Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Catarina voltou a escrever…

– Abre aspas –

Preciso de uma maçã para estalar na boca e
ouvir o delicioso som-calmante de seu clec

–  Fecha aspas – 

Lunna Guedes
Catarina… voltou a escrever
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · O Mapa de Vênus · Scenarium Livros Artesanais

Coletivo o Mapa de Vênus

Chove e as hortênsias — em seus buquês —
parecem a tempestade alagadiça que pediu…

Os trovões ecoaram como se fossem derrubar o céu
— ouvi alguém dizer: “parece que o céu vai cair”
E eu pensei em nuvens vindo ao chão.

Mariana Gouveia

O Mapa de Vênus é um projeto coletivo, produzido pela Scenarium Livros Artesanais, sendo poemas em resposta a missiva enviada pela coordenadora do projeto Lunna Guedes… Cada autora criou uma narrativa em forma de versos, sendo elas: Anna Clara de Vitto, Katia Casteñeda, Mariana Gouveia – euzinha-, Nirlei Oliveira e Suzana Martins.

E para comemorar o lançamento, estaremos em uma live na próxima sexta-feira, dia 18/03/2022, às 18hs – horário de Brasília – no ig da @scenariumlivros.

E se você quiser adquirir um para chamar de seu, clica aqui

Mariana Gouveia
O Mapa de Vênus,
Scenarium Livros Artesanais
Fotografias e Arte de Lunna Guedes

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – As minas e as manas

*Triste, louca ou má
Será qualificada ela
Quem recusar
Seguir receita tal
A receita cultural
Do marido, da família
Cuida, cuida da rotina

Eu era ainda uma menina quando tive que escrever sobre o que pensava sobre ser mulher. Naquela época, o tema não era tão evidente como hoje – ou até era, para as mulheres que me rodeavam e eu, em minha criancice não percebesse. Até então, as mulheres da minha vida eram minha mãe e três irmãs, dona Fulô e a professora Judite – uma pessoa além do tempo que dava aulas em uma escola rural.

*Só mesmo rejeita
Bem conhecida receita
Quem, não sem dores
Aceita que tudo deve mudar

Que um homem não te define
Sua casa não te define
Sua carne não te define
Você é seu próprio lar

O texto que escrevi deve ainda estar em alguns dos muitos cadernos guardados em baús ou caixas e que um dia vou tentar encontrar… mas, lembro-me que para além das heroínas dos livros que li eu falava muito sobre a parteira que me trouxe ao mundo, depois de um parto difícil. Uma mulher que não sabia nem ler e escrever, que havia vivido um pós guerra e tinha o ofício de trazer crianças ao mundo e fazia disso uma coisa divina. Entendia de tudo sobre o mundo e me convencia de eu poderia ser o que quisesse. Ali, entre a infância e adolescência descobri as barreiras e as correntes que poderiam impedir quem ousasse mudar o “tradicional”.

*Ela desatinou
Desatou nós
Vai viver só

Bem antes mesmo da tão falada frase: lugar de mulher é onde ela quiser, eu já vivia esse sentimento nas mulheres que me rodeavam. Nasci em uma fazenda rodeada de mulheres que lutavam todos os dias para além das enxadas e foices, que brigavam por seu lugar de fala nas decisões da comunidade ou mesmo dentro de suas famílias feitas de homens machistas e autoritários.

Eu não me vejo na palavra
Fêmea: Alvo de caça
Conformada vítima

Daquele tempo até hoje percebo que a luta ainda continua a mesma e que aquele aprendizado me fez ser o que sou hoje. O que aquela menina de 10/11 anos diria para a mulher de agora, nos meus 56, quase 57 anos? Já escrevi várias cartas onde busquei essas respostas e continuo escrevendo elas até hoje. Minha bá me ensinou sobre as palavras e de como escritas ganham voos para além de nós mesmas. E que escrevendo posso representar aquelas que me rodeiam-habitam.

*Prefiro queimar o mapa
Traçar de novo a estrada
Ver cores nas cinzas
E a vida reinventar

Não sou adepta das datas, embora perceba o significado delas e reconheço que a coragem da minha primeira professora em uma escolinha rural, no interior de Goiás ganhou raízes em mim, nas minhas irmãs e nas mulheres que entraram em minha vida em todos esses anos. Ainda estamos gritando para que nos ouçam, ainda brigamos por espaços com lugares de fala e ainda, ainda, ainda…
A mulher que me tornei reverencia a menina que sonhava em contar histórias para o mundo.

*E um homem não me define
Minha casa não me define
Minha carne não me define
Eu sou meu próprio lar

A menina daquele tempo sente orgulho das histórias que contei? A minha voz consegue abraçar outras mulheres muito além da data? Ainda busco essas respostas, mas sei que tudo que vivi teve influência de mulheres valentes e conhecedoras de seus poderes. Sou rodeadas de mulheres especiais e vibro com cada conquista delas. Elas são as minas e as manas por quem luto, por quem torço e vibro.

Talvez, eu represente muitas delas em meu espaço… talvez sejam elas que me representam em seus lugares. O que eu, a mulher de quase 57 anos dirá para a de 60/70? Acho que posso dizer uma frase antecipando o que virá: não desista, fique firme e não se cale. Você consegue apesar de tudo! O resto, vou dizer lá, no tempo certo. Vem junto comigo?

Feliz Dia da Mulher Todos os dias!

Mariana Gouveia
participam desse projeto: Lunna GuedesRoseli Pedroso Obdúlio OrtegaIsabelle Brum
Projeto 6 on 6 – Scenarium Livros Artesanais
* Trechos da música Triste, louca ou má, de Franscisco El Hombre.

Das palavras das cartas · Projeto52 · Scenarium Livros Artesanais

Em longas frases, digo coisas particulares, de nós dois…

R,

Dizem que não existe futuro para quem não sabe o próprio passado… e eu sei bem do meu passado e está escrito nas páginas antigas de meus cadernos de poesia que você era meu primeiro amor. Digo era, porque essa é uma lembrança viva e não quer dizer que não te amo mais, mas que eu te amei da forma mais doce que alguém ama na primeira vez.

Te escrevo hoje, porque é seu dia e em todos os anos, nesse dia, sempre me lembrei de você e seu nome ecoava em meu coração como o bater das asas das aves e em longas frases, digo coisas particulares de nós dois e que ninguém mais sabe. Lembra-se de que foi você quem me explicou a mudança das estações?

Da primavera ao verão
Do verão ao outono
E do outono ao inverno
Você sabe quando a estação muda?
sabe exatamente quando o inverno acaba e a primavera começa?

Sua frase ecoa sempre quando alguma palavra me lembra você… ou quando o dente de leão espalha por aqui suas folhinhas como se deixasse uma mensagem dentro da estação em que me perdi de você. A gente era igual e a magia que nos rodeava foi a mesma que nos separou.

Não sei se fui eu ou você quem partiu primeiro… Porque quem parte em silêncio, não grita aos sete ventos que vai embora… de um dia para o outro eu estava em outro lugar e você já não vinha a algum tempo… De repente seu nome foi virando uma doce lembrança e apenas a data de hoje era dedicada a pensar em você.

Eu me lembrava de seu riso, do seu jeito de cavalgar, a maneira de espantar as aves na árvore da frente de casa e do modo que assoviava… Fevereiro era o mês que essa data me trazia você e o mais estranho é que eu nem sabia porquê.

Te reencontrei dias atrás e a leveza do momento me fez sentir gratidão de tudo que vivemos juntos. Você foi a magia que transformou minha adolescência em emoções e você foi o primeiro amor que fez meu coração bater… Mas, a gente se perdeu no caminho e faz parte se perder ou desviar da rota e sempre que  isso acontece a vida nos leva a caminhos interessantes e foi assim que te vi de novo.

Que teus dias sejam feitos de voos intensos e felizes e que a cada curva dessa estrada que você cruza você encontre motivos para sorrir.

Beijo,


Mariana Gouveia
Projeto 52 Missivas
Scenarium Livros Artesanais
Lunna Guedes Obdúlio Nunes Ortega

Colheita · Scenarium Livros Artesanais

Colheita

Desde pequena, o pai a armou de sementes
A parteira que a viu nascer rezou e desejou-lhe o dom
de semear.

Era assim com os irmãos, com as meninas dos vizinhos… com toda a gente que via nas vielas, trieiros e caminhos.
Ria e oferecia sempre potinhos prontos com terra, adubados… e as sementes – germinadas.
Com ramificações a criar vidas.
Ajudava a molhar a terra
A vida, era feita de lágrimas e nem toda semeadura era boa.

Depois que plantava
contava os dias no calendário
Sabia a data exata que o broto surgiria na terra

A folha crescendo…
o olho acompanhando o rito do amor
Acontecia de várias formas no quintal

Mariana Gouveia
Colheita
Scenarium Livros Artesanais
Ph: Xing Jianjian

Scenarium Livros Artesanais

Quinta das Especiarias.

Aproveitei uma tarde chuvosa para me deliciar com Quinta das Especiarias, de Roseli Pedroso. fiz donuts, café e me deixei levar pela leitura deliciosa. A Scenarium Livros Artesanais mais uma vez se superou nesse livro cheio de histórias e sabores. Deixo para vocês, como um petisco, um dos textos que mais gostei e se você desejar adquirir o livro, clica no link.

Flor rara

Ela foi um tsunami de emoções. Passava da gargalhada escancarada a demonstrações de ira que assustavam qualquer um. Principalmente seus filhos.

Passional, atravessou um casamento conturbado por cenas de ciúmes e traições. Mas, não é sobre isso que desejo falar. Não julgo.

Dela, sempre recebi demonstrações de afeto. Além de irmã, foi uma das melhores amigas de mamãe. Nutriram uma amizade profunda e dividiram experiências, dores e alegrias.

Como as demais mulheres de sua época, aprendeu a cozinhar o básico. O que veio a seguir, foi através de seus empregos em casa de família abastada.

Foi numa delas, que aprendeu a cozinhar pratos requintados e apurar seu paladar. O tempero da sua comida era incrível, passei muito bem nas vezes em que almocei em sua casa. Recordando pode parecer bobagem, mas o copo de Toddy que ela preparava para o lanche da tarde, era de extasiar o paladar da criança pobre que fui.
Registrei em minha memória degustativa, a primeira vez que experimentei um prato feito por ela que levava alcachofra, ou como os italianos a chamam “Carciofo”

Fiquei encantada por aquela flor grande, de cor esverdeada, com flor violeta. Aquilo era de comer? Tudo era novidade que se apresentava aos meus olhos curiosos.

Proveniente do árabe al-klarshúf (planta espinhuda), recebeu o nome em grego de cynara, que, segundo uma lenda antiga, foi uma jovem que rejeitou Zeus e por isso, foi transformada em planta.

Com uma história tão bonita, só pode ser gostos, não é mesmo? Foi a primeira de muitas vezes que saboreei. Até uma pizza encarei!

Ao lado dess família italiana, ela aprendeu a preparar alcachofra de diversas formas. Desde o tradicional “alla Romana”, passando pela “alla giuda”, fundo de alcachofra recheado, petisco de coração de alcchofra… Mamma mia!!

Outro dia, revirando o baú de fotos antigos, encontrei diversos álbuns com fotos dela, presente nos encontros familiares. sempre com a boca escancarada numa risada franca. Sempre na cozinha.

Ah… Tem momentos que recordar chega a apertar a caixa torácica… Às vezes, a saudade, perde mão e tempera nossas memórias com excessos de sal.

Roseli Pedroso
Quinta das Especiarias
Scenarium Livros Artesanais

Colheita · Scenarium Livros Artesanais

Colheita

Descobriu que a terra devia sentir o gozo com o toque das mãos
Feito a pele… em noite de lua.
Tem lua que é ideal
para semear… e gemer!
Em noite de lua cheia,
toda loba uiva ao semear
desejos no corpo.

Ao semear, cantava e seguia o rito das águas
A terra – em alguns períodos era árida.

Molhava os dedos com a língua e
… e ia jardim afora florir
a flor absurda do prazer.

Mariana Gouveia
Colheita
Scenarium Livros Artesanais
Ph: Pinterest

Scenarium Livros Artesanais

Das coisas mais lindas que fiz parte!

Estrada para domingo é mais um projeto da @scenariumlivros como parte de Scenarium 8.
Daquelas lindezas que encantam minha alma, desde a capa, os autores, os textos e as ilustrações!!! Surpreendente e encantador!

Conto outra vez…
Como é tão bonita a rua de cima
enfeitada de flores….

Espiei mil vezes pelo vão do muro…
Alguém me disse – que é assim que a saudade se chama:
Devaneios…
E eu repito a palavra mil vezes em voz alta para ver se faz sentido…

Mariana Gouveia
Estrada para domingo
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · Projeto52

Eu me lembrei de você, em mim

Ana,

Abri as gavetas hoje e fazia tempo que eu não tocava em suas coisas…  A cômoda ficava sempre ali, no canto, muda e eu ignorava o chamamento dela…

Confesso que, vez ou outra alguma fragrância escapava dali e me trazia a memória lembranças suas… mas, hoje, talvez por causa de fotos que recebi do meu livro passeando pelas ruas de Paris achei que devia vasculhar alguns momentos e tocar nas coisas que você tocou e eu me lembrei de você em mim.

Já faz tanto tempo e as coisas continuam tão iguais… nem os envelopes amarelaram e a camiseta com dizeres em inglês e que eu esqueci a tradução ainda tem o cheiro do amaciante como se tivesse sido lavada ontem.

Os papéis de bala – por que a gente guardou isso? – e os palitos de picolé estão intactos e pensando em uma faxina joguei no saco de lixo para pegar logo depois e devolvê-los para o saquinho de pano que bordei.

Em alguns dias, durante esses anos todos houve dias em que cheguei a te esquecer e a cômoda nem era incômodo no canto do quarto… O quadrinho com o poema de Ana Hatherly que você gostava: “há uma benção divina no esquecimento” me tocou como se fosse sua mão… e tem dias que lembrar é um sopro na alma, como hoje. Eu poderia escrever mil cartas só hoje contando coisas do dia a dia, mas imagino você subversiva mudando esse infinito todo com os pés na lua e a cabeça em Marte e é assim que me lembro de você…

Por fim, guardo tudo no lugar e devolvo o saco de lixo vazio no porta-saco e canto baixinho a canção que você gostava e vou ali, viver a vida.

Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
Ni le bien, qu’on m’a fait
Ni le mal, tout ça m’est bien égal

Beijo meu

Mariana Gouveia
Projeto 52 Missivas
Scenarium Livros Artesanais
Participam desse projeto:
Obdúlio Nunes OrtegaLunna Guedes

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Em 2021 eu…

…vi o jardim florescer e brotar de uma forma única dentro dos dias. Como atravessar 365 dias tão distintos e descrevê-los em apenas 6 fotos? Como falar das dores – que nos fazem mais fortes – e das alegrias em momentos que se disparam através do click da câmera – seja ela do celular ou DSL – e não ficar faltando coisas para dizer? Vou tentar transformar em imagens os sentimentos que divido sempre aqui, com vocês.

… vivi os voos e pousos de Chiquinho – meu beija-flor – que se tornou mais possessivo ainda do seu quintal… como foi um ano de ficar em casa, pude desfrutar mais da companhia dele que continua com seu chilreio por aqui.

… pude cuidar e aproveitar também das companhias de Lolla e Yoshi, que viraram grude onde quer que eu fosse… foram alentos para os dias difíceis e alegria nos dias bons.

… fui arte, artesanato, fui choro e sorrisos… fui fé e fui vacinada levando comigo a emoção dos que não puderam ser…

… fui escrita, fui Casa Cheia, Casa de Marimbondo, Mulher Proibida, Delírios Comunistas, Roteiros imaginários e tantos outros… Fui poema, palavra e poesia… Fui Colheita… Fui Scenarium…

… e fui emoção construída em Colcha de Retalhos… Onde me encantei com a saudade e continuo sendo esperança no amor em todas as suas formas e nuances…

E nesse novo ano que já se forma dentro dos dias, com seis folhinhas arrancadas do calendário desejo que você seja fonte de inspiração para seguir adiante. Sei que não teremos dias fáceis pela frente… Mas, sei que conseguiremos transformar 2022 em um ano melhor… Que em 2022 sejamos mais feliz!

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam desse projeto:
Roseli PedrosoDarlene Regina Obdúlio Nunes Ortega Lunna Guedes