Maria querida,
Hoje escureceu mais cedo por aqui… também choveu o dia inteiro e a rua ficou deserta. No meu quintal, as sombras se projetaram como se os galhos ganhassem vida, as roupas ainda úmidas no varal e o pássaro – que parecia perdido em seu canto – no canto do muro.
Lembra de como a gente falava dessas noites estranhas em que o medo é muito maior que a coragem? Acho que hoje ela aconteceu por aqui. Li o poema da minha tão minha Katia Castañeda e vi ali nossa conversa, Maria:
E se durante a noite ela vem
e me toma
Me cega e eu
Em delírio me transporto
ao limbo
Dos inquietantes sintomas
Com final e sem luz
Nesse túnel
Psico ansiolítico
da noite longa
Teria de ter sido eu a te dizer que a rua de cima ficou vazia o dia inteiro e que essa escuridão é tão sua como minha. Eu vi em seus olhos, Maria, essas coisas de mar aberto que você traz no peito em noites assim. Essas coisas internas suas que você carrega e solta por onde anda, como se despejasse vontades para além de onde veio. Como se uma noite escura durasse uma eternidade.
Sabe, Maria… já te falei das minhas noites frias e brancas em cartas? Já te contei sobre os monstros que em algumas noites se transportam para o meu quintal quando não tem lua? Foi por isso, que comprei lanterninhas e espalhei pelo jardim, para que o escuro não predominasse por aqui em noites assim e que junto com as lanterninhas, os vagalumes também brilhassem.
Lembro-me de que você riu e achou graça da palavra vagalumes e pronunciou bem baixinho a palavra pirilampos e ficamos horas a rir disso. Nessa noite – recordo-me – que não houve delírios nem medo. Apenas o sussurro de uma palavra ganhando cor em nós.
Por isso, antes que escureça mais ainda resolvi te escrever e te lembrar do som das asas dos pirilampos a voarem por entre as lanterninhas que coloquei por aqui, só para que você saiba que a luz acaba com as sombras. Mesmo as que insistem em habitar dentro de nós.
Abraço carinhoso,
Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins


Os pirilampos, que eu prefiro chamar de vaga-lumes, que não vejo há anos, vejo em suas palavras, Mariana…
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Aqui no meu quintal tem bastante até.
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