Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Me despi de tudo

desisti do arrependimento faria tudo de novo.

*Adriana Aneli (o sol da tarde)

Leonor,

essa é a última carta que te escrevo… sabe quantas vezes eu já te escrevi uma última carta e não cumpri a promessa? E as que rasguei sem enviar? E as que ficaram apenas como nota mental? E as que viraram rascunhos e as que embolei e joguei fora? Foram tantas, Leonor!

Embora, eu pretenda que esta seja a última, tenho certeza de que em alguma noite acordarei e te escreverei de novo. Pode ser que nem coloque em envelopes, mas ainda assim, suspiro aqui e reafirmo que é a última. É a última das últimas, é a última da 13ª que havia sido a última.

Acontece que hoje acordei pensando em você. Um poema que li ontem me fez lembrar da gente e daí, mais uma vez, recaí. Tem sido assim, nos últimos anos. Ainda ontem, eu tinha os dias marcados na agenda. Eram mais de 10.500 dias…. folhinhas arrancadas uma a uma e guardadas no meu baú de memória. Mas, dessas, eu consegui me livrar. Coloquei tudo em um saco preto e justo quando o carro do lixo passava joguei dentro, para não correr o risco de pegar de novo. Quando me arrependi, o caminhão já virava a rua de cima. Fiquei eu, parada no meio da rua, com gosto de sangue na boca, como quem perdeu uma vida. Depois, entrei e fui ler o poema de Adriane Aneli:

Para não acabar o jogo mudei as regras
abandonei as ruas para velar seu sono
cruzei a estrada
acompanhei o cortejo
por amor desci mergulhei tão fundo
despejei o passado
desalojei lembranças
feri gritei desaprendi a andar
me despi de tudo
desisti do arrependimento
faria tudo de novo

De repente, Leonor, vieram todas as lembranças juntas… uma empilhada na outra, como filme, desses que revelamos entre risos e carinho. Lembrei-me de você debaixo da chuva morna, contando que meu lugar era igual ao que você nasceu e eu apenas sorri. Vibrei por isso nos ligar de alguma maneira. Lembrei-me da camiseta branca grudada no corpo revelando o seu corpo enquanto as gotas da chuva te bebiam.

Confesso que busquei notícias suas. Algumas perguntas me assolam sem que eu saiba as respostas – morreu? casou-se? apaixonou-se por alguém? – qualquer coisa é melhor que esse silêncio, essa falta de notícias, esse vazio da caixa de correios, sem respostas… apenas um vazio das coisas.

Eu ainda continuo olhando as manchetes do Diário de Notícias de sua cidade… quem sabe, não aparece alguma coisa sobre você. Hoje, exaltam o feminino no poder e a dúvida entre sardinha, atum ou feijão e a duração de conservas. Falam de cinema, arte e Saramago, mas nada de você.

Se pelo menos um pequeno bilhete chegasse, com uma ou duas frases de adeus… acho que bastaria. Ou se de repente, do nada, uma mensagem viesse como se você nunca tivesse se afastado. Eu juro, Leonor, que recomeçaria tudo de novo, sem arrependimentos, sem dramas. Eu faria tudo de novo, para de novo viver você

Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins
Ph: Jerry Uelsmann

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Pode chover a qualquer hora

e o sol surgir forte em minha manhã laranja

Luci,

vi que você foi no último show de Milton. Quase segurei sua mão num aceno onde seus olhos brilhavam. Nesse dia choveu aqui, Luci e enquanto a tv transmitia o evento eu via as gotas dançando na janela, como se estivessem acompanhando a música, como se já soubessem da despedida. Esses dias de novembro têm sido estranhos. Já tive todas as estações nesses 15 dias, Luci. Teve frio, calor, vento, temporal, chuva e sol…. muito sol.

A moça do tempo aqui, de vez em quando, erra a previsão… por isso, acho que virou rotina a velha frase: pode chover a qualquer hora… e até inventei um poema no meu livro O lado de dentro, dizendo que eu entendia de meteorologia. Isso de chover a qualquer hora me causa confusão, Luci, pois preciso ficar atenta ao guarda-chuvas. Confesso que sou apaixonada por guarda-chuvas, mas também sou atrapalhada com eles.

Já esqueci tantos em vários lugares que o Seiko – um dia te falo sobre ele – me disse que eu poderia montar uma loja bem grande com os que perdi e quando dizem que pode chover a qualquer hora penso no bendito guarda-chuvas. Embora, mesmo quando não chove tenho de usá-lo por causa do sol, por isso, implico com a moça do tempo por aqui.

Acho que prefiro o método que meu pai me ensinou sobre o tempo. Já te contei, Luci, que meu pai sabe quando vai chover um dia antes de acontecer sem sequer conhecer a ciência da meteorologia? Um dia, vendo as formigas indo em carreirinha para o formigueiro, ele disse: amanhã chove! E pronto, não deu outra, Luci. Na manhã seguinte amanheceu chovendo.

Meu pai tem a ciência das águas, Luci. Desde menina, eu o via com uns gravetos a procura de lugar para furar o poço. Vinha gente de tudo quanto é lugar para ele descobrir por onde a água fluía e lá ia ele, campo adentro com os gravetos na mão e em determinado ponto parava e dizia: aqui! E bastavam cavar ali que a água jorrava. Eu achava isso um poder tão grande, que chegava a pensar que meu pai tinha o poder da água benta da igreja. Vê se pode isso, Luci?!

Mas, eu entendo a moça do tempo, Luci… nem sempre a previsão acontece como ela anuncia. Há fatores fora do controle de quem olha o céu através de instrumentos. Eu mesma, daqui de onde estou posso dizer que hoje pode chover a qualquer hora, Luci e o sol surgir forte na minha manhã laranja. Isso, até eu posso prever. Agora, outro Milton, Luci, não acontecerá mais. Restará apenas as canções feitas de pura poesia para a gente desfrutar.

Beijo meu,
Mariana Gouveia
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Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Em delírio me transporto ao limbo

Maria querida,

Hoje escureceu mais cedo por aqui… também choveu o dia inteiro e a rua ficou deserta. No meu quintal, as sombras se projetaram como se os galhos ganhassem vida, as roupas ainda úmidas no varal e o pássaro – que parecia perdido em seu canto – no canto do muro.

Lembra de como a gente falava dessas noites estranhas em que o medo é muito maior que a coragem? Acho que hoje ela aconteceu por aqui. Li o poema da minha tão minha Katia Castañeda e vi ali nossa conversa, Maria:

E se durante a noite ela vem
e me toma
Me cega e eu
Em delírio me transporto
ao limbo
Dos inquietantes sintomas
Com final e sem luz
Nesse túnel
Psico ansiolítico
da noite longa

Teria de ter sido eu a te dizer que a rua de cima ficou vazia o dia inteiro e que essa escuridão é tão sua como minha. Eu vi em seus olhos, Maria, essas coisas de mar aberto que você traz no peito em noites assim. Essas coisas internas suas que você carrega e solta por onde anda, como se despejasse vontades para além de onde veio. Como se uma noite escura durasse uma eternidade.

Sabe, Maria… já te falei das minhas noites frias e brancas em cartas? Já te contei sobre os monstros que em algumas noites se transportam para o meu quintal quando não tem lua? Foi por isso, que comprei lanterninhas e espalhei pelo jardim, para que o escuro não predominasse por aqui em noites assim e que junto com as lanterninhas, os vagalumes também brilhassem.

Lembro-me de que você riu e achou graça da palavra vagalumes e pronunciou bem baixinho a palavra pirilampos e ficamos horas a rir disso. Nessa noite – recordo-me – que não houve delírios nem medo. Apenas o sussurro de uma palavra ganhando cor em nós.

Por isso, antes que escureça mais ainda resolvi te escrever e te lembrar do som das asas dos pirilampos a voarem por entre as lanterninhas que coloquei por aqui, só para que você saiba que a luz acaba com as sombras. Mesmo as que insistem em habitar dentro de nós.

Abraço carinhoso,
Mariana Gouveia
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Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Carta grifada

Querido diário,

Escrever é parte de um ritual de todo dia. Às vezes, o papel e caneta ficam obsoletos no canto da mesa e a opção é o teclado.
Diante do desafio de escrever sobre as palavras mais comuns do meu vocabulário me sento e repito o mesmo ritual. Aí está uma palavra que uso muito – você sabe bem – ritual.

Levanto-me cedo e vou seguir o ritual do café. Ligo a cafeteira – somente nos fins de semana que mudo para o ritual do coador de pano, mas isso, é outra história. Enquanto a luzinha pisca, seleciona o ristretto de sempre.

Depois do café feito, enquanto os olhos passeiam pelas notícias do dia, é hora de viver o ritual do quintal – outra palavra tão comum em mim – com a xícara na mão… quem sabe, mais um café? – você conhece bem essa palavra por aqui. Basta vasculhar as folhas escritas e deve ter em média umas quinhentas mil vezes escritas, ouvidas e faladas – café. A própria palavra quase me define.

Sabe, diário, o quintal me pertence e eu a ele. Molho as plantas, retiro as folhas secas… Adoro varrê-las… a sinfonia que elas fazem é música para meus ouvidos. E vem a palavra música que repito tanto aqui… vamos ouvir uma música? Vamos dançar essa música e assim, a musicalidade alcança meu dia.

Meu bebezinho… e já adianto que falo isso para o Chiquinho – meu beija-flor – que me acompanha em voos quando grito por seu nome. Chamo assim Yoshi também e essa é outra palavra que se tornou comum por aqui: onde anda Yoshi, Lolla? Cadê meu bebezinho? Isso acontece todos os dias e em grande parte da manhã…

Quem chegou? – essas palavras causam grande euforia nos cães, e repito várias vezes, que já é comum.

Falo vento, pensamento e até calor… de futebol… de fisioterapia e você sabe do que estou falando… Os movimentos limitam-me na escrita com você.

Ah, são tantas as palavras que falamos que a experiência se torna estranha. Anotar a mais usada é quase clichê… sabe qual é a palavra que mais eu repito por aqui? E serve para quase tudo que busco e penso: cadê? Cadê pai, cadê Yoshi, cadê Lolla, cadê a lua? cadê meu telefone, cadê minha linha, cadê minha agulha?!!! Isso não quer dizer que eu não seja organizada e não saiba onde guardo ou deixo as coisas… Na maioria das vezes, as coisas estão nas minhas mãos ou ao alcance…Cadê meu diário?

É assim, diário, que finalizo com um beijo e vou ali no quintal ver se tem nuvens com formato de amor.

Beijos,
Mariana Gouveia
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Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

ato feito com defeito humano já vem ser: traço falho

ser falho
não dá para ser humano
já vem traço feito
perfeito ato
: com defeito

traço perfeito
não dá para ser feito
ato falho
já vem com defeito
: ser humano

Rozana Gastaldi Cominal

Oi, Mundo,

já dá para parar com isso? Até quando a gente ainda vai se sentir fora de você? É assim que me sinto quando vejo pelas redes sociais/tvs, sites e jornais… Parece até que estou fora do mundo.

Em algumas imagens – divertidas por sinal – eu observo o traço falho que Rozana tão bem descreveu no seu poema. Não dá para dizer outra coisa. Desde quando estamos vivendo essa loucura dúbia entre o certo e errado? Em algumas matérias das mídias – deprimentes por sinal – penso que aquela parte de que achamos piada em tudo é verdade. Conseguimos até rir de coisas que nos faz sentir nojo. Temos essa leveza – talvez corroída pelos quase quatro anos de vergonha – de transformar o fútil em memes.

Não são ideais diferentes, nem ideias divergentes. É falta de humanidade, falta de senso e de respeito e a cada dia que passa, o que já era para ser normal e a vida seguir adiante… não! A gente vê falas de pessoas que fazem parte da mídia como se fosse normal. Ver atos horrendos nas ruas e até perto de casa. Alguém pode chamar um psiquiatra aí?

Será, Mundo, que o direito de expressão dá o direito para o outro ser misógino, preconceituoso, racista, machista xenófobo e tudo mais que a gente ouve-ler-ver hoje em dia nas ruas? Pessoas que se apossaram do verde amarelo da nossa bandeira trancam as portas de quartéis, estradas, impondo força, violência e medo. Ameaças que se transformam em ações aos nossos olhos e não podemos fazer nada.

Em alguns atos, o que vi, além de me chocar me fez pensar que ou estou no mundo errado ou são eles que estão. Não posso compactuar com uma jornalista que nem vou citar o nome, dizer em alto e bom som, de posse de um microfone em uma das emissoras de maior audiência – se não, a maior – do Brasil dizer que a esposa do presidente eleito não deveria preparar a posse e sim limitar seu papel ao quarto do casal. É constrangedor ver esse tipo de fala de voltando de uma mulher para outra mulher. Será que algumas pessoas já vieram com defeito ou alguma coisa as transformaram no que são hoje? Aa briga é pelo poder ou pelo que?

O último verso de Rozana me faz entender que o defeito estava ali, ato falho de figuras humanas que não tem o menor senso de respeito.

traço perfeito
não dá para ser feito
ato falho
já vem com defeito
: ser humano

Pare aí, Mundo, que eu quero descer!
Mariana Gouveia
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Das palavras das cartas · infinitamente · Scenarium Livros Artesanais

Ainda há silêncio nessas horas pequenas.

Gal,

Como a gente escreve para uma estrela? Como se sobrepõe a palavra artista-mulher-divindade-transformadora em uma só palavra? Eu uso a voz para falar de você. Eu, ainda era a menina da roça que ouvia no velho motor rádio do meu pai – tão acostumado a ouvir o sertanejo raiz – sua Festa do Interior.

Mas, até aí, só de sua voz eu sabia e lembro-me que em meados de 79 chegou uma revista, já com as folhas e capa puída e lá estava a nova face de Gal em polvorosa, com todo esplendor.

Ainda me lembro do encantamento que senti naquele dia. Eu tinha 14 anos, a liberdade já rondava minha mente e sua coragem em cada palavra que eu lia e repetia comigo que queria ter essa determinação de fazer a diferença onde quer que eu estivesse. Posso dizer que você foi a minha primeira musa e referência forte no sentido amplo de ser mulher.

Em 82 consegui meu primeiro no rádio, já em Cuiabá. Meu primeiro contato com a rádio foi na discoteca da emissora, juntamente com o sonoplasta que me dava dicas sobre os discos-LPs e lá estavam vários seus. Mas o mais recente tinha a magia da Festa do Interior. Com a faixa mãe dizia; – Fata – tal – Gal a todo vapor.

Ali, entre recortes de jornais descobri que havia músicas suas gravadas no ano em que nasci. Eu entendia a música de ouvir e aquele pequeno LP, modificado do original pela Poligram – a gravadora na época – trazia toda a magia das canções que eu ouvia em rádio. Ali, tinha Assum preto, Sua estupidez, Não se esqueça de mim, Fruta gogóia e mais tantos outros sucessos.

Sabe, Gal, hoje foi o dia de te guardar dentro do baú do coração. De meditar nas coisas ditas em melodias. De transformar a artista em eterna. A partir de agora, é te perpetuar única com a voz de cristal.

Hoje, peguei o verso da poeta Nirlei Maria de Oliveira, do poema Palavr(Ar) para dizer que o silêncio dessas pequenas horas acontece só aqui. Em algum lugar você será só luz.

Gratidão por nos deixar maravilhas em sua voz!
Vá em paz!

Mariana Gouveia
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Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Diferente da maçã envenenada…

a dor incurável da inveja mata a prazo
Um monstro nascido pela falta de
Des-amor

Lua souza

Leonor,

hoje lembrei de você e tem sido cada vez menos… mas, quando isso acontece é como se todos os dias do calendário tivesse sido de lembranças suas. Porém, hoje, foi um daqueles dias difíceis de viver.

Acho que reparei melhor na bandeja de fruta em cima da mesa e só havia uma maçã. foi aí que as lembranças vieram – o amor comeu as frutas postas sobre a mesa – frase de um poema que você recitou e justificou a frase declamada esculpindo um coração na fruta.

Senti inveja da fruta, você sabe, que foi sendo presa fácil em suas mãos, ganhando contornos delicados pela faca de mesa.

Lembro-me do instante, do sabor da fruta cortada aos poucos destruindo o coração feito de amor. Acho que foi ali, Leonor, que você começou a cortar meu coração. Dias depois veio a partida, a despedida, as ausências sem explicações e aquela história de que seu amor era mais bonito que o meu.

Depois disso, vi seu riso em uma foto tirada de frente do seu carro pequeno. Ainda tenho ela guardada no baú, impressa em preto e branco, porque morri de inveja de quem tirou a foto. Já ensaiei mil vezes rasgá-la e no último instante a salvo, como se não rasgando o embate no interno de mim da espera, ficasse mais fácil.

Sabe, Leonor, a maçã é a única fruta que não como depois daquele dia. Mas quando a vejo assim solitária, na bandeja de frutas, eu a toco. É como se com isso eu pudesse estar mais perto de você ou até mesmo matar a saudade que a fruta sente, mesmo não sendo essa a maçã esculpida por suas mãos.

Acho que, assim como eu, diferente da maçã envenenada, ela também sente inveja e sofre com seu desamor.

Mariana Gouveia
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Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Confesso não percebi o momento de nossas mãos algemadas

Tentei me separar enquanto você me levava
e me divirto agora que não podemos nos separar
um do outro
Adriana Aneli

Amor,

quando li o poema do tema de hoje pensei em você e de nossas rotas nessa avenida louca da vida. De como nossas mãos se encaixaram nos momentos de dores. Lembro-me de você ter dito, em uma noite dessas em que a dor era maior do que minha vontade de lutar: segurar a mão na hora da poesia é fácil. quero ver é nessa hora, se as nossas cumprem o requisito de nos fortalecerem.

Naquela noite, você simulou colocar um par de algemas em nós e desde então, não podemos nos separar. A gente ultrapassou e ultrapassa várias coisas alheias a nossa vontade. A gente já riu tanto juntos e já choramos também.

Já estivemos quietos, já gritamos ao vento e não foram poucas as vezes em que me acompanhou nas viagens doidas de meu espírito liberto. Você sempre foi o sublime ali, à espreita de mim. A me guiar, me proteger. Você é o companheiro das conversas longas, dos risos fáceis e a mão que coça as costas. Do abraço que encaixa e da vontade louca de falar de jogo.

Sabe, amor, você é o que abre as portas, que apaga as luzes, que tira o cílio quase caindo no olho e o que me enxerga poesia mesmo sem entender dela. É o meu canto de espera, meu riso de chegada e é o que me encoraja mesmo quando odeia me esperar. Você enxerga o encanto antes dele acontecer e hoje, mais do que todos os outros dias eu precisava te dizer isso.

Dizer que te amo é saber que isso não te livra do turno da noite quando o amparo briga com seu sono, nem quando minha ansiedade briga com suas piadas. Às vezes, sou só monólogo… mas quando te olho, você está ali, sorvendo minhas palavras como se bebesse um cálice. E quando a magia dos pousos é encanto demais para mim, você faz valer as algemas e vibra comigo o instante.

Grata imensamente por me amar!

Mariana Gouveia
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Das palavras das cartas · O lado de dentro · Scenarium Livros Artesanais

Guardo-te na caixa de segredos como se joia fosse…

e espio-te com lupas microscópicas.

Bambina mia,

houve lua de sangue no meu céu nessa madrugada e eclipsou no meu quintal. E, claro que escrevi essa carta mentalmente madrugada adentro enquanto pensava nesse poema de O lado de dentro, que é o tema desse dia 8 de novembro.

Nossa! E de repente a gente se assusta! Já aconteceu novembro e os dias correm como se tivessem pressa. Esse novembro já teve de tudo aqui, bambina… já choveu, já esfriou, e o calor voltou novamente nessa terra do sol onde moro. E enquanto te escrevo o céu se veste de nuvens em tons dourados, anunciando mais um fim de tarde quente e seca por aqui.

Vasculho o quintal enquanto converso com você. Lembrei-me de como escrevi o poema O encontro entre o sol e escorpião. Havia chovido naquela noite e quando amanheceu a gota guardava a flor como se fosse joia. Era um outubro qualquer e o sol entrava em escorpião. Eu quis justificar o decanato, a astrologia e o eu lírico e ainda assim falar de amor. Foi tudo que senti quando vi a gota, querendo guardar dentro de si, a flor.

Depois que o sol nasceu naquele dia, bambina, a flor sorveu a gota como se quisesse guardar ela em uma caixa de segredos e só ela sabia o sentido pleno disso. O poema nasceu ali, depois… ganhou vida em livros que você costurou…

E hoje, renasce em uma frase que te absorveu. É assim que um poema se espalha. Entre generosidade de pessoas e acolhida de quem lê. E quando alguém lê, em qualquer momento do dia o poema ganha a forma de amor e vivifica o instante em que ele foi criado.

Grazie mille por isso!
Amo tu imenso ❤
Mariana Gouveia
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Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

É tanta loucura que anda na bohemia da minha imaginação.

É tanta loucura que anda
comigo
Os amigos que palavreiam
Que jogam conversa fora
na bohemia da minha imginação
Katia Castañeda

Katia, minha rainha,

Quando a tarde se apossou do meu quintal e o pássaro de todo dia se aquietou, alaranjou aqui. Labareda fagulhou em meu coração na frase de seu poema escolhida pela bambina mia.

Foi quando me permiti buscar Labareda e absorver o instante que sua poesia transmite, mas também a eternidade nessa posse da alma. É o distinguir do voo – a asa – a ave – o pássaro – e foi aí que meu Chiquinho veio sendo afago e me lembrei do nosso primeiro abraço.

Acho que já falei em algumas oportunidades sobre nosso primeiro encontro. Pensei que estava tendo uma visão. Para mim, ali, a poucos metros de você, eu via uma entidade. A força da mulher preta gritando forte pelos poros. Eu fui encantada por você. E ganhei o carinho delicioso de ser sua dinda.

Aqui há tantos sabores
E recordações
Uma infinidade de sensações vividas
e ainda não descobertas

Cutucar o fundo da terra
Verás como há vida
– e ela –
sutilmente surgirá
Atine seu olhar

*Labareda tem essa força do abraço, de tocar, de afagar, de instigar, de mexer a terra, o ar até se tornar labaredas. Queima ao mesmo tempo que aquece. Toca, ao mesmo tempo que afasta. É místico e singular. É doação, ao mesmo tempo que nos rouba a alma.

Sabe, Katy, eu digo que sou abençoada porque o universo me presenteia sempre com pessoas que me tocam. De uma forma ou de outra. E você, chegou assim, abrupta e como um furacão me sorveu. Te olhei e pensei: quero ela para minha vida toda e aqui estamos.

Para mim, você é um ser especial. Mesmo que não estejamos tanto em contato, te sei ali, aqui, perto para mim e sei que quando te encontrar, será como se nunca tivéssemos longe uma da outra.

Te reverencio e te denomino minha rainha não só pelas poesias, mas pela força poderosa dessa mulher que admiro muito.
Grata infinitamente,

Mariana Gouveia
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