Corredores, Codinome Locura

A manhã surgiu rodeada de nuvens.

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Contei os dias de espera.
Eram muitos e não couberam nos dedos.
Um pássaro surgiu amedrontado do nada. Um gato espiava o feito da janela vizinha.
No telhado, as mangas caíram com o vento que cantou seu nome a noite inteirinha.
Havia cheiro de maresia nas cortinas, nas palavras que a canção entoava. Havia você ali em tudo que é vontade.
Li poemas antigos que eram seus. Que são seus.
Lembrei do gosto do café em sua boca. Da palavra estranha dita em outro idioma.
Você bebia sol nas manhãs que eu te dava. Como se fosse pílulas para curar a solidão.
Hoje, olho o frasco vazio e cheio de saudade.
Nada cabe em mim na imensidão das coisas. Tudo é essa presença vazia da palavra.
Tudo que te mando volta como se fosse recusa.
E cada dia morre em mim a esperança.

Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr

Corredores, Codinome Locura

Era

Era
.

era para falar de voos

mas não tinha asa

virou mensageira dos ventos

pousou chão

folha
era para ser árvore

mas não tinha raiz

virou jardim

pousou flor

pele
era para ser delicadeza

mas não tinha tato

virou tatuagem na pele dela

Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr
Corredores, Codinome Locura

Contramão

E tudo passa e eu ainda penso em você

enquanto procuro palavras
você pensa em gesto
e eu penso em afeto
e você em lavas

enquanto, eu incêndio
você me apaga
enquanto tranco portas
você me destrava

eu penso em fartura
de beijo, abraço
você mingua, não atura
o que faço

enquanto eu sou objeto seu
em todo trajeto meu
você vem na contramão,
não é amor,
é só fascinação

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

A inquieta tarde…

e o pouso imaginário era de um homem, só o canto. Cabia na certeza das coisas o afeto rabiscado na parede crua. O muro tinha a tinta apagada e as folhas do pé de algodão caíam no quintal.

A senhora na janela do outro lado da rua resmunga a solidão e o roubo das frutas. Nunca sabe se planta para si mesma ou para as aves, que as roubam antes mesmo de provar. Escrevi mais cartas para os envelopes coloridos e joguei fora lembranças mornas de amor.

No baú não coube mais as notícias diárias e nem as receitas das noites de insônia. A ternura pousa na minha frente e tem asas de delicadeza no azul. Sabia do encantamento da ave e quis repetir que não havia dado nome a ela. Nome é essa coisa pelo qual te chamam e você se reconhece dentro dele… mas o que dizer de um pássaro que é estrangeiro no céu que voa?

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Tenho tido visões marinhas no tapete da sala…

Dizem que enlouqueci nos últimos dias. Deve ser abstinência de sua voz ou essa mistura de estações dentro do dia. Vejo o tempo todo asas que voam a esmo nas ondas que crio na mente.

Sinto essa obsessão incessante sobre você e suas lendas acontecendo no meu quintal. Viajo contigo pelas ruas do bairro. O horizonte se veste de cinza dentro do jardim. Por sorte, os correios hoje não funcionam. Escrevo cartas que não enviarei.

A solidão tem esse dia de domingo tatuado na pele. Tem toque onde a sensação de sua pele em minhas digitais arrepia a alma.

Deu vontade de morrer de amor. A gente deveria morrer aos domingos – quando as sombras das amoreiras ficam mais leve – de frente para o quintal em seu instinto de asa. Essa fome de maresia rasga a pele e esse muro que não rompe os diques do rio que deságua na minha rua e conto no calendário os dias que te perdi.

Mariana Gouveia
Ph: Nicoletta Ceccoli

Corredores, Codinome Locura

# diário

# diário

Da minha janela vem um vento…
Um vento que me alegra…me alegra porque traz o canto dos pássaros com ele e sacode a cortina cor de amora.
Chego a pensar que o vento é um menino brincalhão que tropeça nos meus cabelos curtos e fica sem ter onde segurar e por isso sai levantando a saia do meu vestido lilás.
Aliás, quase todos os dias ele vem assim…Adora o ritual tênue da manhã que se agiganta onde o sol espreguiça e ele dependura nos galhos das árvores da vizinhança e canta sua melodia suave de começar do dia.
Ali, amparada pela parede rente a janela, colhendo canto de passarinho que junto com o vento vem todo dia eu abro os braços pra caber você no meu abraço.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Sui generis

Sui generis

De seu próprio gênero e adjetivo
tão imprevisível
e comum
e por isso rara
e por isso cara
e por isso vem de especial
quase estaminal
colo, abraço, um…

Prefere a cor
e envolve amor
sempre quando vem
traz bem…e alegria
alegria é ela e ela tem…

Alegria
alegria ela,
alegria bela


Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

O dialeto das digitais

uso o dialeto das digitais
aquele em que a mão vagueia para tirar tua roupa
e descobrir teus nortes
teus rumos
teus desvios
tua rota
onde trafego insana
e busco o idioma da tua língua

Mariana Gouveia.

Corredores, Codinome Locura

As lembranças ecoam aqui.

Folheio as fotografias como se elas pudessem me fazer voltar no tempo – quase vejo as cenas de novo – e todo ano é essa memória que busco.

Meu pai, ao redor da fogueira, nos falando sobre as simpatias da véspera do dia do santo. O cheiro dos doces, do milho, do fogo e os irmãos menores, na correria como sempre. Será que algum dia eu também corri assim?

Isso era tão comum no 23 de junho. Viver esse dia era tão mais legal do que o próprio dia de São João. Os enfeites, feito durante a tarde, dentro da mesma algazarra fazia com que minha mãe repetisse o mesmo mantra de todo ano: o melhor da festa é esperar por ela.

E assim, acontecia a alegria na dança ao redor da fogueira, nos comes e bebes e na lua que sempre foi testemunha do amor que havia ali.

Viva São João!

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

O que faz brilhar seus olhos?

Diante da pergunta de minha editora busquei na memória o que faz meus olhos brilharem… Não encontrei só uma coisa, um fato. Encontrei várias coisas e momentos.

Quem me conhece ou me acompanha por aqui sabe o quanto o meu quintal me abraça e de como me sinto nele, entre os voos do meu beija-flor e a confiança para o pouso e uma brincadeira com Yoshi.

Como muita gente sabe, ele nasceu aqui, no meu quintal, dentro do xaxim de orquídea, e foi abandonado pela mãe ainda pequenininho. Desde então, há quase 12 anos, eu cuido dele, nos momentos em que ele me permite ser mãe e colo.

Meu olho brilha quando vejo ele dormindo no varal… meu coração conhece a ternura que ele exala e atende a um simples chamado, quando grito seu nome.

Acompanhar seu sono me acalenta a alma e ouvir seus chamados pela manhã, bem antes de abrir a porta me mantém dentro da poesia que faz com que meus dias sejam melhores.

Eu poderia dizer aqui que meus olhos brilham pela delicadeza das flores que nascem aqui, pelo brilho da lua que caminha no meu céu… que o ipê quando amanhece florido embala minha alma, que Yoshi com seu jeito carinhoso me envolve todinha e que Lolla e sua doçura se torna humana com seu olhar pidão. Poderia falar do sol que ilumina com seus raios o meu quintal, deixando seus rastros por aqui…

Também poderia colocar aqui mil fotos dele, de várias formas… mas aí, seriam seus olhos que iriam brilhar, isso, se já não brilha aí!

Mariana Gouveia
Participam dessa Blogagem Coletiva
Obdúlio OrtegaLunna GuedesRoseli Pedroso
Scanerium Livros Artesanais