Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Carta à mia bambina aos cuidados de Fevereiro

Carta à mia bambina aos cuidados de Fevereiro

 

“No cotidiano
sou nuvens
Às vezes, choro
N’outras, eu
chovo”
Elke Lubitz.

Ah, bambina! Fevereiro chega como previ e detalhei para você mais cedo. As trovoadas trazem você aqui para o meu quintal. Já choveu tanto e agora, entre o espaçar das nuvens vejo o sol brigar com as gotas que caem. Parece até que eu estava te esperando e você veio. Desde ontem você anda rondando meus pensamentos. A tempestade me trouxe seu nome quando cantei a canção que lembra você.
Busquei alguns temas que enviou e passei a andar por eles, descalça, para que a magia aconteça aqui dentro.
As aves festejam que só, esse tempo. Cantam, me espiam e ficam ali, a sentir a chuva enquanto eu me encanto.
Com esse tempo, meu quintal ganhou mais presença. De cores, de amor e de flores. Há plantas novas a enfeitar a parede lateral. Jasmins pequenos que durante a noite exalam o perfume – exótico – de uma noiva. Explico. As flores nascem em forma de buquê e toda vez que olho para elas, me lembro do buquê da noiva. Bobagem minha.
Os trevos estão que é flores só. E a Maria-sem-vergonha não para de florir. O jardim está em plena pompa. Pronto para a festa diária que faço aqui.
Como posso considerar verão se o mês que passou foi todo primavera?
Bambina, as novidades abraçam meu coração em uma forma doce de amor. A vida me trouxe maresia de presente e vivo lendas mitológicas no meu quintal. Sou que é chuva em dia de sol, como agora. Até pareço personagem de uma história e se existe um estado de felicidade, estou dentro dele.
Fevereiro chega e eu já quero antecipar os dias. Talvez eu seja uma das poucas que pularia – olha que contradição – esses dias de Momo. Me dá preguiça.
Atravesso a rotina do dia. E já vivo Alice plena. E você sabe do que falo. E com isso, te abraço no doce agradecer por você na minha vida. A leve impressão de estar aí, seja no voar de uma farfalla ou em uma joaninha na roupa do teu menino me dá a certeza de que longe não existe entre nós.

Amo tu!
Grazie mille

Bacio,
Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Carta à bambina aos cuidados do amor

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Bambina mia,

Aqui o dia amanheceu nublado e esse tempo me faz lembrar você.
Na madrugada, trovejou. O céu parecia festa de ano novo. Os raios lembravam os rojões e os trovões, os fogos. Confesso que detesto fogos e rojões – por causa dos cães – mas, hoje, foi essa impressão que tive. E ocorreu-me o pensamento de que o céu fazia festa para você.
Pareceu Maio e seus trovões que você ama tanto e quando o dia clareou uma garoa fina cobria o quintal e minhas flores ficaram com aquelas gotículas que parece suor na pele.
Saí para caminhar um pouco e te levei comigo – sempre levo – mas hoje, foi especial.
Fui despejando em cada passo, palavras para que o universo ecoasse e levasse até você meu carinho.
Refiz nossas conversas e nossos silêncios – às vezes – e pude constatar mais uma vez o quanto sou abençoada. Sua presença em minha vida me torna melhor.
Cada vez que lembro de você é como se fosse uma continuação de um encontro que já houve antes mesmo de nos encontrarmos. Não queira explicações sobre isso. Não poderia explicar.
A sesnsação que tenho é de você na minha vida desde sempre e é com essa sensação plena de abraço que te envolvo no meu carinho, hoje, mais do que nunca.
Sorvo o chá enquanto penso em Jane Austen, autora que você adora e é com uma frase do livro Razão e sensibilidade que te abraço:
“Seus olhos erravam por aqui, por lá, por toda a parte, maravilhados. Ela viera para ser feliz, e já se sentia feliz..”

Che tu sia felice!
canterò per te la canzone che mi ricorda di te:

“Only you can hear my soul, only you can hear my soul

Luna tu
Quanti sono i canti che rissuonano
Desideri che attraverso i secoli
Han solcato il cielo per raggiungerti

Porto per poeti che non scrivono
E che il loro se non spesso perdono
Tu accogli i sospiri di chi spasima
E regali un sogno ad ogni anima
Luna che mi guardi adesso ascoltami”

baci mille

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Carta à bambina com aromas de café

Carta à bambina com aromas de café.

Hoje, o dia amanheceu normal. Se bem que comigo nunca nada é normal. O bem-te-vi pousa na árvore e eu canto sempre a canção que me lembra a ave.
Repito com ele o “bem-te-vi-eu-que-te-vi e o dia ganha a normalidade na rotina.

Ainda antes era agosto e a fumaça cobria meu céu e a ansiedade banhava meu coração e daí o abraço se deu e a alma que antes já sabia o sabor, ganhou cheiro de cartas abertas, cadernos lidos, livros apreciados.

Você, bambina, que já era de cuore, se transformou raiar de paixão. Pele sentida e encoberta pelos braços e o riso no sotaque mais paulistano italiano que já vi.
Fecho os olhos e posso estender a mão e te toco. É você ali, ao alcance do paladar e dos sentidos. História costurada na minha.

O mês era outro e parece que foi há um ano. Sinto aqui em mim ainda, o precipitar do cheiro de sua cozinha e não era café. Era pão e chá. A delícia do cão molhado a esfregar em mim. As histórias contadas quase em alta rotação, porque o relógio me avisava a hora.
Setembro foi folha caída, doída, rasgada e tirei ele do calendário. Sabemos porque.

A vida deve ser saboreada assim, na beleza e no sabor majestoso do café. E escrevendo-te na memória do ritual que sigo. O meu coador é de pano – ainda – contrariando minha amiga barista e deixo ferver a água em borbulhas e ela quase morre. Diz que o ponto é antes da fervura.
Depois, só depois é que bebo. Beber não, pois é quase um absorver o cheiro e gosto em um só lugar. Você sente o líquido invadindo teu corpo e produzindo as sensações prazerosas na alma.
E é assim que desejo que tua vida seja. Saboreada ao máximo diante da xícara diária que te é oferecida.
Meu pai sempre me dizia que café “bão” é o café puro.O nosso, ele mesmo colhia, torrava, moía e fazia. Usava o coador de pano e a xícara esmaltada verde abacate com desenhos de florzinha. Um dia, o apresentei o café com creme.

Luxuosamente servido numa xícara branca que eu tinha. Ele se maravilhou! Quis repetir. E durante alguns dias, meu desafio era criar novos tipos de cafés pra ele. Desde o capuccino ao macchiato. Mas, a paixão dele foi o írish coffee, feito com um uísque comum que eu tinha na época. A cada descoberta de uma nova receita ele se empolgava e o mais impressionante é que mesmo empacotado à vácuo ele sabia que tipo de café era aquele – a terra roxa proporcionava um sabor inigualável ao café – ele dizia.
O Arábica tinha essa ou aquela particularidade. O Robusta melhor era o produzido em Minas Gerais.
Quando por fim, ele retornou pra sua casa, um dia antes, no arrumar das malas, empacotando o moinho e o torrador, ele me disse: Durante anos eu havia sorvido os melhores cafés da vida. Aqueles que eu mesmo plantava, colhia, escolhia e preparava como artesão para beber. Achava que era assim e pronto. Mas, experimentando outros tipos descobri que a vida deve ser vivida igual ao café. Com novos experimentos, com novos sabores, com outras atitudes. O café para ser apreciado e soltar seu sabor passa por etapas diversas antes de chegar a nós. E por último, a fervura faz com ele exale teu aroma e com isso, convida todo mundo que é captado pelo cheiro a tomar um café. A nossa vida, é igual ao café, minha filha. Passamos por tantas coisas, enfrentamos tantos desafios. Somos torrados, moídos, catados, escolhidos e quando a “fervura” nos pega o que deve sair de nós é o aroma de nossa alma convidando a todos que percebam para saborear a nossa vitória.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Tempestade para uma bambina aos cuidados de Maio

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Eu rejeito a tristeza
Soberba e vã
Sobressaio entre muralhas
Engano raios
Adormeço trovões

Renas Barreto

Hoje amanheceu aqui com seus trovões, bambina. Maio veio tempestade quente de um céu rugindo e ventos nervosos. Raios cortam o céu como se partisse ele com um golpe só, o cinza – que você adora, toma conta do dia.

Acordei assustada com um barulho nas janelas. Era uma libélula que ficou presa dentro da sala, por um descuido meu. Sempre faço a vistoria antes de deitar. Vago nos quartos procurando algum vestígio de bichos alados que insistem em povoar meu lugar.

Foi quando maio – o seu – veio passear por aqui mudando a rotina das histórias. Não sei porque essa palavra tempestade vem ocupando  assombrosamente minha vida. Muitas vezes, num bom sentido. Outras, nem tanto.

Gosto das palavras úmidas, dos cheiros que elas me trazem. Seja chuva, seja orvalho, gota e esse mar imenso que cai agora. Embora, a palavra chuva me banha mais na alma do que nos pulos que dou de braços abertos, como se essa chuva de hoje, enquanto penso em você me benze, me lava e me prepara para uma imensidão de coisas que virão.

Gosto de ver meu beija-flor no seu banho de chuva. É a vida úmida acontecendo aqui, dentro do meu quintal. Tudo soa diferente dos costumes rotineiros. Não molho o jardim. Ele todo respinga alegria e a terra já exala o cheiro que tanto gosto.

Parece gosto de infância, de paletó de flanela xadrez, de leite fervido com eucalipto que minha mãe fazia no fogão a lenha que aquecia a mim e aos meus irmãos enquanto lia para nós.

Sempre fiquei com a impressão de que ela inventava algumas das histórias. Lembro de cada uma como se fosse hoje. Os cheiros nos leva para esse passeio insistente da alma em visitar passados, e nas lembranças minhas, o cheiro, tem o maior elemento.

Cheiro das folhas molhadas, cheiro do leite fervido. Do café. Da fumaça do cigarro do meu pai, que olhava a chuva da janela. Essa mesma janela que trago sempre na lembrança que é de onde te espio. Chego a empurrar a chuva para você. Imagino sua cidade cinza e o seu cão no sofá de sempre, em seu silêncio puro e acolhedor.

Hoje, trago-te essa tempestade. Ela desaba aqui. Também guardo-a em palavras nas histórias que escrevo, que leio para um dia, num abraço poder derramar sobre você meu carinho. De alguma forma, mesmo que não possa ouvir, o céu ruge aqui como se nos ligasse no mesmo ponto das vontades de chuva.

Dizem que o tempo mudará e que o inverno antecipará seus dias por aqui. Confesso que não acredito muito na meteorologia. Porém, se tudo isso acontecer, teremos um frio histórico aqui. Um lugar que chega aos 40º em sua maioria dos dias, qualquer 20º já dá para pensar nos cachecóis – esses que você adora e que para mim, tem sua marca registrada – e nos paletós.

O dia pede urgência. Fervo o latte para o cappuccino. Canto “Luna, tu. Tu rischiari il cielo e la sua imensità” e deixo meu bacio envolvido pelo barulho do céu que desaba aqui. Hoje, sua alma morou em mim.


Mariana Gouveia

O lado de dentro · Scenarium Livros Artesanais

Meu quintal…

Meu quintal


… tem um portão mágico para a poesia.
Lá, a vida acontece em instantes únicos
E supremos.
… é onde a realidade ganha ares de encantos.
E onde casulos viram borboletas!

Mariana Gouveia – O lado de dentro

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Carta em Vermelhos Tons

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Bambina mia

“Sei dos crepúsculos, das manhãs, das tardes,
Medi minha vida em colherinhas de café”
Lunna Guedes

 
A tarde surge com prenúncio de mais um temporal e pensei em você. Os Vermelhos Tons me traz uma certa nostalgia.
Caminho com você pelas estações e cruzo as calçadas contigo.
Em silêncio. Gritante, às vezes, como uma menina travessa que solta da mão do responsável e corre adiante, pela rua.
Vou aos poucos descobrindo lugares, visitando seus caminhos antigos e posso até detalhar os matos que crescem nos fios desgastados das calçadas.
Os tons de cinza das ruas me atinge. Mas, sinto paz aqui, quase uma redenção para uma alma em burburinho nos últimos dias.
Dentro de uma sexta-feira a promessa se cumpre e aqui estou eu, sendo apresentada ao espelho de seus tons rubros, com toda paixão que a cor causa em mim.
Tropeço na possibilidade de ser. De poemar Cecília para você rir. Sim! Imagino você rindo com meu jeito moleca – dizem sempre que sou assim – moleca.
Atravessar as ruas e saborear no ar o cheiro delas, os aromas das suas feiras e a cor dos tomates que escolhe para o molho, que já antevejo, e posso sentir o gosto na boca.
E no fim do passeio, bambina, abro o pacote de vento que trouxe. Desses que levanta as saias, assanha os cabelos e faz arrancar risos. Te convido para abrir os braços e saborear a dança do vento.
É aqui, nesse cenário inventado que visito o seu. Que abraça a minha alma e me acolhe como uma flor acolhe a borboleta.
Encerro essa carta com as suas palavras em Junho, para seu menino amor.
Lá onde os lilases de Junho floreiam amor e foi onde te descobri. Quase como gestar de novo essa amizade que em mim, floresce sempre como se fosse desde sempre.O cheiro do chá me convida para mais uma lembrança e ainda bem que não perdemos o hábito de escrever missivas.

Bacio
Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

em meio a um turbilhão: uma resposta acalma a mente e o coração

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Cuiabá amanheceu com nuvens grossas e o pé de vento que mora no meu quintal dançando com as folhas de tudo que é planta e fazendo o pássaro balançar no bebedouro.

Bambina mia,

…Acordei ainda madrugada com notícia de uma morte. Alguém importante do meio da imprensa e da política partiu. A partir daí, o dia foi de correria e de movimentos. Entre notas e manchetes, lamentos e choros, assim correu a manhã.

O sol apareceu mais bravio do que sempre. Ardia a pele e embora entre todos os atropelos, a vida continuava acontecendo magias no meu quintal.
E como a vida continua apesar de tudo, havia um aniversário para se comemorar hoje – mesmo sem festa – *ela ganhou flores, e fez uma manhã pesada se tornar leve entre risos, emotions e carinho.

*Ela é a quem chamo de minha Jane. Companheira de momentos bons e ruins. Mulher com jeito de menina traquina e sempre antes das apresentações nos eventos, mesmo entre timidez – ela odeia microfones – ela dizia: Me chamo Jane…eu, me atrevia para acalmá-la, dizer: e eu sou Tarzan. E era riso entre as pessoas. Desde então, ela se tornou minha Jane e eu a Tarzan dela. oooooooooooooooo… O dia foi diferente, estranho, com jeito de luto e ao mesmo tempo de festa – como pode? – Estranho esses sentimentos que me movem e por vezes, pesam em mim.

Mas, como a magia sempre preenche meus dias e o encanto me surge em forma de palavras, veio essa missiva que iluminou minha tarde. Alinhavou em mim costuras de paz na alma. Deus é sempre generoso comigo e a natureza me traz gente que me inunda a alma. E veio ela..  e adoçou um dia intenso, extenso com minhas cores desenhadas em letras que esparramou em meu coração e que sorvo até agora o sabor da delicadeza. É quase chá de flores que rescende em todos os aposentos da casa.
E assim, encerro o dia. Com a alma em transe pelo simples poder que as palavras trazem. O poder do carinho e que devolvo para você, embrulhado em papel de presente e o laço do meu abraço…

Bacio,
Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Carta à minha bambina aos cuidados do outono

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Querida L

Aqui é primavera e você brinda, vive e comenta outonos. Os dias me dizem mais de você do que pensa. Eu caminho no meu quintal – descalça – em sua homenagem. Eu “chovo” sobre as flores que se abrem em minha velha caixa de eternit. Coloco a mão na terra e comemoro teu dia, teus momentos e tuas missivas. Abro meu caderno de receitas e anoto aquela que você adoraria experimentar. Também tenho a alquimia da arte de cozer. E penso que hoje eu declamaria Borges enquanto preparava uma massa para você.

Descobri com uma amiga barista como se faz um café especial. Não entendi muito bem como seria esperar que a água não deva ser fervida e sim, aquecida no limiar onde as bolhas começam a agitar a água – é alquimia, menina! Ela diz. E essa palavra – alquimia – me leva até você. Que usa as palavras e as transforma em poesia, em encanto e em tudo que eu queria escrever. Ouro puro, no quilate exato das palavras!

Visito lugares que você visitou através de seus olhares. Caminho com as mãos entre os bolsos, junto com você, respeitando seus silêncios e descubro que se há algo que posso desejar é seu abraço, para confirmar a quentura que já sei como é. Costuro momentos que conheci através de você. As fitas de cetim se transformam em laços. Esses laços que o destino traça e une pessoas em diferentes mundos.

Esse laço que te presenteio num abraço. Hoje, a noite deu-me seu presente. Se pudesse, mandaria o cheiro que rescende no nome da flor que se abre para te dedicar momentos – dama da noite.
A dama da noite se abre e dizem que ela faz isso uma vez ao ano e justamente hoje, ela faz a festa aos olhos seus…

Que a vida te seja bela. Que te seja leve os dias. Mesmo os mais complicados.
Que seu ombro seja forte o suficiente para carregar os fardos que por ventura sejam direcionados a você. E que nunca te falte uma lambida de cão, um riso de cumplicidade e uma palavra que mereça ser escrita. Que o outono continue a te encantar e assim, você continua a nos encantar sempre.

*poderia ter escrito isso tudo em italiano, para ainda mais delicar-te nos momentos – essa palavra delicar-te não existe – eu a criei. Mas, de italiano só sei poucas palavras. Treino-as todos os dias parar renovar meu carinho per te.

bacio
Buon Compleanno!

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Carta à minha bambina aos cuidados de Outubro.

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O Outubro aqui é rosa e eu aspiro Exemplos em palavras tuas. O calor não me permite o café, é quase como estar em um forno e ainda assim a brisa morna me leva até você.

A palavra missivas me cai como música. Cheiro o envelope pardo e pinto ele com a cor do seu sorriso. O meu vestido florido canta a primavera que ainda passeia no meu quintal.
As papoulas, vindas como sementes ganham folhinhas verde esperança em um vaso que cultivo, reverencio e “faço chover” nele todos os dias.

Meu tempo, tão contado em minutos nesses dias loucos, avesso às minhas poesias, reverbera em mim vontades, que planto e amadureço em mim.
Vontade plantada de ver esse riso solto, de lamber focinho do cão…de pular as poças d’ água e de ficar apenas em silêncio…é impossível eu ficar em silêncio diante de tantas impossibilidades. Flor de viagem plantada no meu quintal.

Exemplos antecipando desejos de abraçar e conhecer o riso largo. De estender conversa sobre o personagem principal de amar.

Exemplos contando histórias que aconteciam. Ainda hoje o noticiário falou algo sobre isso – lembrei –
Mas o movimento de ter nas mãos a fita que ela costurou e ler as palavras que ela escreveu e a frase dedicada a mim – sonhos vão além de sonhos, seu pai falou um dia. Realizá-los é a meta. Seja a amora no quintal, o boldo que floriu lilás ( e eu só sentia o gosto amargo pela boca adentro) e o carteiro que já me conhece e sabe que nunca vou estar na hora da entrega e que ele amorosamente faz a gentileza de voltar na hora em que tem alguém em casa.

Não fosse isso, hoje, eu não escreveria essa carta. E a mágica de uma lua enorme invadindo a sala e eu, dignificada no olhar não cantaria Bocelli o hino que me leva até você.
A melodia interrompe os gritos da noite, o latido do meu cão, o cri-cri dos grilos debaixo da pedra de amolar, que tem a minha idade – Sim! Eu tenho uma pedra de amolar facas que já era antes de mim, e quando meu pai mudou me confiou a herança única de levar comigo a pedra que ele buscou em uma aventura que escrevo em outra carta.

Amanhã, amanheço com o dia o calor, que segundo a meteorologia muda o tempo em quase todos os outros estados, mas que aqui, continuará esse mesmo calor que aquece a pele, a alma, a vida

Mariana Gouveia.

 

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Das cartas que escrevi…

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Querida L
Abro o dia de amanhã e é como se um envelope fosse aberto. Adoro o cheiro. Trazem histórias dentro dele.

Somos o contrário – Eu possuo os dias, com seus voos rasantes de beija-flor anunciando o normal do milagre que me acontece todo dia – enquanto você adora os silêncios gritantes da noite que te rodeia.

Às vezes, as coisas me acontecem como milagres. Ei-lo hoje, em forma de cheiros de envelopes rondando meu lugar. Acho que essa sensação dentro de mim se chama felicidade. E foi você quem trouxe. A primavera irrompe o muro do quintal e traz a delicadeza da flor do hibisco onde uma borboleta pousa.

Trovões fazem sua festa no céu anunciando uma tempestade. O vento sacode as folhas do pé de canela e o cheiro invade as  salas do escritório e eu aspiro vontades.

Vontade de chá, de silêncios, de sair sem rumo sentindo a chegada da chuva. O céu muda sua cor e eu fico apenas a espiar da janela esse dia que cheira primavera.

Quase que para além, das palavras eu ouço o vento que o menino grava para sua mãe e envia feito mensageiro em um vídeo só para dizer que lá pelas bandas da casa deles choveu também.

Contou as poças d’água no quintal. Do ninho que algum pássaro perdeu por causa do vento, das mangas ainda verdes e que frágeis vão virar comida de pássaro no chão. Finaliza dizendo que lá para os lados do meu lugar um sol fraquinho vence a chuva da primavera e faz presença onde meus cães sentem minha falta.

Falta pouco para o dia findar. Tão pouco, que quase sinto que é amanhã, onde começará tudo outra vez.

Mariana Gouveia