Das palavras das cartas

Das dezenas de histórias sem fim

comecei dezenas de histórias
e não terminei nenhuma,
não sei para onde vão as minhas personagens
porque começam a falar
e logo se calam.
no papel sucede-me o mesmo que fora dele:
a minha vida é um punhado de começos
suspens
os
Miriam Reyes

Ph: Pinterest

Ana,

tive que formatar meu notbook e com isso, perdi alguns arquivos que não consegui salvar, mesmo o técnico tentando inúmeras vezes. Com isso, perdi alguns áudios onde a gente falava bobagens e que me alegravam em dias difíceis.

Por várias vezes, nossas conversas foram motivos de força quando algo errado acontecia. Daí, de repente, entre esses anos todos, que se transformaram em séculos eu vi que a história chegou ao final… sem fim… como algumas séries que amo e ficam com a ‘suposição’ de segunda temporada e sabe, Ana? A segunda temporada piora a história que às vezes acho que poderia ter ficado apenas a suposição.

Penso que foi assim com a gente. Um fiasco… os momentos, as ausências e de repente você não faz parte mais da vida da pessoa. Tudo se transforma em lugar comum.

De repente, fica as lembranças dependuradas na janela, na cerca como se fizessem partes dos momentos, mas ficaram ali expostas e tudo bem. Sabe, Ana, o tempo é esse inimigo íntimo da gente – ou seria a distância? ou seria o sentimento? – e quando percebi, você se transformou na memória de carinho que me faz rir quando lembro, mas que o afago está ou ficou inacansável.

Não houve adeus, não houve fim – e mesmo assim, entendemos que houve um final – como os doramas que eu amo e fico imaginando as segundas temporadas e prefiro que não aconteçam.

Eu entendo que podemos esquecer o 11, o 13, o 23 e até o 1º… mas, não podemos esquecer as respostas e como elas não vieram e sejam por quais motivos, subentendi que nem valiam a pena responder.

E fica suspenso um final como se nem precisasse chegar ao final para se saber que é o fim. E nem precisamos dizer adeus para entendermos que o fim não tem explicação.
Beijo meu,

Mariana Gouveia

das coisas breves

Eu existo…

Eu existo dentro das memórias que guardei. Ainda consigo vislumbrar com o instante como se fosse hoje. O vento ainda era brisa no quintal e ela aconteceu.

Os dias voaram no calendário para além do tempo. Não consigo dizer se parte das minhas memórias sejam lembranças de fato, ou se no relance da vontade eu a criei no interior de minha mente.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas

Das cartas que recebi

Parece o mar mas é o céu.
A rotina, Mariana, tem feito me esquivar da beleza, interromper soluços que fantasio para pensar em mapas e conceitos e mais mapas, tem também me feito entrar devagarinho nos lugares como quem evita fazer golos de impedimento.
Tenho estado (Tiago gosta quanto falo assim), logo, tenho estado abstrata, azulada e voadora como os personagens de Chagall. Hoje precisava trabalhar tanto e a poesia a me fazer muito mal, porque me força buscar metáforas para dizer o que se resolveria de chofre, o que me faz um bicho prolixo e esquisito.
Ontem pintei a lápis de cor. Precisava voltar ao hábito de colorir (colorir é como varrer, percebes, Mariana? Se não, me pergunte de onde tirei essa ideia).
Houve uma época em que pintei minúsculas marinhas, é tão fácil pintar marinhas, mas o azul me incomoda um pouco, porque sinto um frio quando uso azul tanto na pele, quanto no ver e tocar.
Já contei que, quando pequena, não suportava ter unhas? Achava que elas atrapalhavam e apertava contra as palmas para não sentir, aí que as sentia mais… São tão bobas as crianças pequenas que morro de ternura por elas.
Ainda hoje acho que poderia bem viver sem unhas. O azul, a poesia e as unhas me atrapalham, mas são coisas que existem e não posso fazer nada contra a existência delas.

Luciane Recieri

Das palavras das cartas

Das cartas direto da aldeia

Luci, o caminho até a aldeia tem seus encantos. Às vezes, são miudezas que o olho nem enxerga… Nesses casos, como diz o pajé, é preciso olhar com o olho do coração. Acho até que já te contei sobre isso.
Mas o que eu queria mesmo te contar, Luci, é que eu voltei a viver esses instantes junto deles e com eles.
Às vezes, a aldeia é muito longe, e de alguma forma, eles a trazem para perto de mim. Seja nas ações, no que faço no dia a dia e nas conversas sobre a vida deles.
Eu ainda me lembro do pajé que se foi, Luci… Acho até que ele virou flor pela estradinha agora aonde ele colhia ervas para curar os doentes.
É lá, de vez em quando que eu o abraço quando toco as pétalas das flores.

Beijo meu e a gente vai se falando.

Mariana Gouveia

das coisas breves

Queria um gesto que tivesse a cor…

Queria um gesto que tivesse a cor


da tua presença em minha vida

de delicadeza preferida
e imitasse meu sonho;

em vez de posso
poderia até dizer que é só nosso
o lugar seguro onde te vejo
e delicadamente em molhados beijos

os versos mais audaciosos eu componho

espio o prazer, e me desnudo inteira,
e docemente eterna prisioneira
de tanto amor e de tanto desejo
abro a cortina, uma lua tímida

vejo fantasias em voares soltos
e eu com pensamentos loucos…
morro de saudades, mais ainda!

Mariana Gouveia

das coisas breves

É para ti

É pra ti


Quando o dia alaranja no meu quintal e o pássaro canta a melodia da vida,
é para ti que falo.
Quando as nuvens douram no céu e o sol abre sua cortina majestosa,
é para ti que falo.
Quando falo do riso da criança e do cachorro que faz arte na varanda,
é para ti que falo.

Quando falo de amor e de poesia, e te canto uma doce melodia,
é em ti que derramo.
Quando eu fico em silêncio diante da vida, e ao falar teu nome me acalmo,
é de ti apenas que falo e amo.

Mariana Gouveia

das coisas breves

antes que a noite me envelheça o olhar…

Ph: Pinterest

escrevo mil mensagens só com seu nome e tatuo na pele – a sangue-frio – o coração que você descreveu em palavras. Abro todas as gaiolas para que as saudades acumuladas voem e grito como a louca da rua.

Gasto a revolta da não chegada, da não notícia, do não chamado em passos ao redor do quintal. Era ainda ontem no calendário quando a palavra do poeta me tocou em meu olhar gasto da espera.

Antes que a vergonha do afeto que te emprestei me domine eu rasgo as palavras todas, as cartas, os bilhetes, as mensagens. Rasgo em mil pedacinhos seus toques em mim… faço ranhuras no espaça da agenda onde tem seu nome… nessa hora, eu começo a te esquecer.

Mariana Gouveia

das coisas breves

Não haverá em ti…

Não haverá em ti

situação que eu não conheça.
nem fases em que eu não me veja.
e em cada estação me submeto ao teu amor.
O meu olhar te descobre mesmo quando esconde e se refugia nos teus pensamentos.
É quando eu mais te descubro.
Não haverá em ti lugar em que eu não habite.
Trilho pelas tuas pegadas e é em teu interior minha morada.
Não haverá lugar em ti que eu não me encante e pelas tuas ruas cantarei meu amor.

Mariana Gouveia

Das rotinas · Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

dos rituais da noite

Laurie Kaplowitz

Conhecia os barulhos da noite e seus silêncios também. Ouvia os pássaros noturnos como presságios de insônia. A noite tão curta dentro das horas. As horas tão longas dentro da noite. Sabia das rotinas do relógio… o tic tac inconstante fora dos minutos. O ocaso dourando o céu como se pintura fosse. A arte expressa no que os meus olhos veem… Conhecia os gestos, o barulho da TV em algum lugar perto. Conhecia o caminho das horas até o amanhecer.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar Quintais
Diário da Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

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Acontecia dentro das memórias o rito dos dias de espera

Ph: Łucja Stefaniuk

Havia o costume de vasculhar as gavetas, jogar os papéis velhos fora. Refazia nas memórias os dias… Aqueles retratos antigos ganhavam atenção nas lembranças recentes. O anel — por medo de perdê-lo — embrulhado no papel de borboleta, na caixinha que veio, cabe no dedo dentro das vontades… Jogava tudo que era velho fora, para depois recolher um a um os acontecimentos. Deixava por último a reza dá sorte. Encontrava no quintal a sorte lida nas cartas… As anotações do horóscopo e a conjunção estelar. Depois disso, respirava e ia viver a vida.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar Quintais
Diário das Quatro estações
Scenarium Livros Aretsanais