Corredores, Codinome Locura

Gosto de te ver calmo.

Gosto de te ver calmo
Voando, indo
gosto do bater manso
de tuas asas
e do calor com que me aquece

do jeito com que se aproxima
Eu me perco em teu vão
e já escurece
me acho só

e nunca te encontro
Te procuro na noite
e percebo que dormes
sereno, sereno sonhando

Eu me vejo voando
e busco teu voo
mas não te domino

sei tuas verdades
mas não te decifro
pois escondes com certeza

a chave do meu quebra-cabeça

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

as incontornáveis luas de junho

Incontornáveis luas de junho IA lua daquele dia não me sai da cabeça.

Ardia quase,chamando atenção sobre si.

Incontornáveis luas de junhoAinda a sinto tonta,vagando entre uma árvore e outra buscando espaço leve num telhado ou escondida por detrás de uma nuvem.

incontornáveis luas de junho IIIAinda a vejo quase disfarçando cores entre um pedaço do céu.

DSCF5836Ainda surge em fases diferentes e metade/cheia metade/vírgula e finda-se no horizonte.Me deixou cheiro de manhã orvalhada com sol desmanchando lágrimas nas flores.
Como as incontornáveis luas de junho buscando itinerários nos olhares teus.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

O ar tem cheiro de hortelã.

O ar tem cheiro de hortelã...ou borboletas.Não sei.

A cozinha é um pedaço da casa onde eu gosto de ficar.

Ali, tudo cheira a ela.

Uma mulher no canto me vigia mesmo sem presença física.

Converso com ela.

Ela reflete no chá que bebo.

Acho que de hortelã – não me lembro… –

Canto canções que falam de amor.

E entre as palavras a chamo.

E ela quer saber a noção exata do que sinto.

Ainda não aprendi a traduzir isso. Imito o vento.

Preciso de palavras novas. Mas, é sempre a mesma que me lembro de quando penso nela.

Encanto.

O ar tem cheiro de hortelã… ou borboletas. Não sei

Perdi um pouco da memória de mim.

Encontro-me nela e nesse vago encontro com a essência que ela deixou aqui…

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Girassol plastificado

girassol plastificado 2

I

Um beija-flor veio beijar a flor

bem no meu quintal

Mas,foi mal…

O girassol plastificou

Por falta de amor ou falta de sol…

II

Eu não tive nenhuma alegria
depois daquele dia
que o beija-flor voou
e não mais voltou

III

Eu preciso de um jardineiro sim
Pra cuidar de mim e do meu jardim…

IV

Agora eu vivo sempre na janela
vendo a lua bela
em fase vírgula…

V

Da janela observo a lua
lembro que sou sua
e quero entender
o que fez o girassol morrer
se foi por você
ou pelo beija-flor que nunca mais voltou…

VI

As flores não perfumam mais
nem as estações são iguais
ao que era antes
do beija-flor voar
pra não mais voltar

VII

Os caminhos não trazem ninguém
e a lua vem,em forma de vírgula
num céu azulado

VIII

Eu preciso de um jardineiro sim
pra cuidar de mim e fazer brotar
o girassol plastificado

**
PS:Como gosto de ser abraçada
Por estas coisinhas mínimas!

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Inanimada

Inanimada

Talvez a minha grande frustração seja não ter aprendido andar de bicicleta.
Era meu sonho, aquela toda rosinha, com a cestinha na frente. Uma só minha!
Mas como os irmãos eram tanto, e naquele ano a colheita não havia sido tudo aquilo que meu pai esperava o que apareceu foi uma imensa – aos meus olhos de menina – vermelha, sem acessórios e categórico meu pai disse que era de todos, o tal presente mantido em segredo até a caixa se abrir.
Meu irmão mais velho já saiu em disparada e os outros correndo atrás marcando a vez na fila. Éramos sete, ao todo,sem contar nos meninos dos empregados que viviam mais ali com a gente do que na casa deles.
No fim do dia, ainda não chegara minha vez e quando chegou, não se podia mais pedalar porque já era noite.
No dia seguinte, nova tabela de uso foi feita e eu, lá pelas tantas depois do décimo. Mas na minha vez, ninguém dos mais velhos podia me ensinar e o pedal era longo para minhas pernas curtas.
Rompi de vez meu desejo de andar nela. E quando via os meninos de joelhos ralados dos tombos, aí que não mais queria nem passar por perto. E meu nome nunca mais foi pra lista.
Ela, coitada, foi abandonada tão logo chegou outro presente mais novo. A  bola.
Ficava ali indiferente, encostada embaixo de uma árvore, à espera
E deixou de ser meu objeto de sonho e passou a ser meu objeto de desdém.
Quando em tropel, eu passava por ela,  montada no meu cavalo eu ainda,esnobava, ela ali, inanimada…

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta à Janeiro

Carta à Janeiro

Desta vez, trago-lhes notícias do mundo real.

Ele é muito real.
Nem tão feio quanto dizem e nem menos assustador do que pensávamos. Mas descontínuo e mais intrigante que o telescópio newtoniano. Há tanta ainda, mágica no ar, que eu poderia sufocar.

Agora, chove manso, o aroma que se desprende das folhas do esbelto eucalipto, invade as janelas que entardeceram de asas abertas. Só assim te escrevo. Quando o vento ganha algum perfume.

Por falar em árvores, as que foram plantadas por toda a extensão da minha rua que tem nome de Lagoa, gosto de destacar, floriram.
Uma vizinha palpiteira deu de me chatear dizendo que não eram plantas de florir, mas esta semana ao abrir a janela, alí estavam sorrindo rosa-claro. Eu ralharia-lhe o engano, não fosse seu sumiço deveras oportuno. Cheguei até a pensar que flores eram seres extremamente vingativos e de audição apuradíssima. Não fosse pela chuva delas que tomei numa sexta-feira destas passadas, indo ao trabalho. Uma região de árvores centenárias. Ventava fresco e as florzinhas amarelo-ouro das altas Tipuanas iam desprendendo-se de seus galhos, quase que em câ…me…ra len… ta, e caindo por cima da vida da gente que passava. Por Deus, quase cantei o Hino Nacional! Há coisas que só acontecem neste país. Penso eu, em minha humilde bagagem de quem só visitou Piraporinha do Bom Jesus.

Dalí em diante, pensei que em Janeiro eu seria feliz. Não que já não seja. Mas não é desta felicidade amiúde que eu falo. É bem outra. Ando até a conferir a sinastria, porque acredito que entre as doze constelações, uma combina com a minha.

Reformei algumas esperanças. Inventariei sonhos antigos por ordem de importância, não data. Comprei selos. Escreverei para longe e para aqui do lado. Só pelo capricho de dar mais poesia à vida dos carteiros.

E se o amor inquilino quiser entrar. Eu deixo ficar.

Zidna Nunes Ou Ziris