Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Carta à Emily

Eu te dou metade dos meus pássaros
— sobre a doce condição de que você os trará de volta
— você mesma,
e habitará um dia comigo,
alegria sem preço,
eu mesma ganhei da natureza.

Emily Dickinson

Querida minha!

Talvez seja intimidade demais para nós… eu, que conheço tanto de você, por tudo que li e reli sobre sua vida e você, nas palavras das cartas — e eu, uma estranha apenas, que te admira — e juro que já fiz esse diálogo infinitas vezes em dias que não era assim como hoje.
Já te falei que chove? Chove incessantemente há três dias e no quintal os musgos já acumulam com suas cores verdes nos cantos do jardim. A roseira, que antes estava exuberante, teve as pétalas arrancadas pela força da água. O rio, logo abaixo algumas ruas já atinge um nível de alerta.
Devo confessar que até gosto do barulho da chuva nas telhas e o gluft gluft em algum balde esquecido logo debaixo da escada. A passagem bucólica que preenchia minhas manhãs ganha cores dos infinitos guarda — chuvas e as imagens que meus olhos alcançam são as das meninas que voltam da escola com seus uniformes molhados. Chega a ser estranho ver minha cidade sem sol e enquanto aguardo o ônibus releio as cartas que escreveu em um livro puído:

“Uma palavra morre
Quando é dita —
Dir-se-ia —
Pois eu digo
Que ela nasce
Nesse dia”

E assim, a palavra ganha o contorno de cuidado com o qual falo com você. Imagino você corrigindo os erros e rindo das infinitas traduções e interpretações de um pedaço do poema. Os manuscritos é esse fôlego de alma e eu a catar letras para te prender aqui.
Ainda chove e os vizinhos ouvem futebol. Eu penso em amores que você tenha vivido e tento comparar com os meus.
O que dizer do amor dos outros que brotam em cartas tão fora de moda hoje em dia? Talvez te escreva outra carta falando mais sobre isso… talvez só converse com você nas janelas embaçadas dos ônibus… Talvez apenas mergulhe meus pés na bacia de água gelada para o cansaço ir além da simples vontade de ficar só. Talvez…
Talvez o amor que exala em mim e que misturo nos seus poemas seja feito de asas… em mim, o pássaro de todo dia é aconchego e divide com as abelhas jataí a água preparada para quem beija a flor… e quem sabe esse amor seja só essa gota que pinga constantemente em um balde esquecido…

Abraço carinhoso
Mariana Gouveia
Carta publicada no blog da Scenarium Livros Artesanais
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Participam comigo
Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega

Scenarium Livros Artesanais

Ele mesmo. Originário.

Sou índio por dentro, e tupi-lusitano por linguagem de minha metáfora mais tímida: eu mesmo.

Anderson Carmona Domingues de Oliveira

Conheci um sábio da floresta. Conhecia o poder da cura pela natureza. Possuía o dom de entender as sementes, as folhas, as flores e soube tocar meu coração.

O olho tinha a fome de um povo por respeito… Os braços, a força de um guerreiro…
A família era o elo que o ligava ao sagrado e o sagrado cobria a pele do espírito da terra.

O sábio sabia o segredo dos animais… E com esse poder dominava o seu mundo
O vento, seu mensageiro de voz e ecoava pelos cantos pedindo sabedoria para entender o sentido da vida.

Que o dia não seja só uma data, mas que o significado seja de respeito.

Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Participam comigo:
Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega

infinitamente

Rotas

Ph: Tumblr

Viveu ausências nos dias. Traçou rotas, criou mapas.
Foi buscar cura em aconchegos distantes.
Viu loucura nos olhos das pessoas – epelho refletido – alguém disse.
A loucura é da dona do espelho.
Tudo que acontece de maneira estranha enlouquece.
Visitou um sábio numa manhã de rotinas. Não falou nada. Apenas concordava. O olho atingia o centro da lucidez.
Pegou ramos verdes e a benzia.
Murmurava orações antigas que ela conhecia de outros tempos.
Abençoou um casamento.
Ainda acredita em tradições.
Registrou os instantes da fé, da troca do beijo, da aliança na mão.
Lembrou da sua. Do vento uivante que cantava no dia.
Desejou as rotas todas vividas para o coração da noiva.
O noivo tinha riso de filme de cinema.
Falou tudo isso num ímpeto e ela nem teve tempo de anotar nada.
Os ramos verdes que murcharam ficaram em cima da mesa.
Era a benzedura que tinha efeito de saudade.

Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
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Lunna Guedes  Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega

Scenarium Livros Artesanais

Andarilha

Ph: Lauren Treece

O meu corpo
É um mapa
Com muitas rotas…
(im)possíveis

Alguém se perdeu de mim
Ficou pelo caminho!

É tudo tão vasto
nessa Estrada
Que liga o meu
estado de espírito
a lugar nenhum!

Mariana Gouveia
Projeto Coletivo Andarilha
Scenarium Livros Artesanais
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Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

(De)serto

Ph; Adam Taylor

Sendo o meu corpo
A tua pauta musical


…dedilha-me!

E faz escorrer da minha boca
um beijo que se deforma

— Miragem!

Onda que vai e vem e põe no meu corpo
palpitações de oceano!

Mariana Gouveia
Poesia publicada no Coletivo de Poesias Eróticas Lilases
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Meus Livros · O lado de dentro · Scenarium Livros Artesanais

Espelho, espelho meu

Depois que o meu espelho quebrou
desmistificou-se o mito
nem se pergunta mais o que é bonito,
por que tudo lindo ficou
e a sorte que ia e vinha de vez em quando
entrou e ficou pendurada no canto
e pela casa toda se espalhou.

Mariana Gouveia
O Lado de Dentro
Scenarium Livros Artesanais
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Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega

Das rotinas · Scenarium Livros Artesanais

Quando escrever era apenas uma maneira de dialogar comigo mesma

Muito antes dos blogs virarem tendências eu usava os cadernos. Eu os consumia com tanta vontade que o moço da papelaria já me conhecia pelo nome. Além dos cadernos, eu escrevia/escrevo muitas cartas. Hoje, há aqui no blog um espaço dedicado à elas. Mas, houve um tempo em que eu queria apenas dialogar comigo mesma e para isso o caderno de capa dura feito de diário era a maneira mais fácil.

Ali, eu podia dizer o que queria e evitar de certa forma, as piadinhas dos meus irmãos. Era onde eu falava da melancolia e de sentimentos diversos que eu vivia durante o dia. O diário passou a ser o meu “amigo” visível. Aceitava todas as palavras sem reclamar e mesmo quando errava alguma letra ou palavra não reagia ao uso da borracha.

Nas linhas cabiam minhas inseguranças, medos e a fuga da realidade. Eu me diluía nas tintas das canetas. Era onde eu me despia… e descobri que se os deixasse em cima da mesinha da cabeceira exposto nenhum dos meus irmãos leria… mas quando comprei um dos cadernos que possuía um cadeado eles não sossegavam até encontrar a chave.

Os cadernos possuíam meus voos e meus pousos… as loucuras e a lucidez de quem tinha tanto no peito gritar. Quando saí da fazenda, e da pequena cidade onde nasci, a cidade grande me engoliu e eu escrevia em todo tipo de papel… há pouco tempo encontrei alguns guardanapos antigos com poemas que foram dores esparramadas em forma de letras.

Vieram os blogs e os livros – que se transformaram em uma maneira mais direta de falar comigo e com o outro que me lê – e em alguns textos uso a personagem para falar por mim. Empresto à ela o meu sentimento-angústia-saudade-medo-coragem… e assim, consigo falar de mim com a palavra de outros. Ah, e eu ainda continuo a escrever em diários.

Mariana Gouveia
Scenarium Livros Artesanais
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Lunna Guedes – Suzana Martins  Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega

Scenarium Livros Artesanais

De que cor é esse coração alado?

Eu sempre fui a menina das nuvens… quando minha mãe me chamava e eu não respondia, ela logo dizia: está com cabeça nas nuvens?

Lembro-me da primeira vez que vi um desenho fora das nuances que as nuvens fazem-trazem ao pôr do sol ou ao nascer.

Era um cachorro que corria atrás de um coração.

O coração nuvem ia pulando entre outras nuvens fofas e o cão não alcançava.
Parecia o livro que eu desenhava. Mas o vento lá em cima dissipou as nuvens e eu fiquei apenas com a sensação de um pelo fofo na mão.

Quando não tinha mais nada para fazer, deitava-me na grama, para além do curral e ficava a espiar o céu.

Quando cresci, passei a quarar nuvens como meu pai dizia. Os lençóis brancos, de linho, no jirau de madeira pareciam nuvens bailando com o vento.

Bastava amanhecer e meus olhos buscavam o céu. Era flecha, em alguns momentos, um anjo, um cupido, um jacaré e cães… ora, buldogue, ora poodle.

Sempre fui uma especialista em ver corações nas nuvens. Alados, correndo com o vento… Em viagens, em tardes quase noites, em amanheceres… o pote de algodão se abria e meus olhos buscavam a formação.

Às vezes, tão sutil… em outras, tão escancaradas que parecia que alguém, lá de cima, mexia o dedo e o coração se formava.

Tempos depois, quando ouvi Jota Quest cantando sobre: ‘Posso brincar de descobrir desenho em nuvens, posso contar meus pesadelos e até minhas coisas fúteis…’ descobri que eu não era única.

Às vezes, os desenhos formam letras como se fossem mensagens cifradas. Em outras, palavras inteiras que me lembram cartas. Já vi pássaros em voos rasantes e potes de ouro entre arco-íris.

Certa vez, em uma das viagens pelo  interior do estado paramos em uma estrada no meio do nada.

Achei que estivesse no céu… as nuvens pairavam sobre a estradinha e um coração me seguia, quase ao alcance das mãos.

A impressão é que eu estava dentro de um pote de algodão. Minha mão tocava as nuvens quase a um palmo do chão.

Senti como se estivesse ganhando um abraço do céu.

Mariana Gouveia
Texto publicado no Projeto Coletivo Nas nuvens
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Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Barquinho de Papel

Lembro-me do barulho dos meus pés pisando a areia fina que contornava o rio logo a poucos passos da casa e durante a noite.

Quando tudo se aquietava eu ficava ouvindo o barulho da água dançando com as margens. Era a hora que eu sonhava com o barco que me levaria até o mar.

Em minha cabeça de menina uma pergunta martelava: será que se eu seguir esse rio, percorrendo as curvas eu chegaria até o mar?

Parecendo adivinhar meus pensamentos, minha mãe me mandou sentar ao redor da mesa grande debaixo do pé de sete copas… revistas velhas, tesoura e foi dobrando uma folha de revista.

A ponta de cima até o centro do papel.
A ponta de baixo levantada.
Suas mãos foram dobrando aqui, forçando a dobra ali e no centro da mesa um barquinho pousou…

A companhia dos meus irmãos encheu a mesa… e eu quis colocar meu barco no rio, para testar, colocando nele a esperança e a fantasia de sair vida afora até conhecer o mar.

Mas, assim que o barquinho foi colocado no rio, a correnteza o carregou e poucos metros abaixo se desfez lentamente.

Um outro, foi um pouco mais longe e sumiu debaixo da água.  Mas um, feito com outro tipo de papel – mais duro – seguiu a curva e sumiu levado pela correnteza. Do alto de uma pedra consegui avistá-lo até onde meus olhos conseguiram ver.

Minha mãe, vendo as nossas expectativas ali, com alguns barquinhos ainda em mãos, disse que os sonhos eram iguais aos barquinhos.

Uns, eram muito frágeis e no primeiro obstáculo se desmanchavam. Outros, duravam algum tempo, mas diante de algumas dificuldades eram desfeitos – talvez, para dar lugar a outros sonhos – e só o sonho buscado em um sentimento forte, seria realizado.

Não importa o tempo, nem as dificuldades… de uma forma ou de outra, o barco sempre encontra o porto seguro onde atracar.

Eu ainda não conheci o mar. E meu barco de papel que estava guardado, se perdeu nas mudanças da vida…

Um dia, quando meu filho completou 11 anos… o ensinei a dobrar o papel para confeccionar o seu barquinho de papel.

Repeti as mesmas frases que minha mãe me disse. Falei dos sonhos, da importância de tê-los e das dificuldades que poderiam surgir quando buscamos esse sonho.

O tempo passou, e um dia, seguindo seu sonho, meu filho me ligou à beira do mar.

Ouvi o barulho das ondas, o som do vento e o eco dos passos dele na areia… sua voz sendo parte do mar que toda vida sonhei ouvir:

– Mãe, o barquinho enfrentou a onda e está lá, no meio do mar. Os sonhos se realizam, mãe.

Não era eu ali, mas eu compreendi o que minha mãe quis dizer: muitas vezes, os nossos sonhos se realizam nos nossos filhos.

Mariana Gouveia
Texto publicado no Projeto Coletivo Barquinhos de Papel
Scenarium Livros Artesanais
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Participam comigo
Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega

Scenarium Livros Artesanais

Do lado de fora

Ph: Nicoletta Tomas Caravia

Há dias em que é impossível respirar!
Por causa da saudade…
– minha mãe dizia que essa
tal de saudade era como uma faca
– de lâmina bem afiada –
a cortar o peito pelo lado de fora

Mas é o lado de dentro – que sangra!

Mariana Gouveia
Estradas para domingo
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