cão a rodear minhas pernas e o aconchego de colo que parecia que eu já havia vivido isso antes.

A cidade ainda dormia – ou estava mais acordada do que nunca – e os títulos dos teus livros me levaram para a fazenda de meu pai e o cheiro do café a evocar lembranças.

Tudo isso se mistura em mim como um gole saboroso de café, servido na cozinha da casa de pau a pique, na fazenda ao pé da colina e o sabor do café feito por você e entregue em mãos com olho de acolhida.

Grazie por tantas lembranças! Grazie por existir em minha vida.

Bacio,

Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural Que tal um café? – Scenarium Plural Editora
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Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Projeto 6 missivas — uma carta para seu autor favorito

“Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo”.
Manoel de Barros

 

Fico imaginando como começo essa carta e escrevo mil vezes – dentro do meu exagero conhecido – bom dia, mestre! Ou seria boa tarde? Também tentei o Querido Manoel, Caríssimo e achei que ficou um tanto quanto comum. Como se começam as cartas para quem a gente se dobra e reverencia sem ser muito igual?

Vi que Drummond em uma das cartas que te escreveu usou simplesmente seu nome e me encoraja apenas a dizer:
Manoel,

Hoje venta muito no meu quintal e desde cedo penso nas palavras que quero te dizer. Talvez você gostaria de saber que aquela menina que chorou ao te entrevistar, cresceu. Ganhou poesias vida afora e abre os braços para dançar com o vento.
Ah, é, eu falava do vento no meu quintal e a leveza das folhas correm para um canto do muro. Olhando de perto não tem tanta folha seca no pé de algodão. Mas como cai!!

Quero te contar dos calangos que vivem aqui, entre meu muro e a parede da casa vizinha… já vi muitos e até fotografei eles e seus olhinhos assustados. Sempre os salvo dos cães que por vezes, são mais rápidos do que eles. Cada vez que vejo um, lembro de você e de seu poema que fala da lagartixa. Tem até a Rabicó, que perdeu parte de seu rabo em uma dessas fugas desastradas da Lolla e Yoshi.

Aqui, a vida me parece ensaiada dentro de poemas seus. Quando as borboletas enfeitam meu pé de Maria Sem Vergonha e cismam de brincarem nas minhas mãos, quando a nuvem chacoalham dentro da bacia de água e a lua banha dentro do balde e arranca meu riso, quando os insetos vem morar no meu pé de boldo – hoje surgiu a lagartinha que mede os centímetros – e eu carrego a ilusão de que seus poemas foram desenhados aqui… bem no meu quintal.

Tenho sorte de ter olho para o encanto. De ver imagens nos estuques das paredes do muro. De ver o portal que dá lugar para minhas emoções esparramadas na grama verde e de poder viver o lambeijo dos meus cães quando deito no chão. De enxergar coração em tudo que é coisa.

Tenho sorte porque lá fora, para além dos instantes de encanto, o mundo está de ponta cabeça e não sei se você gostaria de vê-lo como se apresenta hoje. Talvez, aqui, no meu lugar seja um daqueles achadouros que você criava em seu mundo.

O meu quintal é desabitado de realidade e levo ele na bolsa sempre que saio calçadas afora para viver o mundo real e lá, quando o baque vem em grau maior eu retiro um pequeno bocado para sobreviver.

O mundo está moderno demais e atravessado. Então, eu busco como escape essa inteireza de criança que meu pai ainda acha que sou e com isso tento dar verbo às coisas que me rodeiam e bem ali, no cantinho do espaço imaginário, perto das lanternas chinesas eu te abraço e agradeço pela inspiração que me ofereceu diante da palavra e tentando entender a cor dos pássaros faço o verbo esperançar renascer cada vez mais dentro de mim.

Um abraço,

Mariana Gouveia
Projeto Uma Carta por mês –
Publicada na Revista Plural Trezentos e Sessenta
Editora Scenarium Plural Editora — uma carta para seu autor favorito
Participam: Lunna Guedes |  Maria Vitória | Adriana Aneli | Obdulio Nunes Ortega

Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Para quem voa é permitido o infinito

Para quem voa

“Todo mundo gostaria de se mudar para um lugar mágico.
Mas são poucos os que têm coragem de tentar.”
Rubem Alves.

Ouço a melodia das asas no meu quintal e transporto-me para a dimensão das lembranças.
Vou te contar como aconteceu esse amor alado e talvez só depois, entenderá que sou feita de asas.
O dia, era qualquer coisa entre 30 de um friorento junho e o dia primeiro de julho. A água no fogão de lenha sempre aquecida na espera de um nascimento rompante. Todos a postos na cozinha, na sala e o pai, entre a agonia de ouvir o choro ou o grito da Dona Fulô, dizendo nasceu – foi assim com todos os três primeiros filhos.
Lá fora, uma garoa fina os mantinham ali, próximos do fogão a lenha e na atividade de picar a galinha para o caldo.
O olhar da parteira era preocupado. Levava muito tempo entre dores, contrações e quietude. A cidade ficava um pouco longe. E foi ali, entre a espera e a busca de ervas para um banho ‘apressador’ de nascimento que ela viu as asas. Um movimento frenético de quem se afogava e tentava sair da poça.
Invocou os santos todos que conhecia e salvou a borboleta que debatia desesperada para voar.
Um voo meio desequilibrado e sem jeito e um pouso forçado na dobradiça da janela.
E ali, entre o espiar da borboleta colorida, depois de uma manhã inteira de esforços, eu nasci.
As mãos de Dona Fulô me trouxe ao mundo e como era costume presentear quem nascia com uma evocação ao universo, me foi oferecido o poder alado – como ela dizia – e que o espaço me recebesse com o dom divino de comandar as asas.
“ Que ela tenha o poder sobre o que voa, sempre em favor do bem e do acolhimento. Que ela seja acolhida pelo que voa, entre o pouso e a dimensão do vento. Que sobre ela venha a atitude de emanar coragem. Rogo a todos os deuses, declaro, oro e ofereço à ela a escolha de querer ou não quando assim tiver o discernimento para escolher, se prefere a asa ou o chão. E assim será! Oxalá! ”
Ouvi essas palavras minha infância toda e com o tempo fui me acostumando a ser a menina borboleta, porque incrivelmente onde quer que estivesse, surgia uma. Entre voos mirabolantes e crisálidas perfeitas. Eu amava o movimento das asas. E um dia, quando pude escolher, já nem precisava mais.
O nome já era ativo entre meus irmãos. E fizesse sol, ou chovesse, havia qualquer coisa de asa onde eu passasse.
Primeiro as borboletas e suas espécies mil.
Depois, vieram os pássaros e suas variantes. Depois, o sonho de voar com as palavras.
Muitos achavam estranho. Outros, admiravam. E eu cresci, entre a magia de uma fada que me deu poder de voar e um lugar que tinha um portal para a imaginação.
De repente, elas vieram para minha mão. Entre a confiança da espera e o encanto que me proporcionava e assim, mesmo depois de anos, continuei a ser a menina borboleta, onde as palavras voam em direção ao universo.
Relembrando tudo isso com meu pai, ele diz, entre um saudosismo quase infantil, na doce instância dos seus 81 anos que meus pés são fictícios, que na verdade, tenho asas. E para quem voa, é permitido o infinito.

E você, se permite voar?

Mariana Gouveia.
*texto integrante da Revista Plural Rubem e Casa Cheia – Scenarium Livros Artesanais

Divã · Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

Solidão tão minha

solidao-tao-minha
Ph: Adam Klaus

Os corredores nunca foram tão longos e nem a solidão tão minha…Havia dores de ossos em todo canto – a moça de azul que hoje não vestiu azul via as dores como normal – preocupava-se mais com as dores da sua alma. Era olho distante do agora. Fosse ela reparar em dor – ali, era dor todo dia -não faria nada.
Os cartazes pedindo silêncio para a solidão dos outros. Alguém já não existia no vácuo entre o que era e será. Havia apenas o alívio de quem saía, nunca calmaria da dor. Eu escrevi a saudade enquanto era tempo. Era ali, no canto da mensagem que o coração batia.

Mariana Gouveia